quinta-feira, 28 de abril de 2011

FILHA DE VINÍCIUS DE MORAIS É ENCONTRADA MORTA NO RIO DE JANEIRO

“Policiais Militares investigam a possibilidade de suicídio devido às informações passadas pelas empregadas. Segundo os PMs, a vítima apresenta ferimentos provocados por uma faca.”

Por Elenilson Nascimento


Já se pode dizer que uma geração inteira nasceu e cresceu depois da morte do poeta Vinicius de Moraes, em 09/07/80. Uma geração que não teve a oportunidade de encontrar o poeta caminhando pela rua Montenegro, em Ipanema – atual rua Vinicius de Moraes – ou que nunca o viu tomando um uisquinho no bar Veloso – atual bar Garota de Ipanema. Muito menos encontrá-lo andando por uma Salvador que não existe mais.

Agora que se completam 31 anos que Vinicius se foi, muitas homenagens já foram prestadas, mas não deixe de locar ou comprar o ótimo DVD “Vinicius” (2005), uma montagem de um pocket show em homenagem ao poeta por dois atores, os excelentes Camila Morgado e Ricardo Blat, num ponto de partida para reconstituição de sua trajetória. O documentário mostra a vida, a obra, a família, os amigos, os amores de um poeta único, autor centenas de poesias e letras de música, além da essência criativa do artista e filósofo do cotidiano e as transformações do Rio de Janeiro através de raras imagens de arquivo, entrevistas e interpretações de muitos de seus clássicos.


Nesse documentário, podemos também conferir a presença de Luciana de Moraes, filha do poeta, de 55 anos, que, infelizmente, foi encontrada morta na manhã dessa quista-feira, 28/04, no Leblon, na zona sul do Rio de Janeiro. Segundo informações preliminares, ela teria caído do 3º andar do prédio onde mora, na Rua Visconde de Albuquerque. O Corpo de Bombeiros foi acionado às 7h30, mas ao chegar no local encontrou Luciana morta. A Polícia Civil realiza perícia no local.


Luciana era diretora da VM Produções, e trabalhava no licenciamento da marca “Vinicius de Moraes”, e versava que todos os produtos teriam necessariamente que envolver "o universo da paixão, do amor, da poesia, enfim o universo feminino". E nem poderia ser diferente. Mulherengo incorrigível, casado nove vezes (com Tati, Regina, Lila, Lúcia, Nelita, Cristina, Gesse, Marta e Gilda), apaixonado outras tantas, pai de cinco filhos (Susana, Pedro, Luciana, Georgiana e Maria), Vinicius foi verdadeiramente o "homem que amava as mulheres". Quando eu soube desse trabalho que a Luciana estaria fazendo, senti até arrepios imaginando rolos de papel higiênico poético ou um escritório de advocacia fazendo propaganda com o “Soneto da Separação”.


Na mesma época, Luciana trabalhava também numa home page oficial de Vinicius. O contrato estava prestes a ser assinado com a Refazenda, produtora dirigida por Flora Gil, esposa de Gilberto Gil, que também desenvolveu os sites de Caetano Veloso, Gal Costa, Elba Ramalho, Cazuza, Zélia Duncan, Zé Ramalho e, naturalmente, Gil. Com o site oficial, a família esperava acabar com o "mal-entendido" que acabou gerando entre os internautas, quando, baseada na lei dos direitos autorais, impediu que algumas home pages de homenagem a Vinicius se mantivessem no ar, inclusive sites feitos por estudantes, sem fins comerciais. A atitude foi vista como antipática pelos fãs – inclusive por mim, que tive matérias lindas sobre o Vinicius deletadas da net – que procuravam uma forma de divulgar a obra do poeta, mas os herdeiros não voltaram atrás. "Esperamos que a home page oficial sirva de resposta a tudo isso", disse, na época, Luciana.


Agora, Luciana foi encontrada morta, após cair da janela do apartamento onde morava no terceiro andar, com a companheira e o afilhado, no Leblon, Zona Sul do Rio. Policiais Militares investigam a possibilidade de suicídio devido às informações passadas pelas empregadas de Luciana. Segundo os PMs, a vítima apresenta ferimentos provocados por uma faca. Os bombeiros ainda foram chamados para prestar socorro, mas a filha de Vinicius já estava morta.


No vídeo abaixo, num show antológico gravado em 18/10/78 em Milão, na Itália, a dupla Jobim e Vinícius, acompanhada pelo violão de Toquinho e pela voz de Miúcha (*que para os que não sabem, é irmã do Chico Buarque e mãe de Bebel Gilberto). Luciana aparece de camisa amarela na percussão, acompanhando a banda.



Site: http://www.viniciusdemoraes.com.br


foto 1: Ana Branco


foto 2: divulgação


quarta-feira, 27 de abril de 2011

ESPANCAMENTO NO McDONALD`S

“Travesti branca é espancada dentro da loja por duas mulheres negras e a violência foi filmada por funcionário.”
Por Elenilson Nascimento


O excelente diretor Michael Moore – mesmo sendo criticando por meio mundo e chamado constantemente de impostor – foi o único o responsável pela popularização do gênero dos documentários entre o público mais jovem de cinema (*com as produções como “Tiros em Columbine” e “Farenheit 11 de Setembro”), mas o igualmente diretor Morgan Spurlock também deve ser lembrado quando o assunto é criticar o nada saudável modo de vida americano.


E numa sociedade em que mais de 60% da população está acima do peso, Spurlock decidiu apontar sua câmera para aqueles que considera os responsáveis pela epidemia de obesidade: as grandes redes de fast-food dos Estados Unidos. O sedentarismo e a má alimentação não só dos americanos – aqui no Brasil já passamos da fronteira de alerta faz tempo – já são notórios, mas para colocar a sua teoria em prática, Spurlock decidiu se submeter, literalmente, a um regime de engorda. O objetivo era provar que, fazendo todas as refeições do dia em lanchonetes do McDonald's, sua saúde estaria indo pelo ralo.


E durante cerca de 30 dias, o diretor se alimentou do chamado “super size”, combinação que leva um lanche de hambúrguer, mais de um litro de refrigerante e 500g de batatas. Um típico lanche de todo final de tarde dos adolescentes do mundo todo, mas, infelizmente, vivemos num mundo real e a gordura é a nova Aids no século XXI.


APELAÇÃO – O mundo anda tão assustado com a epidemia de obesidade infantil e com mortes relacionadas à má alimentação que resolveu atacar o fantasma com todas as armas. E por mais que o McDonald's pague milhões para aparecer bem na fita, como foi o caso no filme “O Ritual”, com o Anthony Hopkins no elenco. Na cena onde o jovem padre Michael Novak (interpretado pelo desconhecido e sem graça Colin O'Donoghue) está morrendo de vontade de comer um lanchinho no McDonald's, é salvo por ninguém menos que a Alice Braga, a sobrinha da Sônia interpreta uma convincente jornalista. A cena é uma apelação só!


Mas ao contrário do filme apelativo cm cena comprada pelo McDonald's, o documentário de Spurlock recebeu até uma indicação ao Oscar e causou uma grande polêmica ao mexer com a imagem de uma das maiores redes de fast-food americanas. Mas é preciso deixar bem claro aqui que, apesar de todo barulho, o documentário não sedimenta suas acusações e segue, até o fim, fazendo muito barulho e atirando para todos os lados, em vez de conseguir provar o que propõe nos primeiros minutos de projeção: que estamos nos alimentando com veneno!


VIOLÊNCIA – Essa semana, porém, o McDonald's voltou a ser notícia no mundo todo. Mas não por alguma promoção bizarra de comprar lanchinho e ganhar brinquedinho inútil, mas por uma cena de violência dentro de um dos seus estabelecimentos.


Um vídeo de uma transsexual sendo agredida dentro de um McDonald’s na cidade de Baltimore, nos Estados Unidos, está rodando o mundo. As cenas são fortes e mostram várias faces da violência humana. Uma é o ódio irracional aos diferentes, no caso a transexual que só queria ir ao banheiro de uma franquia do McDonald’s. A outra face é a omissão total de quem deveria proteger clientes numa rede que se orgulha de disseminar uma imagem de bom atendimento – e cuja direção geral também se diz chocada com o episódio.


