“Fui professor substituto da UFBA e vi o quanto os alunos têm preguiça de pensar, de ler, de estudar. De repente um cotista chega lá e até mesmo pra provar que não é inferior se mata de estudar e se destaca.” (G.V.T.)
Por Elenilson Nascimento
A entrevista exclusiva que vai ao
ar no LITERATURA CLANDESTINA desta semana, dividida em duas partes, põe em evidência um dos melhores dramaturgos da Bahia: o jovem de apenas 33 anos, autor, dramaturgo, talentoso, bem humorado, muito paciente (*pelo menos comigo), Gil Vicente Tavares.
A descoberta da obra de Gil Vicente e do grupo “Teatro NU”, se deu de maneira não muito convencional, através da minha admiração pelo seu pai, Ildásio Tavares, e das muitas conversas com o Gil, via internet, onde acabei descobrindo um cara incrível por trás da carapaça de estrelinha do teatro sisuda. O cara é muito mais do que isso!
Segundo o produtor cultural, radialista e um dos ancoras do programa “Roda Baiana” (Rádio Metrópole FM) André Simões: "Gil tem reflexões amplas, naturais, sem frescuras, com seu DNA crítico e inclusivo.Trata dos temas, amplificando e não reduzindo. Gosto muito dos seus textos, das suas produções e das suas contribuições". Mas num país surrealista como o Brasil, com tantas obras demasiadamente realistas, talvez por conta dessas diversidades, de tantos universos paralelos, de tantas incertezas, onde quase não se produz (por medo) obras absurdas ou peças inspiradas em Beckett, Nelson Rodrigues, Bertolt Brecht ou Arno Holz, na contramão de tudo isso, dessa “realidade” no teatro baiano infestado de textos cômicos, surge o Gil Vicente, que atualmente está mergulhado no seu doutorado tratando da questão "A herança do absurdo, vestígios no drama contemporâneo”.
Esse autor baiano, de apenas 33 anos, se graduou na Escola de Teatro da UFBA em 1999. Sua peça de formatura, o “Quarteto”, rendeu-lhe o prêmio de diretor revelação. Após retornar de um intercâmbio, passou a encenar textos como “Antes da reforma” e “O despertar da primavera”, com grandes atores da Bahia. Colaborou no roteiro do filme “Cidade Baixa”, de Sérgio Machado, e foi coautor da comédia musical “Vixe Maria, Deus e o Diabo na Bahia”.
Em 2006, vai a Roma falar de sua obra e assistir à leitura encenada de “Os Javalis” e “Os Amantes II”. Funda, então, o grupo “Teatro NU”, com Jussilene Santana. Dirigiu também inúmeros eventos como os “30 anos da Rádio Educadora” e os “10 anos do CEDECA”. É também compositor, tendo conquistado o prêmio de melhor canção no “III Festival Educadora FM”.
Alguns de seus poemas foram publicados pelas Edições Sempre-em-Pé, em Portugal, onde o autor soltou os javalis, os leões e picaretas dentro da nossa alcova e mostrou ainda o desconforto das pessoas diante das alegrias do amor, da nossa simpatia e da nossa gente calorosa, mas tudo isso com uma fina ironia.
Essa entrevista aconteceu em dois momentos, via e-mail (*depois insistindo para ele enviar logo as respostas) e ouvindo do entrevistado que as perguntas estavam gigantes. Mas na nossa mesa de debates, numa dessas tardes quentes de Salvador, Gil Vicente completou a entrevista virtual falando das possibilidades do teatro brasileiro e uma vontade incrível de entender porque o teatro baiano não consegue ter a mesma visibilidade que tem a música baiana.

Elenilson – Você escreveu no seu blog que “Salvador tem medo de crescer, tem receio de assumir responsabilidades e enfrentar desafios; e de romper com as estruturas caducas, coronelistas, comiseradas e paternalistas”. É um ato de coragem sua se manifestar dessa forma, visto que a nossa cidade é um antro de bajuladores e baba ovo de estrelinhas do axé. Como você encara essa situação, pois não é muito comum e ainda provoca comentários maldosos e virada de olho entre os pseudo-qualquer-coisa da cultura baiana?
