Por Elenilson Nascimento
A primeira visita do
presidente norte-americano Barack Obama ao Brasil aconteceu num momento delicado nos EUA, que apesar disso ainda é a maior economia e a maior potência militar do planeta. No plano interno, o presidente estadunidense tem tido dificuldades de levar adiante sua agenda, ou pelo menos a agenda que foi prometida na campanha. Os EUA seguem invadindo Iraque e Afeganistão, e não conseguiu implementar um sistema público de saúde universal, duas de suas principais bandeiras de campanha, que me fez ficar muito otimista quanto ao futuro – clique aqui.
Mas depois de ter passado o “fuzuê” dessa primeira visita do Obama ao Brasil, onde a maioria das publicações da chamada “grande imprensa” brasileira analisou os anos iniciais da administração do primeiro negro a presidir os Estados Unidos, em especial a revista “Carta Capital” – sempre ao lado contrário da “direita” – que concordou com os seus próprios adversários políticos, ao enfatizar que, até agora, Obama é um desastre monótono por completo, também aproveito aqui para manifestar a minha opinião.
Obama chegou à presidência dos Estados Unidos em 2008 depois de uma propaganda eleitoral que pregava “mudanças”, em oposição ao belicismo e à desastrosa administração na economia realizada por seu antecessor, W. Bush. Eu até escrevi em 2009 – aqui – que o Obama seria a grande esperança de mudança de mentalidade na econômica e no processo de evolução do planeta, além de ser uma das figuras históricas e de grande relevância no cenário internacional, não só por ser um negro há ocupar um dos cargos mais importantes, mas por ser um símbolo de resistência. Porém, as principais promessas de campanha até agora não foram cumpridas e, de fato, a situação não é das melhores, literalmente. Obama não só não conseguiu agradar, como foi ainda mais longe, ao desagradar as duas principais vertentes políticas do seu país, democratas e republicanos.
Ao desembarcar no Brasil, em sua primeira visita oficial, agora sob a presidência de Dilma Rousseff, para restabelecer as relações com o Brasil, após os últimos anos de atritos com o então presidente Lula (*talvez tenha sido por isso que o Lula não compareceu ao jantar), especialmente por se opor à política norte-americana no tratamento dispensado ao maluco do Amahdinejad, líder político do Irã, onde as “grandes potências” não têm domínio.
PURPURINA – Desde o embarque no Air Force One (*avião presidencial exclusivo), em Washington, até a sua partida para o Chile, no dia 21/03, depois da visita de dois dias no Brasil, Obama foi recebido aos gritos eufóricos pela população brasileira e reverenciado pela imprensa, especialmente pela baba-ovo da Rede Globo. Até em Washington, que respira política, a visita de Obama ao Brasil foi o assunto na cidade. O noticiário da rede CBS, na semana passada, foi quase todo sobre a viagem do presidente ao Brasil. Eles mostraram imagens “lindas” do Rio de Janeiro, do Cristo Redentor e terminaram com uma apresentação da bateria da Portela. Foi, de certa forma, até emocionante ver o Brasil com esse destaque todo na mídia americana, mas alguma coisa a mais se esconde nessa cortina de amabilidades.
E apesar do “discurso lindo”, no Theatro Municipal do Rio de Janeiro, que deve ter emocionado muitos alienados com os apelos estrategicamente engendrados (*citando Jorge Ben, Paulo Coelho e a trajetória da Dilma - tudo pesquisado pelos assessores), quem tem o mínimo de “leitura crítica do mundo” sabe bem que os EUA não nos veem como amigos, mas como terra para explorar, dominar e saquear.
Querem saquear recursos naturais, controlar os nossos mercados e dominar nossos povos (*da América Latina toda). Por isso, os povos latino-americanos ainda buscam outros caminhos de independência e soberania. Nossa história foi escrita com muito sangue e sofrimento, com ditaduras, invasões militares, complôs patrocinados pela CIA, assassinatos de presidentes. E a história do Brasil, em particular, testemunha a truculência e a força bruta do imperialismo norte-americano em nosso território. E isso a “grande imprensa” manipula e estagna por total incompetência. Ou seria competência?
Enquanto isso, até as “engraçadas” propagandas da Bombril, seguindo a sua linha de anúncios com paródias de personalidades famosas, apresentou um Obama “todo sorrisos”, interpretado pelo competentíssimo Carlos Moreno, garoto propaganda da BomBril, seguido do mote “Se você também quer a casa branca, use Good Bril”.
