Por Elenilson Nascimento
Nadja Santana Turenko,
Elenilson – Você é atriz, diretora, professora e roteirista. Por onde você começou a sua carreira e como enveredou para a dramaturgia. Como é o caminho entre uma linguagem e outra?
Nadja Turenkko – Então, comecei a minha carreira como atriz e acabei enveredando para a dramaturgia em função da minha formação em Mímica Corporal Dramática que propõe uma dramaturgia para o ator. Não separo a interpretação da dramaturgia já que neste caso me sinto uma atriz criadora.
Elenilson – Me parece que a dramaturgia ainda é pouco valorizada no Brasil, como é para você esse panorama? O público está começando a ler peças de teatro e/ou ir conferir um espetáculo pela qualidade ou só porque o global tal está nu no palco?
Nadja Turenkko – Depende do lugar e depende do público, acho que já existe nos grandes centros do país apreciadores de textos, de estilos de interpretação e de autores. É claro que a maioria ainda prefere ver o global, nu ou vestido...
Elenilson – Você foi orientadora do curso de Difusão Cultural Mímica Corporal Dramática, oferecido pela SP Escola de Teatro – Centro de Formação das Artes do Palco. Como foi essa experiência?
Nadja Turenkko – Extremamente enriquecedora, a Instituição é séria, aposta nos artistas como formadores de artistas e tem uma perspectiva curricular bem interessante.
Elenilson – Você acha mesmo que grupos estão montando textos nacionais contemporâneos interessantes?
Nadja Turenkko – Em São Paulo onde moro há 4 anos sempre existiu este interesse pela dramaturgia contemporânea. Pertenço a um elenco que montou uma adaptação de Guimarães Rosa e estou montando agora um texto de um autor contemporâneo.
Elenilson – Seu nome já está ligado aos importantes nomes do teatro da Bahia e você tem levado ao teatro temas fortes que contêm conflitos sociais e psicológicos. Um exemplo disso foi seu texto incrível da peça “Todas as Horas do Fim”, monólogo dirigido pela também maravilhosa Rita Assemani e que você deslumbrantemente protagonizou (*que eu ganhei até uma advertência no colégio onde trabalhei como professor por ter levado uma turma de terceiro ano). O que você acha das pessoas que trabalham com educação desconhecerem por completo certas obras e mesmo assim criticarem?
Nadja Turenkko – Acho uma pena que educação, cultura e arte ainda andem separadas, gerando desinformação, preconceito e despreparo por parte dos formadores e dos alunos das escolas, sejam elas públicas ou particulares, universidades ou ensino médio e fundamental.
Elenilson – Como foi o processo de elaboração de “Todas as Horas do Fim”, uma peça que eu chorei horrores?
Nadja Turenkko – Foi extremamente íntimo e ao mesmo tempo sempre temos que recorrer a sentimentos universais, do meu ponto de vista de atriz criadora. A relação com a equipe foi riquíssima: Aninha Franco, Rita Assemany, Aleksei Turenko, Maria Marighella, Elisio Lopes, Zuarte e a parceria com o XVIII um luxo.
Elenilson – Este universo sombrio em que vivem alguns personagens de alguma forma faz parte do seu repertório?
Nadja Turenkko – Acho que todos temos este universo e muitos outros dentro de nós, gostaria que meu repertório fosse cada dia que passa mais amplo para poder falar da nossa humanidade.
Nadja Turenkko – Aprendi a aceitar prêmios como presentes, sempre agradeço e raramente questiono. As “cartas marcadas”, se houverem, dependem de uma comissão julgadora contratada pelo promovedor da premiação e só ele pode decidir da sua idoneidade e justeza. Nós podemos, é claro, por se tratarem de verbas de editais públicos, acompanhar o bom ou mau uso deste recurso como cidadãos. Com relação aos critérios, no dia que eu criar um prêmio aí sim estabelecerei as regras do jogo, até lá... Acho os prêmios uma boa maneira de estabelecer parâmetros e nem todos são obrigados a concordar com eles. Temos sempre o direito de um posicionamento público e o dever de que ele seja lúcido.
Elenilson – O Fabio Lago, também ator, produtor e diretor teatral, disse que "Televisão não é arte. É produto". Você acha muito difícil para um artista de Salvador chegar até a tão sonhada Rede Globo?
Nadja Turenkko – Na última boa novela que acompanhei, Cordel Encantado,vi muitos atores baianos que estavam com ótimas participações. Tenho achado que os atores que desejam chegar até a televisão têm conseguido.
Elenilson – Como foi seu primeiro encontro com Aninha Franco?