Gil Vicente Tavares – Desde cedo eu sempre tive opiniões próprias, que iam contra a maioria. Acho que há uma preguiça em se pensar diferente. Pessoas são capazes, mas preferem a comodidade de repetir padrões e gostos. Sempre digo que hoje em dia as “tribos” estão uniformizadas, até mesmo quem se diz alternativo, diferente, se repete em padrões dentro de um grupo social. Muita gente encara minhas declarações e críticas como arrogância, vaidade, petulância. Não cabe a mim fazer essa defesa, mas posso afirmar que quando critico é porque quero que as coisas melhorem. E falo para que as pessoas possam olhar as coisas sob uma ótica diferente. Minha opinião não é a única, certa e exemplar, mas pode ser uma via de apreciação das coisas, uma forma alternativa de se pensar a arte e a cidade em Salvador. Com isso, penso que cada vez mais as pessoas me ouvem. Aos poucos, em números reduzidíssimos, mas já consigo uma interlocução saudável que nada tem a ver com baba-ovos nem bajuladores. Esses sempre existirão, assim como aqueles que cultivam um ódio por mim, apenas porque me coloco publicamente e questiono as coisas. Salvador tem uma tendência muito forte a que as críticas sejam em mesas de bar e todos se abracem pela frente. Essa minha honestidade e “coragem”, como você diz, incomoda muito. Mas a coisa tem se revertido em bons diálogos, também. Costumo dizer que sou o pessimista mais otimista que existe. Acho que uma discussão franca e aberta pode possibilitar, cada dia mais, uma visão diversificada de Salvador, sua arte, cultura e sua gente.
Elenilson – A iniciativa de projetos como o “Teatro NU Cinema” é uma resistência no mar de incompetência e mediocridade que vivemos em Salvador. Você já pensou que pode, nesse momento, ser um incentivador de inúmeros artistas na Bahia sem oportunidade de mostrar as suas artes?
Gil Vicente Tavares – Soaria um pouco exagerado, pra mim, ser um incentivador de inúmeros artistas. Mas quando faço arte, quando coloco meu olhar sobre o mundo numa cena, quero provocar, estimular e incentivador artistas, plateia. Quero mexer, deslocar o mundo do eixo, mesmo que em milímetros, mesmo que para três ou quatro. Fazer teatro é complicado em qualquer lugar do mundo. Ainda mais numa província como a nossa, com uma prefeitura acéfala e as deturpações em relação ao profissional das artes que ficam à mercê da insensibilidade dos poderes públicos e privados. Tudo na província fica mais evidente. As coisas são mais aparentes e gritantes. Mas espero que, acima de tudo, projetos como o Teatro NU Cinema provoquem artistas a repensar sua técnica, sua forma se ser um profissional, de apresentar um trabalho, de se esmerar e suar a camisa. A cada peça nova que estreio vejo o quão mais difícil fica pra mim fazer teatro. Seja pela falta de recursos, seja pela minha sensibilidade que vai ficando mais aguçada, minha exigência maior, e com isso vou vendo o quanto tenho que me esforçar pra chegar a um resultado minimamente digno para meu público.

Elenilson – Como você define a atual dramaturgia em Salvador?