Mas dentre as questões que pautaram o encontro de Obama com as autoridades brasileiras, estavam assuntos que poderiam gerar, mais facilmente, consenso entre os governos, já que se tratavam de uma reaproximação entre os dois países. As apostas de especialistas consideravam abordagens envolvendo o pré-sal brasileiro - já que os conflitos no Oriente Médio estão se agravando a cada dia - o que dificulta ainda mais o acesso dos norte-americanos ao petróleo.
A reconstrução do Haiti poderia também estar na pauta, juntamente com a crise no Japão e a meta brasileira de obter assento permanente no Conselho de Segurança da ONU, mas nada foi discutido. Havia também a possibilidade de estreitamento comercial entre os dois países e um outro ponto crucial: a relação entre os EUA e alguns países da América Latina, como Cuba e Venezuela. Mas Obama se limitou a mostrar sorrisos e discursar para meia dúzia de convidados escolhidos a dedo.
ESPAGUETE DE PALMITO, PUPUNHA E MÍDIA – Nada de churrasco, nem feijoada, Obama parece que pediu comida “vegan”. Ou seja, o presidente da nação conhecida por se entupir de hambúrguer, deu instruções para que a sua dieta no Brasil fosse a mais radical que a vegeteriana: nada do que tenha origem animal entrou na alimentação. Nem carne, nem leite, nem ovos. O “veganismo” é uma filosofia que observa o direito dos animais pelo ângulo da ética e os adeptos dela não admitem qualquer exploração ou abuso sobre os exemplares da fauna, seja qual for à espécie.
Além de tudo isso, a visita de Obama contou com uma forte ação midiática que objetivava sensibilizar o nosso povo. Coisa não muito difícil quando a Rede Globo investe nesse tipo de ação. O site da embaixada pediu até que os brasileiros enviassem mensagens de boas vindas e prometia presentear as melhores dessas mensagens com camisas, livros e outros presentes. Eu até mandei uma: “Obama, eu tenho uma prima que queria ficar com você. Topa?”. Mas eu acho que não iria ser selecionado com essa!
Outra coisa que me chamou muito atenção foi que muitas corporações de mídia foram contratadas – ou você acha mesmo que a cobertura que vimos pelas TVs seria apenas reflexo da simpatia? – para divulgar, diariamente, a visita de Obama. Tudo com muito entusiasmo e leveza, dando um ar “cool” ao mega-evento e fazendo parecer que se trata de uma grande oportunidade oferecida, gratuitamente, pelos sempre benevolentes vizinhos do norte. A visita ganhou ainda contornos de mega-evento, com direito a show musical, estelinhas globais, políticos e tradução simultânea. Dilma agradeceu as “palavras gentis” que Obama proferiu no discurso do Rio de Janeiro, dizendo que considerou a visita um marco nas relações entre os dois países e destacou a importância de se prosseguir nas discussões para que a relação Brasil-Estados Unidos tenha resultados ainda mais positivos, e afirmou ainda que tem interesse em visitar os Estados Unidos. 
OBAMA EVASIVO – Fiquei prestando muito atenção num dos temas mais aguardados no discurso de Obama: a reforma do Conselho de Segurança da ONU. O Brasil reivindica há anos um assento permanente. Havia uma expectativa muito grande de que Obama defendesse a inclusão definitiva do Brasil no Conselho de Segurança, mas ele foi totalmente evasivo: defendeu a participação do país na reforma do órgão, mas o fez de forma dúbia. “O Brasil vai ajudar a tornar o Conselho de Segurança mais eficaz”. Pois é. Na prática não rolou absolutamente nada.
A ação midiática teve sua razão de ser. Quando Bush visitou o Brasil, em 2007, milhares de pessoas protestaram no Brasil inteiro. Pude acompanhar pela tevê as manifestações que aconteceram no Rio de Janeiro, onde consulado estadunidense ficou todo pintado, assim como bancos ianques. O lado triste é que nossa polícia, composta por gente do nosso povo, agrediu os manifestantes.
E foi exatamente isso que aconteceu quando Obama esteve ao Rio, mas a grande mídia, para não sujar a festa, não mostrou nada. Se milhares saíram às ruas da capital fluminense quando Bush esteve em Brasília, e o mesmo não aconteceu na visita do Obama pelo simples fato do governo de braços dados com essa imprensa medíocre terem trabalhado justos. É certo que Obama não é Bush, mas se os ideólogos ianques estivessem tranquilos não haveria necessidade de investir tanto em ações midiáticas.
