Por Elenilson Nascimento
A missão era entrevistar uma das melhores (e poucas) cabeças pensantes da Bahia para o LC, coisa que, pensou o tolinho aqui, não ia ser moleza, pois críticos, professores, artistas, jornalistas na Terra de Todos os Santos são criaturas demasiadamente vaidosas, mesquinhas e repugnantes. E pensei que, novamente, iria sentir isso na pele. Todos com quem entrei em contato pediram cachês, detalhes estranhos e exigências absurdas. Uma vez, um certo jornalista da TV Bahia, solicitou que eu fosse entrevistá-lo com algumas toalhas brancas felpudas, uma banheira de hidromassagem Imperator com água termal vinda de Fernando de Noronha, três massagistas suecas nuas, um aparelho de som quadrifônico super dolby high-fi surround system com um CD da Maria Rita tocando.
Tirando todo o meu exagero, o resto foi inconcebível. Frente a esses disparates me restou entrevistar o único crítico verdadeiramente sensato (*e gente fina e barato) que encontrei: o professor de comunicação da Ufba, blogueiro, colunista semanal do Terra Magazine (*essa resenha sobre o filme “Capitães da areia” ficou muito massa!) e crítico de cinema André Setaro.
Em agosto último, Setaro corajosamente surpreendeu os colegas e amigos ao publicar na rede social Facebook um pedido de ajuda financeira. Mesmo sendo professor de uma das instituições de ensino superior mais elitista da Bahia há mais de 30 anos, disse que a sua situação beirava a calamidade: “Estou quase passando fome, assim como minha esposa e minha filha”, escreveu na época e o caso circulou na rede como uma doença venérea.
Além de inteligentíssimo, também é autor do livro “Escritos sobre cinema – Trilogia de um tempo crítico”. Discreto e simpaticíssimo, trocamos umas boas ideias – apesar de eu ter achado algumas respostas muito vagas – acerca do atual (*ou melhor, da falta do...) jornalismo cultural, o qual Setaro vem acompanhando as mudanças e o papel da crítica, além, é claro, de falar sobre cinema, pois há um debate muito forte atualmente sobre a questão da falta de crítica.
Infelizmente, os espaços para a reflexão dentro das redações de jornais e das editorias de cultura estão cada vez menores; ao mesmo tempo em que serviços de cunho duvidosos e agendas particulares de “estrelinhas do axé” ganham cada vez mais destaque. Por isso que, é mais do que necessário, figuras como o André Setaro, uma das personalidades mais importantes e polêmicas do audiovisual baiano, seja muito mais consumido (*antropofagia?) entre, pelo menos, os consumidores de cultura. “O que mais me fascina no cinema contemporâneo, caro repórter, é a inventividade de Alain Resnais com a idade que tem, beirando aos clássicos novent'anos. Seria possível um cinema dito de vanguarda, de invenção, hoje em dia?”, escreveu no seu excelente blog (*um aulão sobre cinema). Garanto, caros leitores clandestinos, que o Setaro é muito melhor do que os Rubens Ewalds Filhos das Putas da vida. Ups, desculpe professor, escapoliu! Mas esse texto aqui sobre o Setaro é bem bacana!

Elenilson – Todo mundo é crítico o tempo todo. A gente já nasce berrando, reclamando desse miserável mundinho fashion dos “lindinhos de merda de festas de camisa”. Do politicamente correto ao governo Dilma que ainda não sabemos pra que veio. No seu blog, mais de uma vez, o senhor se definiu como sendo um não-crítico. Poderia se explicar?
André Setaro – Às vezes se faz necessária uma boutade para provocar. Não-crítico como se quisesse dizer que me ponho à margem da crítica atual. Hoje em dia todo mundo se mete a crítico de cinema, assim como todo mundo pensa ser um técnico de futebol. Para se ser crítico é necessário, antes de mais nada, a criação de um repertório, que leva um tempo considerável. Necessário se ver e investigar os filmes fundamentais da história do cinema. Há, portanto, no processo, prazer e sofrimento. O capitalismo selvagem está a determinar um consumo desenfreado, e o cinema deixou de ser apreciado como uma expressão da arte, mas reduzido a um objeto de consumo. Ir ao cinema nos dias que correm, pelo menos para mim, é um inferno dantesco, porque as pessoas na platéia não sabem se comportam e agem como vândalos, como selvagens, como bestas.
