quinta-feira, 29 de julho de 2010

PALAVRAS FALADAS FADADAS PALAVRAS

domingo, 25 de julho de 2010

FACTÓIDES VIA INTERNET

“O filho do Fábio Jr. se envolve em briga com um videomaker pelo Twitter. O segundo acusa o primeiro de manipular suas fãs para conseguir prêmios.”
Por Elenilson Nascimento
Surgida na internet, a cantora inglesa Lily Allen surpreendeu e fez barulho no ano passado ao pregar contra o download ilegal em seu blog no MySpace. Acabou crucificada na web. Mesmo tendo também se posicionado contra a postura passiva das gravadoras com relação à rede e defendido a criação de novos canais para a comercialização de música online. Cansada, ameaçou abandonar a carreira e escreveu em seu Twitter que era uma "neoludita", em referência ao ludismo, movimento contra a Revolução Industrial. Por enquanto, só largou o Twitter, que está sem atualização. Esse foi apenas mais um capítulo de uma longa briga entre o velho e o novo na cultura do entretenimento, e que começou, acreditem, muito antes do MP3 ou da internet – precisamente em 1877, ano em que o fonógrafo foi inventado.
No Carnaval de Salvador, neste ano, uma suposta “briga” entre as cantoras Ivete e a Cláudia Leitte (*com dois "Ts") não existiu de fato, mas foi alimentada pela péssima imprensa fofoqueira de Salvador com títulos e manchetes que colocaram as “musas” do axé em cantos opostos do mundo musical. O certo, contudo, é que as duas dividem o mesmo público alienado de sempre, mas a busca das duas por visibilidade começa com a própria assessoria de imprensa das artistas. Chove e-mail com fotos, declarações e outros factóides nas caixas postais dos veículos de comunicação e em blogs de cunho cultural, principalmente aqui na LC – clique aqui.
Torcidas organizadas de times de futebol também agendam brigas via internet, como foi o caso dos palmeirenses e dos são-paulinos que entraram em confronto no clássico entre os dois time, no mais recente Campeonato Brasileiro. Conclusão: paus, pedras, barras de ferro, 20 feridos e mais de 150 pessoas levadas para a delegacia. Em fevereiro último, as cantoras Courtney Love e novamente a já citada Lily Allen trocaram acusações via Twitter. E, durante uma premiação da revista britânica “New Music Express”, elas discutiram e tiveram de ser separadas. Aqui no Brasil, uma outra história bizarra envolvendo a Xuxa, o Twitter e chilique invadiu a internet – e posteriormente os jornais, programas de TV, rádio, conversas no banheiro, etc e tal – clique aqui.
Mais recentemente ainda, duas espécimes desse meio virtual também se degladiaram via internet. O sempre péssimo ator da geração “Malhação”, que a Globo quer por quer transformar num novo ídolo da juventude, e vocalista da igualmente péssima banda emo Hori, Fiuk, filho do eternamente romântico Fábio Jr. (*esse já foi muito bom), começou uma dessas discussões sem fundamento com um videomaker de nome Felipe Neto por meio do Twitter na última quarta-feira, 21/07.
Com o sugestivo nome de “Fiukar”, o vídeo publicado pelo Felipe em seu canal no Youtube critica a forma com que o “ator” filho do Fábio Jr. interage com as fãs, “uma massa de manobra manipulável”, segundo o videomaker. Já no Twitter, Fiuk cultiva uma legião alienada de fãs que se autointulam “Fiuketes”, e que não gostaram do vídeo e, como agora é muito comum, divulgaram um tópico “CALA BOCA FELIPE NETO” (*puxa, que imaginação!) ocupava a terceira posição nos trending topics do Brasil.
E como briguinhas de criancinhas no Jardim de Infância (*se bem que até supostos adultos também fazem isso com frequência) , em resposta, Fiuk postou: "Ae, Felipe Neto, você é muito bom cara! Só não mexe com quem está quieto. É triste ter que falar mal dos outros para fazer sucesso. Mas ficou engraçado". Felipe respondeu: "O Fiuk é tão genial que conseguiu usar o mesmo argumento das suas fãs de 11 anos. Exemplo de como lidar com público alvo, a gente vê por ali. Mas relaxa, Fiuk, eu sei que precisei falar mal dos outros pra fazer sucesso. Azar o meu, não nasci com papai famoso". E o “ator” ainda insistiu: "Felipe Neto, que azar. Nem com o papai famoso e nem talentoso (risos)", e Felipe respondeu: "Fiuk: Talento? Você falou de talento? Desisto, mano. Boa sorte ae! HahUHAUhauHAUHuha".
Mas o que esperar de uma juventude que se comove com vampiros e lobos brigando no cinema, mas que é incapaz de ter um posicionamento político e social? Eu creio que a primeira noção de cidadania que um indivíduo deveria ter é de que faz parte de um grande organismo social, mas o que temos visto ultimamente é a sonegação e até mesmo a vergonha de expor em público o fato de não sermos essa massa de manobra catequizada pelo sistema. Talvez o Felipe Neto esteja certo com suas indignações, mas talvez também ser um completo inútil e descompromissado com arte seja só o que alguns tenham para conquistar o seu lugar ao sol. O tempo que vocês perdem brigando via internet poderiam ter aberto um livro, mas eu achei o vídeo interessante. Confira o que provocou a polêmica:

fotos: divulgação

sábado, 24 de julho de 2010

SOMOS CACHORROS VIRA-LATAS?

