Por Elenilson Nascimento
É inacreditável a incompetência dessa imprensa brasileira quando o assunto é cultura. Ontem, 10/04, a premiação do vergonhoso e manipulado “Troféu Imprensa”, comandado pela múmia milenar Silvio Mumm-Ra Santos, que ainda vive dentro da sua pirâmide (quase) falida construída há milênios, mostrou bem como anda os nossos gostos, ou desgostos. Se bem que a Pitty deu um show de simpatia, mas Mumm-Ra nem sabia quem era ela.
E é justamente sobre a nova atração da televisão do Mumm-Ra, a novela "Amor e Revolução", que eu quero escrever. Estou achando simplesmente bizarra, apesar de que vem rendendo papos dos bares e nos tópicos na internet e também da audiência que ainda estar muito aquém do esperado, mas que vem aumentando como boca a boca.
Tortura, perseguições, luta pela liberdade e um romance proibido durante a ditadura são esses os ingredientes de “Amor e Revolução”, com direção de Tiago Santiago, que estreou na semana passada. As cenas de tortura tentam ser impactantes, mas são de um amadorismo tamanho, apesar do autor afirmar que estará de olho na receptividade do público em relação à violência das cenas que pretende retratar o período da ditadura de 1964 a 1972 e traz ainda no fim de cada capítulo, depoimentos reais de gente que sofreu com o regime militar.
Mas não só de violência vive a trama. O foco central é a história de amor (quase) impossível de Maria Paixão (Graziella Schmitt) e José Guerra (Cláudio Lins). Me poupe viu. Não tinham outros nomes não? Maria e José? Ela é guerrilheira e que vive pra cima e pra baixo com um cachorro do lado, ele, militar, romântico e com cara de escroto. Fora que a Alice Braga ficaria bem melhor no lugar da sem sal que foi escolhida.
Até agora o melhor dessa novela está por conta da trilha sonora. Logo na abertura, ao som de "Roda Viva", de Chico Buarque, ela mostra jornalistas, estudantes e outros personagens sumindo em cena, numa alusão aos desaparecidos ou capturados pelo regime militar.
Ando conferindo alguns capítulos e digo: uma chatice, com um roteiro fraco onde sempre as personagens aparecem quase sempre sendo perseguidas, com ar de estudantes da UNE, falando sobre Marx e/ou Che Guevara, e até cantando “marcha soldado cabeça de papel quem não marcar direito vai preso no quartel...”, o que torna os capítulos cansativos.
Que o rico período histórico, que começa com o golpe militar de 1964, dá uma boa história, ninguém tem dúvidas. Mas com essa estreia, acredito que ficou faltando retratar um pouco do charme da época, e não só a opressão. Seria essa também uma maneira de seduzir o espectador, nostálgico ou não. Mas eu acho difícil “Amor e Revolução” ser melhor do que “Anos Rebeldes” (1992), da Globo. Eu acho muito complicado a reconstituição dos anos de chumbo, sem grandes inspirações da direção de arte, sem grandes atores, com esse roteiro fraco e uma fotografia mal feita, se sustentar somente a base da trilha sonora e dos depoimentos no final de cada capítulo.
A coisa está dando tanto burburinho que, desta vez, até a Globo andou modificando a sua grade da programação em função da novela do SBT e um portal militar resolveu fazer um abaixo-assinado contra a novela, porque segundo eles está abordando o período da ditadura militar de forma exagerada. Parece que os militares estão como monossílabo piscando e não querem que algumas coisas sejam debatidas.
Para quem já passou dos 30 anos, a comparação com "Anos Rebeldes", por exemplo, de Gilberto Braga e Sérgio Marques é inevitável. E para voltar a falar da mesma história, com elementos parecidos, como um amor impossível entre ideologias tão diferentes, é preciso um pouco mais de originalidade e ousadia. Coisa que até agora não percebi.
Alguns atores como Lúcia Veríssimo, Reinaldo Gonzaga e Marcos Breda parecem que estão totalmente fora do contexto. Breda, por exemplo, que viveu o Sargento Garcia num curta de temática homoerótica muito bom, poderia convencer mais como um militar e não como um esquerdista. Nico Puig está com cara de ator de filme pornô com aquele cabelo esbranquiçado. Patrícia de Sabrit parece que caiu na novela de pára-quedas. Claudio Cavalcante e Nicole Puzzi estão irreconhecíveis, envelhecidos e sem força nos seus personagens. Mas Fabio Villa Verde e Jayme Periard (*que um dia já foi muito bonito) estão muito bons como os militares sacanas. Estou na expectativa de conferir a Luciana Ventramini em cenas picantes. Só espero que, mais uma vez, o puritanismo não ganhe força. Já basta que o botox tomou conta da maioria da caras que aparecem na tela.