Elenilson – O senhor tem alguma implicância com o cinema nacional atual?
André Setaro – Há um filão, a neo-chanchada, que está a prostituir o cinema brasileiro, com filmes sem nenhuma expressão cinematográfica e que usam a linguagem televisiva, como os produzidos, principalmente, pela Globo Filmes (“De pernas pro ar”, “O homem invisível...”). Por outro lado, existem os filmes feitos para o mercado, que captam recursos e, por isso, ficam limitados na sua expressão, porque os gerentes de marketing das empresas não aprovam roteiros que sejam mais críticos ao stablishmet. E, ainda por cima, com o advento do digital, surgiu o chamado cinema de invenção que não passa, na verdade, de um cinema de invencionice. E alguns ególatras que, autores, pensam empurrar as suas idiossincrasias para cima de pobres coitados que não possuem a coragem de negá-los com medo de serem tachado de ignorantes. O fato é que o cinema nacional precisa criar uma identidade. Procurou-a durante o Cinema Novo, mas, nessa dita retomada, perdeu-a. Há filmes interessantes, claro, mas são minoria (“Febre de rato”, de Cláudio Assis, “Tropa de elite”, de José Padilha, “O palhaço”, de Selton Mello, poucos, muitos poucos).
Elenilson – Acha mesmo que estamos em plena retomada do cinema brasileiro, depois da “cagada” do f.d.p. do Collor?
André Setaro – Há uma lenta retomada do ponto de vista industrial, mas não artístico. O cinema nacional, no entanto, somente existe no eixo Rio-São Paulo. O cinema baiano, por exemplo, a rigor, não existe, porque, para a existência de uma cinematografia, é necesssária uma produção sistemática e continuada. Existem filmes baianos, não um cinema baiano, que fique bem entendido. Os cineastas soteropolitanos não recebem apoio da iniciativa privada e ficam à mercê dos editais governamentais. Antes de Collor, o cinema brasileiro era financiado pelo Estado através da Embrafilme. Com a canetada collorida, pondo por terra esta, anos depois surgiu a Lei de Incentivo Fiscal e a Rouanet, que deixou à iniciativa privada a tarefa de ajudar à produção de filmes por meio da renúncia fiscal.
Elenilson – Eu fico meio com medo de assistir filmes nacionais, apesar de ter adorado algumas produções. Existe uma discrepância tão grande em algumas produções que parece coisa proposital. Tipo: o dispensável “O homem do futuro”, escrito e dirigido por Claúdio Torres, e o maravilhoso “Capitães da areia”, dirigido pela Cecília Amado. Comenta.
André Setaro – Acho que “Capitães de areia”, meu caro Elenilson, não é tão maravilhoso assim, pois incorporado da nefasta estética do vídeo-clip.
Elenilson – Como o senhor vê o panorama do cinema mundial contemporâneo, onde o que conta é o nome de peso de determinado ator nu ou os efeitos especiais?
André Setaro – O cinema entrou num processo de franca decadência no mundo inteiro. Como disse Orson Welles, a época de ouro do cinema está entre 1912 e 1962, quando se deu a consolidação da linguagem cinematográfica. Os grandes cineastas já morreram e os poucos grandes que restam estão aposentados. Mas ainda se pode, aqui e ali, ver obras de diretores importantes como Lars von Trier, Pedro Almodóvar, Clint Eastwood, Francis Ford Coppola, entre tantos outros. Abbas Kiarostami, iraniano, é um cineasta bastante original. O cinema americano, a partir de meados do decurso dos 70, infantilizou-se tematicamante e nos filmes que se encontram sendo produzidos reina o lixo da indústria cultural que somente tem em vista o lucro indecente, como gostava de dizer Max Weber. Com raras exceções, ir ao cinema, hoje, é uma grande perda de tempo. Eu, por exemplo, estou, no momento, relendo os grandes clássicos do século XIX. Pode me chamar de nostálgico ou passadista.
Elenilson – Existe no mundo todo um monopólio de filmes norte-americanos, como o senhor vê isso?
André Setaro – Os americanos venceram na guerra pela conquista do mercado. É lastimável porque o que está sendo produzido é da pior qualidade: filmes onde se destacam os efeitos especiais e não existem mais personagens de carne e osso, mas títeres ou marionetes condutores da ação. O cinema virou um fast-food, uma montanha-russa. Tem-se a opção de ver os grandes filmes pelo DVD ou pela confraria que baixa os filmes pela internet.