"Gravar no Brasil foi bom, pois pudemos matar pessoas, explodir tudo e eles diziam obrigado. Diziam obrigado e tome aqui um macaco para levar para casa!" (Sylvester Stallone)
Por Elenilson Nascimento
O título acima parece até um mantra orgástico que, embora, implícito, empírico e estúpido perpassa por todas as mensagens publicitárias com as quais o mercado das “bundas” e da ignorância no Brasil invade, sem pedir licença a consciência de quem não tem nada a ver com a nossa realidade.
Se hoje em dia os postes, muros, ruas, corredores de tráfegos, sinais de trânsito, páginas duplas dos principais jornais e anúncios estrelados por globais nas emissoras de rádio de televisão vendem que aqui tudo se compra e tudo se “dar”, exatamente como as bananas no passado na cabeça da Carmem Miranda ou, mais recentemente, a oferta tão “significativa” de imóveis para as classes mais abastadas, tudo prometendo distância e proteção em relação à massa de pobres que cerca qualquer área das capitais desse Brasil de Copa de 2014, apartheid escancarado é ainda muito pouco.
PRECONCEITO I – Mas quando se fala em disparates podemos lembrar aqui dos recentes casos de brasileiros deportados pela Espanha e, como uma briga de crianças no jardim de Infância ou nos bancos de faculdades, dos espanhóis deportados pelo Brasil. Uns colegas me contaram que, depois de terem sido impedidos de entrar na Espanha, depois de 26 horas no aeroporto espanhol, voltaram pelo mesmo vôo 083, da Air Europe, apenas com a bagagem de mão e a promessa de receber as demais malas mais tarde. Eles foram deportados!
Chegaram em Salvador indignados, revoltados e irados. “Fui tratado como cachorro”, contou um deles, um jovem de 22 anos, que usaria Madri apenas como conexão para Milão, na Itália, para passar uma asemana de férias. Já meu outro colega, um dentista de 46 anos, concorda com o primeiro e me contou detalhes do tratamento recebido na Espanha. “Pela noite, vieram com uma lanterna e colocaram na cara de cada um, pedindo silêncio. Nos acordaram batendo nas portas, como se fôssemos presidiários. Para tomar banho, não nos deram toalha. Tivemos que nos enxugar com lençóis”, disse.
Eles me disseram ainda que ficaram com mais de 200 pessoas, de diferentes nacionalidades, nas primeiras horas no aeroporto de Madri. Esperaram cinco horas até ter o primeiro contato com a polícia espanhola. Horas depois de responder a perguntas como “quanto dinheiro traziam” e o “que iriam fazer no país”, teriam sido obrigados a assinar um documento sem ter direito a ler o conteúdo. O documento era um certificado de negação da entrada no país.
PREJUÍZOS – Os dois baianos perderam R$ 1.800 só em passagens e ainda aguardam todas as roupas e outras bagagens chegarem nos próximos dias. A experiência deixou o mais jovem “muito irado”, como ele mesmo diz: “Eu queria ir ao banheiro e não permitiram”, relatou. “Se duas pessoas levantassem juntas para pegar café, um policial espanhol gritava e mandava separar”, disse o dentista. Ele destacou que os policiais andaram com armas à cintura o tempo todo e considerou o tratamento violento. Ambos ainda não sabem de que forma pedirão indenização pelo constrangimento que passaram, além do prejuízo financeiro. “Depois de nos obrigarem a assinar isso, trouxeram um advogado de mentirinha, que nem falava espanhol, para nos ajudar. Uma farsa”, acusou meu amigo dentista. Ele portava mil euros, cartões de crédito, tinha comprovante de reserva em hotel próximo a Barcelona e passagem de volta. Mesmo assim, não pôde entrar na Espanha sob a justificativa de “falta de documentos adequados que justifiquem o motivo da permanência”.
O dentista que mora em Salvador e no Rio de Janeiro, contou ainda que teve todos os pertences apreendidos: notebook, MP4, celular e máquina fotográfica. No voo no qual estavam os baianos expulsos da Espanha vinham seis espanhóis e um italiano que também foram repatriados, após desembarcarem no Aeroporto Internacional de Salvador, na madrugada dessa sexta-feira.
PRECONCEITO II – Que a imagem do Brasil lá fora sempre esteve ligada à violência, prostituição e ignorância, todo mundo já sabe. E parece que os “passeios” do presidente Lula nesses quase oito anos na presidência da República com o objetivo de colocar o Brasil entre a nata no mundo não foi suficiente para limpar a “merda” feita durante décadas.
Essa semana, o bombado ator Sylvester Stallone que estava no Brasil fazendo as filmagens de mais um filme de ação para os fãs sem cérebro, zombou do espírito “boa praça” dos brasileiros e chamou atenção para a falta de segurança. "Gravar no Brasil foi bom, pois pudemos matar pessoas, explodir tudo e eles (*os brasileiros) diziam obrigado", declarou ele, antes de completar: "Diziam obrigado, obrigado e tome aqui um macaco para levar para casa!", disse o Rambo decadente.
Não satisfeito, Stallone insistiu na "brincadeira" ao fim da entrevista, afirmando que a temporada foi boa por "podermos ter explodido vários prédios e todos ficaram felizes e ainda trouxeram cachorros-quentes para aproveitar o fogo". O astro hollywoodiano, que já havia sugerido problemas com a equipe de filmagem no Rio de Janeiro também fez uma série de piadas de mau gosto sobre a violência local – dizendo que foram necessários 70 seguranças para garantir o bem estar de sua equipe – e sobre o símbolo do B.O.P.E (*Batalhão de Operações Especiais): "Os policiais de lá usam camisetas com uma caveira, duas armas e uma adaga cravada no centro; já imaginou se os policiais de Los Angeles usassem isso? Já mostra o quão problemático é aquele lugar".
A arma que o Stallone usava em seu 1º filme era bem diferente das atuais.
Pois é. E ainda tem gente que vive jogando confetes em todos esses gringos mal educado que aparecem por essas bandas. Mas o que esperar de um ator que durante décadas faz filmes com tanto excesso de violência quanto as rugas na sua cara botocada? Mas o que esperar de um ator que iniciou a sua carreira na dramaturgia fazendo pornô para mostrar “talento”? Ontem, porém, depois de ter virado motivo de piada no Twitter e na imprensa do mundo todo pela sua falta de educação, Stallone se desculpou através de um comunicado oficial pelos comentários pejorativos que fez em relação ao Brasil durante uma mesa de debates, sobre o seu filme "Os Mercenários" - rodado, parcialmente, no Rio de Janeiro - durante a Comic Con, feira cultural que acontece em San Diego: "Sinceramente me desculpo com os brasileiros e a produção do filme. Toda minha experiência no Brasil foi fantástica e falei para todos os meus amigos filmarem lá", escreveu no comunicado enviado pela a sua assessoria de imprensa.
Depois, disse que seus comentários sobre o nosso país eram uma tentativa de fazer piada, mas que exagerou no tom. "Ontem, estava tentando fazer humor e saiu desastrosamente. Não tenho nada a não ser respeito por esse grande país que é o Brasil. Mais uma vez, me desculpe". Mas esse tipo de coisa acontece porque somos culpados por passar uma imagem de bostéticos e ignorantes ao mundo todo, exatamente como há várias gradações de luxo e lixo ofertadas.
Aqui, quando uma carreira artística está indo pelo ralo, a técnica é o astro virar cantor de pagode (ou de qualquer outro estilo menos trabalhoso), pastor evangélico, político ou, na mais absurda das situações, astro de filmes pornôs. O Alexandre Frota, ator no passado (*sua atuação na novela “Cambalacho” foi bem legal, mas a única) e hoje uma celebridade sem causa e até agora não sabemos para que ele veio, é um bom exemplo.
Com o corpo tatuado, músculos demais e cérebro a menos, Frota se tornou mais um bad boy caricaturado por aqui, fama que o levou para o péssimo programa “Casa dos Artistas” - da igualmente péssima emissora do Silvio Santos - na companhia de artistas de igual padrão que não faziam ou nunca fizeram arte. Com o programa ganhou alguns meses na mídia mas sem ser muito badalado a sua fama de mal não se tornou referência de comportamento para ninguém e ele continuou sendo o que sempre foi: um nada.
Envolvido em escândalos Frota sempre esteve à margem do mundo dos famosos e com uma carreira dessas não se têm muito o que fazer a não ser se tornar a primeira celebridade sem causa a protagonizar um pornô. Além de Frota outros famosos fizeram pornôs como Rita Cadillac, Gretchen, Mateus Carrieri entre outros que ganharam muito bem. Hoje, aos 46 anos, Frota quer suavizar sua imagem: virou evangélico.
E por essas e outras que a imagem do Brasil fica cara vez mais a abaixo da linha do Inferno. Em Salvador, por exemplo, voltando ao primeiro assunto lá no início desse texto, a cereja do bolo da vez é um complexo de “alto luxo” anunciado com estrondo, localizado em um ponto da cidade que não deixa de ser interessante, tratando-se da diferenciação sócio-econômica que anuncia em contraponto à geografia humana que circunda o complexo.
O empreendimento fica na confluência entre o acesso à BR 324, a Rótula do Abacaxi, a Ladeira do Cabula e Pernambués (*já morei lá) aos fundos, com vista privilegiada para o casario pobre que se eleva imponente morro acima ao longo da Avenida Barros Reis. Ou seja: não existe nada mais contraditório do que vender ouro para tolos. Mas nos folders, no entanto, jamais aparecem as palavras Cabula, Pernambués ou Rótula do Abacaxi (*bairros pobres da cidade). Como tudo no Brasil, a assepsia semântica tratou de dissociar esses 'logradouros' do mais novo endereço nobre do Salvador. Ali é simplesmente "Avenida ACM".
E para terminar esse texto que confesso, ficou longo, o cantor Roberto Carlos foi surpreendido com sua voz de "É proibido fumar" inserida na canção “É proibido usar calcinha”, do grupo de funk Jaula das gostosudas. A música foi lançada há 15 dias. Revoltado, o cantor pediu para a assessora de imprensa da gravadora, a Sony Music, retirar a música das rádios. "A gravadora está tomando as medidas cabíveis e já solicitou à ACPM (Associação Antipirataria de Cinema e Música) a retirada imediata da música do ar", informou a assessoria da Sony Music.
P.S. Mas se você tiver coragem e estomago para engolir mais esse imbróglio veja aqui o vídeo do grupo com a música do Rei.
fotos: divulgação