Gil Vicente Tavares – Salvador tem uma diversidade de dramaturgos e estilos que traz uma riqueza bem interessante. Ao contrário do que muitos tentam fazer sobre Salvador, uniformizando nossa estética em torno de um aspecto só, a dramaturgia daqui é de uma pluralidade incrível. Temos desde autores mais clássicos até pessoas que trabalham com processos colaborativos, com textos mais contemporâneos, com formas diferenciadas de escrita. Acho que há um descompasso entre criação e produção. Muitos dramaturgos escrevem pra gaveta e muitos encenadores dirigem outros autores. Eu mesmo, só fui encenado pouquíssimas vezes. Neste ponto, louvo a iniciativa de Fernando Guerreiro e Márcio Meirelles, por exemplo. Guerreiro, principalmente, está sempre procurando novos autores, encomendando textos, isso é um estímulo à criação dramatúrgica. Meu “Sade”, que foi premiado, foi uma provocação dele. “Vixe Maria...” me projetou bastante – outra encomenda – e agora ele vai dirigir “Alugo minha língua”, outro texto encomendado a mim. Meirelles foi outro encenador a me convidar a escrever e isso é estimulante. O teatro tem que ser vivo, então é ótimo escrever pra algo que vai acontecer. Agora, existem questões de gostos, qualidades, preferências, muitas filigranas que desestimulam uma real troca entre dramaturgos e encenadores. O projeto “Teatro NU Cinema”, este ano, quis contemplar a dramaturgia baiana, abrindo um edital para montar autores da terra. Tentamos divulgar ao máximo, soubemos que o interior do estado sabia, pois recebemos emails e telefonemas demonstrando interesse e solicitando informações, mas, ao fim e ao cabo, tivemos apenas cinco escritos. Estou reavaliando abrir outra seleção assim, porque parece que meu projeto não interessou a quase ninguém. O que acho estranho, pois os dramaturgos reclamam de oportunidades, e quando elas aparecem eles menosprezam. É complexa, a coisa.
Elenilson – Você já pensou que as classes sociais – posso chamar assim? – criticadas nas suas peças não entendem a sua crítica tão mordaz? Será que as pessoas estão emburrecendo ou tem preguiça de pensar?
Gil Vicente Tavares – Acho que essa conjunção aí em cima é responsável pelo declínio da nossa sociedade. A burrice e a preguiça intelectual correm o risco de devastar o pensamento, a cultura e a arte. Tento lutar contra isso escrevendo, dirigindo, mas sinto a sensação, muitas vezes, de ser meio Quixote.

Elenilson – O que você acha desses dramaturgos que escrevem peças por encomenda para um artista global X ou Y?
Gil Vicente Tavares – Eu os invejo. Adoraria ter uma chance dessas. A arte sempre funcionou por encomenda, só a partir do Romantismo é que começou essa bobagem do artista que cria por angústias pessoais, e esconde seus escritos da sociedade, suas obras são como gritos abafados e lampejos de genialidade que ele não faz questão de partilhar, etc. Pura bobagem. O profissional da arte vive de encomendas, essa palavra não pode ser vista com um olhar negativo. Agora, o que se encomenda, o que o autor se sujeita a escrever, o que o artista global tem coragem de pedir, tem capacidade de executar e tem capacidade de entender, aí são outros quinhentos. O mal não está na relação de encomenda, nem no convite de artistas globais. Está na estética e na ética que se tem por trás do trabalho pedido. E isso pode ser maravilhoso ou péssimo sendo artista global, artista marginal, consagrado ou fracassado.
Elenilson – Sobre a questão das cotas para negros nas universidades, qual a sua opinião a respeito?