Mas esse é o tipo de relação que o imperialismo tem com os povos latinos americanos é uma tentativa de humilhar e repete a estratégia dos colonizadores, que davam miçangas, vidros coloridos e espelhos, ao mesmo tempo em que levavam em troca as nossas riquezas, como o ouro, o diamante e o pau-brasil. O povo brasileiro perdeu a oportunidade de demonstrar de que parte expressiva da população não aceitava a política de guerra preventiva, Guantánamo e Abuh Graib de Bush. Mas parece que a aliança foi mantida agora, quatro anos depois, pois o fenômeno político que teve mais relevância no último dia 20/03 foi de uma plateia inebriada pelas palavras doces, sorrisos e imagens sedutoras das corporações de mídia.
DETONANDO A LÍBIA – É realmente incrível a banalização da violência feita pelo governo do Obama. E tranquilamente, enquanto a dona Michele, linda e elegante, visitava uma escola numa favela carioca, com as filhas, entre uma reunião e outra, o Obama deu a ordem para navios americanos mandarem uma chuva de mísseis sobre a Líbia, que certamente mataram centenas de pessoas inocentes, e depois, sorridente, continuou sua agenda.
No último domingo, 20/03, enquanto esteve visitando o Cristo Redentor, muitos líbios já estavam sofrendo com a ordem de Obama, mas o que importa para a mídia é que o “imperador do capital” estava curtindo as paisagens exóticas cariocas. E isso me faz lembrar um filme brasileiro, "Matou a família e foi ao cinema". Obama, para ser minimamente decente, deveria ter voltado aos Estados Unidos depois da importante decisão de atacar um país soberano, despertando a possibilidade de retaliações que podem dar ensejo a uma guerra de proporções em todo o Mediterrâneo. Gente boa esse Obama... Viva à democracia! 
fotos: reprodução









6 comentários:
A eleição do primeiro negro presidente dos Estados Unidos tem sido um desastre.
quando kadafi mete bombas nos cidadãos do seu país que o contrariam, está certo?
Caríssimo Elenilson, anote um comentário para debatermos anos adiante. A Presidenta mandou bem pra caceta nessa visita. Ignore os detalhes e melindres, vá por mim. A História nos dará o resultado.
Revistar ministros parece absurdo mesmo. Constrangimento desnecessário.
Por outro lado, convenhamos, a segurança da presidência dos Estados Unidos sabe que a ficha de uns quantos de nossos inúmeros ministros não é lá muito limpa, não é mesmo?
O discurso de Obama no municipal do Rio foi muito bom. Não se pode exigir em oratória desse tipo grandes conteúdos, mas o presidente norte-americano disse exatamente aquilo que a Dilma falou na eleição do ano passado. O Brasil é um país que mudou, que está fazendo o que todos os países deveriam fazer: inclusão social: inserindo mais e mais brasileiros na classe média, porque é isso o que efetivamente importa.
Seria melhor se Obama tivesse discursado em praça pública, como era a ídéia inicial. Mas infelimente parece que nosso país não está preparado para isso. Os agentes da intolerância continuam firmes por ai. O sentimento antiamericano que já foi maior, ainda é grande no seio da população brasileira. Carregamos ainda o nosso complexo de vira-lata.
Para mim pouco importa se Obama deu a ordem de atacar a Libia de dentro do Palácio do Planalto e por isso se atrasou na reunião com a Dilma. Muita gente está perplexa e indignada com isso. Ele é o presidente dos EUA e estava sendo criticado por ser vacilão. Depois que Sarkô determinou que os caças Rafale bombardeasse alvos do ditador, de acordo com resolução aprovada pela ONU, não havia outra alternativa senão seguir os franceses.
E o Brasil se absteve na ONU quanto ao ataque à Libia. É direito nosso, mas inquestionavelmente a nossa política externa no governo Dilma é bem melhor do que do governo Lula. Não tenho saudades nenhuma do Celso Amorim.
FHC que sentou na mesma mesa de Dilma e Obama elogiou muito a nossa presidente. Nunca antes na história recente deste país um oposicionista louvou tanto um governo como FHC. Isso também é uma demonstração de que estamos superando nossas divergências e nosso complexo de vira lata.
Ótima análise. Mas mal deu tempo de comemorar a atitude do Brasil em se abster na votação contra a Líbia – que foi corretíssima -, e Patriota arruma uma visita desastrosa de Obama, com direito a um show de horrores protocolar.
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