O vídeo foi gravado por um funcionário do próprio McDonald’s, onde podemos ver nitidamente duas garotas espancarem a cliente- transexual Chrissy Polis, de 22 anos. As agressoras puxam a vítima pelos cabelos, chutam, pisam, dão soco, empurram, arrastam-na pelo chão. Chamam a vítima de “dude” (*traduzido para português por “cara” e, no caso, usado de forma pejorativa com o transexual que, diferentemente do homossexual, se considera mulher, se veste como mulher e costuma se submeter a cirurgias). Os funcionários do estabelecimento nada fazem, apenas olham, e no final ainda recomendaram que as agressoras fossem embora antes que a polícia chegar. Se fosse aqui no Brasil, em especial no Iguatemi, acho que seria até capaz de eles jogarem um balde de água.


O gerente “ensaia” um protesto e pede às duas que vão embora. “Stop, stop”, limita-se ele a gritar, em vez de impedir a barbárie e chamar a polícia. As agressoras vão indo embora, mas voltam seguidamente para continuar a selvageria, sem ser bloqueadas pelos empregados. A vítima fica encolhida no chão, tenta se proteger, proteger a cabeça especialmente por medo de morrer.


A vítima foi salva por uma idosa que se meteu no meio da confusão e conseguiu parar as agressões. Quando a transexual começa a sangrar e tremer no chão, os funcionários, com medo da polícia e de acabar, como dizem no vídeo, “com um corpo, um cadáver no chão”, expulsam as agressoras para que elas se livrem da prisão em flagrante. O McDonalds soltou uma nota oficial lamentando o ocorrido e informando que vai investigar o caso. E a franquia onde ocorreu o ataque brutal apenas demitiu o funcionário que filmou todo o ataque em seu celular. Eis a nota divulgada pela rede McDonald’s, uma das maiores interessadas em resolver isso para preservar os valores que costuma passar à sociedade em anúncios e campanhas.


“Estamos chocados com o vídeo de uma de nossas franquias em Baltimore que mostra um ataque a uma cliente. Esse incidente é inaceitável, perturbador e constrangedor. McDonald’s se empenha em ser um ambiente seguro e receptivo a todos que nos visitam. Nada é mais importante para nós do que a segurança de nossos clientes e funcionários nos nossos restaurantes. Estamos em contato com a filial local e as autoridades para investigar o assunto”.


Em seu depoimento, alguns detalhes chamam a atenção, a vítima é muito articulada, confirma que não tentou reagir porque queria apenas proteger sua cabeça. Mas no fim, ela sangrou e ficou tendo convulsões jogada ao chão da lanchonete. No vídeo, ela conta que o ataque começou com uma delas cuspindo no seu rosto quando ia ao banheiro. Diz ter ficado estarrecida ao ser informada de que uma das agressoras tem apenas 14 anos. Veja as cenas lamentáveis que, infelizmente, ainda acontecem em pleno século XXI. Chega de preconceito. Isso tem que mudar. Confira o vídeo:


terça-feira, 26 de abril de 2011

A PAIXÃO DE CRISTO EM SALVADOR

“A peça contou com 50 atores e figurantes no palco, de um coro com 300 vozes e, durante os quatro dias de espetáculo, mais de 20 mil pessoas compareceram em massa.”

O espetáculo “A Paixão de Cristo” foi uma superprodução apresentada em Salvador (BA), na Concha Acústica do Teatro Castro Alves (TCA), durante o feriado da Semana Santa, de 22 a 25 abril. Dirigido por Paulo Dourado, o espetáculo seguiu uma linha tradicional, baseado em interpretações literais dos evangelhos, e contou com um super elenco formado pelo ator baiano Jackson Costa (no papel de Jesus), a excelente Regina Dourado (como Maria, a mãe de Jesus), entre outros. Confira abaixo, cenas do que rolou nos ensaios:

>>> clique aqui e leia a minha matéria sobre o espetáculo e confira as belas fotos feitas pelo ator e poeta Uarlen Becker.


segunda-feira, 25 de abril de 2011

BAIXA DOS SAPATEIROS MORRE POUCO A POUCO

“A Baixa dos Sapateiros já não é mais dos sapateiros há tempos. Aliás, nem dos sapateiros nem de ninguém.”

Por Elenilson Nascimento


A famosa Baixa dos Sapateiros, que já foi cantada até por Caetano: “Na Baixa do Sapateiro eu encontrei um dia/A morena mais frajola da Bahia/Pedi-lhe um beijo, não deu/Um abraço, sorriu/Pedi-lhe a mão, não quis dar, fugiu...”, que já foi um ponto de encontro da cidade e atraiu os mais renomados artistas das décadas de 30 a 60, além das mais modernas películas hollywoodianas, astros musicais e teatrais, onde já teve até o primeiro cinema do Nordeste a adquirir aparelhos para a exibição de filmes sonoros, hoje se encontra em completa decadência.

Hoje o velho Cine Teatro Jandaia (foto acima) está fechado há mais de uma década com suas instalações em ruínas correndo risco de desabamento. O prédio não está localizado na área tombada pela Unesco em 1985 como patrimônio da Humanidade e não tem uma arquitetura relevante, mesmo assim deveria ter uma proposta de revitalização integrado ao projeto de restauração do Centro Histórico, para se transformar num espaço cultural, quem sabe para contar alguma história com muita sonoridade, afinal ele já foi um marco da cultura Nacional. Mas os governos de “merda” que entram e saem do “phoder” não estão nem um pingo interessados em preservar cultura.


Em 2000, a Baixa dos Sapateiros tinha mais de 700 pontos comerciais; hoje, o número caiu para 400. Comerciantes dizem que falta de planejamento diminuiu fluxo de pessoas. Em uma excelente – até que enfim! - matéria assinada pelo jornalista Alexandre Lyrio, do jornal “Correio da Bahia”, em 25/04, depois do meu texto nostálgico sobre uma Salvador que não existe mais, vem à tona denúncias, ou o que é pior, de uma Salvador entregue às baratas, graças à incompetência dos “podres” poderes públicos.

O único shopping da região, o Shopping da Baixa dos Sapateiros, é uma estrutura antiga, com corredores largos, sujos, com pouquíssimas lojas de produtos populares e paredes pintadas de verde e branco, e um convite para qualquer um que queria presenciar a decadência. Outro fator gravíssimo é a presença do mau cheiro e de muitos usuários de drogas na região, o que acaba afastando os possíveis compradores, além do lixo que está espalhado por toda parte. A prefeitura de Salvador, por sua vez, só sabe espalhar placas com propagandas enganosas (foto acima) de que está dando “banho de luz” ou “pintando calçadas”. Mas o povo, ignorante como sempre, prefere acreditar que agora "tem... tem... tem..."

Mas, segundo a matéria do “Correio”, os motivos apontados para o declínio são mais diversos. Um deles é a derrocada dos terminais do Aquidabã e da Barroquinha, que ficam nos dois extremos da rua. “Quem é que vai saltar num lugar como esse, cheio de sacizeiros e mendigos, para andar até a Baixa dos Sapateiros e comprar alguma coisa?”, questionou um dono de “uma portinha” na rua.


Outros apontam a falta de estacionamentos e de paradas de ônibus como a causa da crise. “De ônibus ou de carro, aqui as pessoas só passam. Ninguém consegue parar, como na avenida Sete, por exemplo”, disse um outro dono do supermercado. “O pessoal só entra nas lojas pra duas coisas: se proteger de assalto e da chuva. Tive que parar de vender seu jornal porque os sacizeiros tavam levando pra vender”.


Salvador está mal falada. Aqui, ali e acolá. Perdeu-se turistas para Fortaleza, e o Centro Histórico é motivo de matérias negativas semanais, tanto no Estado quanto no País... Até a revista “Carta Capital” meteu o pau: “Além da segurança e da limpeza urbana, preocupações constantes em Salvador, três temas fazem os tranquilos baianos esquentarem a cabeça ultimamente: a sujeira e desorganização da orla marítima, o abandono do centro histórico e o trânsito”. Estamos esperando o que, mesmo, para resolver as questões da Orla, do Centro Histórico, do Turismo?

>>> clique aqui e confira a matéria completa.


fonte: Correio da Bahia


fotos: divulgação

sexta-feira, 22 de abril de 2011

A PÁSCOA VIROU APENAS A FESTA DOS OVOS?

“De um Jesus voyeurista na Playboy, passando por um Jesus com Michael Jackson morto nos braços, um Jesus negro queimado por traficantes e um texto meu sobre a Páscoa... TODOS QUEREM FALAR SOBRE ELE.”

Por Elenilson Nascimento


Sempre me perguntou o porquê de Jesus ter passado pelo que passou. Uma fuguraça entre os ignorantes e um cara extremamente triste. E nessa época de Páscoa me bate uma tristeza inacreditável, porque nos seus últimos dias, no martírio, ele parece ter sido o mais solitário e o mais injustiçado dos homens. E isso é uma contradição sem tamanho.