Gil Vicente Tavares – No Brasil, tem-se a mania de que todo mundo deve ter opinião sobre tudo. Pra eu falar sobre as cotas, eu teria que me debruçar sobre o assunto. Ver resultados, expectativas. Eu, de início, sou totalmente contra. Existe uma questão histórica de escravidão. Mas eu prefiro olhar todo mundo como gente igual. Acho que o grande desafio é não segregar, não vitimizar, não diferenciar. E as políticas raciais tendem sempre a falar do negro. Quem é o negro? Quem é puramente branco? Sinto-me igual a todos. As oportunidades são em decorrência social. Se, historicamente, os negros são maioria na miséria, não por isso eles são diferentes e merecem ser diferenciados. Mas uma amiga minha fez um mestrado, recentemente, mostrando como os cotistas tiverem um coeficiente de rendimento maior ou igual, não lembro bem, ao dos alunos que passaram pelas vias tradicionais. Aí se pensa; o que poderia ser um traço desestimulante; estimulou. E aí cai por terra todo meu argumento, a cota passa a ser uma forma de inserir na universidade pessoas que não foram bem preparadas, mas que agarram a oportunidade melhor que a maioria que, depois que entra, relaxa e leva o curso nas coxas. Fui professor substituto da UFBA e vi o quanto os alunos têm preguiça de pensar, de ler, de estudar. De repente um cotista chega lá e até mesmo pra provar que não é inferior se mata de estudar e se destaca. Mas ainda acho, assim, que, primeiramente, deveria ser uma cota pra pessoas sem capacidade de uma preparação adequada pro vestibular. Mas, acho que o fundamental é parar com as políticas pontuais, os paliativos, e pensar a médio e longo prazo numa melhora da nossa educação. Há que se sacrificar uma geração pra que as vindouras floresçam, de repente. Então, pensa-se a longo prazo, faz-se uma violenta reforma na educação, nos valores, etc.
Elenilson – Como você encara esse descaso histórico que o governo tem com relação à educação no Brasil?
Gil Vicente Tavares – Cargo político é carreira profissional. São pouquíssimos os que entram na política por ideais. E mesmo os que entram acabam por se preocupar, depois de um tempo, com os conchavos, com a eleição, com votos, com favorecimentos. É uma indústria que é alimentada pela ignorância. Eles ganham tubos de dinheiro pra enganar milhões em ações pontuais e ineficazes. Eu acho que o salário de um deputado deveria ser igual ao de um professor universitário. Cortar os auxílios, que são uma extorsão. Quando alguém passa num concurso federal, a pessoa é obrigada a se mudar, arcar com suas despesas. Porque o político que vira deputado federal tem que morar em sua cidade de origem e ganhar auxílio terno, passagens, auxílio moradia, auxílio qualquer desgraça, aí? Ele se elegeu, vá morar em Brasília, se mude! Sei que é chover no molhado, mas o que precisamos é resgatar a qualidade do ensino fundamental e médio, que havia, antigamente. Ao invés de aumentar salários dos deputados, tinha-se que aumentar sensivelmente o salário do professor. Capacitá-lo. Criar um plano de metas. Reciclagem. Fazer um provão final que fuja do controle do colégio, pois assim se impede que professores ensinem mal e passem de ano alunos que não sabem nada. Isso é um investimento fundamental. Com educação, se melhora a cultura, a saúde, a miséria, a violência. Mas interessa melhorar isso tudo?
Elenilson – Você acredita na possibilidade da criação de uma obra de arte totalmente abstrata que, além de tudo, se constitua como uma linguagem fora dos padrões e da história? A sua carreira como dramaturgo e contestador tenta alcançar, em sua base e em suas buscas, esse abandono de referências?
Gil Vicente Tavares – A arte do século XX foi eminentemente referencial. Trabalhou exaustivamente com citações, colagens, versões, adaptações, recriações. Ao contrário do desespero dos que querem reinventar a roda, acho ótimo que as possibilidades tenham se esgotado, pois agora temos em nossas mãos um leque de possibilidades de criação sem que se possa haver preconceito. Se tudo já foi experimentado, resta a nós filtrar, debulhar, retorcer o que foi feito e aprender com o passado para fazermos da melhor forma possível, aprendendo com erros e acertos. Sempre criamos dentro de um tempo, mas os clássicos sempre falam do homem de forma mais universal e profunda. Anton Tchekhov falava da decadência da Rússia czarista, mas até hoje é montado no mundo todo, e será por muitos séculos, porque ele fala do humano, demasiadamente humano. Sem bandeiras, panfletos, sem defender ideias que mudam como as tendências da moda.