Elenilson – Como se faz um crítico de cinema?
André Setaro – Processo lento, como já disse acima. Se uma pessoa quer ser crítico literário tem que formar primeiro um repertório, conhecer os grandes autores, ler e ler muito, criar um background, uma bagagem de leitura, uma carga horária. Isso leva anos e anos. No cinema, a mesma coisa. É necessário que se veja os filmes importantes, os filmes-faróis da história do cinema, mas não apenas vê-los como investigá-los. E sempre também, à medida que se vai vendo os filmes, a leitura de livros sobre história, linguagem e estética cinematográficas. Não se pode fazer um crítico de cinema de um dia para noite, como se está pretendendo com as oficinas de crítica cinematográfica de uma semana que pipocam nos eventos baianos. Minha formação cinematográfica foi exclusivamente autodidata. Os maiores diretores do cinema mundial foram formados dentro dos próprios estúdios observando os colegas e, se tinham talento, e estavam no momento certo e na hora certa, eram promovidos a diretores. O resto é conversa para boi dormir. Há, na sociedade contemporânea, a institucionalização da mediocridade. É assustador! Pergunte a um desses críticos: quantos Griffiths você já viu? Quantos Murnaus você já viu? Quantos Méliès você já viu? A função da crítica de cinema é ajudar o espectador a percorrer o itinerário do filme com um mínimo de conhecimento da sua linguagem, de modo a permitir que se reconheça, durante o trajeto, aquilo que é importante e o que não é. Uma função, portanto, que, mesmo antes de se reportar à apreciação estética da obra considerada no seu conjunto, incide sobre a sua sucessiva racionalização, quer dizer, a tradução em termos lógico-discursivos do sentido poético que ela exprime através dos procedimentos de significação que lhe são próprios. É necessário que o aspirante a crítico construa primeiro um repertório para depois se aventurar na análise fílmica. A crítica é a arte da paciência.
Elenilson – Eu fico puto da
vida com a imprensa aqui nessa província chamada Salvador. Cadê os Cadernos Culturais? Cadê as cabeças criticando e falando de artes? Os jornalistas de Salvador não passam de bajuladores e comedores de ócio. Como o senhor encara a imprensa baiana?
André Setaro – Encaro com as suas palavras: os jornalistas culturais baianos não passam de bajuladores e comedores de ócio. Não existe crítica de arte na Bahia. E a sua necessidade é uma conditio sine qua non para barrar os arrivistas, os sem-talento, os que se arvoram artistas e não são nada. Quando da existência de uma crítica, os pseudo-artistas ficam com receio de uma rejeição por parte dela a suas obras. Qualquer pessoa que queira, por exemplo, ser pintor, se tem relações com os editores dos cadernos culturais dos jornais, pode fazer alarde de sua exposição em página inteira. Não há critérios. O que existe é a amizade, a ação entre os amigos. Veja, meu caro Elenilson, o que acontece nos noticiários televisivos, principalmente o do BA TV: todo dia apresenta-se péssimos grupos de arrocha, pagode, e o escambau, enquanto os verdadeiros talentos baianos não possuem chance de aparecer. Vivemos numa era de estupenda e ensurdecedora mediocridade.
Elenilson – Eu fiz uma entrevista com o crítico de cinema do jornal A Tarde, João Carlos Sampaio, onde ele disse que “não se pode negar que o novo fôlego da produção nacional de cinema é um alento importante diante do quadro anterior a ‘Carlota Joaquina’, quando os cineastas brasileiros estavam cerceados da possibilidade de criar”. Hoje a tecnologia está tomando conta de tudo e só quem não tem informação é que não produz uma coisa bacana. Então, como ainda existem produções tão ruins que os diretores deveriam ter vergonha?
André Setaro – O novo alento, se é que existe, apenas beneficia os grupos de poder do cinema brasileiro. E tecnologia ainda não é um elemento estético. Se os filmes brasileiros possuem qualidade técnica, não possuem, entretanto, qualidade estética. Para que se faça emergir esta, é necessário que a técnica se conjungue com a linguagem. Técnica + linguagem = estética.
Elenilson – Como é a sua relação com os seus leitores?
André Setaro – Espero apenas que meus leitores leiam-me. A minha relação com eles se restringe aos comentários feitos no blog, que são poucos e rasantes.
