quarta-feira, 29 de setembro de 2010

CADÊ A OPINIÃO PÚBLICA? ELA É A MAIS NOVA ESTATAL?

“Mas eu fico aqui com uma vergonha danada desse país de “merda” que não vê um palmo na sua frente e que continua como espectador de suas mazelas (...) uma coisa bem apropriada num país em que adjetivos de desqualificação esboçam caras, bocas e números em urna eletrônica.”

Por Elenilson Nascimento
Em plena farsa da "festa da democracia", com direito aos patéticos debates promovidos por todas as redes de comunicação, como um velho e prostituto clichê que intitula os períodos de campanha eleitoral, o que se vislumbra no horizonte é o fantasma das ameaças à democracia brasileira. Candidatos totalmente desinformados e megalomaníacos ultrapassam a fronteira do bom senso e bom gosto. O gangsterismo instalado nos porões do Estado, responsável pelo saque aos segredos da Receita Federal, e a complacente bonomia com que é tratado pelas autoridades são o mais atual e descarado sinal disso, mas não o único.
E nessas vias, nós, eleitores, somos tratados como retardados pois estamos tão acostumados a ver políticos fazendo suas promessas de campanha na forma afirmativa. “Farei isso”, “realizarei aquilo”, não se cansam de dizer. No último dia 28/09, entretanto, uma frase do candidato à governador da Bahia, Geddel Vieira Lima (PMDB), dita durante um debate à TV Bahia, filial da Rede Globo, me chamou a atenção exatamente por ser uma promessa elaborada na forma de devaneio, aliás, mais um: “pagar para estudantes secundários estudarem”. Como se isso fosse mesmo interesse de algum governo dessa birosca!
Nesse último debate com os cinco principais candidatos ao governo da Bahia, a administração do candidato à reeleição pelo PT, Jaques Wagner, voltou a ser alvo de acusações de corrupção. No confronto, Wagner obteve direitos de resposta para as todas as acusações, feitas respectivamente por Marcos Mendes (PSOL), Bassuma (PV), o já citado Geddel e Paulo Souto (DEM) que se muniram de números e propostas para criticar o governo e as suas propagandas enganosas. No entanto, o povo, mais uma vez, vai acabar votando num dos piores governadores que a Bahia já teve.
Igualmente ameaçador, e mais insidioso, é esse fantasma da unanimidade que circunda o presidente Lula e todos os seus candidatos. Ele frutifica rapidamente ao duplo, triplo influxo de um situacionismo pobre e sem contexto que transborda e de um oposicionismo que não se opõe, cuja a regra é criar “factóides para iludir”. As unanimidades no Brasil costumam ser bom abre-alas para o despotismo. Já temos um pai Lula, prometem-nos agora uma mãe Dilma para acabar com todos os nossos problemas, mas a silhueta que surge ali na esquina é a do irmão tosco, corrupto, mentiroso.
Em último debate na Bahia, governo Wagner é alvo de acusações de corrupção.
Contudo, a popularidade do presidente Lula e a perspectiva de vitória de sua candidata deram margem, e continuam dando, à expansão acelerada da cooptação e do adesismo, duas faces de uma moeda de antigo e querido uso no Brasil. E cada vez que o presidente Lula se volta contra a imprensa em geral, a imprensa bate na tecla da vontade manifesta de membros do PT de levar a cabo no Brasil um “controle público” dos meios de comunicação e instituir “sanções” aos “abusos” cometidos por jornais e jornalistas, e sobram editoriais recheados de palavras como “mordaça”, “censura” e “autoritarismo”.
No Brasil, a relação entre o governo Lula e a imprensa ainda não se incendiou à moda portenha ou bolivariana, seguindo mais como uma “Guerra Fria” do que como uma guerra declarada. A alienadora administração petista já tentou emplacar um órgão estatal para monitorar redações, e recentemente Lula disse que a imprensa não deveria fiscalizar, mas sim informar. É certo, contudo, que o presidente da República expressou em voz alta aquele que talvez fosse o primeiro dos três desejos que faria ao gênio da lâmpada, ou seja, uma imprensa 100% chapa branca, mas não deixa de ser verdade que a corrida por reportagens exclusivas sobre os temas caros ao país há tempos foi substituída pela escalada de denúncias de toda ordem, das mais relevantes às pouco significativas, passando por aquelas totalmente infundadas, fruto de um afã acusatório que deixariam os “amiguinhos ditadores” do presidente enrubescidos.
A coisa anda tão podre e sem noção que, na Bahia, Serra lembrou o falecido ACM e manifestou otimismo quanto a 2º turno. O candidato tucano receberá hoje, 29/09, o título de cidadão soteropolitano na Câmara Municipal. Mas cidadão por ter feito o que por Salvador? Mas o que esperar de uma Câmara que distribui títulos homéricos de Galvão Bueno à vendedora de acarajé da esquina. Se bem que essa segunda tem mais lógica.
E ao receber o título de cidadão soteropolitano, Serra citou até o poeta baiano Gregório de Matos para criticar setores que tentam promover censura no Brasil. Quem? Quem? Quem? O candidato não quis comentar os resultados das últimas pesquisas de intenção de voto, mas declarou-se otimista em relação à possibilidade de chegar ao segundo turno das eleições presidenciais. “Como não mencionar o grande Gregório de Matos, que enfrentou os poderosos no seu tempo e exerceu com acidez e clareza a crítica política. Desconfio que se Gregório existisse hoje, talvez alguns dos censores que andam por aí tentariam calá-lo”, disse Serra.
Além de Gregório de Matos, citou Castro Alves, dizendo que este foi um dos primeiros autores que leu em sua vida, e fez questão de declamar trechos de dois poemas dele: e "Navio Negreiro""Vozes da África". Tudo pela diplomacia e para conseguir mais votos.
E nessa novela diária de diarréias mentais, os eleitores ficam divididos. Não sabem se comemoram o fato de supostos candidatos que lideram com folga as pesquisas de intenção de votos e que fazem questão de externar seu compromisso com a imprensa livre, ou se há motivo para preocupação com a necessidade de a “eventual nova chefe de Estado do Brasil”, com apoio de Lula, é claro, prometer não atentar contra a liberdade de imprensa depois que receber a faixa do presidente Lula, se assim for. “Eu nunca farei isso!”, foi o que a Dilma com tanta ênfase prometeu não fazer, uma vez eleita, é censurar a imprensa. Vamos esperar sentados viu! Mas eu fico aqui com vergonha desse país de “merda” que não vê um palmo na sua frente e que continua como espectador de suas mazelas, quando denúncias contra o PT na reta final da campanha eleitoral trazem à tona a vontade de membros do partido de impôr “limites” à imprensa como uma coisa bem apropriada num país em que adjetivos de desqualificação esboçam caras, bocas e números em urna eletrônica.
Ora, mas não importa o que certas pessoas pensavam da pretensão do governo; importa, sim, que o governo pretendia alcançar aquele objetivo e o inviabilizou por se ter aliado a uma ditadura belicista. Admiti-lo seria aceitar que errara e Lula, claro, não erra... Mas assim é esse governo, só assume como coisa sua o que lhe dê prestígio, ainda que sua não seja, como no caso da defesa do meio ambiente. Alguém já viu, no plano internacional, uma comédia semelhante à representada por Lula e Dilma durante essas campanhas “fuleiras” de caras e bocas e botox?

+ Ouça também abaixo a jornalista Malu Fontes falando sobre o sensacionalismo na TV.
>>> ouça aqui <<<
podcast: Portal da Metrópole
charge: Maurício Ricardo/Charge.com

