“Quanto a esses críticos, professores universitários e colunistas sociais de jornaiszinhos culturais, eles se fecham em seus guetos intelectuais e passaram a falar entre si, esquecendo-se das obras.”
Por Elenilson NascimentoEsse título neste
post talvez soe muito pernóstico, mas porque “críticos são como eunucos num puteiro”? Nas universidades, nas escolas, nos jornais, revistas e na internet, propagou- se com rapidez uma ideia falsa de que a
crítica literária não tem mais importância e o importante, agora, é a resenha literária. Ou seja, resumiram-se tudo num texto e o cara ainda acha que sabe de tudo!
Isso agradou, principalmente, aos donos de jornais, donos de colégios e faculdades mercenárias que, com os cadernos de resenhas, passaram a ter um novo produto barato e de forte apelo:
listinhas de apostilas para os alunos e leitores tirarem xérox. E, o que é ainda pior, agradou em cheio aos
estudantes deslumbrados dos cursos de Letras e derivados e aos professores horistas menos experientes, que passaram a ter mais tempo para a elaboração de resumos e ainda encontraram uma forma de ganhar alguns trocados.
E o que isso tudo tem a ver com os eunucos no puteiro lá no título? Ora, meu caro, eles sabem como a coisa é feita, mas eles mesmos são incapazes de fazer. Um bom exemplo para ilustrar isso foi o
Wilson Martins, o último moicano da crítica brasileira no entender do ensaísta
José Paulo Paes.
Os últimos 50 dos seus 76 anos, Wilson passou no harém literário brasileiro exercendo o ofício sagrado e execrado de criticar. Meteu o dedo na máquina de escrever elétrica - ele detesta computador - e criticou de
Graciliano Ramos - por ter seus textos segundo ele adulterados - a
Chico Buarque, pelo que chamou de recozimento de
“A Revolução dos Bichos”, de
George Orwell (*que eu adoro!), a
“Zero”, de
Ignácio de Loyola Brandão.
Wilson Martins atacou o maravilhoso poeta
Paulo Leminski, cidadão de Curitiba como ele, mexeu com a esquerda e a direita, futucou feministas e homosexuais, balançou monstros sagrados, tocou nos intocáveis, e passou meio século dizendo o que pensava. Contudo, aproveitando essa história do eunuco, eu preciso desanuviar a mente dessas chatices alheias...
De fato, essas resenhas agradou também, além de todo aquele povinho mercenário sem vícios lá do primeiro parágrafo, aos cadernos de resenhas de revistas semanais, que lucram horrores com as suas
resenhas encomendadas e passaram a ter um novo produto barato e de forte apelo nos influenciáveis e sem leituras. Talvez por isso que a minha resenha sobre o livro
“Budapeste” do
Chico Buarque tenha sido execrada e chamada de “lixo de blogueiro recalcado” por não atender as exigências do circo –
clique aqui e leia.
Recentemente, um colunista e “resenheista” de livros
best-seller para adolescentes retardados, num jornal mineiro de um caderno de cultura, usou meia página do seu glorioso espaço para “tentar” me desqualificar com relação ao
meu texto sobre o livro do Chico. Mas, apesar de não me sentir incomodado, pois já estou vacinado contra esse tipo de gente, me veio uma questão: ele, o colunista social de escritores de livros
best-seller, só se sentiu “magoado” com o meu texto porque
este não repete feito papagaio o que todos os outros já escreveram.
Parece que o mundo aparente nutre-se, nas suas obscuras profundezas, de escritores fantasmas, de colunistas fantasmas e leitores fantasmas. Cada presidente, político, poeta famoso, escritor consagrado, palestrante ilustre, tem seu
"ghost-writer", só para usar um termo que agrada aos mais moderninhos, como no caso do nosso amigo colunista.
Para avançar logo nessa história e provocar essa confusão, Chico Buarque – como eu mesmo fiz questão de escrever na resenha (“é apenas fraco para o quilate de alguém que já escreveu coisas como
"Pedro Pedreiro" e
"Sonho de um Carnaval" ou que em 1965 musicou o poema
"Morte e Vida Severina" do
João Cabral de Melo Neto”), escolheu um foco narrativo centrado num protagonista confuso, sempre narrando na primeira pessoa. Chico nunca esteve na capital húngara, onde a trama acontece, mesmo assim ambientou seu romance lá e, como se estivesse debochando do mundo das letras e das pesquisas, deu a seus “personagens húngaros” os nomes que conhecia da famosa seleção de 1954 que, por essas coisas do futebol, não se sagrou campeã.

