“Com vagas ociosas e ingerências indevidas, as novas universidades federais já nascem com os mesmos problemas do caro e ineficiente ensino superior público brasileiro. Sabe-se que 50% dos alunos brasileiros que se formam no ensino médio a cada ano, um grupo de 1,2 milhão de estudantes, estão longe da sala de aula porque não conseguiram vaga numa faculdade pública, tampouco têm dinheiro para arcar com uma particular.”
Por Elenilson NascimentoNessa semana tentei - mais uma vez - retirar um certificado de conclusão de um curso de especialização que fiz a cerca de cinco anos atrás na
UNEB (Universidade Estadual da Bahia), sem sucesso. A total falta de organização e comunicação entre os setores da universidade leva à impressão de que todo
o sistema acadêmico anda à passos lentos, para eu não dizer que nem anda.
Mas, segundo o nosso
presidente Lula, o ensino público no Brasil está uma perfeição. E como ele sabe disso? Afinal, ele nunca pôs os pés lá nem para dizer que não precisou de diploma. O joguinho de dominó tem uma dinâmica peculiar: cada movimento leva a outro e completar a sequência sobre a mesa ou derrubar as peças depende muito dessa reação em cadeia para funcionar. E nessa engrenagem torta as universidades públicas brasileiras, com as honrosas exceções de sempre, andam apresentando uma produção científica pífia e um dos mais elevados custos por aluno do planeta.
Suas coirmãs mais novas criadas nos últimos anos – graças ao governo Lula – vieram ao mundo com defeitos de fabricação da mesma natureza. Muitas dessas universidades têm quadros de professores horistas inflados, salas de aula praticamente vazias e taxas de evasão que fazem refletir sobre a sua real utilidade. E essa representação vale, não de forma metafórica, para avaliar a qualidade da Educação no Brasil.
Num levantamento – publicado, semanas atrás, na revista
“Veja” – de treze instituições inauguradas a partir de 2005 revela que o número de vagas ociosas gira em torno de 20%, chegando a atingir 40% – mais de quatro vezes a média das federais que funcionam há mais tempo. Tome-se então como exemplo a já aqui citada UNEB, ali se está diante de um caso de inoperância difícil de ser superado. Um imenso buraco no bairro do Cabula, onde não se produz absolutamente nada, além da
prepotência dos professores a da arrogância dos seus alunos.
E nesse desastre anunciado ocorre que várias outras instituições estão indo na mesma sorte: a educação foi substituída pelas
compulsivas apresentações de seminários pelos próprios alunos (*tanto nas graduações como em cursos de especializações, mestrados e doutorados). E quem paga o descalabro? Você, caro leitor, com os impostos que lhe consomem o suor do rosto durante cinco dos doze meses do ano.
A
Universidade do Recôncavo da Bahia, na cidade de Cruz das Almas, é um exemplo disso. Em um país como o Brasil, em que das 5 565 cidades cerca de 500 possuem população acima de 50 000 habitantes, Cruz das Almas não pode ser classificada como uma localidade erma. Com apenas 800 jovens matriculados no ensino médio, a cidade da Bahia, nacionalmente famosa por sua temerária "guerra das espadas", travada durante os festejos de São João, não tem densidade educacional para abastecer de alunos uma universidade. E a demanda real, na maioria dos casos, foi solenemente ignorada.
No município de Laranjeiras do Sul, no interior do Paraná, existe um câmpus próximo a um
assentamento do MST. No final de março, durante a aula inaugural dos cursos de educação do campo e de desenvolvimento rural, ambos de nível superior, o que se viu pela TV foi um monte de bandeiras agitando-se do movimento aos gritos de
"Viva o MST". E o que podemos esperar de alunos doutrinados desde espermatozóides por movimentos políticos, religiosos e partidários?
Ninguém discorda de que é imperativo para o país ampliar o acesso ao ensino superior, em que só ingressa hoje um de cada dez jovens – um terço da média registrada nos Estados Unidos. Sabe-se que 50% dos alunos brasileiros que se formam no ensino médio a cada ano, um grupo de 1,2 milhão de estudantes, estão longe da sala de aula porque não conseguiram vaga numa faculdade pública, tampouco têm dinheiro para arcar com uma particular (*só se ficar inadimplente). Mas a questão que se coloca aqui é como incluí-los de forma menos dispendiosa e mais eficaz. As universidades brasileiras, afinal, chamam atenção no mundo inteiro por dragar altas somas de dinheiro, mas são ineficientes quando o assunto é a qualidade da Educação e dos seus alunos.