A MORTE SUMÁRIA DE MAIS UM JOVEM E DA ÉTICA BRASILEIRA

“Olho, encantada com a generosidade desta mulher, desta mãe, desta brasileira emblemática que compreende, na dor, o amor de uma mãe transcendendo aos limites terrenos, baixos, sórdidos da incompreensão e da falta de ética neste país.”
Por Anna Carvalho*
Ouvindo falar do drama da atriz Cissa Guimarães que, no auge da dor, disse que se tivesse poder parava as investigações porque o acidente foi uma brincadeira entre meninos. Olho, encantada com a generosidade desta mulher, desta mãe, desta brasileira emblemática que compreende, na dor, o amor de uma mãe transcendendo aos limites terrenos, baixos, sórdidos da incompreensão e da falta de ética neste país.
Por outro lado, o pai do atropelador, do outro garoto, sem generosidade alguma, aliás, que o crime de um outro garoto, em outra casa, no fundo do quintal de um país que, neste semana viu a Justiça ser atacada em sua lógica perversa (o caso Bruno e o seu advogado, um lunático de plantão), pensando que esse alguém, seu filho, seu rebento que deve ter nascido no país certo, deve ter criado no limiar da sua ética privada, deve ter crescido do outro lado, no limbo de um sistema canalha e de ocasião, e foi tentar apagar as provas do crime, do assassinato, consertando o carro do “moleque” que, impunemente, deve ter nascido num lar em que lei, ética, amor, feudo, se confundem com um pedido de desculpas, como uma pedra lançada na janela da vizinha, como um projeto de marginal criado no recesso de um lar em que o amor, o egoísmo, a falta de caráter, grana no banco, podem ser blindados quando o caso seja um assassinato de um outro menino, aliás, no Brasil, os mortos são culpados.
Por isso a família brasileira acostumada a ver novelas, ou a violência vista de uma zona de conforto em suas salas assépticas diante de uma TV plácida, a discutir ou professar ética em diálogos acalorados diante de um copo de cerva, se vê atacada em sua moral maquiada, cômoda e ecóica, quando a marginalia sai da sua linha tênue “favelizada” e abre as portas das casas de classe média, estudam em escolas de classe média, frequentam cultos, missas, têm caras de heróis, são bonitos, brancos, ou seja, não têm cara de bandido, se é que, desde Brasília, bandido tenha cara.
E chegamos na falta de ética desse país, dessa vocação genética do Brasil em justificativas tácitas, desse país em que lei e a falta dela são limites de policiais que recebem propina para liberar um carro que lançou um corpo, um menino, uma vida, um futuro, uma pessoa boa, ética, num caixão lacrado. E essas pessoas que nasceram no país do perverso, da perversidade, da impunidade vão para casa e dormem intactas em travesseiros porque, em larga escala, já têm advogados de plantão para justificarem o incidente e infestarem as ruas de sua moral enviesada.
A outra família devassada, ética, honesta, em lágrimas, neste from às avessas, neste país que até em sala de aula, o aluno “meio canastrão”, que cola, que tira nota baixa é o símbolo de ostentação da falta de valores e que se acha grande, enquanto o outro que é ético, estuda, tira nota boa, é o “bobo” CDF da vez.
Em suma, parem o país porque o bom senso vai saltar e esculpir esta democracia de arremedo em que marginal sai embutindo um riso dissimulado no rosto, advogado vai convocar vítima morta para depor, a morta aparece em foto de costas, que ser Macarrão, Bola, Coxinha é fichinha num país que ser mal é prova de Ordem e Progresso.

*Anna Carvalho é professora de literatura em Salvador e co-autora de Elenilson Nascimento em “Clandestinos” (2010) e “Diálogos Inesperados Sobre Dificuldades Domadas” (2005). Contato: carvalhoanna141@gmail.com
fotos: divulgação

quinta-feira, 22 de julho de 2010

NA MESA COM DONA ZÉLIA GATTAI AMADO

“Ela falava olhando dentro dos meus olhos e as mãos em minha face, com uma admiração muito verdadeira. Ficando surpresa ao saber da minha pouca idade e do meu empenho em abraçar aquele projeto junto às pessoas com anos experiência no mercado.”Por Victor Lacerda*
Como foi enriquecedor poder compartilhar os poucos momentos de aprendizagem junto a esta pessoa incrível que fez de sua passagem por este mundo um fato marcante, uma história de amor e de ensinamento a tantos outros.
No período de maio a julho de 2007, nos reunimos algumas vezes para afinar os detalhes do projeto de exposição fotográfica “Zélia Gattai Amado - Um Olhar Imortal”, realizado na Reserva Imbassaí. Durante este tempo pude conhecer a riqueza que guardava esta ilustre escritora que além de dominar a arte literária se mostrava uma fotografa de rara sensibilidade registrando momentos de uma vida.
Certamente levarei na lembrança, as histórias que a ouvi contar e nunca esquecerei seu jeito singelo de narrar às experiências vividas ao lado de Jorge. Como também ficará marcado e com certeza contarei aos meus filhos o que esta senhora de voz doce me falou em nosso último encontro.
“Pele escura e olhos claros, retratos dessa mistura que é a Bahia, eram dessas riquezas que saiam as inspirações de Jorge para seus novos personagens”, ela falava olhando dentro dos meus olhos e as mãos em minha face, com uma admiração muito verdadeira, ficando surpresa ao saber da minha pouca idade e do meu empenho em abraçar aquele projeto junto às pessoas com anos experiência no mercado.
E foi incrível o tão pouco tempo que aos poucos se transformavam em ensinamentos que dona Zélia deixava para as pessoas que estava ao redor daquela mesa. Todos atentos ouviam os capítulos de uma vida levada com base na simplicidade e saboreando um delicioso sarapatel, prato elaborado especialmente para aquele encontro a pedido de dona Zélia. Segundo ela o que vale na vida é ser feliz, mesmo tendo o colesterol alto e o corpo fora de forma, porém não perder o prazer de saborear um toicinho, sarapatel, rabada, etc.
Dona Zélia era autentica ao emitir suas opiniões, uma dama de vocabulário riquíssimo, um ser humano de coração puro que deixava contaminar as pessoas que estavam ao seu redor pela naturalidade ao tocar nosso rosto, ao não ter timidez em admirar o próximo e falar de sentimentos sem esperar nada em troca.
Ouvir dona Zélia contando piadas de sua época foi algo que eu jamais esperava, e foi muito divertido cair nas gargalhadas ao ouvir aquela narradora que aos 90 anos contava anedotas como uma grande profissional. Eu agradeço as pessoas que me proporcionaram estes encontros e o projeto de exposição fotográfica que fizemos juntos, estas ocasiões serão levadas na bagagem nessa minha caminhada. E fica aqui registrado esta minha admiração.

>>> Exposição (2007) de fotos feitas por Zélia Gattai ao longo de décadas exibe documento singular de personalidades da história recente mundial. Zélia teve a oportunidade única de conviver com alguns dos maiores intelectuais, escritores e artistas, que figuraram na história da segunda metade do século XX. A partir da década de 50, Zélia começou a fotografar momentos da sua vida com o escritor Jorge Amado, sempre rodeada por essas personalidades do mundo inteiro. Várias delas foram captadas pelas suas lentes e ilustram a exposição “Zélia Gattai Amado Fotógrafa – Um Olhar Imortal”, inaugurada no dia 7 de julho de 2007, na Reserva Imbassaí, litoral norte da Bahia. Confira algumas dessas fotos abaixo:
Zélia e Jorge na juventude. Foto linda!
Sartre e esposa, escritora, filósofa existencialista e feminista francesa Simone de Beauvoir. Leiam o livro “Memórias de uma moça bem-comportada” da Simone.
Casal lindo. Foto linda que já virou até capa de livro.Jorge com a filha, Paloma.
Com Saramago.
E com Gilberto Gil.

* Victor Lacerda é empresário do mercado de comunicação, produtor cultural e uma das figuras mais brilhantes que conheci nos últimos tempos. Contato: victor.lacerda@lkcomunicacao.com.br
foto 1: VL/divulgação
demais fotos: Zélia Gattai
fonte: http://victorlacerdaregistra.blogspot.com