Elenilson – Como uma das poucas “mentes de verdade" na Bahia, com essa coisa já enfadonha de “pegar garotinhos e garotinhas de caras bonitas” e jogar na tela, você ainda acredita que um dia existirá alguma união na classe artística?
Gil Vicente Tavares – São coisas distintas. Sempre haverá o mercado cosmético. O grande erro da gente é brigar num espaço e tempo que não é nosso. Não é criticando “Malhação” que o teatro brasileiro vai melhorar. Nem tampouco não será criticando o sucesso de Ivete Sangalo que a música instrumental da Bahia vai deslanchar. Por sinal, Ivete foi entusiasta de um de seus músicos, Letieres, e este acabou ganhando o Brasil com sua banda “Rumpilezz”. Não tenho paciência pra essa perda de tempo das pessoas, que ficam atacando quem faz sucesso. Isso acaba por ser um exemplo, inclusive, de desunião. E falando em desunião, acho que isso não passa pelas opções das novelas, nem das produções cinematográficas e nem das atrações dominicais da TV. Os que estão fora desse esquema acabam se estapeando, sim, em muitos momentos, pelo pouco que resta. Mas vejo que nem sempre é assim. Posso me usar como exemplo. Transito em vários nichos do teatro de Salvador. Escrevo e dirijo pra artistas de grupos diferentes, e todos os estabelecidos, os profissionais respeitados daqui mantêm comigo uma relação cordial. Sempre nos convidamos, nos prestigiamos, nos criticamos. Mas tudo de forma saudável. Não acho saudável estimular uma energia que geralmente circula entre os fracassados, os invejosos, e sair proclamando a desunião de artistas. Somos, e isso sim é péssimo, desarticulados e despreparados para discutir e enfrentar políticas públicas, bater na porta da iniciativa privada. Há uma lerdeza e uma superficialidade política e ideológica que se reflete nessa “desunião”, que não é nada mais que desarticulação, desmobilização, despolitização.
Elenilson – O diploma de ator ainda pesa na hora de conquistar um espaço no mercado de trabalho no teatro baiano? Por quê?
Gil Vicente Tavares – Afora as áreas técnicas, diploma pesa relativamente na conquista de um espaço no mercado de trabalho. A pessoa passa quatro anos numa faculdade de design gráfico e aparece um sacana de dezoito anos talentosíssimo que rouba a vaga dele e ainda é pago pela empresa pra se especializar no exterior. Essa questão do talento, da aptidão, além de relativa, pois vai muito de gosto e de preferências, interfere radicalmente no teatro, por exemplo. Quantos atores saíram do Curso Livre da UFBA direto pro mercado e se consolidaram? E quantos continuaram na UFBA, fizeram vestibular, e depois de quatro, cinco anos de estudos ganharam diplomas e sumiram do teatro baiano? Há um inchaço de alunos, formandos e formados cada vez maior, num mercado que encolheu, numa realidade que se “amadorizou”. Então, fica mais difícil ainda trabalhar com teatro. Lembro da minha geração. Todos os que mais faziam, mais de destacavam e mais corriam atrás foram absorvidos pelo mercado rapidamente, na época. Eu, por exemplo, havia acabado de me formar e fui convidado a dirigir os 40 anos de teatro de Yumara Rodrigues. Como havia grana, havia produção, pessoas mais velhas convidavam os novos pra dirigir, atuar, escrever, e a juventude aquecia o mercado. Os diretores disputavam os talentos que surgiam em cursos livres e os que se formavam na Escola de Teatro o tempo todo. Hoje em dia, os que estavam estabelecidos e estimulavam estão desestimulados e fora do pouco que restou do mercado teatral. O que acontece muito, hoje em dia, são jovens se juntando pra fazer dequalquer jeito, ganhando pouco ou muito, fazendo bem ou não, experimentando de forma sólida – o que é raro – ou entusiasmados em laboratórios, etc. Teatro sempre foi a arte de se passar o bastão, de se trocar, se aprender com os mais experientes. Muita gente pergunta porque eu sempre trabalho com gente mais velha. Se algum dia eu achar que aprendi razoavelmente com eles, será a hora de eu transmitir meu conhecimento e experiência. Por enquanto, fico, a cada trabalho, aprendendo e crescendo ao trabalhar com gente mais velha. Não sei se é falta de vontade, de oportunidade, de visão ou de conhecimento, mas essa desconexão entre as gerações está enfraquecendo o teatro e, como já disse acima, corroborando a amadorização do nosso trabalho; cada dia dialogando menos com o público, se não for uma comédia rasgada, e afastando a possibilidade de tentarmos reerguer o pouco que conquistamos e se esvaiu.