PRECONCEITO – Essa semana um assunto chamou a atenção do Brasil inteiro, com relação ao nível dos nossos universitários. Um jornal dos alunos da
Faculdade de Ciências Farmacêuticas da USP causou repúdio no meio estudantil e acadêmico ao realizar uma
“promoção” lamentável. O jornal acadêmico
"O Parasita" oferece um convite a uma "festa" aos estudantes do curso que, em troca, jogarem fezes em um homossexual.
A
Defensoria Pública do Estado de São Paulo teve conhecimento do texto (*leia-o na íntegra –
clique aqui) e informou nesta sexta-feira, 23/04, que irá denunciar o periódico semestral por homofobia à
Comissão Processante Especial da Secretaria da Justiça e da Defesa da Cidadania do Estado de São Paulo; e a
Coordenadoria de Políticas Públicas para a Diversidade Sexual afirmou que também irá registrar um boletim de ocorrência na Polícia Civil contra o jornal e a universidade por crime de injúria e incitação à violência. O autor do texto lamentavelmente imbecil, assinado como pseudônimo de
Joãozinho Zé-Ruela, que aparece como editor de eventos, é mais uma prova do tipo de cidadãos que as nossas universidades estão formando.
Se hoje em dia cada aluno custa à União
13.000 dólares por ano numa universidade pública. Esse valor, em relação ao PIB per capita do país, é o triplo do custo por estudante nos países da
OCDE (*organização que reúne os mais desenvolvidos), que oferecem, por sua vez, um ensino muito melhor, esse dado se torna ainda pior se confrontado com a produção acadêmica, quesito em que o Brasil responde por apenas 1,8% das citações em revistas de relevo internacional. Até hoje, por tanto, nenhum pesquisador brasileiro foi agraciado com um
Prêmio Nobel, ao passo que os argentinos, por exemplo, já levaram cinco. Em suma, criar mais universidades públicas é como reproduzir um sistema de ensino ineficiente, que envolve altos gastos e baixa produtividade.
Os alunos da Faculdade de Ciências Farmacêuticas da USP são mais um exemplo do que estamos formando: uma
geração de alienados que se esconde por trás de muros acadêmicos, apesar de eles afirmarem que a atitude miserável de alguns com a utilização do tal jornal preconceituoso não condiz com a entidade estudantil oficial. O texto imbecil chegou ao conhecimento do público pela internet. Muitos criticavam o conteúdo e a incitação homofóbica, mas segundo um dos alunos de ciências farmacêuticas: “muitas pessoas reagem com raiva, outras com descaso e algumas acham um jornal muito legal”.
Será que somente
inaugurar universidades e criar bolsas auxílio são suficientes para tirar o Brasil do eterno atraso cultural? O programa de expansão das universidades federais do governo Lula, que já criou 63 000 vagas desde 2003, consumiu 1,6 bilhão de reais. Mas uma solução menos onerosa, concordam muitos especialistas (*pessoas realmente engajadas e preocupadas com a Educação, e não assistentes de palco do Lula com as suas máscaras de ministros), seria fazer uso de pelo menos uma parte dessas 1 milhão de vagas atualmente ociosas em faculdades particulares, por meio do
Programa Universidade para Todos (ProUni), do próprio governo federal.
Ao conceder bolsas a jovens de renda mais baixa, o ProUni abarca hoje apenas 8% dos egressos do ensino médio que ficam de fora da sala de aula, mas a experiência mostra que a relevância de trazer de forma urgente ao debate outro tipo de solução para a mudança no ensino superior brasileiro: cobrar mensalidade em universidades públicas daqueles que podem pagar e qualificar (de verdade) o corpo docente (*já que muitos professores se acomodam na sua carteira e no seu título de professor universitário, ao invés de trabalhar e educar de verdade).
A questão do acesso à universidade, no entanto, não pode passar ao largo de um problema anterior, o da péssima qualidade do ensino fundamental e do ensino médio cada vez mais automatizados com os ineficientes projetos de aceleração do qual só saem 35% dos jovens que ingressaram nele. Desatar esse nó deveria ser prioritário – mas seria, sem dúvida, bem menos visível para os eleitores do que abrir novas universidades a toque de caixa. Enquanto isso, continuaremos com alunos cada vez mais alienados por universidades cada vez mais ineficientes e mercenárias – veja o vídeo abaixo:
Charge: Eva Gina dos Santos (licenciada em pulos, cambalhotas e jogo da macaca)/Blog Portugal Porreiro
Vídeo: Maurício Ricardo/Charges.Com