Elenilson – Cada país, cada povo, tem os representantes que merece. Uma das coisas mais comuns de ouvirmos do senso comum em relação ao universo político brasileiro é a máxima de que em Brasília só há corruptos. E a Bahia não fica atrás. A frase é ilustrativa do quanto o brasileiro exime-se quando se trata de assumir as responsabilidades pelas mazelas nacionais. Como o senhor encara esse cenário político com esses “representantes do povo”, mais preconceituosos do que os chifres do demônio, vide, Bolsorano, Myrian Rios, Marcelo Crivella, José Nader, Silas Malafaia?
André Setaro – Considero os mercadores da religião assaltantes dos bolsos vazios do pobre povo brasileiro. São farsantes, hipócritas, falsos, mas se o povo acredita neles que sofra as consequências.
Elenilson – A juventude hoje não tem opinião e não quer saber de política, em consequência disso continuaremos sendo mandandos por um bando de parasitas travestidos de políticos. Os poucos que se aventuram em entrar na política o fazem somente pela recompensa financeira. Comenta.
André Setaro – O PT aparelhou o estado brasileiro com seus militantes em detrimentos de técnicos competentes e concursados, além de ter tentado amordaçar a imprensa, que considero atos criminosos. Além, é claro, do trem da alegria, da roubalheira geral, da corrupção endêmica. A juventude, para usar uma expressão já demodé e desgastada, está completamente alienada e não se interessa por política. Constato isso, pois ensino numa faculdade, onde não há nenhum debate em relação à política, mesmo porque a grande maioria da universidade está tomada por petistas de carteirinha. Os livres pensadores, os poucos existentes, vivem falando no deserto. Não há lugar para o livre-pensar. E agora inventaram o politicamente correto que, na minha opinião, é terrivelmente atentatório à liberdade de expressão. Neste particular, sou, graças a Deus, embora não acredite Nele, politicamente incorreto com uma visão anarquista do mundo.
Elenilson – Na época das campanhas para presidente, magoado com a decisão do PSB de trocá-lo pela candidata petista, Ciro Gomes disse que o Lula estava enganado se achava que “ia conseguir batizar Dilma presidenta da República”. Tanto batizou que a pupila ganhou as eleições, não porque era uma boa candidata, mas porque era a candidata do Lula. O senhor acha mesmo que se o marido da Flora (*da novela) fosse candidato teria alguma remota chance?
André Setaro – Infelizmente, não assisto à novela referida, apesar de não ter nenhum preconceito contra elas. Já vi e admirei várias.
Elenilson – Na história vergonhosa do mensalão, às vezes, envolvia uma discussão semântica que não levava a absolutamente nada. É evidente que houve situações de recursos indevidamente repassados a partidos, a parlamentares. Chamem isso do que quiserem, mas vamos falar da falta de vergonha na cara desses políticos. Evidentemente que houve situações em que dirigentes petistas agiram como não deveriam. Temos de dizer isso com toda a clareza. Mas não se trata aqui de ficar discutindo casos individualizados. São TODOS da mesma corja, da mesma gangue. Não existe ética alguma no Congresso. Não é possível pensar, como falaram em alguns encontros do PT, que a construção da democracia e do socialismo prescinde da ética. Que ética? Eu pergunto! É justo um trabalhador ganhar um salário ridículo e os aposentados penarem todos os meses para receber uma vergonhosa aposentadoria? Como o senhor encara isso?
André Setaro – Você, com sua pergunta, quase já a respondeu. Concordo inteiramente. Não há, entre nossos governantes, um espírito republicano, no sentido clássico da res pública. São todos oportunistas. Claro que a construção de um socialismo não pode prescindir da ética. Horror, horror, horror, como diz um personagem de Joseph Conrad em Coração nas trevas. O brasileiro não tem consciência política, é muito passivo, não sabe fazer valer seus poucos direitos. Semana passada, na quilométrica fila do nefasto Bradesco, os dez caixas constituídos na agência somente estavam ocupados por dois funcionários. Inconformado com a passividade da gente humilde que esperava com uma paciência de Jó (sim, aquele da Bíblia), gritei, a perguntar pelos demais funcionários. Mas as pessoas tentaram me acalmar, num servilismo total diante de alguns seguranças do citado banco. O certo, na minha opinião, seria o apoio a meu protesto. Vem aí a Copa da Corrupção. Os empreiteiros estão alegres. Na minha modesta visão, num país como o Brasil, onde não existem saúde, educação, segurança, a dinheirama que vai ser gasta na Copa e nas Olimpíadas deveria ser canalizada para melhorar a vida do homem brasileiro. Sou contra a Copa ser aqui realizada. Assim como as Olimpíadas.
