quinta-feira, 24 de novembro de 2011

A MISÉRIA CULTURAL BAIANA

“Se a miséria da cultura baiana é cristalina, a miséria da crítica cultural é, também, imensa. Que esmola pode ser dada para se acabar com ela?”

Foto maravilhosa da coleção do Setaro, datada de 1964. No registro, um dos cartões postais mais incríveis da sensacional cidade de Salvador, o Terreiro de Jesus.

Por André Setaro*

Diz-se que a Bahia já teve seu século de Péricles, uma alusão ao período efervescente que se situou nos anos 50 e na primeira metade dos 60, quando Salvador congregava o que havia de mais criativo na expressão artística. Estimuladas pela ação da Universidade Federal da Bahia, comandada, e com mão de ferro, pelo reitor Edgard Santos, as artes desabrocharam com o surgimento do “Seminário de Música”, da Escola de Teatro, do Museu de Arte Moderna, dos inesquecíveis concertos na Reitoria, da porta da Livraria Civilização Brasileira na Rua Chile, dos papos ao por do sol frente à estátua do poeta, no bar e restaurante Cacique, dos debates calorosos da Galeria Canizares (no Politeama), da "boite" Anjo Azul (na rua do Cabeça), entre tantos outros pontos que faziam da Bahia um recanto pleno de engenho e arte.

Na Escola de Teatro, por exemplo, que, inicialmente, foi dirigida por Martim Gonçalves, montava-se, lá, de Bertolt Brecht, passando por Ibsen, Eugene O'Neill, entre tantos, a Strindberg, com um rigor inusitado, e tal era a excelência de seus espetáculos que vinham pessoas do sul do país, e até do exterior, vê-los encenados "in loco". No curso de preparação de ator, o estudante levava alguns anos para poder participar de uma montagem teatral, iniciando a sua trajetória como um mordomo mudo ou de poucas falas. Somente ter o seu nome no programa da peça já era um prêmio, uma alegria, um consolo.


O livro “Impressões Modernas - Teatro e Jornalismo na Bahia”, de Jussilene Santana – (entrevista no LC aqui), analisa a configuração do teatro como temática na imprensa baiana em meados do século XX e, pela primeira vez, faz justiça a Martim Gonçalves, o responsável pela excelência das montagens teatrais, criador da Escola de Teatro (que hoje tem o seu nome), mas muito criticado na sua época e até mesmo denegrido pelos opositores. Após a leitura deste livro imprescindível, a conclusão é única e inequívoca: sem Martim Gonçalves não se teria um teatro baiano do nível a que chegou, ainda que, décadas depois, tenha perdido todo o seu vigor, transformando-se num grande proscênio destinado à proclamação de "besteiróis", honradas as exceções de praxe.


Cinquenta anos depois, meio século passado, a realidade cultural baiana é uma antípoda da efervescência verificada, uma época que foi chamada

, inclusive, de "avant garde" pela sua disposição de inovar, pela marca de vanguarda da mentalidade de seus artistas e intelectuais. Atualmente, a Bahia regrediu muito culturalmente a um estado, poder-se-ia dizer, pré-histórico, e o "homo sapiens" do pretérito se transformou no "pithecantropus erectus" do presente. Aquele estudante do parágrafo anterior, por exemplo, não existe mais.


Na Bahia miserável da contemporaneidade, qualquer um pode pular em cima de um palco, qualquer um se sente apto a dirigir uma peça, "mexer" com cinema, fazer filmes. Com as sempre presentes exceções de praxe, o teatro que se pratica na Bahia é um teatro besteirol, que faria corar aqueles que participaram da antiga escola de Martim Gonçalves.

A Bahia não está apenas mergulhada em bolsões de pobreza, na violência diuturna e desenfreada, com seu povo excluído de tudo - e até mesmo dos cinemas, mas do ponto de vista cultural a miséria é a mesma. Miséria cultural, descalabro, ausência do ato criador, apatia, desinteresse. Eventos existem para a satisfação de pseudo-intelectuais que não possuem as bases referenciais necessárias para a compreensão do que estão a ver ou a ouvir. O momento presente, se comparado aos meados do século passado, assinala uma regressão cultural sem precedentes. Como disse Millor Fernandes, a cultura é regra, mas a arte, exceção, o que se aplica sobremaneira sobre o estado atual da cultura baiana. Cultura se tem em todo lugar, mas arte é difícil, e a arte baiana praticamente não existe.

Coisas do arco da velha: Waldeloir Rêgo (antropólogo), Carlos Coqueijo Costa (advogado, compositor), Agnaldo dos Santos (escultor), Walter da Silveira (advogado, crítico de cinema), Vivaldo da Costa Lima (antropólogo), Mirabeau Sampaio (comerciante, escultor/ pintor), Virgílio de Sá (advogado e jornalista), [Carlito] Vasconcelos Maia (comerciante, escritor, diretor do turismo); anos 50, galeria Oxumaré, Salvador-BA.