E já que polêmicas são uma das coisas que movem o mundo, esse post é mais do que necessário. Escrevi um texto para um jornal de MG, em 2008, que, por causa dele, muitas pessoas deixaram de falar comigo, perdi o emprego fajuto no tal jornaleco e a minha lista de “inimigos mortais” – que se dizem cristãos – aumentou.


“Todo mundo sabe que a Páscoa é uma festa cristã que celebra a ressurreição de Jesus Cristo. Segundo a Bíblia, depois de morrer na cruz, seu corpo foi colocado em um sepulcro, onde ali permaneceu, até sua ressurreição, quando seu espírito e seu corpo foram reunificados. É o dia santo mais importante da religião cristã, quando as pessoas vão às igrejas e participam de cerimônias religiosas. E, só para contrariar, a coisa que o Vaticano soube explorar como ninguém foi a figura de Jesus como garoto propaganda – nem a Coca-Cola pensou nisso, uma joga de marketing genial, escrevi na época. Abaixo o link para quem quiser ler o texto completo.

E quase como a edição da portuguesa da “Playboy” que trouxe em sua capa uma imagem de Jesus em um bordel, junto com uma mulher nua (*segundo os editores, a ideia era homenagear o escritor José Saramago, autor de "O Evangelho Segundo Jesus”, onde a publicação trouxe imagens de lebianismo, onde Jesus aparece com um olhar voyeurista, além do polêmico ensaio, a revista ainda colocou uma entrevista feita com Saramago dias antes de sua morte), esse meu texto também polemizou os mais comodistas.

Uma exposição chamada “American Jesus”, do fotógrafo David LaChapelle, também nasceu polêmica: logo depois da morte de Michael Jackson, em junho de 2009, ele criou uma série de quadros que colocam o “rei do pop” como um santo, em imagens que trazem até Jesus, o demônio e uma santa. Agora, ele reúne essas obras e as exibe no Paul Kasmin Gallery, em Nova York (EUA).

No Rio de Janeiro, um Jesus negro, morador de uma favela carioca, morto queimado por traficantes, tem tudo para entrar também na lista das polêmicas. Uma das histórias mais encenadas no planeta, o auto da vida de Cristo terá versão que promete nesta Páscoa. O espetáculo “Outra Paixão” adapta passagens do Evangelho para os dias atuais tendo a criminalidade do Rio de Janeiro como pano de fundo. Montagem da Companhia de Teatro Provocação, formada por jovens moradores de comunidades carentes do Rio, a peça será apresentada hoje, 22/04, e no Sábado de Aleluia, no Ciep João Batista, na Cidade de Deus.


Na sinopse de “Outra Paixão”, o protagonista Messias é um jovem que tenta evangelizar dois amigos envolvidos com o tráfico de drogas. Mas acaba traído, acusado de estar diminuindo o lucro da venda de drogas, recuperando usuários. Azul, um policial corrupto que fornece os entorpecentes para os bandidos da comunidade, condena Messias à morte. Em vez de pregá-lo na cruz, Azul o mata no “micro-ondas” – quando a vítima é queimada viva presa a pilha de pneus. O idealizador do espetáculo, o diretor Adilson Dias, diz que sua intenção é humanizar a história de Cristo. “Dois mil anos de Jesus Cristo santo não deu jeito na humanidade. Precisamos acreditar em um Jesus mais humano, próximo da nossa realidade”, argumentou.

>>> clique aqui e leia ou releia a minha crônica impagável e, dessa vez, pelo menos reflita.


fonte: O Rebate, 17/03/08

EXCLUSIVO: MADONNA DEIXOU A CABALA PELA OPUS DEI

“A possível ruptura da cantora com a Cabala acontece justamente em um momento de crise para a instituição, cujos líderes estão sendo investigados nos EUA.”


Por Elenilson Nascimento


A Cabala ganhou notoriedade com a adesão de vários famosos à prática. Porém, o que todo mundo quer saber: do que se trata afinal isso que não é doutrina nem religião, mas que vem conquistando cada vez mais adeptos? Segundo explica Shmuel Lemle, professor do Kabbalah Centre do Rio de Janeiro: "É uma sabedoria espiritual universal que nos ensina leis espirituais que regem a vida", explicou.


Para esclarecer melhor, ele citou a lei física da gravidade. "Se eu soltar a caneta que está na minha mão, ela vai cair no chão. Da mesma forma existem as leis espirituais de causa e efeito, ação e reação, de que nada acontece por acaso", exemplificando. Segundo a Cabala – palavra de origem aramaica cujo significado é 'receber' – tudo o que acontece na vida é fruto de algo que se plantou no passado. E isso inclui vidas anteriores.


"A Cabala não pertence a um culto, povo ou religião. Ela ensina a plantar melhores sementes, praticar boas ações, compartilhar, ser tolerante", disse Lemle, esclarecendo que é possível praticar princípios da Cabala em ações corriqueiras. "Se uma pessoa me irrita e eu controlo a vontade de xingá-la, já estou fazendo uma boa ação. É o que chamamos de fazer restrição do comportamento reativo", contou.

A Cabala surgiu no século 200 a.c. como uma doutrina teológica, filosófica e metafísica dos hebreus que era transmitida de geração em geração. E mesmo não sendo nem religião nem uma técnica e/ou sistema de vida que ajuda, por exemplo, a decifrar as mensagens contidas na Bíblia Sagrada, a Cabala virou moda disseminada por artistas como Ashton Kutcher, David Beckham, o cineasta Guy Ritchie, Britney Spears, Daniella Cicarelli, Gwyneth Paltrow, Demi Moore e Madonna. A adesão de famosos despertou a curiosidade de muitos leigos e motivou ainda a criação de um curso de inicialização à Cabala, em São Paulo.


Mas, como tudo que é bom não dura muito, foi noticiado essa semana que justamente Madonna – que mais divulgou a Cabala pelo mundo – estaria deixando a filosofia de origem judaica, para ingressar na Opus Dei, instituição da Igreja Católica, segundo o tabloide britânico "Daily Mirror".


Bastante fechada, considerada quase secreta, a Opus Dei ficou mais conhecida após o livro e o filme "O Código Da Vinci", de Dan Brown. E Madonna que, como todo mundo sabe, foi criada no catolicismo, teria passado a última sexta-feira reunida com padres da organização em Londres. A possível ruptura da cantora com a Cabala acontece justamente em um momento de crise para a instituição que a divulga, chamada Kabbalah Centre, cujos líderes estão sendo investigados nos EUA.


Há duas semanas, foram divulgados problemas administrativos de uma fundação de Madonna que tinha como objetivo ajudar o Malauí, país onde nasceu uma das filhas adotivas da cantora. Dois dirigentes da fundação de Madonna eram também do Kabbalah Centre. "Ela está interessada em explorar diferentes religiões. Madonna sempre teve curiosidade pela Opus Dei. Até agora, ela não é membro, está apenas tendo conversas informais", disse uma fonte ouvida pelo jornal. Vamos aguardar os próximos capítulos!


>>> E falando mais em Madonna, enquanto o disco novo não chega, o meu irmão Alê Sagatto postou no blog dele um disco tributo (*que eu gostei muito!) chamado “True Blue - Tribute by Paper Bag Records”, com umas versões alternativas do álbum “True Blue” de Madonna do ano de 1986. E o melhor de tudo: a postagem foi dedicada pra mim! Pra quem quiser baixar: entre no meu outro blog, clique no link – vai abrir a página do site da banda cover – e cadastre o seu e-mail, em seguida, o próprio sistema manda o link do disco tributo para a sua caixa postal. Vale à pena!


fotos: divulgação

quinta-feira, 21 de abril de 2011

INACREDITÁVEL: ESCRITORA DISTRIBUI “DE GRÁTIS” 4 MIL EXEMPLARES DE SEUS LIVROS QUE SERIAM DESTRUÍDOS PELA PRÓPRIA EDITORA

“Isso mesmo: a editora ia tocar fogo em todos os livros para desocupar o espaço!”

Por Elenilson Nascimento


Enquanto a fórmula dos manuais de auto-ajuda, livros sobre vampiros e anjos, biografias de estrelinhas instantâneas do pop – espécies de pílulas de Prozac em forma de livros – brilham na lista dos mais vendidos, graças exclusivamente ao poder de marketing das editoras para privilegiar certos autores, as grandes obras da literatura prosseguem alimentando a incurável e fundamental questão -"quem sou eu?"- que começou a perseguir o homem antes de Gutenberg ter inventado a máquina impressora, e muito antes ainda da Rede Globo ter decido ao fundo do poço e inaugurando a “era da imbecilidade” com programas como “Malhação”, “Faustão”, “Xuxa”, BigBother” e derivados.