Nadja Turenkko – Quando tinha 17 anos, formei um grupo com amigos da escola e desejei montar um texto dela. Fui ao seu encontro e ela foi, como sempre, extremamente generosa. Montamos o texto e ela foi na estréia.
Elenilson – As pessoas acham que atualmente na Bahia só existem o Lázaro Ramos e o Wagner Moura fazendo teatro e cinema. Como você encara essa segregação dentro do meio artístico? Será que só vamos ficar com o Lázaro, o Capitão Nascimento e com o Vladimir Brichta?
Nadja Turenkko – Você só tem visto eles? Eu tenho visto além deles, muitos outros em teatro e em cinema, o que muito me alegra.
Elenilson – Fernanda Montenegro disse que na carreira de ator 10% é talento e 90% é aptidão, ou seja, é batalha, é estudo, é perseverança, Se você almeja o sucesso e luta pelo seu ideal, com certeza chegará lá. Mas a Globo não é o foco final para muita gente. Jackson Costa, por exemplo. O foco e muitos é o cinema. Cinema sim, é arte. A televisão lhe dá uma exposição muito rápida. A TV usa o ator para vender os produtos dela e o ator usa a televisão para se promover. Por que poucos nomes da Bahia conseguem furar essa barreira?
Nadja Turenkko – É como acabei de comentar, acho que muitos atores da Bahia têm tido oportunidades em televisão, teatro e cinema, o que é muito bom.
Nadja Turenkko – Todas essas ações dependerão sempre do fator cidadania. A educação e o nível cultural devem ser incrementados pelo poder público e pela sociedade civil ao mesmo tempo, cada um em sua esfera de competência. Todos têm que se comprometer com a construção de um país mais democrático, com ações de inclusão social, cultural, espiritual. Não acho que tenhamos em Salvador apenas o projeto do TCA, e ele não é pouco, é mais uma possibilidade que deve ser cada vez mais imitada e incrementada. Temos o trabalho de longo fôlego do Theatro XVIII com ações de formação, apresentações a preço justo e acessível; existem outros teatros, ONGs, iniciativas empresariais com a cultura e as iniciativas de cada um em seus meios de trabalho.
Elenilson – Você enfrenta ou já enfrentou grandes obstáculos para promover seus espetáculos?
Nadja Turenkko – Enfrento os obstáculos relacionados com o fato de que o teatro como produção cultural é artesanato, ou seja, tem uma reprodução lenta e não interessa economicamente a quase ninguém. O teatro tem que interessar institucionalmente, ou seja, como uma ação que promove a elevação humana, que reitera nossa humanidade, que nos faz reconhecermos quem somos, onde estamos e qual a nossa missão. Este tipo de obra não se reproduz em escala de mercado; é preciso que a sociedade como um todo tenha esta necessidade desenvolvida em âmbito filosófico, político, estético. Neste sentido caminhamos ainda no Brasil e nos estados mais pobres da federação de maneira muito lenta, daí as dificuldades de dialogar em termos de mercado.
Elenilson – O governo lhe incentiva?
Nadja Turenkko – Acho que já respondi isto na pergunta anterior: o governo somos nós, os nossos representantes. A democracia tem esta responsabilidade implícita! Nem sempre sabemos o que queremos e por isso não temos como lutar pelos meios de obter o que precisamos para tanto. Temos uma relação alienada com o que é público e não interagimos o suficiente para mudar o que está errado nesta correlação Estado/cidadão. Quem faz isso quase sempre encontra meios de produzir o que sonha, de um modo ou de outro, e isto pode significar brigar com o governo e também trazer a nossa contribuição como cidadãos.
Elenilson – Você acha que falta às autoridades abrirem os olhos e ver o quanto é importante a cultura para a cidade?
Nadja Turenkko – Acho que é uma questão de amadurecimento do jogo democrático, de como as forças sociais e políticas se configuram e de como entramos nesta roda viva, é sempre uma jornada que nos ocupa todos os dias desde que acordamos pela manhã: a construção desta inclusão cultural, a produção de pensamento filosófico, o debate criativo e plural.
Nadja Turenkko – Elas seriam medidas provisórias para sensibilizar o empresariado a investir em cultura e se tornaram eternas, cheias de distorções, etc. No atual contexto sem elas ainda não conseguimos andar e com elas andamos com dificuldades. O importante é que o debate se amplie e que possamos encontrar novas formas de patrocínios, de circulação ao mesmo tempo em que construímos filosoficamente a percepção de que sem arte, cultura e educação perdemos a nossa humanidade. É muito trabalho para esta geração, vamos para frente!