Em momento algum na minha resenha eu desqualifiquei a obra do Chico, mas não gosto dessa coisa de unanimidade. Todo mundo tem que achar o “cara” o máximo e todas as coisas que ele faz têm que agradar os “cabeças”.
“Budapeste”, apesar de toda confusão mental, é de fácil leitura, de perturbadora ambiguidade, mexendo um pouco com os leitores fãs do Chico, remetendo a um universo de duplicidade, de enganos, de muita aparência, alimentado por um submundo desconhecido. Mas, é só isso!
Ao contrário das palavras alarmistas do meu fedorento opositor – será que a palavra é essa mesmo? – esse livro de Chico passa bem longe do lugar de destaque na minha estante. Volto a escrever aqui: “o livro tem uma boa fluência de leitura, mas é um porre assim mesmo. E o fato de ser relativamente curto (menos de 200 páginas) ajuda (caso você ache muito ruim, dá pra ler até o final)”.
Talvez a
morte da crítica literária no Brasil é uma consequência do aparecimento de um novo jornalismo, infuenciado pelo estilo americano: vamos sempre falar bem para aumentar as vendas! Porém, os jornais americanos, há muito tempo, não têm mais críticos literários. Eles foram substituídos pelos resenhistas. As editoras mandam seus lançamentos diretamente para os editores dos jornais, que, sem muitos críticos, saem à procura de
autores de resenhas. Lamentável!
Hoje, exagerando um pouco, pode-se pensar que qualquer um pode escrever sobre qualquer livro. Há, é verdade, um bom número de professores universitários gabaritados que se tornaram resenhistas literários, mas eles já não escrevem mais crítica literária. Só escrevem resuminhos para os seus aluninhos! A morte lenta das críticas literárias, pode ser atribuída a várias razões. Devemos pensar, primeiro, caro coleguinha chatinho de jornalzinho de Minas Gerais, que as
faculdades de Letras e Pedagogia não ensinam mais nada. Nem mesmo o que os alunos vão ensinar quando virarem professores. Quanto mais críticas literárias!
A crítica tradicional começou a perder terreno a partir dos anos 60 para o estruturalismo e para a nova crítica de vendagens. Isso trouxe graves consequências para toda uma geração de especialistas em literatura. Hoje vende-se mais uma
Bruna Sufistinha do que uma
Capitu de
Machado de Assis. E isso é patético! Enquanto isso, os formadores de opinião, professores universitários deslumbrados e estruturalistas fazem teoria pela teoria. Porcaria acadêmica para avaliações que não servem para nada, nem para criticar o aluninho-leitor de xérox. Perdem-se em suas elaborações intelectuais, em seus esquemas cifrados e deixam as obras em segundo plano.
Penso que
eu não sou crítico formado nessa tradição francesa, que procura conciliar a atualidade com o rigor. Mas críticos de verdade não se limitam a resumir os livros, a vendê-los em páginas de revistinhas semanais cada vez mais decadentes, mas dizem se essas obras são boas ou ruins e põem suas cabeças a prêmio quando se arriscam a dizer por quê. E esse livro do Chico é um saco!
É claro que, muitas vezes, os críticos erram, eu erro, o meu amiguinho-resenheista de livros
best-seller erra, o
Lula erra e todo muito erra, pois o erro faz parte de qualquer jogo. Mas, ao contrário dos resenhistas, os críticos se arriscam. Por isso eles devem ter, obrigatoriamente, um arsenal teórico para iluminar seus objetos. Já dos resenhistas não se exige aparato teórico algum. Quanto a esses críticos, professores universitários e colunistas sociais de jornaiszinhos culturais, eles se fecham em seus guetos intelectuais e passaram a falar entre si, esquecendo-se das obras. Nas universidades, os alunos não leem mais nada, aliás, leem somente críticas encomendadas. Os próprios escritores passaram a escrever, em muitos casos, para agradar a seus críticos. E Chico, que já foi muito bom, é hoje um desses. E a crítica fica felicíssima, porque a obra passa a ser, apenas, uma confirmação de suas teorias. Essa, infelizmente, é a fisionomia da crítica literária brasileira nos últimos 30 anos.
fotos: divulgação