Elenilson – Temos um Congresso de pilantras e bandidos. Como a presidente Dilma ainda quer que acreditemos que “eles” precisam resgatar a credibilidade que o PT já teve?
André Setaro – O PT não pode resgatar a sua credibilidade. Os crimes já foram praticados.
Elenilson – Os intelectuais brasileiros são uns bananas. Cadê o Chico, o Caetano, Gil e sei lá mais quem indo às TVs conta o governo Lula/Dilma? Por muito menos o Collor sofreu impeachment. Comenta.
André Setaro – Roberto Jefferson, aquele que deflagrou o Mensalão, disse que a corrupção sob Collor é titica de galinha em relação ao rombo do Mensalão. Muitos intelectuais brasileiros foram cooptados pelo petismo.
Elenilson – Desde que o PT chegou ao governo, há um choque entre o partido e os meios de comunicação. Agora, vai ser criada a TV pública, como forma de pôr uma cunha na mídia. O que acha da TV pública?
André Setaro – Uma TV pública que for gerida pelos governantes de plantão não pode ter credibilidade. Haveria a necessidade de um conselho com representantes de toda a sociedade civil.
Elenilson – No Congresso recente do PT, foi aprovada a realização de plebiscito a respeito da privatização da Vale do Rio Doce. Até os gringos já se manifestaram contra, enquanto isso, aqui nesse “cu de mundo”, ninguém comenta nada. O que você acha dessa decisão?
André Setaro – Fui contra a privatização durante o governo do ególatra FHC. Mas se o PT quer a sua privatização não deve ser coisa boa. Há interesses escusos no meio.
Elenilson – “Esgotamos uma etapa”, disse Dilma sobre saída de Jobim. Eu acho que “nunca na história desse país” aconteceram tantas demissões de ministros e assessores em tão pouco espaço de tempo. O senhor acha que a Dilma poderá ficar sozinha “deletando” os “amiguinhos do Lula”?
André Setaro – O governo Dilma sofre de metástase corruptiva. E ela, a presidenta, não tem ciência dos bandidos que a circundam?
Elenilson – Em Salvador temos uma vereadora que, por total falta do que brigar na Câmara dos Vereadores, quer prestar uma homenagem ao Michael Jackson no Pelourinho, como representante máximo da negritude da Bahia. O que o senhor acha desses representantes públicos que parecem não ter um pingo de noção de realidade?
André Setaro – Sou contra a homenagem. Há outros assuntos mais graves para tomar o tempo de nossos edis.
Elenilson – Na Bahia, o governador Wagner usa as propagandas mentirosas do “governo que leva saúde mais perto de quem mais precisa" só para ficar bem na fita (*e provavelmente ganhar mais a atenção do povo). Os políticos tratam o povo como se fosse um bando de débeis mentais. E o pior: o povo se comporta como se assim o fosse. Qual seria a solução mais viável para mudarmos essa situação?
André Setaro – Acabar com a farsa governamental, com a tomada do poder por homens sérios e competentes, ciosos da responsabilidade com sua comunidade. Mas o povo é ignorante e vota em qualquer um. Como mudar a mentalidade de um povo que só pensa em futebol e em Carnaval?
Elenilson – O senhor causou uma comoção ao publicar um pedido de ajuda financeira aos amigos pelo Facebook. Deu algum tipo de resultado?
André Setaro – Grande solidariedade. O resultado foi capaz de me tirar do fundo do poço.
Elenilson – O senhor foi professor da UFBA, como a faculdade se posicionou com relação ao seu problema?
André Setaro – Sou ainda, ué. O diretor me falou que ia ter uma conversa com o pró-reitor, mas nada aconteceu.
Elenilson – Muita discussão existe quando entra na pauta a questão das cotas nas universidades. Nossos “sábios e abnegados” líderes querem reafirmar a discriminação racial e social em lei como se o problema estivesse na ponta da linha, e não no começo do carretel. Como o senhor encara isso?
André Setaro – Sou contra a cota nas universidades. Qualquer cota.
Elenilson – Então, o senhor que é professor da UFBA, poderia me explicar uma coisa: porque o conhecimento produzido dentro dos muros acadêmicos continua represado por lá? Porque os professores universitários são tão deslumbrados?