Com o desaparecimento dos suplementos culturais e o advento de normas editoriais que privilegiam o texto curto, além da incultura reinante pela assunção do império audiovisual em detrimento da cultura literária (vamos ser sinceros: ninguém hoje lê mais nada), a crítica cultural veio a morrer por falência múltipla das possibilidades de exercício da inteligência numa imprensa cada vez mais burra e superficial.

Sérgio Augusto, crítico a respeitar, que militou nos principais jornais cariocas, em entrevista ao "Digestivo Cultural", site da internet (vale a pena lê-la na íntegra aqui), do alto de sua autoridade no assunto, afirmou que o jornalismo cultural está morto e enterrado, ressaltando que se fosse um jovem iniciante não entraria mais no jornalismo porque não vê, nele, perspectivas para a crítica de cultura (área de sua especialidade).

Dava gosto se ler o “Quarto Caderno” do Correio da Manhã com aqueles artigos copiosos, imensos, que abordando cultura e artes em geral, eram assinados por Paulo Francis, Otto Maria Carpeaux, Álvaro Lins, José Lino Grunewald, Antonio Moniz Viana, entre tantos outros. A rigor, todo bom jornal que se prezasse tinha seu suplemento cultural. Aqui mesmo em Salvador, vale lembrar o do Diário de Notícias e o do Jornal da Bahia (em folhas azuis). Atualmente, resiste o “Suplemento Cultural” de A Tarde (mas, mesmo assim...).
A inexistência da crítica de arte não diz respeito apenas ao soteropolitano. É uma constatação geral no jornalismo brasileiro. Mas, e os cadernos culturais e as ilustradas da vida?

Caracterizam-se pela superficialidade e servem, apenas, como guia de consumo, com suas resenhas ralas. Atualmente, os cadernos dois, assim chamados, são até contraproducentes porque elogiam o que deveriam criticar, colocando na posição de artistas personalidades que deveriam, no máximo, estar no departamento de limpeza de estações rodoviárias.

A crítica de arte serve justamente para isso: para, construtivamente, sem insultos, mas com argumentos sólidos, desmontar aquilo que não presta. Que falta não faz uma crítica de teatro séria, que, semanalmente, venha a apreciar o que se está a apresentar na cidade como literatura dramática! Ou uma crítica de artes plásticas. A interferência de um crítico faria corar muitos pintores que estão expondo na Bahia e posando como artistas. Assim também uma crítica de cinema que fosse menos paternalista com os "coitados' dos cineastas baianos cujas imagens são a de "franciscanos" em busca da expressão cinematográfica, mas cujos resultados, em sua grande maioria, remetem o espectador aos braços de Morpheu, quando não à aporrinhação.

Para se ter um pequeno exemplo: a emissora de tv de maior audiência da Bahia apresenta todos os dias, em seu noticiário, grupos de pagode, de arrocha, entre outros, que passam a impressão de que os soteropolitanos não possuem talentos musicais - o que não é verdade.

Se a miséria da cultura baiana é cristalina, a miséria da crítica cultural é, também, imensa. Que esmola pode ser dada para se acabar com ela?

Hoje, 23/11, 16 horas, na Rua Carlos Gomes, Salvador - BA. Viva João Henrique! Viva a Limburp! Beleza pura!

* André Setaro é escritor, professor e crítico de cinema. Entrevista exclusiva no LC aqui. Contato: setaro@gmail.com
foto 2: Jorge Amado e Zélia Gattai recebem Jean-Paul Sartre e Simone de Beauvoir no inesquecível ano de 1960 na Bahia. Quando esteve em Salvador, o papa do existencialismo fez uma palestra na Escola de Teatro (dirigida por Martim Gonçalves) e, depois, disse que tinha vontade de andar de ônibus pelas ruas da cidade - de preferência em ônibus cheios e em pé. Achou engraçada a maneira de o cobrador dobrar o dinheiro entre os dedos - que não se usa mais na medíocre contemporaneidade.


foto 3: Voltaire Fraga


1 comentários:

Miriam de Sales Oliveira disse...

Meu caro,pude vivenciar tudo isto.Adorei a foto de Mirabeau,meu amigo pessoal e das tardes q/ eu passava bebendo sabedoria na casa do Chame-Chame.
Havia vida cultural ,sim.Estudei no Central,me formei primeiro pela Escola Normal,depois UFBa.Meus antigos professores,hoje,são nomes de rua e vivem nas nossas lembranças.
Tenho pena do que a nossa Bahia se transformou,principalmente,qdo viajo e espio as outros cidades e estados.De Gregório só restou o verso:
Acada canto um grande conselheiro
que nos quer governar cabana e vinha.
Não sabem governar sua cozinha
e,pretendem mandar no povo inteiro.
Viva Você,q/ aina grita! Abç