Pode até ser um modo paradoxal que a leitura no nosso país acaba sempre atuando como um fator de qualidade de vida. Quem apanha um livro em busca de uma resposta, em geral, pouco ou nada encontra. Quem lê por prazer, movido por interesse e curiosidade pelo mundo, recebe de volta o poderoso estímulo da "identificação" que provém da arte, e aí, sim, a realidade pode ser, se não transformada, compreendida com maior profundidade.

Mas como no Brasil as coisas são bem complicadas, os escritores têm sofrido com a falta de investimento e de interesse do público. As publicações por demanda, por exemplo, com edições limitadas e impressão de novos exemplares somente com a existência de procura pode até ser uma resposta, mas corresponde a uma necessidade e realidade do presente. Principalmente em um país como o Brasil, com escassa formação e hábito de leitura, com tiragens irrisórias, e péssimo tratamento reservado aos escritores.


Um bom exemplo desse descaso com a nossa cultura aconteceu no ano passado, quando a escritora paulistana Chantal Dalmass recebeu pelo correio uma carta registrada, cujo remetente era a Planeta, editora pela qual publicara, em 2005, dois livros: “Mentiras e Confissões” e “A Cama Redonda de Maria Beatriz” (*este segundo sob o pseudônimo de Maria Beatriz Soares). A tal carta tratava-se de uma notificação em que Chantal era informada que os exemplares restantes das duas obras, “por apresentarem um nível insatisfatório de rotação comercial, serão submetidos à destruição física, para saneamento de estoque”. Isso mesmo: a editora ia tocar fogo em todos os livros para desocupar o espaço!


Ainda que os termos empregados no comunicado não dessem margem a dúvidas, Chantal achou por bem tirar a limpo. Ligou para a divisão de direitos autorais da editora e perguntou à responsável: “‘Destruição física’ é força de expressão ou é para valer?” Mesmo previsível, a resposta foi dura: “Os livros serão incinerados”, ouviu. Em números documentados, eram 2.062 exemplares do primeiro título (portanto, mais da metade da tiragem de 4 mil) e outros 1.654 do segundo programados para virar cinzas.


A autora não se conformou. Especulou – junto à editora destinação mais digna para os livros encalhados – talvez alguma venda promocional por R$ 9,90, um evento de aproximação com potenciais leitores nas escolas e faculdades, qualquer coisa que conseguisse dar visibilidade àqueles títulos legados ao pó das gavetas. Tudo em vão. “A ideia de queimar livro é uma coisa que me agride, me causa repulsa, fico indignada. Não importa se é meu livro ou de outra pessoa”, disse ela na imprensa.

Decidida a reaver os volumes, Chantal fez até uma proposta de compra. A editora decidiu que a autora poderia ficar com todos eles, desde que os retirassem no depósito da empresa até um determinado prazo. Chantal, a princípio, pensou em buscá-los numa Kombi. Mas, como se tratava de 75 caixas, ela se deu conta de que precisaria de um veículo maior. Fechou com uma transportadora, que pôs um caminhão para fazer o carreto – naturalmente, pago pela autora. “Economizei o fósforo para a editora”, ironiza.


Chantal e o motorista só não evitaram a queima de algumas calorias para fazer chegar ao apartamento dela, no nono andar, as 2,8 toneladas de livros. Os quase 4 mil exemplares comprometeram a decoração do apartamento e irritaram os dois territorialistas gatos pretos de Chantal, mas ainda havia outra etapa a se resolver, talvez até mais desafiadora do que a de salvar literatura de fogaréus inquisitórios: como desovar aquele montante de livros?


No começo, a autora optou pelo conceito difundido como “livro livre”: o de “esquecer” exemplares, aleatória e anonimamente, em lugares públicos estratégicos, como nos bancos de uma praça, nos assentos do metrô, nos balcões de bares e padarias. “Mas isso pouco alterava o volume das caixas”, recorda.


Ocorreu-lhe, então, a ideia de distribuir as obras em portas de cinema, num verdadeiro corpo a corpo com seus potenciais novos leitores. No geral, ela diz, a reação é de incredulidade. “Se as pessoas estão andando na rua e você chega e aborda, acham que você quer vender alguma coisa”, explicou, sobre o comportamento viciado dos passantes. Muitos chegaram até a ser até hostis com ela, baseados numa alucinante lógica capitalista. “Já ouvi gente dizendo: ‘Ah, se está dando, é porque os livros devem ser uma droga. Nada que é bom é de graça’”, recorda Chantal, que prefere não abordar pessoas sozinhas, porque a desconfiança tende a ser maior (“só acreditam quando junta um bolinho de gente”).


Chantal Dalmass, que há alguns anos assinava uma coluna sobre sexo na revista masculina “Vip”, faz uma literatura, digamos, “afrodisíaca” – de relatos (biográficos ou não) sobre afeto, fetiches, libido – similar ao que propôs Bruna Surfistinha no bestseller “O Doce Veneno do Escorpião”.


Para Chantal, o encalhe de seus dois livros só aconteceu porque a editora Planeta não trabalhou de forma efetiva a divulgação das obras junto à mídia especializada. Garante não ter sido procurada para uma entrevista sequer, no ano de lançamento dos títulos. Também diz ter observado que os livros de autores desconhecidos só ficam à vista nas prateleiras das livrarias até o segundo mês depois do lançamento, quando passam a constar somente nos terminais de busca. “Publicam os livros de tiragem pequena e esperam um ou dois meses para ver se dão sorte de deslanchar”, teorizou.


“Claro que não vende: como procurar um livro que você não sabe que existe? É como um gato preto no escuro.” Procurada pela reportagem, a editora Planeta optou por se manifestar por e-mail, em que diz ter feito, na época do lançamento, “as ações que entendia serem adequadas às obras, como divulgação via assessoria de imprensa e exposição em pontos de venda” – não confirmando nem negando a prática da destruição de livros encalhados.


Infelizmente, no Brasil, o escritor é um ser estranho na cultura nacional. Vender três mil exemplares é um sucesso absoluto; se houver outra edição é praticamente um “bestseller”. Não adianta imprimir milhares de exemplares, se 90% disso acaba encalhando, tomando tempo e custo. A publicação por demanda é uma garantia viável de que exista o objeto, o livro, sem exageros ou sacrifícios nem por parte do autor quanto do editor. Mesmo assim, sem divulgação, é muito difícil fazer com que possíveis leitores comprem livros de autores sem mídia.


No caso vergonhoso dos livros da Chantal, mesmo que as obras não tivessem entrado na mira dos fornos crematórios, mas permanecido no limbo dos depósitos, o efeito prático, seria o mesmo. “Para um escritor, isso é morte em vida, é estar em coma, vegetando”, comparou a escritora. Ela reconhece que tem sentido muito prazer em ver seus rebentos ganharem uma segunda chance a partir de sua esforçada iniciativa nas ruas, ainda que jamais imaginasse ter de fazer isso quando trocou a toga – é advogada de formação – pela carreira literária.


Dos 3,7 mil exemplares, ela já repassou 3,2 mil até o dia 9 de janeiro desse ano, restando, portanto, cerca de 500. Seu principal ponto de distribuição está na feira da Praça Benedito Calixto, no bairro de Pinheiros, que acontece aos sábados. “É uma alegria ver os livros circulando de novo. Um vai ler, passar para o outro. Depois podem usar de papel de rascunho- – ou até queimar. Mas, por enquanto, ainda estão vivos”, festeja.


Já no meu caso, sou, acima de tudo, um escritor independente, sem mídia, sem leitores em potencial e sem perspectiva. Demorei para assumir isso porque, inocente e besta, considerava que o que faço pela internet não era “literatura”. Adoro blogs, sites, mas sei, agora, que isso tudo é, no máximo, divulgação. Percebo agora a bobagem. Sei que não dependo de uma publicação em papel para me realizar como artista. Agora, o que compõe minha cabeça, meu pensamento e minha escrita vai bem além do papel e da tela do computador. As artes se complementam, se misturam, não tenho medo de experimentar, e tenho a paixão como fermento. Mas se não existirem os leitores, nós, escritores, estaremos fadados ao fracasso.