Elenilson – Eu não acredito em educação de faculdades, gostaria muito de saber qual a sua impressão com relação aos cursos de teatro no nosso país?
Gil Vicente Tavares – Não conheço nenhum, só o que eu fiz. Então, não posso falar sobre o que não conheço; é aquela coisa que falei acima, a gente quer ter opinião sobre tudo, sem experimentar, conhecer, pesquisar e ver de dentro. Fiz uma Escola de Teatro que está deixando de ser. Alguns dos meus professores que eram minhas referências se aposentaram. Seria bom saber dos alunos de agora como as coisas estão. Mas na época que eu fiz, passar por aulas com Ewald Hackler, por exemplo, era uma experiência que sempre me engrandecia. Ter sido assistente de direção de Harildo Déda e depois dirigi-lo na minha peça de formatura me engrandeceu de forma significativa. Ter visto peças dirigidas por Deolindo Checcucci (esse ainda está lá), ver Yumara Rodrigues, Gideon Rosa, Paulo Pereira, tantos atores excelentes em cena... Era um ambiente onde eu estava sempre aprendendo com meus erros e acertos, assim como erros e acertos de professores, alunos, artistas. Hoje em dia, a grade curricular mudou, a abordagem dos professores, obviamente, é outra, então são outras perspectivas. É engano achar que se formar numa escola de teatro como a nossa capacita e legitima uma profissão de artista. O aluno de interpretação que fizer mediocremente seu curso se formará ao final, mas passará em branco como possibilidade de ator. E o aluno tem que saber procurar, correr atrás. Meu pai, quando entrei pra Escola de Teatro, me disse (num exagero didático); faculdade é simplesmente um acesso a uma bibliografia especializada. Está tudo lá. Os mestres que devem ser seguidos, os que devem ser ignorados, os livros que prestam e o professor não gosta, os que um professor recomenda e você odeia, é tudo isso, essa confusão acadêmica que vai enriquecendo e dando material pra que você se torne um profissional razoavelmente rico de experiências e conhecimentos.
Elenilson – Como é o relacionamento entre os seus “colegas” de teatro? Rola muitas brigas por causa de papéis e textos nos palcos? Por que a impressão que eu tenho é que vocês formam grupinhos intransponíveis e que só faltam se matarem por patrocínios e pela atenção de público.
Gil Vicente Tavares – Como falei acima, há, dentro do meio que frequento, uma cordialidade e um respeito muito grande. Talvez pelos bastidores possa rolar fofoca, ofensas, mas ao menos na aparência é sempre uma relação boa. Claro que há discordâncias estéticas, políticas, mas tudo isso, na maioria das vezes, é separado do trato pessoal. Tem um ou outro que infantilmente ficam “de mal” por conta de uma declaração ou crítica, mas são exceções ridículas e risíveis que nem merecem atenção. Quanto a grupinhos, isso pode até haver. Mas há uma diferença entre “grupos” e grupinhos”. Existem diretores que tem predileção por tais atores, e vice e versa. Bem como há preferências por cenógrafos, dramaturgos, alguns funcionam mais pra uma coisa, outros pra outra. Eu tenho um grupo; o Teatro NU. Como forma de criar um repertório, ter uma coerência estética, facilitar viagens, orçamentos e criações, trabalho sempre com um núcleo. Mas sempre que sou convidado pra coisas fora, chamo pessoas diferentes e estou sempre em outros “grupinhos”. Sempre vamos querer a atenção do público, afinal, fazemos (ou deveríamos fazer) teatro pro público. E é uma burrice a gente se matar por patrocínio. Tem que usar esse espírito “assassino” para pressionar governos e iniciativa privada, isso sim.