Mas o maior pecado dessa novela é mesmo a direção. Logo no início, lá nos primeiros capítulos, José (o filho da Lucinha Lins) reconhece o corpo da noiva, morta a tiros pelos militares. Diante do brutal assassinato, a reação foi, no máximo, como se ele tivesse quebrado um dente. E a cena de nudez de Lúcia Veríssimo tomando banho de cachoeira com um namorado guerrilheiro? Eu não sabia se fechava os olhos ou se ria. Ela está muito gorda. 
A iniciativa do SBT de levar uma novela como essa é louvável, mas fico na esperança de que dias melhores virão. A emissora investiu, tem alguns talentos na novela e figurinos e cenários que revelam um trabalho de pesquisa. Porém, nada disso se sustenta sem uma boa dramaturgia e os diálogos são inferiores até aos de outros trabalhos do mesmo autor. Mas tomará que não coloque nenhum mutante matando gente ou que também não chamem a mulher do Mumm-Ra para escrever alguma cena.
Ainda é cedo para dizer que “Amor e Revolução” é realmente uma boa novela e se irá conseguir subir o Ibope do SBT, mas uma coisa pelo menos já podemos admirar. Sua abertura. Ao som de “Roda Vida”, música de Chico Buarque composta em 1967, vamos acompanhando algumas cenas simbólicas do estado de ditadura. Começa com a cadeira do presidente onde um general aparece e depois vemos cenas cotidianas como uma família ao redor da mesa e o pai sumindo. Depois cenas mais característica como um depoimento, uma sala de tortura, um palco, o meio da rua, a redação de um jornal, a sala de aula. Mesmo sem os recursos de Hans Donner e os aparelhos da Globo, a ideia foi bem criativa é perfeita. Abaixo o depoimento exibido no capítulo 1, onde Maria Amélia Teles fala das atrocidades que passou na mão dos militares:
fotos: divulgação







13 comentários:
Por isso que esse país ainda está como está.. por terem seres humanos que na verdade não passam de vermes e aproveitadores. Eu tenho dó de pessoas que pensam como esses vermes, que foram a favor da Ditadura militar, mas o que é desse povo já tá guardado, pois a vida ao contrário do que muitas pessoas pensam está além dessa.
Parabéns ao SBT por contar um pouco dessa história recente que a juventude pouco conhece... Parabéns a Sra. Maria amelia Teles!
O SBT tem fama de cortar novelas, mas esticou Ana Raio e Zé Trovão.
Semana cheia essa, né? Assisti a quase tudo, então vou palpitar!
- Não assisti Batendo Ponto, o que me deixou chateada pq estava ansiosa pra rever o que fariam com aquele especial tão divertido. Fiquei arrasada agora com seu comentário, Jorge? Foi chato assim? Domingo tem a 2ª chance!
- Tapas e Beijos é legalzinha, bem zinha mesmo, não passa de 1 temporada. Amei Andrea Beltrão, Kiko Mascarenhas (ele não erra nunca, né? Sempre maravilhoso!) e Érico Brás, aliás, a única cena em que ri foi qdo ele tava pedindo os presentes (roubados) de casamento de volta.
- Divã é ótimo. Amo Lília Cabral, ela é diva! Aí junta com outra diva que é Patrícia Pilar, pronto, é sucesso! Mas será q tem fôlego pra mais de 1 temporada? Espero q sim, mas acho que não =(
- Lara com Z eu me recusei a assistir. Detesto essa Suzana Vieira, então minha tv não liga pra dar ibope a ela.
- Esqueci de assistir Amor e Revolução! Semana q vem eu me redimo.
- Quanto à Araguaia, que Jorge falou mas não comentou, que finalzinho mais furreca! Quem já viu o mocinho ficar com a suposta vilã, e ainda dizer que ela é a mulher da vida dele?? Péssimo!
- Rebelde, Jorge só vai falar semana que vem, mas eu adianto: LIXO!! Ontem assisti 4 cenas, dessas: 2 tinham caras sem camisa e 1 tinha uma de calcinha e sutiã. Apelação??? Nããão, imagina!
- E Cordel Encantado, hein? To ansiosa!
Desculpa aí, o tamanho do coment, galera! Me empolguei!