Percebo que, em meio ao hedonismo, ao narcisismo, ao efêmero de nosso tempo, todos têm pressa de aparecer na mídia e vencer horrores, ou de vencer para aparecer no “Fantástico”. Publicar é realmente complicado. Todos os meus livros vieram a público como prêmios literários ou através de dinheiro recebido também de prêmios literários. Até hoje nenhum fugiu a esta regra, e até hoje nenhum ônus para mim.


Quando alguém me perguntou sobre o futuro do livro, sinalizei para essa questão da internet e desse caso bizarro da Chantal. Conforme disse, não acredito na certeza e na consistência de qualquer visão de mundo, apenas no devir de toda visão no mundo. Enquanto eu estiver nele, será difícil fazer certos tipos de afirmação e previsão. As gerações futuras falarão melhor por nós, pois poderão ver de fora o nosso tempo, o atual terá partido, como um passado que, em nossa carne, em contrapartida, ainda é presente se desenhando.


Mas existem livros realmente bons que encalham nas prateleiras, as vezes até por causa da divulgação fraca (estou falando no geral, claro que existem coisas ruins. Mas existem bestsellers ruins também). Notem, não estou pedindo que doem os livros. Estou dando uma sugestão de repassá-los a preço de custo. Não lucra, mas também não perde.


Outra oportunidade é doar os livros para escolas ou bibliotecas e pedir que esses lugares retirem diretamente da própria editora ou arquem com os custos de envio. Ou simplesmente, devolva para o autor, para que ele resolva o que vai fazer com os livros. Mas queimar ou arrancar capa ou jogar fora nunca seria a saída.


Isso vale também para você. Se tem algum livro que não suporta, não quer mais ou está ocupando espaço, não queime ou jogue no lixo. Doe para escola, biblioteca, troque com alguém ou venda por um preço bem baratinho. Se você não quer, tem alguém que possa querer. Para trocar livros online, existe o Trocando Livros ou você pode negociar a troca diretamente com o dono via Skoob. O que não podemos deixar é que queimem livros, mas se mesmo assim eles querem queimar, usem o livro do Sarney.

>>> clique aqui e leia o blog com o desabafo da escritora Chantal Dalmass.


E aqui e veja mais fotos da escritora dando livros nas ruas.

Contato com a escritora: chantal.dalmass@terra.com.br


* Este post foi baseado na reportagem de Fábio Fujita para a “Carta Capital”.


foto 1: Fábio Fujita


demais fotos: blog da autora/divulgação

segunda-feira, 18 de abril de 2011

ENTREVISTA COM O AUTOR E DRAMATURGO GIL VICENTE TAVARES

“Fui professor substituto da UFBA e vi o quanto os alunos têm preguiça de pensar, de ler, de estudar. De repente um cotista chega lá e até mesmo pra provar que não é inferior se mata de estudar e se destaca.” (G.V.T.)


Por Elenilson Nascimento


A entrevista exclusiva que vai ao ar no LITERATURA CLANDESTINA desta semana, dividida em duas partes, põe em evidência um dos melhores dramaturgos da Bahia: o jovem de apenas 33 anos, autor, dramaturgo, talentoso, bem humorado, muito paciente (*pelo menos comigo), Gil Vicente Tavares.


A descoberta da obra de Gil Vicente e do grupo “Teatro NU”, se deu de maneira não muito convencional, através da minha admiração pelo seu pai, Ildásio Tavares, e das muitas conversas com o Gil, via internet, onde acabei descobrindo um cara incrível por trás da carapaça de estrelinha do teatro sisuda. O cara é muito mais do que isso!


Segundo o produtor cultural, radialista e um dos ancoras do programa “Roda Baiana” (Rádio Metrópole FM) André Simões: "Gil tem reflexões amplas, naturais, sem frescuras, com seu DNA crítico e inclusivo.Trata dos temas, amplificando e não reduzindo. Gosto muito dos seus textos, das suas produções e das suas contribuições". Mas num país surrealista como o Brasil, com tantas obras demasiadamente realistas, talvez por conta dessas diversidades, de tantos universos paralelos, de tantas incertezas, onde quase não se produz (por medo) obras absurdas ou peças inspiradas em Beckett, Nelson Rodrigues, Bertolt Brecht ou Arno Holz, na contramão de tudo isso, dessa “realidade” no teatro baiano infestado de textos cômicos, surge o Gil Vicente, que atualmente está mergulhado no seu doutorado tratando da questão "A herança do absurdo, vestígios no drama contemporâneo”.


Esse autor baiano, de apenas 33 anos, se graduou na Escola de Teatro da UFBA em 1999. Sua peça de formatura, o “Quarteto”, rendeu-lhe o prêmio de diretor revelação. Após retornar de um intercâmbio, passou a encenar textos como “Antes da reforma” e “O despertar da primavera”, com grandes atores da Bahia. Colaborou no roteiro do filme “Cidade Baixa”, de Sérgio Machado, e foi coautor da comédia musical “Vixe Maria, Deus e o Diabo na Bahia”.


Em 2006, vai a Roma falar de sua obra e assistir à leitura encenada de “Os Javalis” e “Os Amantes II”. Funda, então, o grupo “Teatro NU”, com Jussilene Santana. Dirigiu também inúmeros eventos como os “30 anos da Rádio Educadora” e os “10 anos do CEDECA”. É também compositor, tendo conquistado o prêmio de melhor canção no “III Festival Educadora FM”.


Alguns de seus poemas foram publicados pelas Edições Sempre-em-Pé, em Portugal, onde o autor soltou os javalis, os leões e picaretas dentro da nossa alcova e mostrou ainda o desconforto das pessoas diante das alegrias do amor, da nossa simpatia e da nossa gente calorosa, mas tudo isso com uma fina ironia.


Essa entrevista aconteceu em dois momentos, via e-mail (*depois insistindo para ele enviar logo as respostas) e ouvindo do entrevistado que as perguntas estavam gigantes. Mas na nossa mesa de debates, numa dessas tardes quentes de Salvador, Gil Vicente completou a entrevista virtual falando das possibilidades do teatro brasileiro e uma vontade incrível de entender porque o teatro baiano não consegue ter a mesma visibilidade que tem a música baiana.

Elenilson – Você escreveu no seu blog que “Salvador tem medo de crescer, tem receio de assumir responsabilidades e enfrentar desafios; e de romper com as estruturas caducas, coronelistas, comiseradas e paternalistas”. É um ato de coragem sua se manifestar dessa forma, visto que a nossa cidade é um antro de bajuladores e baba ovo de estrelinhas do axé. Como você encara essa situação, pois não é muito comum e ainda provoca comentários maldosos e virada de olho entre os pseudo-qualquer-coisa da cultura baiana?


Gil Vicente Tavares – Desde cedo eu sempre tive opiniões próprias, que iam contra a maioria. Acho que há uma preguiça em se pensar diferente. Pessoas são capazes, mas preferem a comodidade de repetir padrões e gostos. Sempre digo que hoje em dia as “tribos” estão uniformizadas, até mesmo quem se diz alternativo, diferente, se repete em padrões dentro de um grupo social. Muita gente encara minhas declarações e críticas como arrogância, vaidade, petulância. Não cabe a mim fazer essa defesa, mas posso afirmar que quando critico é porque quero que as coisas melhorem. E falo para que as pessoas possam olhar as coisas sob uma ótica diferente. Minha opinião não é a única, certa e exemplar, mas pode ser uma via de apreciação das coisas, uma forma alternativa de se pensar a arte e a cidade em Salvador. Com isso, penso que cada vez mais as pessoas me ouvem. Aos poucos, em números reduzidíssimos, mas já consigo uma interlocução saudável que nada tem a ver com baba-ovos nem bajuladores. Esses sempre existirão, assim como aqueles que cultivam um ódio por mim, apenas porque me coloco publicamente e questiono as coisas. Salvador tem uma tendência muito forte a que as críticas sejam em mesas de bar e todos se abracem pela frente. Essa minha honestidade e “coragem”, como você diz, incomoda muito. Mas a coisa tem se revertido em bons diálogos, também. Costumo dizer que sou o pessimista mais otimista que existe. Acho que uma discussão franca e aberta pode possibilitar, cada dia mais, uma visão diversificada de Salvador, sua arte, cultura e sua gente.


Elenilson – A iniciativa de projetos como o “Teatro NU Cinema” é uma resistência no mar de incompetência e mediocridade que vivemos em Salvador. Você já pensou que pode, nesse momento, ser um incentivador de inúmeros artistas na Bahia sem oportunidade de mostrar as suas artes?