terça-feira, 28 de setembro de 2010

29ª BIENAL E ALEXANDRE LEÃO BRILHAM EM SÃO PAULO

“Pregados na jaula, vários papéis onde se lia dentro tantos: ‘Compositor... animal em extinção’.”
Por Eliane Silvestre*
Meus olhos inquietos e curiosos aportaram antes na abertura da “29ª Bienal de São Paulo”, no Pavilhão Ciccillo Matarazzo, do Parque do Ibirapuera. Acabei indo de taxi para não atrasar e quando este parou no limite do que era permitido, meus olhos já haviam chegado. Traziam com eles um estado de espírito com sintonia própria para ingerir arte. Talvez por isto, não consegui digerir o apito estridente do guarda que, orientando o trânsito dos ávidos por arte, acordou-me, trazendo-me de volta à vida urbana. Senti mesmo como uma agressão. Mas não faz mal. É necessário estar preparada. Nem todas as obras de arte terão para mim perfume de flores. Cada artista com sua expressão. Sabe lá o que expressarão!
Entrei na gostosa fila, feliz pela gentileza da amiga que me cedeu um convite. No pavilhão, iniciamos a caminhada. Meu olhar percorre tudo, mas parece se deter mais no humano. Lembrei-me de quantas vezes parei de ver o filme na tela para observar as expressões faciais tão díspares e até surpreendentes das pessoas que assistem. Lembro que constatei intrigada, dentre outras coisas, pessoas que riam enquanto tantas choravam com uma cena comovente. Ali, na “29ª Bienal de SP”, estavam tantas tribos. Gente. Gente. Gente. Gente. Também obras de arte, quer seja quando carregam em si a estética própria do dono do corpo e do espírito quer se pensemos serem obras de um Deus criador que as colocou aqui.
O vão livre, todo fechado com rede, abriga os “dois urubus” de Nuno Ramos. As pessoas passam e olham a obra intrigante e instigante. Quantas sensações poderão advir dela? A sensação que tive não foi boa e talvez fosse exatamente esta a intenção do artista. Mas não consegui não ter pena dos urubus que com certeza não devem estar gostando nada de estar ali. Seguimos olhando tudo, mas a cada mudança de piso, não há como não vê-los e não nos sentirmos incomodados.
Eliane ao lado da enorme “xereca” da Bienal,
onde as
pessoas poderiam adentrar.
Não consegui ver todas as obras. Nem tão pouco anotei nomes ou artistas. Das que vi, ficou na lembrança a vulva, que suscitou muitos risos e também pela sensação até infantil de estar viajando por dentro dela. Tirando o erotismo da coisa, talvez nos remeta ao parto e, assim pensando, a criança que caminha dentro da obra compensa a sensação de adulto um pouco claustrofóbica. A obra chama-se “A Origem do Terceiro Mundo” de Henrique Oliveira.
A figura minúscula sem roupa e o seu criador,
o artista plástico Ef
rain Almeida.
As obras de Efrain Almeida, que se coloca em suas esculturas sempre como uma figura minúscula e sem roupa, me passaram o sentimento de solidão. Da pequeneza que nos chega quando percebemos o quanto somos mínimos diante da imensidão do universo. O artista estava lá e eu, buscando o sentimento oposto ao que as obras exalam, não deixei a tietagem de lado e pedi para tirar foto com ele.
No momento em que a bateria acabou e só pude fotografar com os olhos, uma obra me chamou bastante atenção, embora eu não saiba o nome do artista e nem tão pouco da obra: uma jaula com um músico dentro, mesa, computador, vários papéis (até tentei pesquisar rapidamente na internet para não cometer esta falta, mas não consegui encontrar... quem souber pode complementar em comentários).
Pregados na jaula, vários papéis onde se lia dentro tantos: “Compositor... animal em extinção”. Ele estava com um microfone e instigava o público (na hora que passei era uma criança que usava o microfone) a falar o que viesse na cabeça que ele tornaria uma música. Ele estava ali expressando a dor daquele que vê seu talento para combinar palavras, ideias, sentimentos, com notas musicais, indo para a lata do lixo.
Sinaliza, penso eu, que não consegue viver de sua arte num país cuja grande parcela do povo não valoriza devidamente uma letra elaborada com poesia, que nos remeta ideias e pensamentos inteligentes e importantes para uma vida melhor. Não valoriza por vários motivos: desconhece, não tem estudo para alcançar, etc. Mas nem sempre é assim. O pensamento pequeno assola os que têm estudo também.
Alexandre Leão arrebentando no palco, em São Paulo.
Aqui aproveito para citar uma situação que coincidentemente está se passando com um compositor baiano, que é também cantor e instrumentista, o excelente Alexandre Leão. Oportuno exemplo do que estamos falando. Alexandre fez um belíssimo show esta semana em São Paulo e, pasmem, foi alvo do pensamento medíocre de alguns de que ele estaria se elitizando.
Todo artista, principalmente que tenciona viver de sua arte, precisa expandir ao máximo sua atuação. A Bahia é linda, sim senhor, deve ser uma delícia morar na terra de praias tão bonitas e gente tão alegre, colorida, multicultural, mas vamos ser menos egoístas.
O que querem estes jornalistas? O que seria de todos estes ícones nacionais e internacionais (parabéns Ivete pelo show em NY!) que os ouvidos brasileiros e estrangeiros só tem a agradecer (Gilberto Gil, Caetano Veloso, Maria Bethânia, Família Caymmi, Pepeu Gomes, Moraes Moreira, etc) se tivessem ficado somente na Bahia?
Olha, nem sei por que comentei isto. Não posso acreditar que seja verdade. Se houve qualquer citação ao talentoso Alexandre Leão nesta linha, só posso acreditar que seja num tom de brincadeira, caso contrário pontua uma total falta de discernimento, um jornalismo que presta desserviço e pobreza de espírito. E a Bahia é tudo de bom. Isto só pode ser conversa fiada mesmo, papo de botequim, entre um acarajé e outro. Do jeito que o povo baiano é festeiro, duvido que tenha baiano que abra mão da alegria de ver Alexandre Leão brilhando no Brasil e no mundo.+ Ouça também o escritor Affonso Romano Sant'Anna comentando sobre essa polêmica na Bienal de Artes de São Paulo.
>>> ouça aqui <<<
A Bienal ficará em cartaz até 12/12/10, em São Paulo. A entrada é gratuita. Os horários de funcionamento são os seguintes: de segunda a quarta, das 9h às 19h; quintas e sextas, das 9h às 22h; sábados e domingos, das 9h às 19h. A entrada só é permitida até uma hora antes do fechamento. O Pavilhão Cicillo Matarazzo fica no Parque Ibirapuera (Avenida Pedro Álvares Cabral, s/nº, Ibirapuera). Site oficial: www.fbsp.org.br
*Eliane Silvestre é poeta, produtora e atriz. Participou dos “Poemas de Mil Compassos” (2009) e, recentemente, acabou de ser selecionada para o elenco da peça teatral "História de Algum Lugar", com texto e direção de Áurea Liz.

podcast: Portal da Metrópole
fotos 1 e 4: AL/divulgação
demais fotos: E. Silvestre

segunda-feira, 27 de setembro de 2010

FICHA LIMPA

“Vergonha desse país que não vê um palmo na sua frente e que continua como espectador de suas mazelas...”Por Anna Carvalho (com medo da nova ditadura contra a liberdade de imprensa)*
Vendo a sessão do Superior Tribunal Federal julgando o efeito ou produto de uma lei sob o âmbito de inconstitucionalidade ou de erro do tempo verbal para decidir o sim ou não do “Ficha Limpa” em nome de Joaquim Domingos Roriz, fico pensando na viagem fundamentalista e precoce de Dias Toffoli, advogado “umbilicalmente” e, não quero afirmar a sua incompetência ou não merecimento cognitivo de ali estar, ligado ao PT e que é réu na Justiça do Amapá, que foi obrigado a devolver R$ 420 mil ao Estado por estar envolvido em processo ilegal de licitação e que, agora, está no assento do STF.
Um advogado jovem e que participou de algumas linhas de defesa em alguns casos mal fadados do PT que, como um bom partido que é, cria braços de sua conexão macabra em todas as linhas de atuação da sociedade. E, em caso de erro ou de qualquer coisa deverá (*futuro do presente em caso assertivo para todos os casos), deverá pagar com a demissão ou sanção, em tese do partido.
Ex-advogado da União Dias Toffoli é a oitava indicação
do presidente Lula da Silva para a Corte.

Com algumas perguntas ou lendas urbanas: por onde anda José Dirceu? Quem matou Celso Daniel? Por onde anda Palocci? Algumas perguntas que são expugnadas em tempo passado e com alcunha de finalização ou terminalização a ponto de pedras e de acertos que esses assuntos derivem na memória parca de brasileiros.
O “Ficha Limpa” é um direito do povo de pensar que o debate de hoje (monólogo entre egos juristas ou num código forense) foi patrocinado por Joaquim Roriz, velho conhecido de demandas de tráfico de poder, corrupção e o então ministro recém acolhido no STF pediu vistas do processo. E vendo as figuras e seu vernáculo senil e cheio de formalismos jurídicos, vejo o quando o país discute coisas rasas, mas não chega em definitivo na atuação contra os canalhas safos que se regozijam espertos e safos nas ruas e rindo de todos nós.
Acho que as eleições, se o “Ficha Limpa” não vigorar (*infinitivo a ser postergado), o povo deve sabotar as urnas e nada de dizer que durante a ditadura pessoas morreram para você votar. Pessoas morreram para que você vote em branco, nulo, em candidato ou simplesmente não vote, mas que isso seja uma escolha, pleito, pois é direito que também haja oposição e o PT não nos concedeu isso.
Claro que seguindo a lógica perversa dos políticos sem identidade partidária (quase todos), haja urnas, votando ou não, esta escolha também é legítima (*verbo no presente de indicativo) que indica conquista definitiva e que se fecha em si mesma.
Vergonha desse país que não vê um palmo na sua frente (*presente do indicativo) e que continua como espectador de suas mazelas, a última delas devotada à gramática, à língua portuguesa, quando ministros, citando Celso Cunha, falam em tempos verbais como coisa apropriada num país em que adjetivos de desqualificação esboçam caras, bocas e números em urna eletrônica.