Elenilson – Qual o seu maior orgulho no teatro?
Gil Vicente Tavares – As manifestações espontâneas de pessoas desconhecidas, que não são da área, sobre algum trabalho meu. Toda vez que alguém que não faço ideia, de uma formação intelectual, cultural e social diferente da minha, entende e se sensibiliza com o que eu faço, sinto estar cumprindo meu papel com minha arte.

Elenilson – Existe muita gente que se aproxima de você só para aparecer “bem na fita” nas páginas da “Muito” e derivados?
Gil Vicente Tavares – Sinceramente, acho que ainda tenho que comer “muito” chão pra chegar a ser o pirata que os papagaios procuram. O tempo todo temos armadilhas sedutoras que nos levam a achar que somos mais do que somos. Mas quando me dou conta da pouca projeção do que faço, de quão poucas pessoas prestigiam meu trabalho, do quanto eu ainda tenho que suar a camisa pra ser minimamente reconhecido e respeitado e, para além de tudo, desejado como artista, não há como eu pensar que sou alguma estrela onde ao redor da minha órbita giram satélites e planetas...
Elenilson – Você daria um apresentador bem melhor do que a "orca assassina e drogada" que apresenta o Vídeoshow. Porque você não apresenta um programa “pensante” numa rádio local, por exemplo?
Gil Vicente Tavares – Bem, acho uma orca assassina e drogada bem mais interessante que eu, é algo bem exótico... Olha, eu tenho muita vontade de atingir as pessoas com o que faço e penso; não à toa virei artista. Sempre procuro meios e estou sempre atento às possibilidades, mas não é simples chegar pra Boninho ou pra Luciano do Vale e dizer; me dê um programa de TV! Já participei de um programa na Rádio Transamérica, fazia as “terças culturais”, mas não foi pra frente. Espero conseguir achar algum espaço onde haja liberdade e eu tenha condições de atingir mais gente. Seja rádio, revista, jornal, TV. Se essa é uma ideia que passou pela sua cabeça, imagine o quanto ela não me cerca, esses anos todos?
Elenilson – O que normalmente você tem ouvido em casa? E com relação às suas leituras?
Gil Vicente Tavares – Eu ouço de Goran Bregovic a Geraldo Azevedo, de Shostakovich a Gilberto Gil, de Keith Jarret a Roberto Mendes. Meu pendrive é um samba do crioulo doido. Às vezes passo de um quarteto de cordas pra uma música de Carnaval. Ouço o que tenho vontade, na hora, e isso varia muito. Já aconteceu de eu sair de um Chopin pra um João Bosco com a mesma desenvoltura que alguém sai da boquinha da garrafa pra ralar o pinto... Quanto à leitura, meu doutorado tem me restringido as opções, pois sempre foco nele. O que é muito prazeroso, pois não consigo fazer nada na vida se não me der prazer. Odeio ensaiar tenso, trabalhar com gente estressada, e odeio sofrer com o que faço. Tento tirar prazer de todos os momentos. Como minha pesquisa é voltada à dramaturgia e ao Absurdo, tenho focado nestes temas, às vezes tergiversando um pouco para autores que possam enriquecer meus conceitos, mas com minha pesquisa sempre em mente.
Elenilson – Quais os seus próximos projetos? Você não pretende ser agente de um escritor (ainda) desconhecido?