Beijos, Elenilson
Francamente, a discussão sobre futilidades da TV me deixa irritada. Quer educação, assistam a TV cultura, ou TV Brasil. Opções não faltam e os programas até que são interessantes, mas quem não quer ver que use o on/off do controle remoto.
Não assisti as estreias das séries mas assisti Amor e Revolução. Achei aquelas bundas desnecessárias e que alguns atores simplesmente não rendiam. O cenário parecia coisa de novela mexicana da década de 1990 e o texto não precisava ser tão didático. Diálogos precisam fluir naturalmente. Não tive vontade de assistir de novo, mas tendo em vista a iniciativa do SBT, achei que valia a pena dar uma chance. Agora só não sei onde isso vai dar.
Pois é. O pior é saber que poderia ser muito interessante, já que o tema é fantástico. Mas…
Particulamente,eu não gosto das novelas de TS.Mas ainda assim,assisto por causa do Gustavo Haddad que eu adoooro.Pena que ele teve que se acertar justo com essa novela,fazer o que né.Vamos ver no que vai dar.
Não aguento,faz um tempão a programação da globo,sempre os mesmos atores,só muda as historia ou os personagens-e no caso da Debora Seco nem isso-atualmente estou assistindo A&R,aproveito Jorge para cobrar a capa com o Gustavo que voce prometeu,mas infelizmente a novela é isso aí que você falou Jorge,as cenas de ação são de um amadorismo ridiculo,chega a ser até comico.Na boa,acho que o Gustavo se meteu numa roubada.Podia ter esperado mais, a globo está cheia de novas produções,quem sabe,algum autor poderia ter um insight e chamá-lo pra fazer alguma novela?É o meu maior sonho,ver o Gustavo num lugar que tenha melhor estrutura e melhores autores que o SBT.
Na minha opinião Amor e Revolução está ótima trama, cenarios, figurinos! Não é facil falar sobre um tema tão pesado como esse, os atores estão encarando com muita capacidade as personagens! Esta me supreendendo e me emocionando!!!
você conseguiu definir de forma clara a novela Amor e Revolução. Não darei palpite nos outros temas abordados, pois não assisti a nada, a não ser a citada novela.
Didática e panfletária são duas palavras que definem bem o que foram esses primeiros capítulos. Cabia mais um documentário do que propriamente uma novela. Atores secos, frios, sem a mínima atuação, sem verdade(porém, nem todos os atores).
Em contrapartida o figurino e o tema em si estão gloriosos, por enquanto segue a história, tecnicamente boa de se ver.
Parabéns pela crítica.
ão gostei do primeiro capítulo da nova trama de Tiago Santiago. Foi didático demais, panfletário além da conta e parecia que o autor estava tão preocupado em explicar tudo muito direitinho ao público, que tornou a estreia da novela muito chata. Para piorar, os atores não conseguiam interpretar o texto.
Na parte técnica, Amor e Revolução é um deslumbre. Gostei muito da abertura e a trilha sonora é o sonho de consumo de qualquer amante da boa música. Quero demais o CD quando for lançado. Os cenários e figurinos também estão perfeitos, reproduzindo com maestria a década de 1960. Parabéns ao departamento de arte da emissora.
Só espero que o SBT não mutile sua nova novela, como já fez com outras produções e até com produtos latinos importados. Sei que as tramas da emissora são mais curtas, mas tenho medo que um tema tão forte não sobreviva ao formato de uma novela. É muito importante e louvável mostrar o que aconteceu num período tão assustador da História de nosso país, mas quem vai aguentar cenas diárias de torturas, assassinatos e perseguições? Está sobrando didatismo e faltando dramaturgia. Novela é folhetim, não é um documentário. Por mim, Amor e Revolução seria uma bela minissérie…
Para quem se interessa pelo tema a Pinacoteca de São Paulo de 26 de março a 10 de julho apresenta:
O Memorial da Resistência de São Paulo apresenta a exposição Não tens epitáfio pois és bandeira. Rubens Paiva, desaparecido desde 1971. A mostra apresenta cerca de 200 fotografias (cor/p&b) e documentos sobre a vida, prisão e o desaparecimento de Rubens Paiva (Santos, SP, 1929 - RJ, 1971), durante o período da Ditadura Militar (1964 – 1985). Esta exposição foi concebida dentro do Programa Direito à Memória e à Verdade da Secretaria de Direitos Humanos da Presidência da Republica. Com curadoria de Vladimir Sacchetta, jornalista e pesquisador.
Sobre tv nem jogo fora mais meu tempo discutindo.
Fábio Vilaverde está MARAVILHOSO !
Mto bom mesmo !
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