+ Clique abaixo e ouça o jornalista e escritor Rodolfo Konder falando sobre a importância da Liberdade de expressão.
* Anna Carvalho é professora de literatura em Salvador e co-autora de Elenilson Nascimento em “Clandestinos” (2010) e “Diálogos Inesperados Sobre Dificuldades Domadas” (2005). Contato: carvalhoanna141@gmail.com
podcast: Portal da Metrópole
fotos: divulgação

domingo, 26 de setembro de 2010

PILAR DEL RIO ESTÁ NO RIO DE JANEIRO

“A jornalista espanhola Pilar Del Rio (viúva de Saramago) está no Brasil para o lançamento do documentário ‘José e Pilar”, do diretor português Miguel Mendes. E a estreia mundial do documentário é hoje, 26/09, no Rio de Janeiro.”
Por Elenilson Nascimento
"Aqui jaz, indignado, fulano de tal". Essa inscrição para lápide sugerida pelo próprio Saramago, falecido em junho aos 87 anos – clique aqui e leia na LC –, com o seu peculiar senso de humor projetada em um telão encerrou uma homenagem (* com direito até a presença do Chico Buarque com a Pilar Del Rio) no Sesc Vila Mariana, em São Paulo, ao escritor português.
Neste trecho final, Saramago justifica que a indignação deve-se não só a não estar mais vivo, "mas também por ter entrado num mundo injusto e ter saído de um mundo injusto".
Contudo, nesse domingo, o documentário «José & Pilar», retrato intimista da relação entre o escritor português e Nobel da Literatura e a sua companheira espanhola Pilar del Río, terá estreia mundial no "Festival de Cinema do Rio".
A exibição de gala com a presença do realizador Miguel Gonçalvez Mendes, o produtor brasileiro e amigo da família Fernando Meirelles e da própria Pilar del Rio, viúva de Saramago, decorrerá às 19:00.
A imagem de homem durão cultivada por Saramago deu lugar a de homem apaixonado.
Baseado no registro do seu dia a dia em Lanzarote, a sua casa, e nas suas viagens de trabalho pelo mundo, o filme ambiciona ser um retrato intimista do casal José e Pilar. No documentário, em um olhar ou num sorriso, Saramago revela a cumplicidade que tinha com a sua mulher. E é com essa tônica que o diretor desenvolve seu documentário “José e Pilar”. No filme, que mostra ainda o processo de escrita de “A Viagem do Elefante”, passando por sua publicação e o seu lançamento no Brasil, onde é possível ver a importância de Pilar para Saramago.
Foto linda: Pilar Del Rio, uma mulher que teve muita importância na vida do escritor.
“Esse documentário tem cenas belíssimas, principalmente as que mesclam textos ou depoimentos do José... Ele era um intelectual de respeito, com grandes ideias”, disse Pilar durante o Festival do Rio.
foto 4: George Magaraia
demais fotos: divulgação

LIBERDADE DE IMPRENSA: A PÍLULA DA CENSURA, A MISTIFICAÇÃO E A FALTA DE LIMITES DO NEYMAR

“Que o talento pode construir ídolos, todos já sabemos, mas é a humildade, o respeito e a postura profissional que perpetuam mitos.”
Por Elenilson Nascimento
A história do jovem Neymar é parecida com a de alguns jogadores brasileiros que, através do futebol, mudaram radicalmente suas vidas. Porém, como acontece normalmente, Neymar largou os estudos, trocando-os pela profissão (*já tive diversos alunos que também já fizeram isso, ou para serem jogadores de futebol ou pagodeiros - eu vou dizer o quê?). De um salário de medíocre de R$ 415,00, quando foi admitido na escolinha do Santos, hoje, recebe algo beirando os R$ 180 mil mensais.
Além desse salário dos sonhos, festas, as “bucetudas profissionais” dando em cima, badalação, mídia, tem também inúmeros contratos com empresas como a Nike e com o grupo Sonda, grupo este que detém parte de seus direitos e lhe dá uma gorda “mesada” para as “despesas extra clube”.
Porém, essa semana, o Brasil ficou abismado(?) com a total falta de limites da “estrelinha que ainda faz biquinho” do Santos, tanto que até o Renê Simões soltou a seguinte frase sobre o Neymar: "Estamos criando um monstro no futebol brasileiro". O técnico do Atlético-GO ficou inconformado com atitude de atacante santista que xingou o seu próprio treinador após ser repreendido em campo. E o que aconteceu com o técnico do Santos? O xingado foi o demitido! Por isso que eu repito aqui o que escrevi no texto do dia 22/09, sobre a arrogância da Dilma, que “o Dunga se afundou com aquela seleção de “merda” na Copa da África, mas obrigado, por não ter convocar esse Neymar" (*agora escrevi certo Jandará?).
Numa decisão surpreendente, Dorival Júnior resolveu manter o afastamento e tirou o Neymar do clássico contra o Corinthians, nesta última quarta-feira, 22/09. Como o jovem talento santista já tinha ficado de fora da partida do último domingo, contra o Guarani, como punição pelo chilique que deu em campo na semana passada, era esperado que voltasse ao time agora, mas o treinador deu uma demonstração de força e vetou sua presença. Resultado: técnico demitido!
Assim é que, num país como o Brasil, país que vem perdendo os seus valores faz tempo, onde um garoto comum, há bem pouco tempo, com muitos desejos e quase nenhum recurso, passou a ser dono de um patrimônio milionário, tendo, pois, a possibilidade de realizar suas vontades, todas. Eu disse TODAS. Mas vale lembrar aqui que já tivemos outros exemplos como o do goleiro assassino Bruno, Adriano, Edmundo “Animal”, Ronaldo “ex-Fenômeno”, Romário, e sabemos muito bem onde isso vai acabar. E é novamente o que está fazendo o Neymar.
Em recente entrevista concedia ao “Estadão”, o jovem jogador confessou que coleciona relógios, perfumes, brincos... (todos caros!). Afirmou que compra dezenas deles, de uma vez só. Mas, na contramão, a imaturidade e a birra de Neymar são as provas de que a falta de limites é sempre prejudicial. O pai de Neymar sempre aparece na mídia jogando panos quentes e a mídia, por sua vez, exaltando o poder de chute e as “qualidades” do jogador em campo e fora dele.
Que o talento pode construir ídolos, todos já sabemos, mas é a humildade, o respeito e a postura profissional que perpetuam mitos. E que a falta de educação não é camuflada, não importa o tamanho de sua conta bancária. Neymar ainda é muito jovem e muito tem a aprender ainda. Torço para que use sua fortuna para instruir-se no essencial, caso contrário será mais um na lista dos problemáticos.
Aproveitando esse assunto, a jornalista Malu Fontes comentou no quadro "A TV Que Você Vê", em 24/09, no TVE Revista/BA, que isso é uma metáfora para tentar caracterizar a relação entre o governo e determinados segmentos da imprensa brasileira, onde há uma tendência tendenciosa de todos quererem se comportar como Neymar. A jornalista critica ainda o fato de ninguém querer ver o dedo apontado para receber nenhum tipo de crítica. "A gente não deve esquecer a relação entre imprensa e governo é bem diferente entre Neymar e o técnico do Santos", disse Malu. Confira o vídeo abaixo:

charge: Blog do Amarildo
foto 2: Ernesto Rodrigues/AE
foto 3: divulgação

sexta-feira, 24 de setembro de 2010

INACREDITÁVEL: “LULA, O FILHO DO BRASIL” INDICADO AO OSCAR

“Por isso sou contra os heróis, são disfuncionais para um povo resignado, são os pulos dentro dos muros de um povo que goza em sofrer, que acha sofrer um prazer legítimo e até tiranizável por uma vontade exacerbada de escolher aqueles que vão superá-los na frente...”
Por Anna Carvalho & Elenilson Nascimento
Parece que é um complô que o filme “Lula, O Filho do Brasil” seja mesmo um dos indicados a concorrer ao Oscar 2011, entre os filmes brasileiros. O longa-metragem foi anunciado nesta última quinta-feira, 23/09, na Cinemateca Brasileira, em São Paulo, como representante do Brasil na corrida por uma vaga na categoria de filme estrangeiro da próxima edição do Oscar, a maior festa do cinema norte-americano. Primeiro pela gafe de plasmar algo imaterial e não demonizado numa personagem que suplanta as dificuldades e ascende politicamente ao poder.
Uma trajetória digna, não determinista, mas que também autoriza algumas reflexões em torno deste mito que comete a gafe de não ter uma obra póstuma ou in memoriam num país que saliva por tendências e por qualquer coisa que acene como populista. Segundo para entoar as máximas de filmes nacionais que fabricam uma realidade estetizada para que o esboço de país vendável dê o ar de sua graça em achismos do exterior.
Não menos por se tratar de um filme irremediavelmente político e que teve como blefe maior, licenciar a candidata Dilma a favorita ao poder; segundo por licenciar o PT como uma máxima altruísta sem qualquer esboço de corrupção, com máximas em favor do povo; e terceiro, e mais grave, por colocar – num universo muito maniqueísta – o protagonista num lugar humanizado e de herói de um país que, não sendo democrático, escolhe em exceção alguns eleitos do povo para que eles, posando de santos, mártires ou de beatos – líderes messiânicos para uma série de materialistas que se sentem vivificados em nome deste herói, limbo deles próprios.
O filme de Lula, escolhido para representar o Brasil no Oscar 2011, vai disputar com outros de mais de 95 países a chance de estar entre os cinco finalistas na categoria de melhor filme em língua estrangeira. A lista dos indicados será divulgada no dia 25 de janeiro. A cerimônia de premiação, por sua vez, acontece em 27 de fevereiro, no Kodak Theatre, em Los Angeles.
Por isso sou contra os heróis, são disfuncionais para um povo resignado, são os pulos dentro dos muros de um povo que goza em sofrer, que acha sofrer um prazer legítimo e até tiranizável por uma vontade exacerbada de escolher aqueles que vão superá-los na frente, quase com uma cruz na mão, só faltou a toga azul, a barba mal feita (esta tinha), a cruz, o cajado e temos um mix de tudo de bom que aterroriza as massas e as faz condicionadas no seu ligar social, porque segundo a tese, os eleitos são poucos, senão isso vira democracia.
Vendo pela nossa Tomada da Bastilha no primeiro mandato do presidente Lula, o povo se banhava nas águas dos espelhos do Planalto, me emocionei com a adesão pública de um presidente que, definitivamente saiu de baixo e chegou ao signo do poder, mas como toda história fantasiosa e vista com cores épicas, “Lula, O Filho do Brasil” é mais uma história ficcional e o seu limbo, uma personagem que agoniza e triunfa diante do próprio espelho que foi criado. E a minha abordagem, ou frente não vai analisar o filme com lógica a altura de ninguém e conspirar contra as unanimidades burras, ir de encontro aos fundamentalistas, por eu assinar num blog que tem direto a liberdade de escrever, pixar. Não vivo plasmada com cinto de silício para me sodomizar – é uma constatação de mais um mito que o país fabrica desde a princesa Isabel, o Grito do Ipiranga, Pixote, etc.
Sem a mesma sorte, Pixote acaba morrendo a deriva da sua sorte, sendo um “verdadeiro filho do Brasil” (*e o Brasil não tem vocação em ser boa “mãe”, sendo mãe de poucos), mais vulnerável e que cumpre o rito maniqueísta que o país quer e deseja, estes filhos do Brasil mortos de fome, com olhos de medo, magérrimos, com cara de povo, revólver à mão e distância da máquina pública (seria bom que esta máxima fosse mais cumprida), este morto pela polícia, num remix ao menino deus que o congela como um marginal e o país, em seu sistema, pune alguns que cumprem esses papéis tiranicamente montado para as ruas. E aqueles que tiranicamente saiam delas com bandeiras à mão, algumas vezes, posam sem identidade razoável, sendo povo quando isso for interessante para uma das suas caras.
O mais interessante na escolha justamente do filme "Lula - O Filho do Brasil" (um dos filmes mais caros da história do cinema brasileiro e um fracasso total de bilheteria e também nos camelôs) é que esse “representante brasileiro” foi escolhido por uma comissão formada por nove especialistas, indicados pelo Ministério da Cultura e pela Academia Brasileira de Cinema. Ou seja, a máquina do governo trabalhando, como sempre , para promover o Lula. No total, 23 filmes se inscreveram em busca da vaga e o filme do presidente foi o escolhido de forma unânime.
O presidente da Academia Brasileira de Cinema, Roberto Farias, já havia afirmado que o critério para eleger o brasileiro no Oscar não seria nem qualidade muito menos a bilheteria, mas sim a "cara" de Oscar. Me poupe! Segundo esse "amiguinho do Lula", o filme foi escolhido por unanimidade pela comissão, pois o filme "parece ser o mais indicado por mostrar a história de centenas de milhares de brasileiros, não apenas do presidente". "Outro critério é que Lula é uma personalidade não apenas no Brasil, mas também lá fora", completou. Realmente inacreditável. Uma tal de Marisa Leão, membro da comissão, negou que a escolha do filme do Lula seja política. "Nosso partido é o cinema brasileiro", declarou. Oh, que fofa!
A MALDIÇÃO DO LULA - O diretor Fábio Barreto sofreu um grave acidente automobilístico no final do ano passado, pouco antes do lançamento do filme. O carro despencou de uma altura de quatro metros e o diretor sofreu traumatismo craniano. Ele recebeu alta em maio deste ano para continuar o tratamento em casa, mas continua em coma.
Em toda a história do cinema nacional, apenas quatro filmes foram indicados ao Oscar de filme estrangeiro, e nenhum deles venceu: "O Pagador de Promessas" (1963), "O Quatrilho" (1996), "O Que É Isso, Companheiro?" (1998) e "Central do Brasil" (1999). O filme "Cidade de Deus" não conseguiu uma vaga entre os indicados a filme estrangeiro em 2003, mas no ano seguinte concorreu a quatro estatuetas: direção, roteiro adaptado, fotografia e montagem.
Nos últimos anos, os escolhidos pelo Brasil para disputar uma indicação foram "Salve Geral" (2010), "Última Parada 174" (2009), (2008), "O Ano em que Meus Pais Saíram de Férias""Cinema, Aspirinas e Urubus" (2007) e "2 Filhos de Francisco" (2006).
Até Caetano Veloso já falou dessa coisa podre que é só ficarem bajulando o Lula: "Hoje, ninguém poder dizer nenhuma palavra que pareça ser antipática, crítica ou hostil a Lula". Depois de ter comparado Lula com Obama, chamando-o de “analfabeto”, “cafona” e “grosseiro”, o artista passou a ser hostilizado por alguns segmentos petistas. Em entrevista ao jornal O Globo, o baiano alegou que apenas reafirmou o óbvio, que sempre foi usado até para enaltecer a trajetória de Lula, e reclama da posição, para ele antidemocrática, dos que rejeitam qualquer tipo de crítica à figura do presidente – clique aqui e leia.
Mas, nessa última eleição realizada pelo Ministério da Cultura, o favorito do público foi o de tema espírita (e muito bom) "Nosso Lar"clique aqui e leia a minha resenha. A produção teve 70% dos votos, seguida do também espírita "Chico Xavier" (12%), "Os Famosos e os Duendes da Morte" (8%), "O Grão" (2%) e "Antes que o Mundo Acabe" (2%). E você, leitor inteligente do LITERATURA CLANDESTINA, concorda com a escolha de "Lula - O Filho do Brasil"? Participe e mande também seu sinal de fumaça!


* Anna Carvalho é professora de literatura em Salvador e co-autora de Elenilson Nascimento em “Clandestinos” (2010) e “Diálogos Inesperados Sobre Dificuldades Domadas” (2005). Contato: carvalhoanna141@gmail.com
fotos e charges: divulgação
filme on-line: Rede Filmes Online