MUITA COVARDIA, PANCADARIA, CANALHICE, IGNORÂNCIA E VERGONHA NO FUTEBOL BRASILEIRO

“O técnico do time de Goiás, Emerson Leão, protagonizou uma cena lamentável na noite de ontem em Salvador, com direito a tapa na cara de jornalista e palavrões.”
Por Elenilson Nascimento
“A vida é um eterno perde e ganha”, já dizia o músico Marcelo D2, ao qual não tenho nenhuma admiração ou apego. E complementa: “Um dia a gente perde, no outro a gente apanha” ou “um dia a gente perde, no outro a gente ganha”. Não sei bem, pois a letra se abrigou na minha mente sem permissão, por osmose. Mas ela cai como uma luva quando o assunto é futebol e os nossos falsos ídolos de barro.
Um exemplo crasso do que escrevo aqui e do que vejo hoje em dia, é a idolatria exacerbada a jogadores de futebol. Essa nova leva de ídolos é totalmente vazia, oca e venerável. Vejo várias crianças e jovens dizendo que desejam ser iguais a determinado jogadores quando “crescerem”, elas pecam pela ingenuidade. Mas e quanto aos adultos dementes que idolatram jogadores, que brigam por eles e que xingam por eles?
Jogadores estes que sequer se importam com o nome do presidente da república, que possuem como meta de vida somente ter uma Ferrari, que fogem de lares beneficentes e que matam por se acharem acima do bem e do mal é um desafio muito pesado a minha racionalidade.
Por outro lado, como fiel de uma balança defeituosa, temos essa mídia oca e perversa, que cria esses pseudo mitos, os eleva e os condecora ao status de divindades, os endeusa e os empurra pela guela abaixo daqueles seres fracos de personalidade que possuem uma enorme dificuldade em avaliar a conduta de determinado “ídolo” e, assim, com propriedade e critério, tê-lo como exemplo, como influência, como ídolo no sentido mais literal da palavra ou não. E o caso do goleiro Bruno é a mais pura comprovação do que estou dizendo.
Acusado de agressão, o técnico Leão foi detido pela polícia de Salvador.
Ontem em Salvador, no duelo entre Vitória e Goiás, no precaríssimo Estádio Baradão (*será que vai ser sede da Copa do buraco?), tinha tudo para terminar bem. Bom jogo, apesar de eu não gostar de assistir futebol, com empate de 2 a 2, mas que não merecia um final com pancadaria e agressões do técnico Emerson Leão, do atacante Rafael Moura e da comissão técnica do time do Goiás a jornalistas que estavam no gramado.
Tudo isso depois de uma reclamação do técnico Leão à arbitragem, que inclusive anulou um gol no fim da partida. Leão, no entanto, achou que a arbitragem foi tendenciosa para o time da casa. Logo depois de tentar dirigir-se ao juiz, o técnico discutiu com um radialista da Rádio Metrópole FM, Roque Santos, que foi entrevistá-lo. Depois, houve trocas insanas de empurrões, e o jornalista o acusou de agressão. O tumulto se espalhou pelo campo. Integrantes da comissão técnica do Goiás participaram da pancadaria.
O atacante Rafael Moura, numa versão mais ridícula de Rambo, levou a nocaute o mesmo radialista. Alguns jornalistas e jogadores do Goiás procuravam acalmar os ânimos, mas a polícia,como sempre, só apareceu no fim da confusão. O radialista Roque Santos foi dar queixa de agressão na 10ª DP, do bairro de Pau da Lima, em Salvador. Mas segundo o site do Ibahia, Leão e Rafael Moura receberam voz de prisão e foram conduzidos à DP. A Rádio Sociedade informou que o jogador Romerito também está detido.
O radialista agredido covardemente foi submetido a exames de corpo delito e promete, além da queixa-crime, entrar na Justiça contra o quarteto do Goiás. O repórter revelou ainda que um supervisor e o presidente do time goiano tentaram fazer um acordo para a queixa não ser registrada. Na delegacia, os jogadores e o treinador do Goiás prestaram depoimento, pediram desculpas, mas a queixa foi registrada do mesmo jeito.
A punição para o crime de agressão física "leve" é de até dois anos, mas poderá ser cumprida com pena alternativa. Eu poderia dar mais nomes aos bois da bola, mas não irei fazê-lo aqui, o objetivo deste texto é fazer com que as pessoas reflitam, pensem, analisem, relevem e concluam algo útil em suas vidas, sem querer ser o dono da verdade logicamente, mas, devemos ter cuidado com quem idolatramos, pois na grande maioria dos casos, nossos ídolos estão demasiadamente vazios, mergulhados no caos e não são exemplos de nada, assim como qualquer um de nós humanos comuns, aliás, arrisco-me a dizer que estão muito mais corrompidos do que qualquer “humano mortal” comum, pois em 100% dos casos, estes seres possuem um poder aquisitivo enorme, o que os torna mais senhores de si ainda e conseqüentemente mais aptos a se tornarem falsos ídolos e falsas divindades.

foto2: Ag. Estado

LADY GAGA “BIZARRO” DE DILMA CRIA VÍDEO CASEIRO E FAZ MARKETING VIRAL PARA A MARIONETE DO LULA

“A participação de Zé Manés em campanhas políticas ganhou força em 2008, quando a campanha do Obama à presidência dos Estados Unidos contou com o apoio voluntário de eleitores através da criação de sites, blogs e na produção de conteúdos através das redes sociais online.”
Por Elenilson Nascimento
“Hello Serra, Dilma é favorita pra vencer/Só você não sabe, quer disputar pra quê? Ela sabe que o povo tem fome e quer comer/Sorry, Serra, mas essa você vai perder”. Assim começa o vídeo bizarro, mas que está fazendo sucesso entre os modernosos e fãs de Lady Gaga, intitulado “Dilmagagaboy”, que já teve – até o momento – mais de 156 mil acessos desde sua publicação no YouTube, no último dia 28 de junho.
A paródia da igualmente péssima “Telephone”, da Lady Gaga, foi gravada por um tal de Paulo Henrique Reis, 25 anos (*mas com cara de 10 e mente de quiabo), estudante de publicidade da cidade de Rio Verde (GO) e ganhou repercussão quando a própria candidata do PT à presidência da República, recorrendo aos cada vez mais onipresentes instrumentos de divulgação pela internet e querendo aparentar compartilhar dessas "babaquices jovens", divulgou o vídeo no Twitter com uma mensagem calorosa para o rapaz. “Um grande abraço ao Paulo Reis, o querido Dilmaboy”, twittou.
No vídeo de pouco mais de 3 minutos, Reis dança espalhafatosamente e canta letra de composição própria, na qual compara Dilma a Evita Perón e a caracteriza como “diva” e “sucesso” (que drogas esse cara usa?). A paródia também aponta que “ela não é o cara, mas é amiga do homem”. Aí meu Deus!
Em entrevista – o cara já deu entrevista – ao blog “Galera da Dilma”, mantido por militantes petistas, e também no blog “Papel Pop”, o jovem afirmou que pretendia produzir um “viral” que falasse de política de uma “maneira mais descontraída” (*virais são os conteúdos que rapidamente são consumidos e repassados por centenas de pessoas através da internet, tornando-se assunto de conversas nas redes sociais online). Lembrando também que o Dilmagagaboy está sendo o assunto dos principais meios de comunicação do país. Até a revista Veja gastou tinta para tecer elogios quanto a inteligência do rapaz.
A internet pode até se configurar como um espaço de guerrilha, onde vários ativistas e apoiadores de campanha vão se disponibilizar tanto para lançar mensagens de ataque para minar as forças das candidaturas adversárias, quanto conteúdo de defesa dos candidatos apoiados. Talvez por isso a Lady Gagaga da Dilma esteja fazendo tanto sucesso. A participação de Zé Manés em campanhas políticas ganhou força em 2008, quando a campanha do Obama à presidência dos Estados Unidos contou com o apoio voluntário de eleitores através da criação de sites, blogs e na produção de conteúdos através das redes sociais online.
“Stop, Burns! Stop, Burns! Ela é a nova Evita Perón. Olhe pra ela, ela agora é sucesso!”, diz um dos trechos da bizarrice composta pelo Dimagagaboy, com menção à mártir argentina. Na tradução, a palavra de ordem contra “Burns” pode ser interpretada como uma sugestão de desistência ao adversário de Dilma na corrida à presidência, o Serra, que muitos veem semelhança entre o presidenciável e o personagem Mr. Burns, do desenho animado Simpsons.
No entanto, para a real motivação dos eleitores na produção de conteúdo para as campanhas eleitorais, o Dilmagagaboy aparece como uma figura espontânea e curiosa, o que desperta a atenção da opinião pública. Mas vale investigar até que ponto ele é mesmo um cidadão comum ou se está vinculado ao partido. Me parece que o interesse dele é de autopromoção e para isso divulgou esse vídeo, contudo, eu não voto na Dilma. Se bem que, provavelmente, ela já ganhou. E isso me parece uma ditadura travestida de “cagagagas”! Assista essa “beleza” de vídeo:

fotos: divulgação

quarta-feira, 21 de julho de 2010

ENTREVISTA COM O ESCRITOR ROBERTO CAUSO

“Talvez o nosso olhar hoje seja muito intermediado – pela tela do computador, pelos meios de comunicação... Talvez seja mais difícil olhar nos olhos dos outros.” (R.C.)
Por Elenilson Nascimento
Roberto Causo é escritor, ilustrador, ensaísta, editor, pesquisador, organizador de eventos é, antes de tudo, um incansável e perseverante batalhador em prol da ficção científica, da fantasia e do fantástico, gêneros literários que, para ele, vêm de uma tradição que indaga sobre os limites do real e "bebe de fontes míticas, satíricas, utópicas, romanescas e mesmo científicas, para se realizar como um corpo multifacetado de possibilidades ficcionais, existindo em interação com o mainstream literário, mas não em uma chave de inferioridade artística". A expressão que ele usa para essa linhagem é de "ficção especulativa".
Teve o seu livro “Ficção Científica, Fantasia e Horror no Brasil: 1875 a 1950” (Editora UFMG – Belo Horizonte, 2003) ganhador do Prêmio SBAF 2004, conferido pela Sociedade Brasileira de Arte Fantástica. Como editor foi o organizador de “Dinossauria Tropicalia” (Edições GRD – 1994), antologia temática de ficção científica, reunindo nove contos, um poema e um ensaio sobre o tema “dinossauros”. E de “Estranhos Contatos: Um Panorama da Ufologia em 15 Narrativas” (Caioá Editora – 1998), antologia reunindo quinze autores que, com suas histórias sobre Ufologia. Organizou, ainda, “Ensaios Internacionais de Ficção Científica” (Edgar Guimarães Editor - 1997), uma antologia de resenhas e ensaios sobre ficção científica e fantástico brasileiros. E, também, a “Coleção Império Ficção e Fantasia” (M&C Editora - 1999), uma série de bolso para bancas de jornais e revistas que publicou três volumes, além de ser autor de outros diversos livros.
Elenilson – Causo, antes de tudo, muito obrigado por essa entrevista, mas uma pergunta de praxe: como foi e quando se deu seu encontro com a arte?
Roberto Causo – Minha mãe costumava desenhar para mim e para meu irmão, quando
éramos pequenos. Isso encheu minha cabeça de uma imaginação visual que foi alimentada pela antiga revista “Recreio” que meus pais compravam para nós, e depois com histórias em quadrinhos, televisão e cinema. Mas quanto à literatura especificamente, foi também pelo contato com todas essas formas narrativas de arte popular, que levaram à descoberta, quando eu tinha uns onze anos, de uma série alemã de ficção científica chamada Perry Rhodan, publicada no Brasil a partir de 1975. Foi Perry Rhodan, outra fonte popular, que abriu meus olhos para a FC como literatura. Na quarta capa aparecia: “A maior série de ficção científica do mundo.” Então fui procurar mais livros em que aparecia a expressão “ficção científica” – livros de Isaac Asimov, Ray Bradbury, Arthur C. Clarke e outros. Só comecei a escrever, porém, em 1985, meio que por “acidente”. Eu fazia parte do Clube de Literatura de Sumaré, porque desejava que a biblioteca municipal dessa cidade do interior onde eu vivia bancasse um fanzine de FC. Uma das atividades do clube era uma oficina literária. Por isso eu acabei produzindo um conto, que mais tarde apareceu no fanzine “Hiperespaço N.º 11”. O conto foi bem recebido pelo coordenador da oficina, e mais tarde eu tive outros índices – concursos, publicações – de que levava jeito para a literatura.
Elenilson – Quais dicas você daria para os jovens escritores que desejam ingressar no meio literário?

