“O cantor baiano foi punido por cantar a música ‘Nega do Cabelo Duro’ em Camaçari.”
Por Elenilson Nascimento

A demência anda solta na Bahia e Aristóteles, que não é nome de cantor de pagode e sim aquele da Antiga Grécia, dizia que “existe a boa e a má música”. Segundo ele, nos concursos de música e poesia só poderiam ser jurados os melhores músicos e artistas. Não poderiam participar do júri: políticos, empresários e afins, pois essas pessoas estariam menos preparadas para saber o que era bom e o que realmente era ruim nas artes, além de correr-se o risco de vencer o tal concurso uma música sem qualidade. E ele estava certíssimo! 2500 anos depois sofremos as consequências disso.
Hoje em dia, cada gênero musical tem seguidores aos milhões, mas também tem de enfrentar exércitos, às vezes reduzidos, mas sempre barulhentos, de detratores. E é com uma imensa vergonha e tristeza que venho novamente aqui escrever sobre esse nível podre musical da Bahia que anda despencando barranco abaixo. Mas a culpa também é dos meios de comunicação que infestam suas programações com um bando de analfabetos bombados com as suas dançarinas de calçolas encravadas dentro de suas bundas que mal sabem falar, quanto mais ler e escrever meia dúzia de frases coerentes, mas que uma hora para outra viram “compositores” – vide a obra-prima trash da cultura: o filme “Cinderela Baiana”. O resultado? Muita baixaria, baixaria que exportamos como o que temos de pior. "Músicas" sem enredo, de duplo sentido, geralmente denegrindo a mulher e rebaixando-a, com forte apelo sexual bastante explícito (*antigamente era camuflado).
A decadência é social. A música é apenas um reflexo disso. Se no passado, Gal, Bethânia, Tom Zé, Novos Baianos, Caetano e Gil eram os principais expoentes da música baiana e tínhamos compositores do naipe de Caymmi. Hoje, a função deles está nas mãos de coisas como Parangolé, Raghatoni, Bronkka e outros grupetes do gênero, além das saltitantes Ivete e Leitte. Mas, com toda essa sandice, é a sociedade quem ainda determina o que é sucesso e o que não é. A decadência é social e não está restrita somente à Bahia. Vide a programação imbecil da MTV.
Na Bahia, o politicamente correto se mistura com o desafio da demência. Depois de polemizar com um projeto que pretende proibir a contratação, com dinheiro público, de bandas cujas letras das músicas depreciem as mulheres, a deputada estadual Luiza Maia (PT), voltou a ser o foco nos holofotes da loucura. A deputada prometeu entrar com uma moção de repúdio contra o cantor Luiz Caldas, pois a parlamentar não teria gostado nem um pouco de uma apresentação do cantor no último final de semana, quando Caldas tocou a música “Fricote” (*a que tem o verso da “nega do cabelo duro”) no “1º Festival de Jazz e Blues”, em Arembepe. O curioso é que o artista foi contratado pelo prefeito de Camaçari, Luiz Caetano, marido e correligionário da própria Luiza Maia.
Baião, xote, xaxado. Lamê, cafona, brega. Axé, lambada e até ca-rim-bó. Jovem Guarda, iê-iê-iê, canção romântica. Samba de morro, samba joia, partido alto, pagode. Música caipira e sertaneja, guarânia e vanerão. Canção de protesto, pop, axé, heavy metal, rock progressivo, emo. House, tecno, electro. Tecnobrega, forró, funk carioca, rap. Todos estes estilos o Luiz Caldas toca ou já tocou. Mas parece que a nobre deputada só viu problema na nega do Luiz. 
Ao invés de ela se preocupar tanto com a neguinha que não gosta de cuidar dos cabelos, deveria mandar prender todos esses grupos de axé e pagode decadente que, em sua maioria, desperta nojo especial junto a consumidores de boa música, intelectuais, críticos, formadores de opinião. Mas muitos desses trazem sempre na cartola o argumento de preferir música dita “fina, refinada, sofisticada”, mas tampouco seus gêneros prediletos se safam de outros tipos- gerando muxoxos, narizes torcidos e intolerâncias.
