Por Elenilson Nascimento
A situação é meio constrangedora e adoravelmente curiosa. E é claro que sempre aproveito para me mostrar de uma maneira caricatural. Não tenho um pingo de traquejo, o que me leva a sempre dizer o que penso, e isso é o principal gatilho das maiores situações constrangedoras que esse blog também explora, pois há constrangimentos para todos igualmente: judeus, árabes, negros, gays, gordos, lésbicas, jornalistas estrelinhas, estrelinhas decadentes do axé, etc.
Outro dia ganhei o apelido de “assassino social”, por causa da minha “franqueza” no texto sobre os jornalistas “chupa cu” de Salvador. Lembram? Pois alguns conhecidos não entenderam absolutamente nada do texto e começaram a me procurar para queimar o filme de algum pentelho pior do que eu, para dizer coisas terríveis na lata para pessoas que não teriam coragem de enfrentar. As situações chegam sempre ao limite do suportável e essa é a graça nervosa de alguns textos meus, mas que a Malu Fontes não gosta.
Hoje mesmo o meu amigo poeta e ator Luih Rocha – leia alguns poemas dele aqui – escreveu que “há escritores que não deveriam escrever”, só para me provocar. Questionei e ele veio com essa: “Você sabe que não me refiro a você. Acho que ainda no futuro próximo, se assim eu não me for, faremos muitas coisas juntos... Porque vejo verdade em você. Obviamente não concordo com tudo e também detestaria que você concordasse com tudo que parte de mim. Sendo que a divergência é um ponto crucial para evolução”. Revelador isso não?
Respondi que espero não fazer parte desse grupinho de Pokémons de tintas para dementes lerem, pois a única coisa que eu ainda tenho nessa vidinha miserável é a minha escrita. E o Rocha responde: “Não estou muito bem, acordando pondo sangue pela boca e agora minha pressão está alta, já tomei remédio, mas continuo passando mal. Mas foda-se! O que é a vida senão um caminho à morte. Depois que você ler o que escrevi, verá o porquê das dores de cabeça, escrevo o que vivo e o que vivo existe. Forte abraço e até que a morte nos leve, nos separe... Porque você vai ao céu e eu ao inferno”. Imagina, eu no céu? Mas pelo menos ainda não estou botando sangue pela boca!
Outro dia, por exemplo, lá estava eu, sentado numa mesa da praça de alimentação de um shopping da vida (*concentrado na filosófica tarefa de comer salada com filé de frango) e uma voz, tímida, indaga: “Você me desculpa se eu perturbar um pouquinho?”. Ergo a cabeça e me deparo com aquele cara de meia idade e desconhecido, bandeja do McDonald's numa mão e sacolas de compras na outra, e com um ar notoriamente constrangido. Respondo, sorrindo: “Fique à vontade”.
Ele prontamente se senta junto a mim e vai sapecando: “Olha, desculpa mesmo. Você é escritor, não é? Já te vi na Feira de Livros tal e na Bienal tal várias vezes. Quando percebi que era você que estava aqui, fiquei nervoso, mas disse para mim mesmo: não vou perder a oportunidade de falar com ele. Tem certeza que eu não incomodo?”.
A salada e o frango para mim deixaram de existir totalmente. Tão tenso e constrangido quanto meu interlocutor, afirmo com total alegria: “Você não me incomoda de forma alguma. Muito pelo contrário. É uma satisfação”. E o cara de meia idade me fala que sonha em se tornar escritor, que toda vez que vê ou lê alguma matéria comigo sente que poderia ser ele também. Que ficaria enormemente feliz se eu pudesse ler os escritos dele e emitir uma opinião. Repasso meu e-mail, afirmo que será um prazer ler o que ele escreve. Ele se ergue, animado, exultante. Diz que só de receber esse meu retorno já se sente bem mais confiante. E parte, garantindo que me mandará em breve seus parágrafos. E eu? Encabulado, feliz, fico ali, alma refeita.
Pensando em como sempre valem a pena todas as frustrações, amarguras e lutas que travamos para sermos o que o nosso âmago nos manda ser. Penso em mim, tantas vezes triste e sozinho no meu quarto, vendo meus ídolos da arte de longe. Sonhando em conhecê-los. Hoje, alguns são meus conhecidos (*graças exclusivamente a internet). Mas a salada e o frango tornaram-se, então, iguarias com sabor sem par.



































