Gil Vicente Tavares – Soaria um pouco exagerado, pra mim, ser um incentivador de inúmeros artistas. Mas quando faço arte, quando coloco meu olhar sobre o mundo numa cena, quero provocar, estimular e incentivador artistas, plateia. Quero mexer, deslocar o mundo do eixo, mesmo que em milímetros, mesmo que para três ou quatro. Fazer teatro é complicado em qualquer lugar do mundo. Ainda mais numa província como a nossa, com uma prefeitura acéfala e as deturpações em relação ao profissional das artes que ficam à mercê da insensibilidade dos poderes públicos e privados. Tudo na província fica mais evidente. As coisas são mais aparentes e gritantes. Mas espero que, acima de tudo, projetos como o Teatro NU Cinema provoquem artistas a repensar sua técnica, sua forma se ser um profissional, de apresentar um trabalho, de se esmerar e suar a camisa. A cada peça nova que estreio vejo o quão mais difícil fica pra mim fazer teatro. Seja pela falta de recursos, seja pela minha sensibilidade que vai ficando mais aguçada, minha exigência maior, e com isso vou vendo o quanto tenho que me esforçar pra chegar a um resultado minimamente digno para meu público.


Elenilson – Como você define a atual dramaturgia em Salvador?


Gil Vicente Tavares – Salvador tem uma diversidade de dramaturgos e estilos que traz uma riqueza bem interessante. Ao contrário do que muitos tentam fazer sobre Salvador, uniformizando nossa estética em torno de um aspecto só, a dramaturgia daqui é de uma pluralidade incrível. Temos desde autores mais clássicos até pessoas que trabalham com processos colaborativos, com textos mais contemporâneos, com formas diferenciadas de escrita. Acho que há um descompasso entre criação e produção. Muitos dramaturgos escrevem pra gaveta e muitos encenadores dirigem outros autores. Eu mesmo, só fui encenado pouquíssimas vezes. Neste ponto, louvo a iniciativa de Fernando Guerreiro e Márcio Meirelles, por exemplo. Guerreiro, principalmente, está sempre procurando novos autores, encomendando textos, isso é um estímulo à criação dramatúrgica. Meu “Sade”, que foi premiado, foi uma provocação dele. “Vixe Maria...” me projetou bastante – outra encomenda – e agora ele vai dirigir “Alugo minha língua”, outro texto encomendado a mim. Meirelles foi outro encenador a me convidar a escrever e isso é estimulante. O teatro tem que ser vivo, então é ótimo escrever pra algo que vai acontecer. Agora, existem questões de gostos, qualidades, preferências, muitas filigranas que desestimulam uma real troca entre dramaturgos e encenadores. O projeto “Teatro NU Cinema”, este ano, quis contemplar a dramaturgia baiana, abrindo um edital para montar autores da terra. Tentamos divulgar ao máximo, soubemos que o interior do estado sabia, pois recebemos emails e telefonemas demonstrando interesse e solicitando informações, mas, ao fim e ao cabo, tivemos apenas cinco escritos. Estou reavaliando abrir outra seleção assim, porque parece que meu projeto não interessou a quase ninguém. O que acho estranho, pois os dramaturgos reclamam de oportunidades, e quando elas aparecem eles menosprezam. É complexa, a coisa.


Elenilson – Você já pensou que as classes sociais – posso chamar assim? – criticadas nas suas peças não entendem a sua crítica tão mordaz? Será que as pessoas estão emburrecendo ou tem preguiça de pensar?


Gil Vicente Tavares – Acho que essa conjunção aí em cima é responsável pelo declínio da nossa sociedade. A burrice e a preguiça intelectual correm o risco de devastar o pensamento, a cultura e a arte. Tento lutar contra isso escrevendo, dirigindo, mas sinto a sensação, muitas vezes, de ser meio Quixote.

Elenilson – O que você acha desses dramaturgos que escrevem peças por encomenda para um artista global X ou Y?

Gil Vicente Tavares – Eu os invejo. Adoraria ter uma chance dessas. A arte sempre funcionou por encomenda, só a partir do Romantismo é que começou essa bobagem do artista que cria por angústias pessoais, e esconde seus escritos da sociedade, suas obras são como gritos abafados e lampejos de genialidade que ele não faz questão de partilhar, etc. Pura bobagem. O profissional da arte vive de encomendas, essa palavra não pode ser vista com um olhar negativo. Agora, o que se encomenda, o que o autor se sujeita a escrever, o que o artista global tem coragem de pedir, tem capacidade de executar e tem capacidade de entender, aí são outros quinhentos. O mal não está na relação de encomenda, nem no convite de artistas globais. Está na estética e na ética que se tem por trás do trabalho pedido. E isso pode ser maravilhoso ou péssimo sendo artista global, artista marginal, consagrado ou fracassado.


Elenilson – Sobre a questão das cotas para negros nas universidades, qual a sua opinião a respeito?


Gil Vicente Tavares – No Brasil, tem-se a mania de que todo mundo deve ter opinião sobre tudo. Pra eu falar sobre as cotas, eu teria que me debruçar sobre o assunto. Ver resultados, expectativas. Eu, de início, sou totalmente contra. Existe uma questão histórica de escravidão. Mas eu prefiro olhar todo mundo como gente igual. Acho que o grande desafio é não segregar, não vitimizar, não diferenciar. E as políticas raciais tendem sempre a falar do negro. Quem é o negro? Quem é puramente branco? Sinto-me igual a todos. As oportunidades são em decorrência social. Se, historicamente, os negros são maioria na miséria, não por isso eles são diferentes e merecem ser diferenciados. Mas uma amiga minha fez um mestrado, recentemente, mostrando como os cotistas tiverem um coeficiente de rendimento maior ou igual, não lembro bem, ao dos alunos que passaram pelas vias tradicionais. Aí se pensa; o que poderia ser um traço desestimulante; estimulou. E aí cai por terra todo meu argumento, a cota passa a ser uma forma de inserir na universidade pessoas que não foram bem preparadas, mas que agarram a oportunidade melhor que a maioria que, depois que entra, relaxa e leva o curso nas coxas. Fui professor substituto da UFBA e vi o quanto os alunos têm preguiça de pensar, de ler, de estudar. De repente um cotista chega lá e até mesmo pra provar que não é inferior se mata de estudar e se destaca. Mas ainda acho, assim, que, primeiramente, deveria ser uma cota pra pessoas sem capacidade de uma preparação adequada pro vestibular. Mas, acho que o fundamental é parar com as políticas pontuais, os paliativos, e pensar a médio e longo prazo numa melhora da nossa educação. Há que se sacrificar uma geração pra que as vindouras floresçam, de repente. Então, pensa-se a longo prazo, faz-se uma violenta reforma na educação, nos valores, etc.


Elenilson – Como você encara esse descaso histórico que o governo tem com relação à educação no Brasil?


Gil Vicente Tavares – Cargo político é carreira profissional. São pouquíssimos os que entram na política por ideais. E mesmo os que entram acabam por se preocupar, depois de um tempo, com os conchavos, com a eleição, com votos, com favorecimentos. É uma indústria que é alimentada pela ignorância. Eles ganham tubos de dinheiro pra enganar milhões em ações pontuais e ineficazes. Eu acho que o salário de um deputado deveria ser igual ao de um professor universitário. Cortar os auxílios, que são uma extorsão. Quando alguém passa num concurso federal, a pessoa é obrigada a se mudar, arcar com suas despesas. Porque o político que vira deputado federal tem que morar em sua cidade de origem e ganhar auxílio terno, passagens, auxílio moradia, auxílio qualquer desgraça, aí? Ele se elegeu, vá morar em Brasília, se mude! Sei que é chover no molhado, mas o que precisamos é resgatar a qualidade do ensino fundamental e médio, que havia, antigamente. Ao invés de aumentar salários dos deputados, tinha-se que aumentar sensivelmente o salário do professor. Capacitá-lo. Criar um plano de metas. Reciclagem. Fazer um provão final que fuja do controle do colégio, pois assim se impede que professores ensinem mal e passem de ano alunos que não sabem nada. Isso é um investimento fundamental. Com educação, se melhora a cultura, a saúde, a miséria, a violência. Mas interessa melhorar isso tudo?


Elenilson – Você acredita na possibilidade da criação de uma obra de arte totalmente abstrata que, além de tudo, se constitua como uma linguagem fora dos padrões e da história? A sua carreira como dramaturgo e contestador tenta alcançar, em sua base e em suas buscas, esse abandono de referências?