Supostamente, estamos falando aqui de estética, das distinções entre o que se entende como música “de qualidade” e “sem qualidade”, “boa” e “ruim”, de “bom gosto” e “mau gosto”. A zona fronteiriça entre os dois extremos é frequentemente nebulosa, pantanosa e fugidia, daquelas de atolar em areia movediça. Com comparar a “Mulher de 23”, do Márcio Mello, por exemplo, com os seus versos “Mulher de 23 quer te apavorar. Mulher de 23 a teu amigo quer dar. Mulher de 23 vem pra barbarizar. Mulher de 23 quer a vida gozar”, com uma boca de latrina que canta “Chá de Calcinha” com uma fina poesia: “É o chá, é o chá, chá de calcinha. Oi, vai me deixar louquinho mãe”.
A nobre deputada com a sua mentalidade que não sabe a diferença entre arte e cocô só quer mesmo projeção em matérias transmitidas pelos telejornais locais, desse jornalismo encomendado e de troca de favores, e acabou por construir um conflito entre o seu projeto e as bandas decadentes de pagode, tão populares na Bahia. Atrás das cortinas do “bom gosto” e do “mau gosto”, esconde-se um bichinho do qual em geral preferimos fugir a 120, 150, 200 quilômetros por hora (*já ouviram com cuidado as letras do Robertão, dos anos 70? Só tem putaria!) e que atende pelo nome de preconceito. Colocar todo mundo no mesmo balaio não seria uma forma inteligente de angariar votos, nobre deputada!
Luiza Maia já afirmou nessa mídia que desse ladeira a baixo que esse não é o objetivo do seu projeto, a ribanceira, mas que, segundo explicou, combater a desmoralização e o incentivo à violência contra a mulher, não um estilo ou ritmo musical. Mas onde está o preconceito contra a mulher numa música do Luiz que tem mais de 20 anos?
O Luiz foi penalizado e perderá 30% do valor do cachê por não ter seguido as “ordens” da moral e bons bons costumes. Isso pra mim tem outro nome! A nobre deputada diz que conta com o apoio de “toda a bancada feminina”, composta por dez deputadas. Ou elas são idiotas ou estão se deixando manobrar.
Nas ruas da Bahia, porém, o assunto divide opiniões inclusive entre a mulherada. No caso do Luiz, segundo fontes, o cantor foi orientado pela coordenação de eventos a não executar a música da “nega do cabelo duro”, que segundo o órgão, possui letra de cunho racista e depreciativo às mulheres negras. Eles só esqueceram de sugerir que o cantor trocasse a letra por uma mais politicamente correta. Que tal assim: “Afro descendente das madeixas sem química que não gosta de colocar creme e pente, quando passa num bairro esquecido pelos Poderes Públicos o craqueiro (*pode falar isso?) começa a assediá-la...”
Será que a nobre deputada despreza a carreira do criador do axé porque ele é um péssimo exemplo ou porque ela deseja se manter bem distante dos baianos periféricos, pobres e pretos que adoram sem saberem o porque? É uma questão subjetiva, mas, se fosse só isso, não haveria tantos problemas e antagonismos.
Luiz Caldas é um grande artista e não se limita só ao axé, apesar de eu não gostar do som que ele faz. Alguém já conferiu o Luiz num piano? É magnífico! Mas existe na Bahia uma intolerância burra do bom gosto em relação ao mau gosto e uma certa inveja do mau gosto pelo bom gosto. O cara de bom gosto não tolera o que acha de mau gosto e o de mau gosto, não é que não tolera, é que ele não alcança o bom gosto, porque ainda não teve aceso. Você detesta os emos de shopping porque fazem uma música colorida e patética ou porque não se dá bem com seus figurinos coloridos demais, esquisitões demais, veados demais e sexualmente indefinidos? É ficar entre uma coisa ou outra, indubitavelmente? Ou a repulsa (extra) musical nasce de uma gororoba ou gonorréia mista disso tudo?
A mídia de Salvador são os maiores incentivadores destes “pseudos” artistas analfabetos, impondo a população o péssimo gosto musical, como se essa porcaria camuflada de música fosse cultura. Luiz Caldas se fosse esperto teria utilizado a sua cultura para fazer uma arte mais efetiva e construtora, mesmo que isso fosse apenas para um grupo especifico. Quer tocar para o povão e ser taxado de preconceituoso contra os moralistas de estação, então, paciência!