quinta-feira, 23 de setembro de 2010

ENTREVISTA COM O POETA EDINEY SANTANA

“Discuti-se a fome em jantares maravilhosos, o problema da saúde é discutido por gente que nunca entrou em um hospital público e o pior nossa vida é planejada por gente que não tem o mínimo amor por ela.” (E.S.)
Por Elenilson Nascimento
O professor de literatura e poeta Ediney Santana nasceu em Mundo Novo (Chapada Diamantina-BA), vive em Santo Amaro e trabalha em São Sebastião do Passé. Formou-se em Letras Vernáculas pela Universidade Estadual da Bahia. É membro do Partido Comunista do Brasil, militou no Movimento Estudantil e hoje leciona literatura. Em 2002 publicou seu primeiro livro de poemas “Até que a eternidade nos uma” (Uefs), em 2004 o seu segundo livro “O Evangelho do mal” (Papel Virtual Editora). Em 2006 publicou o seu terceiro livro “Anfetaminas e arco-íris” (Laetitia Editore). Além de tudo isso, escreve contos regularmente em seu blog pessoal, e vem ao longo dos anos se dedicando as mais dignas causas sociais. É um homem de paixões, seja na luta pela inclusão social, seja na luta em defesa dos direitos humanos, Ediney Santana assume vários papéis e todos eles se encontram em sua produção poética. Abaixo, entrevista inédita que nos deu a honra de conceder. Um poeta admirável. Um cara incrível.
Elenilson – Eu penso que o artista precisa ter muito cuidado com deslumbramento, badalação e "gloriazinhas fáceis". E o que o poeta acha?
Ediney Santana – Há por aí muitos artistas mais famosos que talentosos ou importantes mesmo do ponto de vista da arte. É bom e todo mundo quer ser reconhecido pelo trabalho que faz. Nunca busquei fama, busco algo mais difícil que é sucesso, enquanto as "gloriazinhas fáceis”, há quem goste, prefiro
sonhar ter a importância de um Augusto dos Anjos que publicou só um livro e a revelia da mídia ou da cítrica literária brasileira é um dos poetas mais lidos do país.
Elenilson – Gostaria de saber sua opinião sobre a presença de escritores na rede. Parece que a literatura, mais do que a música, o vídeo, o teatro, etc., se moldam perfeitamente nesse veículo. O que você acha?
Ediney Santana – Tenho a mesma impressão, na internet a palavra escrita encontrou um lugar favorável, leio muita gente que publica na rede. Nela é possível, a cada momento, encontra milhares de autores, muitos com real talento.
Elenilson – Uma vez li em algum lugar que os escritores tendem a desenvolver um estilo parecido com os autores que admiram... Quais são seus autores favoritos? Eles influenciaram no seu estilo de escrever?
Ediney Santana – Tenho muitos autores do coração: Graciliano Ramos, Karl Marx (este assassinado pela esquerda brasileira), Gabriel García Márquez, Antonio Brasileiro, Ildásio Tavares, Anna Akhmátova, Mariana Ianelli, Manuel Bandeira e tantos outros. Cada um teve sua participação na minha permanente construção, como leitor e escritor.
Elenilson – Poeta, o que você acha dessa capacidade do ser humano de diminuir e ridicularizar o trabalho do semelhante – e, principalmente, o que acha dessas pessoas que não são nada e não fazem nada? Você acha que ainda vale a pena tentar fazer cultura nesse país de ignorantes?
Ediney Santana – A crítica pela crítica é estupidez. Você pode avaliar o trabalho de qualquer pessoa desde que tenha condições culturais para isso, ao criticar o trabalho de alguém é necessário uma apropriação do objeto a ser criticado, como posso falar bem ou mal de algo ou alguém que nem sei o que é o
u representa? Acredito também que todo mundo é alguma coisa, ninguém nasce para o nada, talvez alguém possa estar no lugar errado, no trabalho errado, mas, essencialmente, todos somos alguma coisa. Mudar de foco, visão, buscar entender o que se passa consigo e com o próximo é um bom começo para sair de uma vida estanque e construir ações positiva nos papeis que todos assumem enquanto sujeitos históricos e singulares. Todo ser humano é um agente político e cultural. O grande e talvez o único problema do Brasil nas suas relações não só culturais é que há muita gente ignorante em cargos de gestão pública no país, secretarias e ministérios com algumas exceções estão mais para organizações criminosas do que para fomentadoras culturais, essa ignorância no gerir vidas é algo terrível para um país que busca há tanto tempo auto-afirmação
Elenilson – Como é o seu processo de criação?
Ediney Santana – Escrevo todos os dias, escrevo canções e agora estou aprendendo a fazer pequenos vídeos-textos. Espero que as coisas melhorarem um pouco para comprar alguns equipamentos de multimídia. Escrevo não de mãos dadas com inspiração, mas com minhas cismas e inquietudes, sou muito inquieto e isto passa para o meu fazer arte. Se vivo dias de alegria sai coisas leves, se não sai onitino misturado com tamanduá.
“Sempre achei que as universidades e, agora, o Enem, poderiam ajudar na divulgação de novos escritores e bons escritores do passado que estão esquecidos nas bibliotecas colocando suas obras nas provas e vestibulares, mas o curso de Letras é tão desprestigiado que nem isso os doutores da palavra conseguem fazer.”
Elenilson – Caro Ediney, por você ser um cara extremamente politizado, gostaria que discorresse a esse respeito: “quando as críticas de pessoas que não lhe conhece ferirem mais que as palavras”.
Ediney Santana – Lembrei de um pequeno texto do Machado de Assis, no qual ele descreve um cara de poucos amigos, alguns relacionamentos e vive para os livros, esse sou eu. Não tenho tanta preocupação com o que dizem sobre mim. Aqui em Santo Amaro sofri muito enquanto fazia do que diziam de mim algo de relevante para minhas afirmações, mas aos pouquinhos vou vencendo minhas improbabilidades; estou sendo feliz, construindo a cada dia minhas felicidades sinceras e como escreveu Torquato Neto “só quero saber do que pode dar certo”. Hoje sei o quanto é preciso dizer adeus a pessoas ou coisas que não somam mais, mesmo que as ame, só amor não significa parceria com o futuro tão pouco alegria no presente, por vezes é melhor o ferir de palavras alheias que sussurros em cama mentirosa.

Elenilson – Você teve recentemente uma pequena matéria publicada na revista “Muito” (A Tarde) – clique aqui – , o que significa que você é um dos poucos do "ramo" que não atinge apenas um público devorador de poesias. E eu gosto disso. Como você encara isso?
Ediney Santana – Cheguei até a revista por acaso, sempre troco meus livros com outros
autores, então encontrei a Kátia Borges e o seu “Ticket Zen”, livro que me deu prazer à leitura e abrir de olhos nestes versos: “Absurdo não é crer, mas ser incrédulo e se achar imune a qualquer mistério”. Gostaria de ter encontrado esses versos antes, teriam me ajuda na tomada de posição em relações a alguns assuntos. Cometi muitos erros de análise política e cultural, há um preço a ser pago, ninguém vive impune a vida, não há contemporização quando semeamos emoções sobre corações equivocados. Não sabia que a Kátia era editora do A Tarde, sabia que era jornalista. Fiquei feliz pela sua gentileza e de como me recebeu na “Muito”. Domingo pela manhã um vizinho meu disse: “Parabéns não sabia que tínhamos um escritor aqui na rua”. Na questão de ter pessoas não só poetas me lendo é gratificante, mas não sou ordoxamente um poeta, gosto da palavra, escrevo poesias e não me deixo nem um pouco sem a emoção da prosa ou das letras de música. Mas é a poesia minha senhora absoluta, com ela sou mais completo.
Elenilson – O que você quis dizer na “Muito” sobre o livro digital: “O livro de papel ao contrário do digital não é só uma mídia, ele em si é um bem cultural”. Sinceramente, achei romântico demais, porém, não é isso que anda acontecendo.
Ediney Santana – Mas, meu caro, sou um sujeito romântico. Sabe a música daquele cantor Vander Lee “Românticos são tipos populares que andam pelos bares...”? Então, quer saber como me sinto e quem sou mais ou menos é só ouvir aquela canção. A indústria cria e quer vender, ela nos convence que um telefone celular não serve só para falar então lança celular geração 2, 3 e todo mundo sai correndo para comprar o novo celular que de novidade tem alguns botões coloridos. A mesma coisa é sobre o livro digital, um país no qual a maioria das cidades não tem nem internet ou bibliotecas como pode falar em substituição do livro impresso pelo digital? Primeiro deve-se popularizar o acesso ao conhecimento depois discutimos se vai ser de papel ou não. Há muitas pessoas sem acesso nenhum a educação e cultura, não penso nos que podem comprar livros impressos ou não. No Brasil há esse elitismo em torno de debates que abordam questões sociais. Discuti-se a fome em jantares maravilhosos, o problema da saúde é discutido por gente que nunca entrou em um hospital público e o pior nossa vida é planejada por gente que não tem o mínimo amor por ela. Nossa vida é mera estatística, transformada em números, lucro na bolsa da miséria que enriquece essa gente. Somos vidas digitais, sem dor, alegria ou necessidades reais. Penso em quem deve ser incluído, em quem talvez nunca vá ler um livro meu tão simplesmente por ser artificialmente mantido no analfabetismo pelo criminoso sistema político do país. É claro os intelectuais do sistema defendem o bolsa estupidez, intelectuais de sistema querem cargos e poder e não ajudar a escrever uma história de solidariedade para o povo deste país. O livro digital é uma mídia e deve ser usada, mas não dou importância às empresas que querem vender seus produtos colocando na cabeça de todo mundo que o livro impresso está no necrotério. O Brasil não é a Europa, no Brasil a tecnologia ainda é sinônimo de status ou manutenção do poder por pequenos grupos e não simplesmente uma condição para tornar a vida das pessoas melhor. Não tenho nada contra o livro digital, agora mesmo acabei juntamente com Herculano Neto de publicar o livro “Mais uma dose” que pode ser baixado gratuitamente na internet pelo blog www.laetitiadigital.blogspot.com
Elenilson – Você aparenta ter menos de 30 anos rapaz. Você acha que o motivo dessa "cara de menino" é que realmente a poesia alimenta a alma? Acha que poesia é como sexo: faz bem pra pele?
Ediney Santana – Ora, ora agora você errou, tenho 36 anos, já me aparecem uns pequenos fios de barba branca. A poesia é sexo, guerra, paz, absurdo, leveza e tantas coisas as quais vivem entre nossos intestinos, estômagos e alma. Quase todas as mulheres que levei para cama foi por causa da poesia. Nisso a palavra é imbatível, se me ouvir por cinco minutos já deixo a criatura balançada. A palavra me fez, a poesia me permite viver e suportar esse nosso mundo, faz bem para pele e nos deixa mais seguros para não vacilar diante dos monstros que assolam esses nossos dias nem sempre felizes, ou seja, a poesia é um bom repelente contracultural.
Elenilson – Qual é a maior dificuldade em se publicar um livro (principalmente poesias) no Brasil, principalmente, mornado no interior?
Ediney Santana – Excetuando-se meu primeiro livro “Até que a eternidade nos una”, publicado em 2002 pela Universidade Estadual de Feira de Santana, todos os outros foram pagos pelo meu trabalho como professor. Editar um livro ainda é caro e, no caso de livros de poesias, as editoras não tem interesse. Sempre achei que as universidades e, agora, o Enem, poderiam ajudar na divulgação de novos escritores e bons escritores do passado que estão esquecidos nas bibliotecas colocando suas obras nas provas e vestibulares, mas o curso de Letras é tão desprestigiado que nem isso os doutores da palavra conseguem fazer. Veja como é o Brasil, o curso de Letras cuida do maior bem cultural de um povo que é sua língua e é um dos cursos de menor influência acadêmica e política na sociedade, cada vez mais atrai menos pessoas, isso não é por acaso é uma questão política. A ordem é criar cursos técnicos, educar para transformar corações em máquinas. Observo nos cursos técnicos o quanto as questões humanas não entram na pedagogia que dão sustentação a eles. É uma pena que os cursos de humanas estejam sendo desarticulados para que o nosso Brasil continue assim com o povo olhando sempre para o futuro enquanto não tem presente algum. Alberto Valente é um historiador, tem vasto conhecimento sobre história do Recôncavo, fala sobre temas históricos espinhosos com segurança. Sabe o que acontece com ele? Pena para conseguir apoio para publicar seus livros e ainda não conseguiu publicar nenhum. O motivo é simples: um país que pouco liga para o seu presente vai ter interesse em ouvir os ecos do seu passado? Ainda mais que são ecos que revelam o porquê das muitas desordens políticas e culturais dos nossos dias.