Roberto Causo – Como o cenário literário está muito embolado, eu acho que o sujeito precisa ter muita paciência. Apesar das facilidades apresentadas pela Internet, construir uma carreira literária é algo demorado e muito contingente, especialmente em um país como o Brasil; depende de sorte, do seu trabalho encontrar uma audiência simpática a ele, de chamar a atenção dos críticos certos. Não há solução mil
agrosa nem fórmula comercial que se possa aplicar indiscriminadamente. E as redes sociais só podem ajudar até certo ponto. Mas, por outro lado, quem sou eu pra dar conselho? Minha situação na cena literária é tão precária que acho que faz uns vinte anos que sou um escritor iniciante!
Elenilson – "Olho em redor do bar em que escrevo estas linhas. Aquele homem ali no balcão, caninha após caninha, nem desconfia que se acha conosco desde o início das eras. Pensa que está somente afogando problemas dele, João Silva... Ele está é bebendo a milenar inquietação do mundo!" Eu amo esse poema do Quintana e sinto o mesmo desespero e desesperança com relação a essa inquietação do mundo. Você acha que os homens deixaram de olhar o olhar do outro ou que isso tudo que o Quintana escreveu é apenas um devaneio?
Roberto Causo – Como eu sou abstêmio, a ideia de “beber a milenar inquietação do mundo” não repercute em mim. Mas como escritor – e como ser humano –, é a condição humana que me atrai, mesmo em um gênero em que o peso da idea pode ser maior do que a caracterização dos personagens. Talvez o nosso olhar hoje seja muito intermediado – pela tela do computador, pelos meios de comunicação... Talvez seja mais difícil olhar nos olhos dos outros.
Mas se há de fato uma carência desse olhar em nosso cotidiano, cabe ao escritor trazê-lo de volta, treinar as pessoas a praticá-lo – e buscar outras expressões da milenar inquietação do mundo que vão além da angústia solitária e existencial por trás do copo de caninha.
Elenilson – Navegando pela I
nternet, dei de cara – dentre as formalidades mais ousadas do ponto de vista plástico-visual e de linguagem – com mais uma página, dentro das milhares já existentes, de um poeta cibernético anônimo. E na telinha do meu PC, solenemente estampado, lá estava um velho soneto novo de Fernando Pessoa. Ou seria um novo soneto velho de Pessoa? Como você encara essa coisa na rede das pessoas “copiarem” e “colarem” o trabalho dos outros como se fosse seu?
Roberto Causo – É um hábito detestável, seja fruto de ingenuidade ou de má fé. Acho que acontece em parte porque às vezes o blog é meio que aquele caderno de adolescente, onde tudo o que está escrito, desenhado ou colado lá ilustra a personalidade do dono do caderno. Comigo nunca aconteceu, mas tive textos de minha autoria reproduzidos sem autorização por aí afora, sem que eu sequer recebesse um aviso (não falo nem de um pedido de autorização) de que algo meu seria aproveitado.
Elenilson – Como você vê a movimentação (ou não) de autores anônimos na Internet?
Roberto Causo – Eu normalmente freqüento apenas blogs e páginas assinadas, mas entendo que essa prática faz parte daquela tendência comum na Internet do sujeito se colocar atrás de um pseudônimo ou codinome, de criar para si uma “persona digital”. Às vezes, até mesmo quem assina não resiste a essa grande máscara que a Internet fornece e assume uma certa performance repetitiva e muitas vezes viciada, da persona que imagina para si. Nisso você certamente tem outra expressão das inquietações do mundo – o desejo de sair de si mesmo ou de ir além dos p
apéis cotidianos. Freud explica.
Elenilson – O que você pensa ou como se sente diante desse panorama literári
o atual, especialmente na área da literatura fantástica?
Roberto Causo – Há uma abertura enorme, com um número recorde de editoras – muitas pequenas, algumas médias, poucas grandes – que dão
espaço a autores brasileiros de ficção científica, fantasia e horror. Mas é preciso entender que pouco disso tem impacto real no sistema literário brasileiro, porque a crítica ainda presta pouca atenção e as editoras pequenas e médias têm dificuldade para fazer os livros chegarem a um número expressivo de leitores. Ainda assim, há pressa para ocupar os espaços nessas 10 ou 12 editoras, e isso pode levar a uma qualidade vacilante. Já publiquei em cinco ou seis, e tenho recebido convites com certa freqüência, e em todos os casos luto contra o tempo e contra as minhas próprias limitações pessoais e literárias, para fazer o melhor possível. Há também um afã de cobrir o terreno temático e conceitual, com os autores novos buscando explorar a alta fantasia, o steampunk, o cyberpunk, o New Weird, a mistura de gêneros, o horror travestido de FC, a fantasia urbana – mas nem sempre com um projeto pessoal ou ajustando essas modalidades ao contexto brasileiro. Tento fazer com isso seja sempre a minha atitude. Uma das tendências mais interessantes do momento é a tentativa de Luiz Bras (Nelson de Oliveira) de fundir a ficção científica à ficção literária brasileira, chamando a atenção para o gênero. Seria interessante que os novos autores buscassem o diálogo intertextual com os pioneiros do passado, de modo a robustecer o nosso próprio viés e fazer uma crítica de como a FC, a fantasia e o horror se instalam entre nós. É o que tento fazer.
Elenilson – Seus textos revelam sempre algo de visceral. Até que ponto você é mais vísceras que cérebro?
Roberto Causo – Legal você dizer isso, porque já ouvi exatamente o contrário a respeito dos meus trabalhos. Gosto desse lado visceral, e tenho uma face anti-intelectual bem forte também. A escritora americana Patrícia Anthony, que morou no Brasil e esteve muito ativa na FC durante a década de 1990, disse que eu escrevo com o coração. O meu dito favorito dentro da literatura é de Raymond Chandler, que escreveu: “
A maioria dos escritores sacrifica humanidade demais por arte de menos”. Não quero fazer parte dessa maioria. E este é outro conselho que eu daria aos iniciantes: tente escrever sobre aquilo que te faz ranger os dentes.
Elenilson – Uma coisa que me irrita muito nesse meio literário são as panelinhas. Eu sou amigo de fulano que é amigo de sicrano e não quero trocar ideias com o anônimo que não é amigo de ninguém. Comenta.
Roberto Causo – Somos dois. Eu sempre busquei me associar a pessoas e grupos, para realizar trabalhos específicos. Já organizei eventos, editei fanzines e revistas de FC, convoquei gente a colabo
rar na minha coluna no “Terra Magazine”, mas acho que a maioria diria que sou um lobo solitário – às vezes hidrófobo. Apesar dessas coisas serem sempre relativas, eu diria que sou e fui alvo de um tipo de “ação entre amigos”. A minha postura é a de me opor a certas lideranças por discordar de suas atitudes, mas admitindo o direito delas de exercer uma liderança. Mesmo na crítica literária, algo que nunca fiz foi advogar abertamente que não se deve ler este ou aquele livro ou autor. Eu respeito a subjetividade dos meus interlocutores e o seu direito de formarem a própria opinião. Mas já vi quem defendesse exatamente o boicote a autores e livros, e suspeito que também estou na lista negra de alguns. A formação de panelinhas ou de feudos literários é uma praga da literatura brasileira, também no campo da ficção científica e fantasia. Voltando à sua questão sobre os conselhos que se pode dar ao autor iniciante, um deles é participar dessas agremiações e redes sociais de olhos bem abertos para as questões de política literária que, muitas vezes, movem esses grupos ou os seus líderes, de maneira mal-disfarçada.
Elenilson – Você disse numa entrevista que em 1991, um ano de muitas transformações em sua vida, você havia sonhado com um rinoceronte: “Um sonho vago, mas que deixou uma impressão muito forte... (...) com ficção científica, envolvendo vírus de computadores e imagens digitais...” A ideia para a criação do livro “A Corrida do Rinoceronte” su
rgiu dessa forma mesmo?
Roberto Causo – Esse sonho foi um
dos elementos, certamente. Como não encontrei explicação imediata para ele, ficou essa curiosidade e inquietação não resolvida. Uns cinco anos depois, outros elementos vieram se agregar a essa inquietação – entre eles, a imagem de um rinoceronte negro que fugiu do zoológico de San Diego, para correr pelas ruas dos subúrbios dessa cidade da Califórnia. O conteúdo de ficção científica veio depois, quando eu tentava amarrar todos os elementos de inspiração em uma intriga coerente.
Elenilson – Durante o período da ditadura militar o poeta Armando Freitas Fil
ho lançou o livro “À Mão Livre”, criando versos de impactante violência. Direta ou indiretamente muitos destes versos faziam pensar na violência dos militares. Você curti essa poesia-práxis? Qual a diferença de ter sido um escritor nesse período e fazer literatura num Brasil de hoje, pobre culturalmente e dependentes de BBBs?
Roberto Causo – Quando comecei a escrever e a publicar, a ditadura militar já havia acabado. Nasci um ano depois do golpe e passei a maior parte da infância dentro da vigência do regime, mas, vivendo numa cidade pequena do interior, nem eu nem minha família sentiram o pior da censura e da repressão. Ainda assim, havia uma circulação enorme de literatura de protesto, de denúncia ou de oposição, censurada ou disfarçada de maneiras diversas – inclusive sob a forma de ficção científica distópica e alegórica. Incrivelmente, também circulavam obras de cunho libertário, como filmes sobre o movimento dos direitos civis nos Estados Unidos e sobre a situação dos negros, índios, pobre, gays ou mulheres de algum modo oprimidos pelo mainstream da sociedade americana. Alguns passavam na TV tarde da noite ou na madrugada, mas não deixaram de causar certo impacto na minha cabecinha de criança e adolescente. Daí a minha pouca paciência com conceitos como “a arte
pela arte” ou pelo “umbiguismo literário” – aquela literatura preocupada apenas com as angústias e idiossincrasias do autor –, e o meu interesse pela situação do indivíduo dentro do social. Perto do fim da ditadura, em 1984, eu me alistei na infantaria como voluntário e servi por um período de 14 meses, pegando o movimento das Diretas Já e a passagem do regime. Algo que vi no Exército foram participantes da repressão política da década de 1970 meio que “escondidos” em quartéis e escolas militares, e posso dizer, por alguns eventos que testemunhei ou que me contaram, que não foi uma convivência agradável. Quem gosta de saber que está convivendo diariamente com um psicopata? Por outro lado, eu tinha curiosidade sobre o Diretas Já – na época eu não era politizado e com 18 anos eu sabia que precisava dar os primeiros passos nessa direção – e fui ver um comício em Campinas. Uma coisa que me impressionou foi o quanto dos discursos empregava um “idioma” e uma história muito particular dos movimentos de esquerda, como se eles não se importassem muito com quem estava fora nem olhassem para o futuro. No quartel, só o que ouvi foram argumentos ingênuos ao ponto do ridículo, como a afirmativa de que, com o regime militar, as ligações telefônicas ficaram mais confiáveis no Brasil – como se isso justificasse o arbítrio, a censura e os desaparecimentos... Acho que era uma coisa muito esperada que o fim da ditadura representasse um momento de florescimento das artes. Havia algo de utópico nessa perspectiva. Mas logo em seguida o que se viu foram os grandes jornais cortando os jornalistas que haviam feito a resistência contra o regime, para encher as redações com estagiários saindo das faculdades cheios de idéias semióticas. Eu nunca entendi isso direito, até que reli um dos meus livros favoritos, Uma Vez uma Águia, de Anton Myrer. Há um momento nesse romance em que o herói observa que depois de um conflito ninguém pára para avaliar erros e acertos, excessos e carências, nem o que se pode fazer para evitar algo semelhante no futuro. O que se faz é dividir o butim – passa-se a pensar não em liberdade, mas em lucro. Fora então com quem tinha uma postura crítica, porque quem agiu com senso crítico num momento vai continuar agindo assim no momento seguinte. Livres do tacão, os meios de comunicação passaram a pensar em competir uns com os outros e em fomentar o consumo, que paga os anúncios. Nisso eles tendem, como Mino Carta disse certa vez, a nivelar por baixo. Com a ascensão das camadas mais pobres para novas faixas de consumo, mas mantendo um nível baixo de escolaridade, essa tendência se agravou. Num certo sentido e por trás de todo o argumento de mudança de hábitos sociais, falta de tempo para ler e influência das novas mídias, há a presunção de que o interlocutor é burro. Postura que além de tudo é feia. Não sou um elitista, mas certamente nenhuma cultura vai longe se partir de uma postura como essa.
Elenilson – Eu achei a capa do seu livro “Selva Brasil” linda. Li que esse livro é sobre uma estória alternativa que imagina como seria o Brasil vinte anos depois da invasão militar brasileira das Guianas, na Fronteira Norte, segundo os planos megalomaníacos do Presidente Jânio Quadros. Como seria então? E se no lugar do Jânio você tivesse colocado o Lula?
Roberto Causo – A capa, feita por ErickS, realmente captura a atmosfera de insólito do livro. É mais fácil brincar com um fato que poderia ter acontecido no passado, do que envolver uma figura política do nosso presente e que tem uma outra relação com a política continental. Lula faz um jogo mu
ito complexo, herdado de Fernando Henrique Cardoso e Itamar Franco, de aparelhar as forças armadas na Amazônia contra a narcoguerrilha, mas sem dar aos militares transparência nessa atuação, de modo que eles se tornem um fator político interno. Ao mesmo tempo, ele se apresenta como um mediador entre os poderes estabelecidos e as FARC, na região amazônica. É paradoxal, e só se explica pelo desejo da política brasileira de apresentar uma situação militar sob controle na Amazônia, aos Estados Unidos e outras potências do Primeiro Mundo. É paranóico e esquizofrênico e daria boas histórias, talvez não de história alternativa mas de uma FC de guerra futura na fronteira norte, não entre Brasil e Estados Unidos, como em uma safra de romances recentes, mas entre Brasil e Venezuela, por exemplo, como conseqüência dessa situação caótica que estamos semeando hoje.
Elenilson – Em “O Par - Uma nov
ela amazônica”, o senhor volta a tocar no mesmo assunto de “Selva Brasil”? Qual a diferença entre esses livros?
Roberto Causo – Eles fazem parte de um núcleo de três novelas de FC que escrevi na década de 1990, Terra Verde (2001), O Par: Uma Novela Amazônica (2008), e Selva Brasil. O que elas têm em comum é a ambientação amazônica. A primeira é ambientada no presente e trata de um explorador alienígena entre garimpeiros, índios e prostitutas. A segunda se passa num futuro próximo em que a Amazônia foi interditada por invasores alienígenas que nunca mostram a cara. Selva Brasil é ambientado no passado recente e é uma história alternativa, quer dizer, imagina o que teria ocorrido se a História brasileira tivesse tomado um outro rumo. Em todas eu exploro e exponho alguns mitos em torno da Amazônia.
Elenilson – Quais escritores foram de fundamental importância para sua formação de leitor e agora como escritor?
Roberto Causo – Dois autores de Perry Rhodan, K. H. Scheer e William Voltz, dois alemães. Também Asimov, Bradbury e Clarke, mas especialmente Orson Scott Card e Stephen King. Robin Hobb, na alta fantasia, e Fritz Leiber e Robert E. Howard na fantasia heróica, além dos brasileiros Ivan Carlos Regina e Rubens Teixeira Scavone, escritores de FCB. Fora da FC e fantasia, Anton Myrer, Cormac McCarthy e Raymond Chandler.
Elenilson – Você, ao longo desses anos, tem atuado em defesa da classe artística? De que forma?
Roberto Causo – Tenho atuado no meu campo, o da ficção científica e fantasia, desde 1983, desenhando, escrevendo ficção e crítica, editando fanzines, organizando eventos, atuando como correspondente de uma revista americana sobre FC, falando em eventos, dando cursos, escrevendo para a imprensa
e hoje mantendo uma coluna sobre FC e fantasia no Terra Magazine, a revista eletrônica do Portal Terra. Tento sempre citar meus colegas brasileiros, mesmo quando trato de um livro ou autor estrangeiro, se couber uma comparação, por exemplo. Acho que colocando tudo junto, devo ser o cara que mais citou seus colegas, vivos e mortos, dentro do campo da FC e da fantasia, em meus quase trinta anos de atuação. Sempre no intuito de promover esses gêneros, ou de incliná-los na direção que eu considero mais produtiva e firmá-los dentro do cenário da literatura brasileira, mas com o seu valor e potencial específicos.
Elenilson – Gosto pela leitura só funciona em países como França, Inglaterra, Itália e em todos os países civilizados de primeiro mundo? Realmente essa cultura não funciona no Brasil porque temos um problema crônico de falta de cultura científica e literária? Você acha que o problema é só esse?
Roberto Causo – Eu realmente não gosto de bancar o sociólogo em torno dessa questão. Quando dizem que brasileiro não lê eu digo o contrário: é claro que o brasileiro lê, e muito. Afinal, somos uma população jovem que está, em boa parte, na escola. Não há escola sem leitura. É claro que é um raciocínio que exclui a leitura por prazer ou para o desfrute estético, que é do que falamos quando tratamos de leitura e literatura. Mas acho que é mais inteligente dizer que o brasileiro lê muito – só não lê o que você e eu gostaríamos que fosse lido.Elenilson – Mas onde estaria o maior problema? Na economia, na educação, na política?
Roberto Causo – Na educação e em
alguns mitos persistentes – o de que leitura é coisa de ocioso; o de que estudar é para trouxa; o de que leitura depende de gosto (tipo, “eu prefiro ver televisão como passatempo”); o de que escola é fabriquinha de diploma e não um espaço de desenvolvimento crítico, formador de cidadania e habilitador da autoformação. A universidade virou antes de mais nada uma porta de entrada ao mercado de trabalho, e não lugar de pesquisa e de entendimento da realidade. A leitura que é procurada é aquela que dá ao sujeito uma vantagem social, profissional ou até mística na busca pelo sucesso – auto-ajuda e biografias de gente famosa. Até o realismo literário tem esse aspecto de ser mais “prático” e “educativo” (o que talvez seja um reflexo da coisa funcionalista que a gente recebe da escola). O que coloca as literaturas que propõem o imaginativo como um valor intrínseco, como um olhar que nos tira justamente desse lado funcionalista da vida, no diâmetro mais estreito do funil. Mas a gente percebe uma mudança, com o crescimento da fantasia para o público jovem. Vamos ver o que o futuro dirá.
Elenilson – Recentemente uma ex-BBB (*já que isso agora é profissão) disse que o “mundo gira em torno deles”, então, muito solidária, diz que vai posar nua para ajudar a população carente. Com você encara essas sub-celebridades que chamam muito mais atenção da mídia do que escritores?
Roberto Causo – Longe de mim falar contra uma mulher bonita tirar a roupa, não importando a justificativa... A minha reação ao fenômeno BBB e à nossa atual cultura de celebridades é não participar. Coloco no Discovery ou no History Channel. Também não acompanho celebridades futebolísticas. Quanto à condição de celebridade, os escritores têm estado fora do páreo há tanto tempo, que eu não sei dizer que tipo de status de celebridade almejamos. Quando eu era moleque, o máximo era aparecer num telejornal da Globo, sendo entrevistado no seu café da manhã – mas só Jorge Amado e Carlos Drummond de Andrade tinham essa honra. Foi-se o tempo em que o escritor tinha o impacto de um desses dois na vida nacional, substituídos recentemente por Paulo Coelho... Ou
o impacto de um Guimarães Rosa ou Gracialino Ramos ou Clarice Lispector. Numa dimensão ainda maior, Ernest Hemingway ou John Steinbeck ou Albert Camus. O que o escritor pode fazer é causar um impacto muito pessoal e profundo, às vezes transformador, na mente dos leitores, um a um. Pode criar visões coerentes e iluminadoras do que é a experiência humana num dado instante e lugar, e produzir metáforas que nos ajudem a entender e a lidar com a problemática do nosso tempo e lugar.
Elenilson – Eu já abandonei as salas de aulas, pois não consegui me adaptar com a falta de conduta e as mentiras do meio. Até hoje eu sou muito criticado por isso, mas eu acredito que boa parte dos professores no Brasil são pessoas que, em boa parte das vezes, não têm paixão alguma pelo conhecimento. São pessoas rejeitadas de outros segmentos do mercado de trabalho que acabam sendo absorvidas pelo mercado de ensino por falta de opções. Normalmente indivíduos cansados, desinteressados, desapaixonados. E não é assim? Quem quiser fazer ciência, sobretudo, na área médica é preciso lembrar da frase de Samuel Raneman de que em medicina deixar de aprender é crime. Mas é preciso que os professores (nas salas de aulas) tomem consciência de que deixar de abrir cabeças é um crime muito maior. Comenta essa situação lamentável da educação no Brasil.
Roberto Causo – Hanneman foi o criador da homeopatia, e sendo casado com uma das melhores médicas homeopatas de São Paulo, e para quem Hanneman era um gênio e um visionário, o que eu posso dizer é que a profissão do médico e a do professor sofreram um forte processo de proletarização ao longo das décadas mais recentes, perdendo algo da sua identidade de classe e importância social. Quando acontece essa proletarização, a segurança do emprego, a colocação no mercado de trabalho e a manutenção dos privilégios que restaram tomam precedência. O ensino reflete essa postura, especialmente com o enfraquecimento da escola pública e o fortalecimento da indústria do ensino privado, que enfatiza a preparação para o vestibular, a formação profissional, a colocaçã
o no mercado de trabalho. Com o fim da ditadura e com o fim do horizonte utópico que a luta contra ela oferecia, o que vemos é o economismo, a preocupação exclusiva com a economia, o mercado, o consumo, com fracasso e sucesso – daí a obsessão com as celebridades. Eu diria que coletivamente estamos cometendo o crime apontado por Hanneman, que serve não só para a medicina mas para as sociedades como um todo. Neste ponto do século XXI, precisamos aprender a reconhecer e criar outros horizontes utópicos, além do consumo. A literatura deveria iluminar essa busca.
Elenilson – Segundo resenhas pela rede, o seu novo romance “Anjo de Dor” faz análises sociais bem embasadas, mas investe também em uma trama mais satisfatória. O que significa essa coisa de “trama mais satisfatória”?
Roberto Causo – Tive de fazer um Google para encontrar essa crítica. É de Antonio Luiz Costa, que reclamou que a trama do meu romance anterior, A Corrida do Rinoceronte, era insatisfatória porque o protagonista obedece, segundo ele cegamente ou incoerentemente, a figura do rinoceronte que surge na paisagem urbana e que só ele pode ver. Em Anjo de Dor, o herói também lida com uma aparição, mas para Costa ele teria motivações compreensíveis: um interesse amoroso ou sexual e a necessidade de escapar de um grupo de matadores que está atrás da mulher que ele ama. Mas, na minha opinião, é possível enxergar o rinoceronte no primeiro romance como uma externalização de uma subjetividade reprimida do protagonista. Então o herói não estaria obedecendo aos seus comandos cegamente, mas investigando os limites do seu próprio íntimo e de uma identidade pessoal que ele vislumbra pela primeira vez. Costa usou a metáfora do soldado (o herói) que obedece cegamente ao sargento (a aparição), talvez uma alusão velada à importância do tema militar nos meus escritos – algo incômodo na literatura brasileira, eu suponho, à luz dos vinte anos de ditadura militar. Ele é de uma geração que sentiu mais a opressão política e social, e que sofre, como a maioria do povo brasileiro, de uma grande ignorância sobre o que é a vida militar. Me definir como escritor com base nos 14 meses de serviço militar seria um belo dum reducionismo. Ignora que ter sido voluntário e não convocado faz diferença, e acho que confessar que fui um soldado insubordinado não mudaria muita coisa nesse tipo de opinião.