Gil Vicente Tavares – A arte do século XX foi eminentemente referencial. Trabalhou exaustivamente com citações, colagens, versões, adaptações, recriações. Ao contrário do desespero dos que querem reinventar a roda, acho ótimo que as possibilidades tenham se esgotado, pois agora temos em nossas mãos um leque de possibilidades de criação sem que se possa haver preconceito. Se tudo já foi experimentado, resta a nós filtrar, debulhar, retorcer o que foi feito e aprender com o passado para fazermos da melhor forma possível, aprendendo com erros e acertos. Sempre criamos dentro de um tempo, mas os clássicos sempre falam do homem de forma mais universal e profunda. Anton Tchekhov falava da decadência da Rússia czarista, mas até hoje é montado no mundo todo, e será por muitos séculos, porque ele fala do humano, demasiadamente humano. Sem bandeiras, panfletos, sem defender ideias que mudam como as tendências da moda.

Elenilson – Como uma das poucas “mentes de verdade" na Bahia, com essa coisa já enfadonha de “pegar garotinhos e garotinhas de caras bonitas” e jogar na tela, você ainda acredita que um dia existirá alguma união na classe artística?


Gil Vicente Tavares – São coisas distintas. Sempre haverá o mercado cosmético. O grande erro da gente é brigar num espaço e tempo que não é nosso. Não é criticando “Malhação” que o teatro brasileiro vai melhorar. Nem tampouco não será criticando o sucesso de Ivete Sangalo que a música instrumental da Bahia vai deslanchar. Por sinal, Ivete foi entusiasta de um de seus músicos, Letieres, e este acabou ganhando o Brasil com sua banda “Rumpilezz”. Não tenho paciência pra essa perda de tempo das pessoas, que ficam atacando quem faz sucesso. Isso acaba por ser um exemplo, inclusive, de desunião. E falando em desunião, acho que isso não passa pelas opções das novelas, nem das produções cinematográficas e nem das atrações dominicais da TV. Os que estão fora desse esquema acabam se estapeando, sim, em muitos momentos, pelo pouco que resta. Mas vejo que nem sempre é assim. Posso me usar como exemplo. Transito em vários nichos do teatro de Salvador. Escrevo e dirijo pra artistas de grupos diferentes, e todos os estabelecidos, os profissionais respeitados daqui mantêm comigo uma relação cordial. Sempre nos convidamos, nos prestigiamos, nos criticamos. Mas tudo de forma saudável. Não acho saudável estimular uma energia que geralmente circula entre os fracassados, os invejosos, e sair proclamando a desunião de artistas. Somos, e isso sim é péssimo, desarticulados e despreparados para discutir e enfrentar políticas públicas, bater na porta da iniciativa privada. Há uma lerdeza e uma superficialidade política e ideológica que se reflete nessa “desunião”, que não é nada mais que desarticulação, desmobilização, despolitização.


Elenilson – O diploma de ator ainda pesa na hora de conquistar um espaço no mercado de trabalho no teatro baiano? Por quê?


Gil Vicente Tavares – Afora as áreas técnicas, diploma pesa relativamente na conquista de um espaço no mercado de trabalho. A pessoa passa quatro anos numa faculdade de design gráfico e aparece um sacana de dezoito anos talentosíssimo que rouba a vaga dele e ainda é pago pela empresa pra se especializar no exterior. Essa questão do talento, da aptidão, além de relativa, pois vai muito de gosto e de preferências, interfere radicalmente no teatro, por exemplo. Quantos atores saíram do Curso Livre da UFBA direto pro mercado e se consolidaram? E quantos continuaram na UFBA, fizeram vestibular, e depois de quatro, cinco anos de estudos ganharam diplomas e sumiram do teatro baiano? Há um inchaço de alunos, formandos e formados cada vez maior, num mercado que encolheu, numa realidade que se “amadorizou”. Então, fica mais difícil ainda trabalhar com teatro. Lembro da minha geração. Todos os que mais faziam, mais de destacavam e mais corriam atrás foram absorvidos pelo mercado rapidamente, na época. Eu, por exemplo, havia acabado de me formar e fui convidado a dirigir os 40 anos de teatro de Yumara Rodrigues. Como havia grana, havia produção, pessoas mais velhas convidavam os novos pra dirigir, atuar, escrever, e a juventude aquecia o mercado. Os diretores disputavam os talentos que surgiam em cursos livres e os que se formavam na Escola de Teatro o tempo todo. Hoje em dia, os que estavam estabelecidos e estimulavam estão desestimulados e fora do pouco que restou do mercado teatral. O que acontece muito, hoje em dia, são jovens se juntando pra fazer dequalquer jeito, ganhando pouco ou muito, fazendo bem ou não, experimentando de forma sólida – o que é raro – ou entusiasmados em laboratórios, etc. Teatro sempre foi a arte de se passar o bastão, de se trocar, se aprender com os mais experientes. Muita gente pergunta porque eu sempre trabalho com gente mais velha. Se algum dia eu achar que aprendi razoavelmente com eles, será a hora de eu transmitir meu conhecimento e experiência. Por enquanto, fico, a cada trabalho, aprendendo e crescendo ao trabalhar com gente mais velha. Não sei se é falta de vontade, de oportunidade, de visão ou de conhecimento, mas essa desconexão entre as gerações está enfraquecendo o teatro e, como já disse acima, corroborando a amadorização do nosso trabalho; cada dia dialogando menos com o público, se não for uma comédia rasgada, e afastando a possibilidade de tentarmos reerguer o pouco que conquistamos e se esvaiu.

Elenilson – Eu não acredito em educação de faculdades, gostaria muito de saber qual a sua impressão com relação aos cursos de teatro no nosso país?


Gil Vicente Tavares – Não conheço nenhum, só o que eu fiz. Então, não posso falar sobre o que não conheço; é aquela coisa que falei acima, a gente quer ter opinião sobre tudo, sem experimentar, conhecer, pesquisar e ver de dentro. Fiz uma Escola de Teatro que está deixando de ser. Alguns dos meus professores que eram minhas referências se aposentaram. Seria bom saber dos alunos de agora como as coisas estão. Mas na época que eu fiz, passar por aulas com Ewald Hackler, por exemplo, era uma experiência que sempre me engrandecia. Ter sido assistente de direção de Harildo Déda e depois dirigi-lo na minha peça de formatura me engrandeceu de forma significativa. Ter visto peças dirigidas por Deolindo Checcucci (esse ainda está lá), ver Yumara Rodrigues, Gideon Rosa, Paulo Pereira, tantos atores excelentes em cena... Era um ambiente onde eu estava sempre aprendendo com meus erros e acertos, assim como erros e acertos de professores, alunos, artistas. Hoje em dia, a grade curricular mudou, a abordagem dos professores, obviamente, é outra, então são outras perspectivas. É engano achar que se formar numa escola de teatro como a nossa capacita e legitima uma profissão de artista. O aluno de interpretação que fizer mediocremente seu curso se formará ao final, mas passará em branco como possibilidade de ator. E o aluno tem que saber procurar, correr atrás. Meu pai, quando entrei pra Escola de Teatro, me disse (num exagero didático); faculdade é simplesmente um acesso a uma bibliografia especializada. Está tudo lá. Os mestres que devem ser seguidos, os que devem ser ignorados, os livros que prestam e o professor não gosta, os que um professor recomenda e você odeia, é tudo isso, essa confusão acadêmica que vai enriquecendo e dando material pra que você se torne um profissional razoavelmente rico de experiências e conhecimentos.

Elenilson – Como é o relacionamento entre os seus “colegas” de teatro? Rola muitas brigas por causa de papéis e textos nos palcos? Por que a impressão que eu tenho é que vocês formam grupinhos intransponíveis e que só faltam se matarem por patrocínios e pela atenção de público.

Gil Vicente Tavares – Como falei acima, há, dentro do meio que frequento, uma cordialidade e um respeito muito grande. Talvez pelos bastidores possa rolar fofoca, ofensas, mas ao menos na aparência é sempre uma relação boa. Claro que há discordâncias estéticas, políticas, mas tudo isso, na maioria das vezes, é separado do trato pessoal. Tem um ou outro que infantilmente ficam “de mal” por conta de uma declaração ou crítica, mas são exceções ridículas e risíveis que nem merecem atenção. Quanto a grupinhos, isso pode até haver. Mas há uma diferença entre “grupos” e grupinhos”. Existem diretores que tem predileção por tais atores, e vice e versa. Bem como há preferências por cenógrafos, dramaturgos, alguns funcionam mais pra uma coisa, outros pra outra. Eu tenho um grupo; o Teatro NU. Como forma de criar um repertório, ter uma coerência estética, facilitar viagens, orçamentos e criações, trabalho sempre com um núcleo. Mas sempre que sou convidado pra coisas fora, chamo pessoas diferentes e estou sempre em outros “grupinhos”. Sempre vamos querer a atenção do público, afinal, fazemos (ou deveríamos fazer) teatro pro público. E é uma burrice a gente se matar por patrocínio. Tem que usar esse espírito “assassino” para pressionar governos e iniciativa privada, isso sim.