Elenilson – O isolamento cultural, segundo você, não é mais um problema. Então, qual a maior dificuldade de um poeta hoje?
Ediney Santana – É lidar com um mundo o qual não tem tempo mais para si mesmo, um mundo automático, de gestos repetitivos, razões mesquinhas. Um mundo no qual amar é um perigo, fazer sexo pode ser uma questão de morte, um mundo de belezas vazias, cada vez mais artificializado, um lugar inseguro. Abre-se um espaço enorme na mídia para se discutir se o livro impresso vai ou não acabar enquanto de cada dez eleitores no país cinco são analfabetos. Tenho lutado para não entrar em pânico, cuidar melhor da minha saúde, tenho uma filha, Renata Maria (foto ao lado), ela precisa de um pai sem stress, um pai que contribua para fazer pequenas diferenças na rotina sem muita graça a qual quase não conseguimos fuga. Como poeta tenho dificuldade para viver neste mundo seco, de arame farpado nos corações, um mundo doente a nos apodrecer a alma, um mundo que há tempos meu amado Augusto dos Anjos já fazia poeticamente uma radiografia terrível. Como poeta tenho liberdade para falar essas coisas, como poeta não sou triste ou deprimido sou arrogante com esse sistema podre que vive a nos oferecer flores envenenadas em gás carbônico. O poeta tem a responsabilidade de ser irresponsável com esse mundinho previsível que querem nos fazer acreditar ser o único possível, mantenho o mesmo espírito rebelde da juventude, se levarmos a sério o sistema ele nos convence de que tudo é como sempre esteve e sempre será e o quanto nossa irresponsabilidade com os seus mandamentos é inútil porque um dia todos estaremos de ternos, gravatas e presumíveis emoções no altar dos dias.
Elenilson – Então, você, como um poeta de grande talento, como encara a arrogância da elite cultural desse país que não tem tempo de contemplar a verdadeira poesia em versos não muito convencionais?
Ediney Santana – O elitismo cultural não me interessa, a internet tem me mostrado muitos artistas maravilhosos, os elitistas estão sempre onde estiveram. Se eles não gostam da minha poesia paciência.
Elenilson – “Trato a literatura não como receita médica, não como algo para ser administrado em dose para curar a ignorância cultural de ninguém, tratamos a literatura com um tabuleiro no qual todas as devassidões e santidades são possíveis, não reverenciamos aos “gênios”, cada autor é lido, debatido, se necessário xingado, muitos amados” (na revista “Muito”). Achei isso lindo! Mas como é que você espera que os professores ensinem literatura dessa forma já que a maioria não gosta de livros?
Ediney Santana – Quando estudei na UFES ganhava dinheiro escrevendo trabalho para muitos colegas, todos professores. O professor deveria sempre primar pela cultura e ética, mas não é sempre assim. Sei de gente que fez o curso de Letras todinho sem ler um só livro. Sabe onde está essa gente toda? Nas escolas “ensinando”. Há maravilhosos professores, talentosos e dedicados, mas nem todos são assim, falta comprometimento ético, formação correta desses profissionais, valorização da própria carreira de magistério. No entanto é muito cômodo achar que o único problema do professor é salarial, fui secretário da educação em Santo Amaro deixei o cargo ao perceber o quanto não há comprometimento político para com a educação. Sem autonomia um secretário é tão somente um capacho para assinar o que narco-prefeitos querem. Se não forem tomadas medidas sérias para coibir a apropriação indevida dos recursos da educação tão cedo o Brasil não vai ser o país que tanto desejamos.
Elenilson – Acha que hoje é mais difícil de publicar do que no tempo do Álvares de Azevedo?
Ediney Santana – Não, hoje é mais fácil, pois no tempo do Álvares só a elite publicava
Elenilson – No seu artigo “Gambiarras culturais” – clique aqui –, você escreveu que: “Quando Gilberto Gil foi Ministro da Cultura ele nos provou que nunca deveria ter deixado os palcos. Gil acabou “entregando” o Ministério ao seu amiguinho Juca Ferreira. Juca, todos os dias, deve acender uma vela para São Gilberto Gil; ter um amigo como esse pode valer, como valeu, um cargo de ministro. Juca só era amigo da pessoa certa na hora incerta para a cultura nacional”. Como você encara o nepotismo, apadrinhamento e todas as outras mazelas que temos na nossa política de quitanda no nosso país?
Ediney Santana – Uma tragédia para o país. A política no Brasil é clientelista quando não raro criminosa. Bons políticos como o senador Cristovam Buarque não tem chance alguma para realizar muitos dos seus projetos. Há uma condescendência com narco-políticos que controlam parte considerável do Estado Brasileiro. Aplaude-se a polícia matar pessoas como se fossem baratas, grupos de extermínio formados por servidores públicos da área da segurança e acha-se normal um Paulo Maluf ter meio milhão de votos. Na Bahia, este ano, inúmeras pessoas morreram de meningite, o governador só mandou vacinar parte da população depois que a impressa denunciou como a questão era tratada de maneira irresponsável pelo governo. O mesmo governo que se recusa a vacinar as pessoas vai gastar milhões de reais para construir um estádio de futebol para dois times pernas de pau matarem do coração seus torcedores, o mesmo governo que não tem nenhuma política pública para tratamento de dependente químico está segundo as pesquisas já eleito no primeiro turno. Como você pode notar a deseducação do povo é eficiente, há um povo o qual pouco se lembra da beleza que é ser gente. Por essas e outras meu voto para presidente é Marina Silva.

