segunda-feira, 27 de dezembro de 2010

SEUS DIAS DE FARTURA ESTÃO ACABANDO*

“Neste Natal, ficou o resto dos dias do ano, de cansaço, de lutas diárias para viver numa sociedade sem limite, amoral, esteta, hermeticamente planejada para nos perderemos nela e que confessa que é escória.”
Por Anna Carvalho
Neste final de ano, o senhor de vermelho se recusou ou se eximiu de dá-me o ar da sua graça e o mundo da modernidade atingiu com força a minha casa naquilo que eu acreditava e a educação ficou mais órfã, o dogma perdeu lugar para outro paradigma: a falta de liberdade, a massificação, as retóricas limitando indivíduos, fundamentalismos senis que ditam normas e alguns professores que sobem no tablado e ao invés de libertarem anunciam um belo assalto: consciência ao alto.
A sociedade e sua modernidade atacou mais alto e assomou um Natal em que caridade, espírito crítico, o sentido de Cristo e sua natalidade perdem o sentido para aqueles que eximem e se mantêm em ceias programadas, sintomáticas e que orientam o que as famílias querem: distância de todo o resto. As alegrias, os risos, os simulacros de relações ideais são expostas nestes museus patriarcais e quem não tem nada disso se ressente com a falta de espírito natalino.
Por outro lado, os dogmas daqueles que são alternativos e criam regras, portanto, não sendo alternativos escravizam em suas seitas libertinas jovens que querem questionar tudo isso sem escolhas. Os Racionais, por exemplo, os cantores de reggae que questionam os sistemas, mas vivem na Babel que tanto questionam, ursufruindo daquilo que negam com as suas vidas alternativas, com regras alternativas e que geram outros sistemas.
Isto é que dá elegermos falsos profetas, um deles (este não era do darkside, viveu de fato, não apenas pregou feito um ator narcisista) foi pregado na cruz entre ladrões e o seu nome é dito em vários desertos de carnificinas, mas o seu sentido de pregação de amor é esquecido quando trocamos ideologia em torno do que pequenos reis querem, líderes, por isso odeio heróis, porque eles nos tornam frágeis, nos eximimos de nossos pecados, duelos e esperamos que alguém faça por nós. Neste Natal, ficou o resto dos dias do ano, de cansaço, de lutas diárias para viver numa sociedade sem limite, amoral, esteta, hermeticamente planejada para nos perderemos nela e que confessa que é escória.
Neste Natal fiquei com os que faltaram na ceias da classe média, bebi com eles, sentei e parafraseei a ceia de Leonardo, e vi que tudo é muito complexo porque é prático, pois a maldade está em cada vitrine lhe impelindo “oi consumo”, um Papai Noel barbudo com jeito de pai orientando o que se deve fazer em natais silvícolas e que acontece em pleno verão e a gente se contenta com esse Papai Noel das renas, do Pólo Norte.
Neste Natal eu tive contato com a minha raiz, com o meu consumo, com o meu filho e vi o que eu não queria ver: a vida dá medo e por isso a gente se defende a cada vez que alguém como num passe de mágica lhe sentencia quase como ameaça, enquanto o mundo não lhe consente e admite realidades admitidas: Feliz Natal, ô, ô,ô, ô...
* retirado do filme “Edukators”
foto: divulgação

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