Elenilson – De que forma o sobrenatural surge em “Anjo de Dor”?
Roberto Causo – O herói é um pintor hiper-realista que trabalha numa boate em que se apresenta uma cantora muito especial, mas muito misteriosa, por quem ele desenvolve um interesse turbulento – há uma relação de fascínio e repulsa entre os dois. Então um dia ele resolve, depois de fazer vários esboços de preparação, pintar um quadro dela para meio que exorcizá-la. Mas o tiro sai pela culatra e o que acontece é que a imagem ganha vida, como uma espécie de espectro que passa a atormentá-lo – e a interferir n
a trama. É um recurso relativamente discreto, e alguns leitores acharam estranho que o texto tenha um tom realista e até naturalista, até o surgimento desse elemento em particular. Mas é a estratégia consagrada do tipo de ficção de horror conhecido como dark fantasy ou dark suspense, praticado por Stephen King, Peter Straub, Dean Koontz e outros. Apresentar uma realidade palpável, que se distorce com a introdução do insólito. No plano geral da escrita desse romance, eu imaginei que uma espécie de dimensão paralela estaria cruzando a nossa na localização aproximada da cidade de Sumaré, no interior de São Paulo. O atrito entre as duas se traduz em estranhos processos sobrenaturais ou paranormais, e com o trânsito de lá pra cá e cá pra lá – uma idéia que eu provavelmente emprestei do romance Santa Clara Poltergeist (1991), de Fausto Fawcett, mas com um viés completamente diferente. O surgimento desse espectro seria um desses efeitos.
Elenilson – Em quais projetos você trabalha atualmente?

