Por Elenilson Nascimento
Finalista do Prêmio Jab
uti, a antologia "Os Cem Melhores Contos Brasileiros do Século" (*615 páginas), organizada por Ítalo Moriconi, foi pautada por critérios não muito definidos, mas que poderíamos induzir que o que contou mesmo foi a fama dos seus autores, mesmo que muitos tenham alto nível e representem muito bem a nossa produção, ainda acho que a repetição de alguns autores demonstrou a falta de pesquisa na inclusão de outros menos famosos, mas valeu por apresentar uma galeria de textos (ficção curta) há muito esquecidos ou ainda não descobertos.
Contudo, me deliciei principalmente com os contos: “Dois corpos que caem”, de João Silvério Trevisan; “Um discurso sobre o método”, de Sérgio Sant’Anna; “Aqueles dois”, de Caio Fernando Abreu; “Aí pelas três da tarde”, de Raduan Nassar; “Felicidade clandestina”, de Clarice Lispector; “Feliz ano novo”, de Rubem Fonseca; “A maior ponte do mundo”, de Domingos Pellegrini; “A força humana”, de Rubem Fonseca; “O moço do saxofone”, de Lygia Fagundes Telles; “Viagem aos seios de Duília”, de Aníbal Machado; “Tangerine-Girl”, de Rachel de Queiroz; “Pai contra mãe”, de Machado de Assis; o divertidíssimo “O bebê de tarlatana rosa”, de João do Rio; “A nova Califórnia”, do excelente Lima Barreto; “A caolha”, de Júlia Lopes de Almeida; “Negrinha”, de Monteiro Lobato; “Gaetaninho”, de Alcântara Machado; e “Baleia”, de Graciliano Ramos.
Como também, achei inadmissível a ausência de muitos outros autores que nem foram citados, como Nelson Rodrigues, Nelson Luiz de Carvalho, Ferréz, Drauzio Varella, Alessandro Buzo, Luiz Alberto Mendes, Sacolinha e Rodrigo Ciríaco. Mas fiz questão de resenha no COMENDO LIVROS todos os cem contos escolhidos para essa antologia. Porém, a recente polêmica-ignorante-burra proibição judicial da distribuição dos "Os Cem Melhores Contos Brasileiros do Século" para alunos da rede estadual de ensino reacendeu a hipocrisia envolvendo sexualidade, censura e educação. Até eu recebi alguns comentários ofensivos por ter escrito que gostei muito dos textos em questão.
Mas, para alguns educadores e escritores, a medida é arcaica e desnecessária. Na visão de alguns alunos e pais, parte do conteúdo da publicação é muito pesada para quem tem entre 11 e 17 anos. Os contos citados com "problemas" foram "Obscenidades para uma Dona de Casa", de Ignácio de Loyola Brandão, "Flor de Cerrado", de Maria Amélia Mello e "Olho", de Myriam Campello. Todos os três maravilhosos e inclusos numa polêmica fascista justamente por um povinho que não deve ter nem passado perto da capa do livro.
E como disse o meu amigo escritor baiano Moacir Eduão, que participou da antologia (que eu organizei) “Poemas de Mil Compassos” (2009): “Essa geração não pode ser chamada de geração, Elenilson. Precisa ser chamada de Gera Não. Ninguém comenta livros aqui, porque não lê acolá. Há umas raridades de leitores. Só que, mesmo leitores, parece que quando aparecem aqui é para ficar livre das intelectualidades. O pior é que "out line" também não encontramos muitas pessoas interessadas em conversar sobre livros. Com os investimentos em Educação e Cultura que temos, hoje, vamos continuar no ranking como um dos piores em interpretação de texto, em produção textual, e ganhando prêmios de melhor interpretação do "tchan tchan tchan", etc. Ler é conversar consigo mesmo, ter que interpretar a si, e isso é cansativo para os bichos-preguiça da contemporaneidade. Só tolero, ainda, por causa do poder que percebo da literatura infantil na garotada. Meu exercício para não perder a esperança está seguindo essa possibilidade: Ler para as crianças, para que elas não "morram" maduras e sem doce. É como regar. Estou pensando em escrever para as crianças. Escrever como elas, para que não se percam". Pois é. Agora, pelo menos leiam as minhas resenhas no COMENDO LIVROS – divididas em seis longas partes:
>>> Os Cem Melhores Contos – Part 2 <<<
>>> Os Cem Melhores Contos – Part 3 <<<
>>> Os Cem Melhores Contos – Part 4 <<<
Acostumada ao ambiente escolar, ela diz que mesmo os alunos do antigo 3º colegial, entre 15 e 17 anos, não têm maturidade para compreender aquele tipo de leitura. O conto retrata uma mulher casada, que recebe cartas anônimas descrevendo atos sexuais. Mas para a inspetora, mesmo com toda informação que existe hoje, “é preciso analisar de que forma as coisas serão passadas. Além disso, há o constrangimento na sala de aula e o fato de que o livro não ficará restrito a esses alunos, podendo chegar às mãos dos mais jovens”. O que ninguém comenta é que além desse conto do Loyola, outros textos no livro provocam o leitor com termos que este conhece e sabe muito bem que existe, mas não quer ouvir. Penso que antes de ir atacando uma obra literária como se ela fosse uma ideia perigosa, os pais e os professores deveriam discutir a questão da sexualidade com os adolescentes, de forma mais aberta e crítica, como deveriam, também, discutir a miséria, a fome e a destruição do planeta. Lamentável. Observem a reação do povo:
fonte: Comendo Livros






4 comentários:
Lamentavelmente a “justiça” brasileira ainda promove a censura em pleno século 21. Desta vez, a vítima foi o prestigiado escritor Ignácio de Loyola Brandão. Na quarta-feira passada, o Tribunal de Justiça (TJ) de São Paulo decidiu vetar definitivamente a distribuição do livro Os Cem Melhores Contos Brasileiros do Século na rede pública de ensino daquele Estado. O motivo não poderia ser mais absurdo: o fato de o conto Obscenidades para uma Dona de Casa, escrito por Loyola Brandão (em 1983), no qual ele conta a história de uma mulher casada que recebe cartas anônimas, fazer parte do volume.