André Setaro – Houve uma mudança de métodos no ensino universitário. Se antes, um professor ganhava bem, hoje está arrochado, mas, por incrível que pareça, a grande maioria parece carregar o rei na barriga. O conhecimento fica represado porque está disposto em linguagem muito específica e, por vezes, de um pedantismo metodológico monumental.
Elenilson – Uma coisa que eu fico muito chateado é a maneira como os artistas da Bahia (*quero deixar claro aqui: em outros lugares eu não vejo muito isso) tratam muito mal aqueles que querem divulgar e/ou mostrar consideração pelos seus trabalhos. Porque algumas “estrelinhas” do teatro baiano, por exemplo, se comportam como se fossem o supra sumo da sétima arte?
André Setaro – É coisa provinciana, atrasada, reflexo da miséria cultural na qual estamos inseridos.
Elenilson – Qual a importância das suas leituras com relação aos seus textos hoje?
André Setaro – A leitura me ajudou a escrever. Escreve bem, não sei se é o meu caso, quem lê bons autores.
Elenilson – O Fabio Lago, ator, produtor e diretor teatral, disse que "Televisão não é arte. É produto". O senhor acha muito difícil para um artista de Salvador chegar até a tão sonhada Rede Globo? As pessoas acham que atualmente na Bahia só existem o Lázaro Ramos e o Wagner Moura fazendo teatro e cinema. Como o senhor encara essa segregação dentro do meio artístico? Será que só vamos ficar com o Lázaro, o Capitão Nascimento e com o Vladimir Brichta nos cinemas?
André Setaro – Realmente é muito difícil o artista baiano se situar, com êxito, no sul do país. Mas quanto há talento, há possibilidade. Quanto há talento, veja bem, coisa rara aqui na Bahia, com as exceções de praxe.
Elenilson – A Fernanda Montenegro disse que na carreira de ator 10% é talento e 90% é aptidão, ou seja, é batalha, é estudo, é perseverança. Se você almeja o sucesso e luta pelo seu ideal, com certeza chegará lá. Mas a Globo não é o foco final para muita gente. Jackson Costa, por exemplo. O foco de muitos é o cinema. Cinema sim, é arte. A televisão lhe dá uma exposição muito rápida. A TV usa o ator para vender os produtos dela e o ator usa a televisão para se promover. Por que poucos nomes da Bahia conseguem furar essa barreira?
André Setaro – Poucos os eleitos e, para ser eleito, é necessário talento verdadeiro.
Elenilson – A obra de Glauber Rocha ainda está em moda ou é algo lá do passado?
André Setaro – Sou contra a sacralização da imagem de Glauber Rocha, mas alguns de seus filmes são permanentes e atuais, a exemplo de “Deus e o diabo na terra do sol” e “Terra em transe”.

Quadro do artista plástico Romeu Ferreira, nos muros da UESB, sobre “Deus e o diabo na terra do sol”, de Glauber Rocha, um dos filmes considerado pelo Setaro como primordiais em qualquer coleção.
André Setaro – Não confundir cultura com “curtura”. Os recursos para a cultura são uma percentagem mínima. Uma vergonha.
Elenilson – O que o senhor pensa sobre as leis de incentivo a arte (Rouanet, Mendonça, Fomento em Salvador)? Elas realmente funcionam?
André Setaro – Em alguns casos, sim, em outras, camaradagem e ação entre amigos.
Elenilson – Uma vez, eu falei para o Fernando Guerreiro que ele não pode reclamar da falta de renovação no teatro baiano se ele mesmo não abre espaço para gente nova. O senhor também acha que falta cabeças interessantes na nova geração de dramaturgia da Bahia?
André Setaro – Não estou por dentro da área de teatro. Mas penso que são poucos os da nova geração com talento, porque não estudam, não levam muito a sério o métier, são apáticos, aligeirados, vazios, vítimas de um processo de decadência cultural acachapante.
Elenilson – Eu levo a sério viu! (risos) O senhor acha que um ator muito bonito pode ser prejudicado com relação ao tipo de trabalho que venha pegar, visto que o que se ver hoje na TV é um banto de parasitas modelos, cantores e filhos lindos e artistas sem talento algum?
André Setaro – A televisão está cheia de atores medíocres e, quando aparece um veterano, este sempre rouba a cena.