Roberto Causo – Tenho o rascunho de um outro romance dentro dessa premissa de “Anjo de Dor”, abordando novos fenômenos, um ano depois. Chama-se “Mistério de Deus”. Há alguns problemas que eu ainda não descobri como resolver, mas basicamente é um romance que poderia ser publicado como está. O meu planejamento para esse conceito é de três romances, cada um com um elenco diferente de personagens e distantes um ano do outro, em termos dos eventos narrados. O terceiro eu já iniciei, “A
Longa Estrada de Volta ao Paraíso”, mas achei que precisava exercitar certas idéias em outro contexto, e então comecei um quarto romance, “O Portal dos Espíritos”, que caminhou mais rápido e está bem perto da conclusão. Estou escrevendo uma série de space opera militar que chamo de “As Lições do Matador”. A primeira história foi “Descida no Maelström”, publicada na antologia Futuro Presente (2009), editada por Nelson de Oliveira para a Record. Ela se concentra nas aventuras de um herói espacial chamado Jonas Peregrino, e tenho pronta a sua primeira aventura, cronologicamente falando – a novela “Glória Sombria”, ainda sem publicação certa. Estou trabalhando numa segunda novela, “Anjos do Abismo”. Enfim, um trabalho de longo prazo é minha série “A Saga de Tajarê”, cujo primeiro livro se chamou “A Sombra dos Homens” (Devir, 2004). O segundo vai se chamar “A Sombra do Deus”, e já escrevi duas histórias (são livros com contos e novelas interligadas). Eu gosto muito dessa série do que eu chamo de “borduna & feitiçaria”, já que mistura elementos da fantasia heróica tradicional, com a paisagem mítica da cultura indígena brasileira.
Site: http://rscauso.tripod.com/
Contato: rscauso@yahoo.com.br
Twitter: http://twitter.com/rscauso
fotos: divulgação

terça-feira, 20 de julho de 2010

A BAHIA DESMORONANDO

“De Janis Joplin ao desabamento. A cidade do Salvador está arriscada a desaparecer do mapa pela total incompetência dos órgãos públicos.”
Por Elenilson Nascimento
Conta a lenda que nos anos 60, na sua famosa visita à capital baiana, a cantora de rock Janis Joplin passou uma noite regada a sexo, drogas e muita música num brega chamado 63, na Ladeira da Conceição da Praia, próximo à Ladeira da Montanha (Cidade Baixa). Hoje, esses casarões, ou o que restam deles, parte da história da cidade, tombados pelo Patrimônio Cultural (pra que mesmo?), estão desaparecendo pela incompetência da administração pública.
Carentes de segurança, saúde e educação, cidadãos soteropolitanos que residem em comunidades que integram o subúrbio ferroviário, Centro Histórico, ou até mesmo em áreas tidas como nobres de Salvador reclamaram do descaso e das deficiências que são obrigados a conviver diariamente. Dentre as diversas reclamações, o crescente envolvimento de adolescentes com o tráfico de drogas apresenta-se como preocupação unânime.
E segundo representantes de comunidades, jovens são muitas vezes cooptados pelo tráfico porque não existe nenhum projeto de qualificação para adolescentes, não existem praças, quadras ou qualquer área para lazer. As escolas fracassaram! As políticas públicas fracassaram! O governo e a prefeitura de Salvador são totalmente incompetentes!
Recentemente, uma pessoa morreu e três ficaram feridas, na madrugada do último sábado, 17/07, no desabamento do casarão de quatro andares, que em tempos gloriosos funcionou o famoso 63, hoje usado como prostíbulo e ponto de encontro para usuários de drogas.
As péssimas condições de conservação do casarão e as fortes chuvas que atingiram a cidade durante toda a noite e na madrugada de sábado foram os motivos que causaram o desmoronamento. O imóvel já era condenado pelo órgão desde 2008, quando um bar que funcionava no local foi fechado. Mas também era tombado pelo Patrimônio Cultural. O assoalho de madeira de três andares do prédio desmoronou sobre as vítimas, que estavam no térreo. Uma garota de programa morreu e para conseguir retirar um homem dos escombros, a equipe de resgate teve que amputar o antebraço dele, já que ele estava preso em uma viga que sustentava os destroços.
A decisão de amputar o membro foi tomada pela equipe de salvamento, formada pelo Corpo de Bombeiros e médicos. E o trabalho para retirar a vítima durou cerca de 24 horas. A vítima foi encaminhada ao hospital num carro da Samu que teve dificuldades para subir a ladeira, enquanto o senhor governador do Estado utiliza helicóptero para se deslocar pela cidade.
Enquanto isso, outro desmoronamento, dessa vez com um prédio de sete andares, ainda em construção, no bairro popular de Pernambués, acabou soterrando várias pessoas e causando mais uma morte. Até o momento, ainda existem duas pessoas desaparecidas. De acordo com informações, parte do prédio desabou sobre uma casa que é vizinha ao imóvel. Duas crianças estavam na residência estão internadas no HGE (Hospital Geral do Estado) e estão em observação.
Tentei entrar em contato com o Corpo de Bombeiros e com a Defesa Civil de Salvador, mas as ligações não foram atendidas. Mas onde está a fiscalização? Cadê a SUCOM burocrática que leva meses para liberar um “habite-se”? E esse prédio em Pernambués que nem tinha alvará. Sucom agora só fiscaliza construções no Alphaville...
Além da falta de atenção da administração pública, a periferia e outros bairros pobres de Salvador sofrem com a exposição negativa na mídia. A imprensa só olha para os bairros do subúrbio para noticiar crimes, mortes e tragédias em programa de baixo nível nas TVs locais que potencializam a crença de que na periferia só vivem marginais. Mas uma cidade sem administração é uma cidade sem futuro, uma cidade sem fiscalização é uma cidade certamente sem passado. Onde estão a SUCON, o CREA, a CONDER, os responsáveis? Já esqueceram o desabamento em Cidade Nova. Certamente porque ninguém morreu, nem o pássaro preto, mas a cidade está de luto, novamente.
A estrutura desabou por dentro em decorrência das chuvas e da má conservação.
Má conservação e força das chuvas comprometem segurança dos casarões da Conceição da Praia.
Profissionais do Corpo de Bombeiros observam outro prédio que desabou recentemente na mesma área.
O local foi isolado e corre o risco de novos desabamentos, já que as paredes laterais estão de pé. Mas onde está a fiscalização? Cadê a Sucom burocrática que leva meses para liberar um “habite-se”?
A equipe de resgate teve que amputar o antebraço de um homem, já que ele estava preso em uma viga que sustentava os destroços, mas teve dificuldade de encaminhar a vítima ao hospital porque o carro da Samu não conseguia subir a ladeira, enquanto o senhor governador do Estado utiliza helicóptero para se deslocar pela cidade.

Carro ficou soterrado após desabamento de imóvel em Pernambués.

foto 6: Margarida Neide
demais fotos: Arestides Baptista