Qualquer um hoje na Bahia inventa uma letra pobre, podre, sem enredo, beirando ao sexo explícito, coloca o tal ritmo "pagode" e pronto! Está pronta a mais nova porcaria dançante e nojenta hiperbolicamente chamada de "hit" baiano ou "pagode" como queiram chamar. Mas o aspecto não subjetivo dessa “guerra” de mídia se concentra nos termos “educação” e “cultura”.
E se fosse só na Bahia seria contornável a situação, mas a questão é que a generalização nacional é um fato inquestionável. Verdadeiros lixos que insistem em denominar de música fazem o dia-a-dia dessa juventude sem identidade e completamente alienada. Como já dissemos, um energúmeno bate num treco oco, um outro falando abobrinhas repetidas em refrões pobres, um bando de gostosas sem cérebro mostrando as bundas malhadas e uns outros idiotas comprando seus CDs e batendo palminhas.
Tenho amigos jazzistas fanáticos que não admitem nada da música caipira. Mas Rolando Boldrin, Inezita Barroso... aquilo é verdadeiro. Há pessoas fechadas e abertas, aí você não pode fazer nada. Não posso mudar meu amigo que acha a dupla Tonico & Tinoco é desprezível. Tem gente que só vai ao TCA com ingresso de R$ 300,00, então não tem jeito. O culto ao bom gosto é diretamente proporcional à educação e ao nível cultural de cada pessoa. Como esperar desses jovens educação quando a escola não oferece nem o básico? Imoralidade faz parte da cultura baiana?
“Proibiram Luiz. É
proibido proibir? Pediram para Luiz Caldas não tocar a “Nega do cabelo duro”. Acredito que se a ideia é impedir ofensas para os afro descendentes proibindo uma banda ou outra, esse impedimento deve ocorrer para todos, sem distinção. No fundo no fundo, não vejo nada de ofensivo na música do Luiz. Gosto inclusive. Apenas acho que, se formos começar a relativizar música para verificar o que é e o que não é ofensivo, teremos uma discussão interminável que só favorece aos “preguiçosos” que nada fazem pelo povo e para o povo, se aproveitando de uma polêmica que tomará a mídia por uma semana ou mais, mascarando tudo que realmente merecia destaque: atenção e ação. Uma banda que toca ‘Vaza Canhão’ pode querer iniciar um debate (*será?), dizendo que é apenas uma brincadeira como a “Nega do cabelo duro” e que nada tem de ofensivo e blá blá blá. Então, melhor não tocar em eventos oficiais nada que sugira, que chegue perto da possibilidade de parecer ofensa a qualquer raça. Agora, se você foi para o show do cara, pagando, seja o de Luiz Caldas ou qualquer outro artista... ahhh, não reclama né... você tem a obrigação de saber o que está comprando e, dessa forma, chancela o que você está ouvindo. Pensa nisso!” (Daniel Rabello, excelente ator de “Os Cafajestes”)

“Em vez desse povo está se preocupando com as desmoralizações que estão acontecendo com o nome da Bahia em relação a música, eles ficam tentando prejudicar quem fez e faz boa música. Estão perdendo o fio da meada e tentando arrumar algo que precisa mesmo de uma arrumação, mas não sabem por onde começar... Se não sabem por onde começar, eu vou dar uma ideia, comecem pela educação, pela saúde, que com certeza estarão mudando para melhor a consciência desse povo!” (Corisco, vocalista na banda Bando Virado no Mói de Coentro)
Sugiro também aos amigos leitores que assistam ao excelente documentário "Uma Noite em 67", sobre o Festival da Record. Pode ser pelo Youtube mesmo. Vale a pena recordar ou conhecer. Vocês verão o que é música de verdade. Mesmo as vaiadas eram lindas! Lembrem-se: pagode e axé baiano não passam de um lixo auditivo. Mas respeito ao outros é bom e nós gostamos! Só queria saber se a nobre deputada também vai procurar confusão com a Ana Carolina, por exemplo, pois na nova música dela diz: "Estou pensando em viajar no feriado. Mas se eu souber que uma vadia ou um viado dormiu com você. Não quero saber pode ser um novo amor ou ex-namorado. Não quero saber. Você vai desejar não ter acordado".
fotos: reprodução