A polêmica envolvendo esse conto – que já foi traduzido para mais de dez línguas - teve início no ano passado, quando o Os Cem Melhores Contos Brasileiros do Século começou a ser distribuído. Na ocasião, pais de estudantes de escolas do interior paulista entraram na justiça pedindo que o volume fosse retirado das bibliotecas escolares em consequência do conto de Brandão, que consideravam inadequado para seus filhos. Em dezembro, o então deputado federal, Celso Russomanno (“Que nunca leu um livro na vida”, segundo Loyola Brandão), conseguiu uma liminar na justiça determinando o recolhimento dos exemplares.
Em entrevista à Literatura no Diário, Ignácio de Loyola Brandão lamentou a decisão, no entanto disse que o episódio comprova o quanto a justiça brasileira é “lenta e ao mesmo tempo toma decisões tolas, porque toda essa polêmica acabou gerando publicidade para o livro, que continua disponível nas livrarias. Infelizmente é uma triste publicidade. Contudo, o que fizeram trata-se de uma censura igual a do tempo da ditadura”, disse-me ele. Como conclui o escritor, “nenhuma obra de arte deve ser censurada”. Portanto, abaixo a censura!
Isso se assemelha bastante com a questão dos livros do Monteiro Lobato, não?
concordo com brandão, estes pais e juízes estão por fora da realidade. o jovem de hj é mto + entendido em sexo e putaria q os jovens das gerações anteriores. ñ q eu aprove, mas é oq eu vejo por aí. e olha q trabalho e lido diariamente com mto jovens.
só acho q o tribunal deveria ñ se basear pela visão do homem médio e sim pela visão do adolescente médio. isso pq o homem médio jurídico, por ser uma abstração, vai levar em conta os preceitos q os juízes tem dq é imoral ou ñ. e como todos sabem, ñ há nenhum juiz em tribunais com menos de 40 anos. talvez até 50 anos. a maioria são anciãos perto d se aposentar. e pensar q estes conhecem como os jovens pensam é pedir d+.
Acho que se aproxima no que tange a "censura", mas se afasta no que se refere ao assunto... Se a gente colocar sexo, racismo, política, violência e outras coisas no mesmo saco, a gente vai sempre relativizar tudo e nunca poderemos afirmar nada sobre qualquer coisa...
No fundo, "censura" tende sempre a ser visto como uma coisa ruim. E - no geral - acho que é mesmo.
Entretanto, quando falamos de pedagogia, de educação, eu penso que a gente precisa ensinar limites...
Fora que eu acho que a cabeça tem que estar preparada... Certa vez, assisti a um documentário sobre crianças e contaram a seguinte história a meninos e meninas ingleses de uns 7-10 anos: Os filhos de uma mulher têm fome. Ela rouba comida. O que deve acontecer com ela? Estas crianças foram unânimes: ela deve ser presa, castigada. Ela fez algo errado e tem que ser presa. Sem meios-termos. Para pré-adolescentes, entretanto, elas começam a fazer considerações, contextualizações... Poxa, os filhos tinham fome... Isto não é justo...
É lógico que não dá pra criar em estufa, aquário, gaiola... Mais cedo ou mais tarde, eles vão descobrir um monte de coisas (piores ou melhores) por conta própria... Mas como preparar a pessoa pra ser um "adulto" sem algum "filtro" ou "preparação"?
Bom, este é um ponto.
O segundo ponto é o que este juiz fez.
O aluno que estiver com este livro em mãos certamente já deve estar com um mínimo de condições para refletir, assimilar, contradizer as histórias que estão ali. Penso que crianças pequenas não devem mesmo ler este livro. Penso que elas naturalmente não leriam. Achariam chato. Agora para maiores... já é uma conversa bem diferente.
Penso ser normal existirem nuances. Tem gente que já consegue enxergar o "Yin-Yang" do mundo desde muito cedo. Outros, talvez, nunca irão perceber. Podem colocar o assunto mais polêmico do mundo em seu colo e sempre terão o mesmo ponto de vista e que se ferrem todos os outros. Mas eu preferiria que minhas crianças vissem o mundo de uma forma total e mais tolerante.
Digo isto, lógico, baseado apenas no que foi noticiado...
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