“O Ministério da Cultura é um péssimo exemplo de como má gestão e incompetência humana transformam um país em uma grade senzala de fieis escravos.”
Elenilson – Uma vez numa escola de segundo grau, minha coordenadora me proibiu de trabalhar com o "O Ateneu" de Raul Pompéia, pois, segundo ela, o livro tem uma temática gay. Tive o mesmo problema com "O Crime do Padre Amaro". Você, como professor, o que acha dessas pessoas que não conhecem a obra e o autor, mas se sentem no direito de criticar assim mesmo?
Ediney Santana – Qual o problema do livro ter uma temática gay? Já trabalhei “Bom-Crioulo”, de Adolfo Caminha, primeiro romance gay da literatura brasileira. O problema não é se sua coordenadora conhece ou não os referidos autores, o problema é que ela é preconceituosa e ser preconceituosa é mais perigoso do que ser ignorante. A ignorância tem jeito já o preconceito...
Elenilson – A globalização da economia aumentou o que, embora impropriamente, se tem denominado com o aumento da exclusão social. Porque alguns jornalistas na Bahia não gostam de tecer comentários sobre desníveis sociais? Será que seria muito feio escrever sobre pobreza na capital do axé?
Ediney Santana – Depende, criou-se no Brasil a sensação de inclusão social. Então é conferência disso, congresso daquilo, lei para isso e não aquilo. As farsas governamentais vão pouco a pouco se transformando em verdades imutáveis. Aqui no Recôncavo muitas senzalas ainda não foram abertas, algumas até servem como pontos turísticos. Senzalas da servidão, do analfabetismo, da cultura plastificada, do medo. Salvador é uma cidade de alegria repetitiva, de vida cultural medíocre. A carnavalização da cidade acabou com suas possibilidades de cidade arte. Creio que uma parte dos jornalistas cumpre o principal papel da impressa que é a de levar informação, no entanto, neste Brasil de ditadura branca a própria imprensa parece ter perdido sua função. Há grandes reportagens com duras críticas e denúncias sobre nossas mazelas sociais, mas como já disse o governo criou uma máquina poderosa de desinformação e propaganda a qual tem como resultado a sensação de inclusão. Então o bolsa família vale mais que qualquer alertar para os riscos sociais os quais todos nós estamos expostos. Os jornalistas deveriam pensar a impressa, se ela é relevante ou não para os dias de hoje que qualquer boato publicado na internet ganha o mundo como cara e ares de jornalismo sério. Um novo jornalismo depende da capacidade dos jornalistas de enxergarem e entenderem as complexidades das relações de poder do mundo e a capacidade que eles têm de interpretar os sinais que ali estão. Por outro lado assim como não há arte totalmente alternativa não há também jornalismo totalmente independente tudo e todos nós acabamos por servir se não há uma pessoa ao menos uma ideia.
Elenilson – A que se crer nos que rezam os intelectuais que veem no computador a tábua de salvação da precária educação no país (clique aqui e leia uma matéria sobre o fracasso da educação), e dizem ainda que a inclusão digital é a mais nova primeira necessidade do brasileiro. Enquanto forjam um processo que pretende "democratizar" a informática, pode estar surgindo daí um novo grupo de excluídos: os brasileiros que, apesar das precárias condições de vida que enfrentam cotidianamente, são colocados agora diante de uma nova necessidade, a de dominar o computador para sobreviver. Desde que começaram a ser instalados computadores nas escolas de ensino fundamental, em 1997, uma seara de autores referenda a crença do governo, mesclada a teorias construtivistas, de que a informatização da educação é essencial para o desenvolvimento do aprendizado e a integração dos alunos com o mundo. O que você acha disso?
Ediney Santana – O essencial para o desenvolvimento do aprendizado e a integração dos alunos com o mundo é um escola que seja parte do mundo e não uma escola observadora da realidade como se dela não fizesse parte. Todos os recursos pedagógicos possíveis devem ser utilizados na formação dos alunos e dos próprios professores. Quando vejo um prefeito ou governador inaugurar uma escola e chama - lá de “modelo” me sinto constrangido por estar sendo governado por uma toupeira. Toda escola deve ser modelo, toda escola deve buscar constantemente se renovar, toda escola deve ter em si as possibilidade de convivência com as diversidades, aliás, deve-se educar para diversidade não para uma presumida igualdade que nunca vai chegar.
Elenilson – Existe algum escritor padrão?
Ediney Santana – Graças a São Machado de Assis não!
Elenilson – Se for inviável artistas, ao menos os críticos, pensadores, teóricos, sei lá, alguém que possa representar com propriedade a classe artística, não as empresas e os políticos, esses têm um pensamento a parte e bastante distante do que pode de fato equaliza as relações entre leis, políticas públicas, poderes privados e a classe artística. Como você analisa essa frágil relação entre obra e público?
Ediney Santana – Para haver lucro tudo tem que ser não permanente, então o gênio de hoje pela manhã quando anoitecer já passou. Criou-se a ideia de que você deve passa a vida toda estudando para não ficar ultrapassado, o que não é verdade. Deve-se é não perder o encantamento das coisas, buscar os mistérios que há nas entrelinhas. A fragilidade entre obra e público vem dessa relação de consumo rápido, da arte prateleira de supermercado, o consumismo das emoções é algo bem lucrativo para o mercado.
Elenilson – Meu comentário anterior se baseia em experiências contraídas (*tentativas frustradas de conseguir financiamento) através de órgãos “culturais” na Bahia. O Fazcultura é uma farsa. A Casa de Jorge Amado só ajuda aos “amiguinhos”. Tive um dos meus livros – que passou exatos dois anos em analisa por não sei quem pelo Fazcultura – reprovado e, segundo não sei quem, ele não tinha condições de ser publicado. Resultado: o mandei para um concurso literário no sudeste e ele ganhou um prêmio de edição. O que posso tirar dessa experiência: em Salvador as coisas não acontecem para quem não tem “amiguinhos” para ajudar. Olha só, a neta de João Durval acabou de lançar um livro com o material que ela usou na monografia e teve até reportagem na TV Salvador para falar que a menina é uma revelação. Revelação com material de monografia, me poupe viu! Sei que você é muito espirituoso com relação às polêmicas, por isso gostaria muito que polemizasse um pouquinho e comentasse isso.
Ediney Santana – A neta do João Durval, certamente nunca estudou em escolas públicas que o avô dela jura ter ajudado a melhorar, nunca precisou trabalhar para pagar seus estudos. Então, o mínimo que se espera é que ao menos uma monografia ela faça direito. No Brasil sobrenome vale como cartão para o mundo visível, filho de não sei quem lança um disco horroroso e a crítica chama de genial, pois no Brasil todo mundo é gênio. Maria Rita não é genial, mas canta bem e é uma graçinha. Rita Ribeiro é a melhor cantora desta geração, mas é... Coitada filha do seu... Quanto aos programas oficiais de incentivo cultural não sei falar, pois desconheço por completo, como disse anteriormente sou eu quem financia o meu trabalho, pouco a mim interessa o que se passa dentro da secretaria de cultura do Estado. Não temos um secretário de cultura, temos um artista em deslumbre com o poder, quando termos um secretário de verdade aí voltamos a conversar sobre isso, por enquanto simplesmente ignoro a existência dessas criaturas.
Elenilson – Em "Liberdade" você escreveu: "Se for necessário peguemos os canhões e matemos os monstro do palácio central. Morte os generais com seus abutres sangra mundos. Olho para o longe. Não há sede de sangue, mas se preciso for. Matemos os facínoras e sobre os seus corpos. Plantemos rosas, rosas a liberdade, rosas aos sertões do mundo”. Parece que você estava escrevendo sobre mim. Lindo isso cara! Como saber se um escritor está preparado para o mercado ou não? Ou essa opinião passa apenas pelas subjetividades de leitores, editoras, etc?
Ediney Santana – Não é você que encontra o mercado é o mercado que te encontra, se tiver algo vendável, ter possibilidade de lucro você é um sério candidato ao mercado.
Elenilson – As empresas deveriam sentir orgulho de patrocinar alguém sim, mas não podem ser lesadas, pois o “produto” patrocinado tem que vender. Mas como é que vai vender se não existe divulgação? A Lei Rouanet, por exemplo, se aplica na sua grande maioria, a produções com capacidade de mercado, o que ao meu ver, não deveriam ser investimento público já que geram retorno financeiro privado. E a confusão entre público e privado no Brasil é grande! Você concorda no uso da Lei Rouanet para patrocinar os que não precisam mais de patrocínio?
Ediney Santana – Não conheço a lei, mas é constrangedor ver o governo patrocinado medalhões das artes os quais não precisam de ajuda alguma, enquanto há tantos artistas por aí que necessitam de incentivo. Vá a Fundação Cultural certamente só pela frieza que será recebido vai se sentir constrangido, enquanto figurões são recebidos com tapete vermelho.
Elenilson – O Fundo mediando o interesse privado, para de fato, se produzir uma política cultural potente e capaz de desdobramentos profícuos. Como você espera que alguém no Ministério da Cultura consiga fortalecer o Fundo Nacional de Cultura e ter gerenciadores capacitados para cada área, fazendo com que a Cultura deixe de ser gerenciada, prioritariamente, pelo interesse do marketing de empresas privadas?
Ediney Santana – Eu não acredito no Ministério da Cultura, ele já enfrenta o problema da falta de verbas, falta de poder político e ainda é gerido por uma criatura sem talento para ser gestor público. Quem manda são sempre os mesmos não importa quem seja o ministro, enquanto não mudarmos a estrutura política do país, sucateada e viciada não iremos muito longe, nossa democracia corre perigo. O Ministério da Cultura é um péssimo exemplo de como má gestão e incompetência humana transformam um país em uma grade senzala de fieis escravos.
Elenilson – A programação da TV brasileira é uma “merda” e recentemente um roteirista norte-americano chamado R. Mckee afirmou que o “futuro da narrativa audiovisual está na televisão”. Se isso for verdadeiro, estamos todos perdidos. Você concorda com isso?
Ediney Santana – Não sei, vamos fazer o nosso presente bem feito para quando chegar esse futuro termos uma participação positiva nele e não bisonha.
Elenilson – Em “Maria, Maria”, é só tristeza, mas, mesmo assim, você deixou bem claro uma coisa erótica no ar: “Vem cá minha perdição. Vare longe tudo que de mim é só tristeza”. Rapaz, a sua poesia rasga e assunta. Isso é proposital?
Ediney Santana – Às vezes sim.
Elenilson – O que você acha de "coisas" como a Lei Rouanet – clique aqui e leia a matéria – que se resume há shows de pagode e axé para multidões?
Ediney Santana – Como na Roma antiga é com nós aqui. O povo já se conformou com a vida bijuteria que inventaram para eles, então o governo é coerente com seus desmantelamentos da capacidade de organização do povo em ir além da diversão, aliás, diversão aqui tem um papel político importe para a manutenção dos corações bijuterias na mesma ordem mansa de sempre.
Elenilson – Como você encara essas coisas de autores como você não ser tão divulgado quanto uma Bruna Surfistinha da vida?
Ediney Santana – Não tenho as pernas que ela tem, os seios deliciosos e uma sexualidade que pula aos olhos, vivo do que meu cérebro produz e quem vai se masturbar com umas coisas dessas? A Bruna, linda, é da vida eu sou do tempo...
Elenilson – Quais os melhores livros que você já leu?
Ediney Santana – São muitos, leio muito.
Elenilson – O que você ainda gostaria de realizar na literatura?
Ediney Santana – Ter meus livros reeditados com um trabalho gráfico melhor, ser lido nas escolas, criar minha biblioteca popular aqui no meu bairro, publicar um livro há cada dois anos, visitar os lugares da Europa histórica onde viveu e vivem muitos escritores que amo, conhecer Gabriel Garcia Marques que humildemente tento plagiar em http://edineysantana.zip.net, ter todos os livros do Murilo Rubião, envelhecer como meus livros em paz e segurança, ter grana para distribuir mais livros pelo mundo, ser feliz como os personagens de um escritor francês.
Elenilson – Já pensou em fazer poesia em parceria? Posso me candidatar a entrar na fila?
Ediney Santana – Nunca fiz, já fiz letras de músicas em parceria, quem sabe até um dia não faremos? Eu acredito no tempo, se você acredita também vamos esperar um pouco, não há fila.
Elenilson – Vou ganhar um livro autografado?
Ediney Santana – É só passar seu endereço que um dia chega em sua casa. Agradeço a gentileza da entrevista, muito obrigado mesmo pelas palavras dadas e pela alegria sincera em teu coração.