Elenilson – Essa semana me bati com o Márcio Meirelles no Facebook e a primeira reação que tive foi questioná-lo sobre a sua péssima gestão como secretário da Cultura. Em que posição o senhor se coloca nesse debate em torno dessa política cultural incompetente implantada por Marcio Meirelles e continuada por essa nova gestão do “nada para lugar algum”?
André Setaro – O cargo de secretário da Cultura, caso não existam recursos, não passa de uma representação governamental.
Elenilson – Definir-se como crítico e pensador não soa pretensioso ou pejorativo num país de ignorantes como o Brasil?
André Setaro – O crítico sempre é meio arrogante e se sente senhor da verdade. Infelizmente.
Elenilson – Para terminar: faz uma listinha básica dos melhores filmes. Quero baixar!
André Setaro – A lista está sendo feita ao sabor da memória da digitação sem consultas ou pesquisas: “Cidadão Kane” (Citizen Kane, 1941), de Orson Welles; “O encouraçado Potemkin” (1925), de Serguei Eisenstein; “A regra do jogo” (La règle Du jeu, 1939), de Jean Renoir; “Acossado” (A bout de souffle, 1959), de Jean-Luc Godard; “Assim estava escrito” (The bad and the beautiful, 1953), de Vincente Minnelli; “A noite” (La notte, 1960), de Michelangelo Antonioni; “Oito e meio” (Otto e mezzo, 1963), de Federico Fellini; “Aurora” (Sunrise, 1927), de Friedrich Wilhelm Murnau; “Luzes da cidade” (City lights, 1930), de Charles Chaplin; “O martírio de Joana D’Arc” (La passion de Jeanne D’Arc, 1928), de Carl Theodor Dreyer; “Deus e o diabo na terra do sol” (1964), de Glauber Rocha; “A carne e o diabo” (Flesh and the devil, 1927), de Clarence Brown; “Rastros de ódio” (The seachers, 1956), de John Ford; “Laranja mecânica” (The clockwork Orange, 1971), de Stanley Kubrick; “Hiroshima, mon amour” (1958), de Alain Resnais; “Onde começa o inferno” (Rio Bravo, 1959), de Howard Hawks; “Um corpo que cai” (Vertigo, 1957), de Alfred Hitchcock; “O ano passado em Marienbad” (L'année derrière a Marienbad, 1961), de Alain Resnais; “Rocco e seus irmãos” (Rocco i suoi fratelli, 1960), de Luchino Visconti e “Os brutos também amam” (Shane, 1953), de Georges Stevens.

Foto rara: Edgar Navarro, João Ubaldo, Setaro, Tuna Espinheira, mas os outros não sei quem são. 
Setaro e Edgar Navarro, diretor de “SuperOutro”. 
Tuna Espinheira e Setaro, no TCA, quando do “Seminário de Cinema e Audiovisual”, em 2010. Será que rolou porrada? Brincadeira viu! 
O júri: Denílson Lopes, Luiz Carlos Merten, Luciana Corrêa de Araújo, Setaro e André Brasil, na “13ª Mostra de Tiradentes”, que inaugurou o calendário brasileiro de festivais de cinema no País. (foto: Leonardo Lara)
Setaro no elenco de “Star Wars – Episode II”. (foto-mostagem: E. Nascimento)
Contato: setaro@gmail.com
demais fotos: AS/divulgação








3 comentários:
Boa entrevista que revela a lucidez do entrevistado.
Antonio Feliciano Barbosa
felicianobarbosa@globo.com
"Ensino numa faculdade onde não há nenhum debate em relação à política, mesmo porque a grande maioria da universidade está tomada por petistas de carteirinha. Os livres pensadores, os poucos existentes, vivem falando no deserto. Não há lugar para o livre-pensar. E agora inventaram o politicamente correto que, na minha opinião, é terrivelmente atentatório à liberdade de expressão. Neste particular, sou, graças a Deus, embora não acredite Nele, politicamente incorreto com uma visão anarquista do mundo" - André Setaro. Grande figura, grande mestre. Sem meias-palavras, sem puxa-saquismo, sem rabo preso. Um resquício de sinceridade, (verdadeira) intelectualidade e bom senso em uma terra tão habituada ao deslumbramento, ao provincianismo e à mediocridade."
Entrevista porreta!
Disse tudo q/ eu queria dizer. Bravo!
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