Gil Vicente Tavares – Minha projeção como escritor é quase tão grande quanto a de meu cachorro como solista de óperas. Eu precisaria, sim, era de um agente para, algum dia tendo algum prestígio e respeito, pensar em projetar alguém, o que não é muito do meu feitio. A arte me toma integralmente, e trabalho de agente, produtor, essas coisas, necessita de outro foco e dedicação. Meus próximos projetos são a estreia de “Sargento Getúlio”, comemorando os 70 anos de João Ubaldo Ribeiro, em agosto. Um monólogo com Carlos Betão. Devo voltar com o projeto “Teatro NU Cinema” a partir de julho e estou, entre março e junho, apresentando peças curtas que fiz para o TNC no “Domingo no TCA”, sempre abrindo as atrações principais. Além disso, Guerreiro deve estrear “Alugo minha língua” também no segundo semestre, um texto meu, e vou realizar – ainda não sei em que proporções – a segunda edição dos “Diálogos sobre dramaturgia contemporânea”. Tenho que defender minha tese até agosto; esse é um projeto essencial. E estou à cata de possibilidades para montar “Sade”, texto meu premiado pela FAPEX, que há anos tento montar.

Elenilson – Qual foi o seu melhor trabalho?
Gil Vicente Tavares – O próximo.
Elenilson – Com essa carreira de “faz tudo”, você ainda encontra algum tempo para realizar projetos voltados para a democratização do teatro, trabalhando com grupos que, a priori, nunca teriam acesso ao teatro?
Gil Vicente Tavares – Acho que projetos de democratização e acesso são fundamentais. Mas o “Teatro NU” ainda nem consegue andar com as próprias pernas, direito, temos uma estrutura frágil e poucos recursos, na verdade nenhum recurso nem espaço nem patrocínio pra manutenção de ações; passamos num edital que ajudaria minimamente nisso, mas sabe deus quando vai sair a grana. Talvez, se algum dia conseguirmos uma estrutura profissional de grupo, um espaço nosso, uma manutenção boa, com certeza eu me dedicarei a isso, pois acho fundamental despertar as pessoas para a arte, a poesia e a beleza do mundo.
Elenilson – Eu vejo o seu trabalho como um modo de manter viva a história do teatro baiano em um país que o maior meio de informação cultural é a televisão. É isso mesmo?
Gil Vicente Tavares – Qualquer sujeito que, masoquistamente, opta por estar num tablado, mesmo que seja se apresentando pra uma pessoa, estará perpetuando uma arte que jamais morrerá. Contar uma história, ao vivo, pra outra pessoa, é algo que atravessou eras. Então, todos aqueles que fazem teatro estão mantendo a chama acesa. Eu sou mais um. Claro que, quando você fala em história do teatro baiano, percebemos o que fui dizer lá em cima. Há uma desinformação dos novos frente a quem fez nossa história, quem empurrou pra frente esse mamute obeso que é o teatro baiano. Lembro que, na estreia do Auto-retrato aos 40, peça comemorativa do Vila, eu soube que Maria Adélia estava na plateia (infelizmente, muitos lerão isso, inclusive de teatro, sem fazer ideia de quem seja ela, por preguiça mental). Fiz questão que Márcio Meirelles me apresentasse a ela, fiquei numa alegria imensa em poder ver uma referência daquelas. Ter convivido com Wilson Mello, Álvaro Guimarães, Jurema Penna, foi assim que eu comecei a virar gente, respeitando, reconhecendo e, claro, criticando essas pessoas, também. Neste ponto, o trabalho de pesquisa que Jussilene Santana vem desenvolvendo, sobre a história do teatro baiano, é digno de nota e, se vivêssemos numa cidade madura em termos midiáticos e jornalísticos, teria um destaque razoável e editoras correndo atrás de Jussilene feito loucas. Jussilene organizou, junto com o “Teatro NU”, o evento “Memórias do Teatro na Bahia”. Juntou alguns dos primeiros alunos da Escola de Teatro. Houve um momento emocionante, onde aquele bando de cabecinhas brancas (ou tinturadas) começou a cantar a Moritat de Weill/Brecht, da “Ópera dos 3 vinténs”.