“Aqui no Recôncavo muitas senzalas ainda não foram abertas, algumas até servem como pontos turísticos. Senzalas da servidão, do analfabetismo, da cultura plastificada, do medo.”
Ao lado do “poeta marginal preferido”.
“Como poeta tenho dificuldade para viver neste mundo seco, de arame farpado nos corações, um mundo doente a nos apodrecer a alma, um mundo que há tempos meu amado Augusto dos Anjos já fazia poeticamente uma radiografia terrível. Como poeta tenho liberdade para falar essas coisas, como poeta não sou triste ou deprimido sou arrogante com esse sistema podre que vive a nos oferecer flores envenenadas em gás carbônico.”
+ Confira mais um pouco do talento desse poeta (*esse cara é muito bom!):

Blog: http://laetitiadigital.blogspot.com
Contato: ediney-santana@bol.com.br
fotos 1 e 4: Daniel Dórea
demais fotos: Ediney Santana/divulgação

quarta-feira, 22 de setembro de 2010

OS INIMIGOS DE GIL VICENTE NA BIENAL DE SP

“Dois anos após ter sua realização questionada, maior mostra de artes do Brasil retorna em meio à polêmica.”
Por Elenilson Nascimento
Dizem que o ramo da filosofia a que se dá o nome de «estética» inclui um conjunto de conceitos e de problemas tão variado que, aos olhos daqueles que se iniciam no seu estudo, pode parecer uma matéria demasiado dispersa e inacessível. Mas será que esse tipo de coisa é vista e revista nas faculdades e universidades brasileiras? Acredito que não, pois os professores estão muito mais preocupados em cobrar relatórios inúteis em seminários ridículos. Essa impressão pode ser até compreensível, mas ultrapassável. E para quem acompanha os meus textos aqui no LC, já se torna algo cansativo.
Mas, uma maneira de desfazer essa má impressão do total desconhecimento de muitos acadêmicos com relação à estética é começar por esclarecer que ela é, mesmo não parecendo, uma disciplina filosófica que se ocupa dos problemas, teorias e argumentos acerca da arte. A estética é, portanto, o mesmo que filosofia da arte. E talvez por isso, nessa “29ª Bienal de São Paulo”, o artista pernambucano Gil Vicente tenha matado o Lula, FHC, o papa Bento XVI, o presidente do Irã, Ahmadinejad, W. Bush, Ariel Sharon, entre outros líderes políticos.
O artista pernambucano Gil Vicente em frente à polêmica série "Inimigos".
Um ano depois de ter "sua própria realização questionada", a Bienal abriu as portas de sua 29ª edição, com um orçamento de aproximadamente R$ 30 milhões, com um instigante: as relações entre arte e política. E, neste ano de 2010, leva o título de "Há sempre um copo de mar para um homem navegar" (*trecho de um poema de Jorge de Lima).
Antes mesmo de abrir para o público, a 29ª Bienal já causava polêmica. A OAB, como sempre, ofendidíssima por natureza, pediu que ao MP que investiguasse se uma das obras expostas fazia apologia ao crime.
A obra em questão é a série "Inimigos" do artista plástico Gil Vicente. Claro que isso é um exagero, um absurdo, um retrocesso. O fato de partir da OAB é ainda mais desalentador. Mas devemos ter sempre o maior cuidado com as exposições de pensamento num país iletrado como o Brasil. Dizer que a obra do Vicente faz apologia ao crime é o mesmo que dizer que Édipo Rei incentiva o parricídio e o incesto.
Existem muitas definições diferentes do que é arte. Arte pode ser um caroço de feijão pendurado na parede ou até uma calcinha molhada na chuva, mas, infelizmente, hoje em dia, tudo depende de quem assina a obra. Se fosse um Elenilson da vida que tivesse feito essa exposição, talvez nem a imprensa nem a OAB estariam gritando tanto. Isso porque, a arte pode ser coisas diferentes ou ao menos pode ser percebida de uma maneira diferente por cada pessoa.
Então, mais sábio do que ter uma definição do que é uma obra de arte, ou condenar por falta de visão suficiente (ignorância), é pensar que a obra de arte é o que ela fala. Porque nesse caso ela é o que cada pessoa ouve dela. Mas isso não é tão simples, porque muitas vezes ela não é o que ela fala que é. Mas ela é a própria coisa falante, a própria coisa que dentro dela nos fala. E temos, nesse caso, de saber mais sobre a fonte, a origem da natureza falante das obras de arte. Tudo isso é complicadíssimo, muito mais ainda num país desigual como o nosso, onde o próprio presidente acha lindo dizer que é presidente sem nunca ter estudado.
Mas há um problema com esta forma de apresentar a estética: o termo «estética» não tem sido sempre utilizado nesse sentido. E isso não ocorre apenas em relação ao uso comum da palavra «estética»; ocorre também no interior da própria tradição filosófica.
E esse ano, transformado em centro das atenções da Bienal, Gil Vicente se diz surpreso com a polêmica. "Sei que ‘Inimigos’ tem um teor crítico forte, mas não esperava uma reação assim. Principalmente vinda de uma instituição com a história da OAB, com tanta tradição de luta contra a censura", afirmou o artista. E se estamos falando de arte e política, não podemos ignorar uma prática que comunica uma visão de mundo. Mas será mesmo que aqueles que se acham acima do bem e do mau acham isso?
Em entrevista ao site “Terra Magazine”, Vicente ironizou a atitude da OAB e, sarcástico, diz ter uma dívida de gratidão em relação ao órgão. “É um protesto movido pelo meu desencanto”, explicou. E com indisfarçável niilismo, disparou:
“O voto não é só inútil. Percebo que o votar é até um ato criminoso. Você vai, perante um tribunal, que é o tribunal eleitoral, e vota. É o mesmo que escrever: "Autorizo fulano de tal a roubar dinheiro público, sob proteção da lei, durante quatro, oito anos". É só o que eles fazem”, contou. Confira essa entrevista aqui.
Mas esse autorretratos fazem parte da série de desenhos em carvão, que já foi exposta em outras quatro cidades. A OAB quer que as obras do artista sejam retiradas da Bienal, sob o argumento de que faria apologia do crime. A Bienal afirma que vai manter a série na mostra. Tire suas próprias conclusões e confia mais imagens abaixo:
+ Ouça também o escritor Affonso Romano Sant'Anna comentando sobre essa polêmica na Bienal de Artes de São Paulo.
>>> ouça aqui <<<
A Bienal ficará em cartaz até 12/12/10, em São Paulo. A entrada é gratuita. Os horários de funcionamento são os seguintes: de segunda a quarta, das 9h às 19h; quintas e sextas, das 9h às 22h; sábados e domingos, das 9h às 19h. A entrada só é permitida até uma hora antes do fechamento. O Pavilhão Cicillo Matarazzo fica no Parque Ibirapuera (Avenida Pedro Álvares Cabral, s/nº, Ibirapuera). Site oficial: www.fbsp.org.br
podcast: Portal da Metrópole.
fotos: Augusto Gomes/Agência Estado/divulgação