Elenilson – Qual o seu maior orgulho no teatro?


Gil Vicente Tavares – As manifestações espontâneas de pessoas desconhecidas, que não são da área, sobre algum trabalho meu. Toda vez que alguém que não faço ideia, de uma formação intelectual, cultural e social diferente da minha, entende e se sensibiliza com o que eu faço, sinto estar cumprindo meu papel com minha arte.


Elenilson – Existe muita gente que se aproxima de você só para aparecer “bem na fita” nas páginas da “Muito” e derivados?


Gil Vicente Tavares – Sinceramente, acho que ainda tenho que comer “muito” chão pra chegar a ser o pirata que os papagaios procuram. O tempo todo temos armadilhas sedutoras que nos levam a achar que somos mais do que somos. Mas quando me dou conta da pouca projeção do que faço, de quão poucas pessoas prestigiam meu trabalho, do quanto eu ainda tenho que suar a camisa pra ser minimamente reconhecido e respeitado e, para além de tudo, desejado como artista, não há como eu pensar que sou alguma estrela onde ao redor da minha órbita giram satélites e planetas...


Elenilson – Você daria um apresentador bem melhor do que a "orca assassina e drogada" que apresenta o Vídeoshow. Porque você não apresenta um programa “pensante” numa rádio local, por exemplo?

Gil Vicente Tavares – Bem, acho uma orca assassina e drogada bem mais interessante que eu, é algo bem exótico... Olha, eu tenho muita vontade de atingir as pessoas com o que faço e penso; não à toa virei artista. Sempre procuro meios e estou sempre atento às possibilidades, mas não é simples chegar pra Boninho ou pra Luciano do Vale e dizer; me dê um programa de TV! Já participei de um programa na Rádio Transamérica, fazia as “terças culturais”, mas não foi pra frente. Espero conseguir achar algum espaço onde haja liberdade e eu tenha condições de atingir mais gente. Seja rádio, revista, jornal, TV. Se essa é uma ideia que passou pela sua cabeça, imagine o quanto ela não me cerca, esses anos todos?


Elenilson – O que normalmente você tem ouvido em casa? E com relação às suas leituras?


Gil Vicente Tavares – Eu ouço de Goran Bregovic a Geraldo Azevedo, de Shostakovich a Gilberto Gil, de Keith Jarret a Roberto Mendes. Meu pendrive é um samba do crioulo doido. Às vezes passo de um quarteto de cordas pra uma música de Carnaval. Ouço o que tenho vontade, na hora, e isso varia muito. Já aconteceu de eu sair de um Chopin pra um João Bosco com a mesma desenvoltura que alguém sai da boquinha da garrafa pra ralar o pinto... Quanto à leitura, meu doutorado tem me restringido as opções, pois sempre foco nele. O que é muito prazeroso, pois não consigo fazer nada na vida se não me der prazer. Odeio ensaiar tenso, trabalhar com gente estressada, e odeio sofrer com o que faço. Tento tirar prazer de todos os momentos. Como minha pesquisa é voltada à dramaturgia e ao Absurdo, tenho focado nestes temas, às vezes tergiversando um pouco para autores que possam enriquecer meus conceitos, mas com minha pesquisa sempre em mente.


Elenilson – Quais os seus próximos projetos? Você não pretende ser agente de um escritor (ainda) desconhecido?


Gil Vicente Tavares – Minha projeção como escritor é quase tão grande quanto a de meu cachorro como solista de óperas. Eu precisaria, sim, era de um agente para, algum dia tendo algum prestígio e respeito, pensar em projetar alguém, o que não é muito do meu feitio. A arte me toma integralmente, e trabalho de agente, produtor, essas coisas, necessita de outro foco e dedicação. Meus próximos projetos são a estreia de “Sargento Getúlio”, comemorando os 70 anos de João Ubaldo Ribeiro, em agosto. Um monólogo com Carlos Betão. Devo voltar com o projeto “Teatro NU Cinema” a partir de julho e estou, entre março e junho, apresentando peças curtas que fiz para o TNC no “Domingo no TCA”, sempre abrindo as atrações principais. Além disso, Guerreiro deve estrear “Alugo minha língua” também no segundo semestre, um texto meu, e vou realizar – ainda não sei em que proporções – a segunda edição dos “Diálogos sobre dramaturgia contemporânea”. Tenho que defender minha tese até agosto; esse é um projeto essencial. E estou à cata de possibilidades para montar “Sade”, texto meu premiado pela FAPEX, que há anos tento montar.


Elenilson – Qual foi o seu melhor trabalho?


Gil Vicente Tavares – O próximo.


Elenilson – Com essa carreira de “faz tudo”, você ainda encontra algum tempo para realizar projetos voltados para a democratização do teatro, trabalhando com grupos que, a priori, nunca teriam acesso ao teatro?


Gil Vicente Tavares – Acho que projetos de democratização e acesso são fundamentais. Mas o “Teatro NU” ainda nem consegue andar com as próprias pernas, direito, temos uma estrutura frágil e poucos recursos, na verdade nenhum recurso nem espaço nem patrocínio pra manutenção de ações; passamos num edital que ajudaria minimamente nisso, mas sabe deus quando vai sair a grana. Talvez, se algum dia conseguirmos uma estrutura profissional de grupo, um espaço nosso, uma manutenção boa, com certeza eu me dedicarei a isso, pois acho fundamental despertar as pessoas para a arte, a poesia e a beleza do mundo.

Elenilson – Eu vejo o seu trabalho como um modo de manter viva a história do teatro baiano em um país que o maior meio de informação cultural é a televisão. É isso mesmo?


Gil Vicente Tavares – Qualquer sujeito que, masoquistamente, opta por estar num tablado, mesmo que seja se apresentando pra uma pessoa, estará perpetuando uma arte que jamais morrerá. Contar uma história, ao vivo, pra outra pessoa, é algo que atravessou eras. Então, todos aqueles que fazem teatro estão mantendo a chama acesa. Eu sou mais um. Claro que, quando você fala em história do teatro baiano, percebemos o que fui dizer lá em cima. Há uma desinformação dos novos frente a quem fez nossa história, quem empurrou pra frente esse mamute obeso que é o teatro baiano. Lembro que, na estreia do Auto-retrato aos 40, peça comemorativa do Vila, eu soube que Maria Adélia estava na plateia (infelizmente, muitos lerão isso, inclusive de teatro, sem fazer ideia de quem seja ela, por preguiça mental). Fiz questão que Márcio Meirelles me apresentasse a ela, fiquei numa alegria imensa em poder ver uma referência daquelas. Ter convivido com Wilson Mello, Álvaro Guimarães, Jurema Penna, foi assim que eu comecei a virar gente, respeitando, reconhecendo e, claro, criticando essas pessoas, também. Neste ponto, o trabalho de pesquisa que Jussilene Santana vem desenvolvendo, sobre a história do teatro baiano, é digno de nota e, se vivêssemos numa cidade madura em termos midiáticos e jornalísticos, teria um destaque razoável e editoras correndo atrás de Jussilene feito loucas. Jussilene organizou, junto com o “Teatro NU”, o evento “Memórias do Teatro na Bahia”. Juntou alguns dos primeiros alunos da Escola de Teatro. Houve um momento emocionante, onde aquele bando de cabecinhas brancas (ou tinturadas) começou a cantar a Moritat de Weill/Brecht, da “Ópera dos 3 vinténs”.

Letizia Russo, Gil Vicente Tavares e Rodolfo di Giammarco.

Os dramaturgos Marcos Barbosa, Gil Vicente Tavares

e Claudio Simões, além do ator Gideon Rosa.

Gil Vicente, Carlos Betão e Marcelo Praddo.

Gil Vicente, Wilson Coelho e o dramaturgo espanhol Fernando Arrabal.Cena da peça “Vixe Maria! Deus e o diabo na Bahia”, de 2004, com direção de Fernando Guerreiro, e texto de Cacilda Póvoas, Cláudio Simões e Gil Vicente Tavares.


* Devido a falta de espaço, essa entrevista continua na segunda parte.

foto 8: Fernando Vivas


demais fotos: GVT/divulgação