Elenilson – Uma vez, eu falei para o Fernando Guerreiro que ele não pode reclamar da falta de renovação no teatro baiano se ele mesmo não abre espaço para gente nova. Você também acha que falta cabeças interessantes na nova geração de dramaturgia da Bahia?
Nadja Turenkko – Eu discordo de você já que acho que se Fernando não renova, quem é que o faz?? Ele sempre tem novos elencos, novos atores, dá oficina, circula por aí...
Elenilson – O fazer teatral. O ensaio. Realmente é o ensaio o grande momento do ator e diretor? É o momento da criação? Quando chega o público, fica chato...? O que mais lhe agrada no “fazer teatral”?
Nadja Turenkko – Hoje penso que ensaio e apresentação não existem um sem o outro, o público é a rezão d eser do artista, qualquer que seja a linguagem.
Elenilson – Instigado pela violência urbana no Brasil e no mundo o ator Pedro Cardoso escreveu e estreou, em 1998, uma peça chamada “Os Ignorantes”. O espetáculo voltou em 2009 aos palcos, no Rio de Janeiro, onde ficou em cartaz. Nessa peça o ator criticou diretores que, segundo ele, querem ser o show: "Odeio diretor. O show é do ator". O que você acha dessas atitudes?
Nadja Turenkko – Entendo o teatro como definição como a arte do ator, daí a banir o diretor de cena...depende de cada um. Gosto de atuar e dirigir.
Elenilson – Acho que o teatro é um lugar da alegria. No entanto, o teatro, não o tema do qual o teatro atual está tratando. Vejo, com uma certa melancolia, que na Bahia, as pessoas valorizam muito qual o ator está estrelando tal peça. Tem que ser com o cara da “Malhação” para a peça estrear no TCA e com o ingresso nas alturas. Comenta.
Nadja Turenkko – Discordo de você, acho que a Bahia preserva o teatro como um caminho de contatos e criações que sustentam os atores daqui que quase não acessam cinema ou televisão, a não ser quando saem da Bahia.. Respeito muito o teatro baiano.
Nadja Turenkko – Não suporto rótulos...
Elenilson – Você acha que um ator muito bonito pode ser prejudicado com relação ao tipo de trabalho que venha pegar, visto que o que se ver hoje na TV é um banto de parasitas modelos, cantores e filhos lindos e artistas sem talento algum?
Nadja Turenkko – Acho que com talento e trabalho árduo superamos quase todos os preconceitos.
Elenilson – Como é você lidar com esses dois lados: sucesso e deserto?
Nadja Turenkko – É a vida, em todas as carreiras acontece o sucesso e o deserto, não é “privilégio” de artista não.
Elenilson – Em que lugar você se coloca nesse debate em torno dessa política cultural incompetente implantada por Marcio Meirelles?
Nadja Turenkko – Acho que a política cultural do PT, o Plano Nacional de Cultura que acompanhei de perto através das discussões da época era excelente: democrática, inclusiva e descentralizadora. O que cada governante faz do seu mandato não pode ser confundido, na minha opinião, com a política cultural de governo. Muitas conquistas inclusive já deviam ter sido transformadas em leis federais para deixar de serem joguetes de mandatos políticos.
Elenilson – Definir-se como artista não soa pretensioso ou pejorativo no Brasil?
Nadja Turenkko – Me defino como artista sem nenhuma pretensão, com toda serenidade, no Brasil e fora dele.
Elenilson – Deixa um recado para aqueles que querem se jogar no teatro também.
Nadja Turenkko – Se joguem, se assim o desejarem muitíssimo! E não se esqueçam de que a arte é a mais revolucionária maneira de mudar o mundo!
Cartaz raro da peça “Abismo de Rosas”, com direção de Fernando Guerreiro, com Nadja Turenkko, Clécia Queiroz e Wagner Moura.
Em o “Abismo de Rosas”, ao lado de Wagner Moura, e também em “Todas as Horas do Fim”, com direção de Rita Assemany.
“Quando a Cotovia Voa...Uma Fábula Libertária”, com direção Nadja Turenkko e realização Maria Marighella (*neta de Carlos Marighella).
Em “As Coisas Boas da Vida”, com direção de Ana Kfouri e texto de Aninha Franco. Nessa foto rara com Márcio Mello, Rita Assemany e Aninha Franco no Theatro XVIII, Salvador - Bahia.
Linda, compenetrada e mediando um debate na Escola de Teatro - SP.
fotos: NT/reprodução





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