sexta-feira, 29 de outubro de 2010

UM POEMA SOBRE A MENTIRA

“Então, ouço o poeta Affonso Romano de Sant'Anna, que é um caso muito raro de artista e intelectual (*num tempo que intelectuais são trocados por cantores de pagodes) que ainda teima em unir a palavra à ação, recitando um poema escrito no ano de 1984 sobre essa mentirada toda chamada democracia.”
Por Elenilson Nascimento
A campanha presidencial de 2010 reescreve o poema “Quadrilha” de Drummond? João amava Teresa que amava Raimundo que amava Maria...? Parece que sim. Já se foi o tempo em que a ditadura militar – que amava ACM que amava FHC que amava o Jader Barbalho que não amava ninguém (*a não ser roubar os cofres públicos) – policiava pensamentos, sumia e matava pessoas, alienava a nação e deturpava acontecimentos. Mas FHC – que amava José Jorge que amava Zé Estevão que amava o juiz Nicolau que não amava ninguém – já fez apodrecer alguns sentimentos coerentes. Itamar – que amava Collor e FHC que amavam o Ciro Gomes que amava José Serra que amava Tasso Jereissati – fez o seu topete balançar mais do que as suas bolas e as obrigações com regente dessa nação de bananas.
E o presidente Lula – que amava José Alencar que ama os lucros e exploração sobre os operários – hoje, ama a Dilma do PAC. Aloizio Mercadante – que amava Lula que amava José Dirceu que amava Armínio Fraga que amava Jorge Soros e o FMI – concorreu recentemente com Geraldo Alckmin a uma vaguinha para continuar “mamando” nas tetas do governo, especificamente, no governo de São Paulo. Mas se f...!
Mas de novo o Itamar – que odiava Newton Cardoso que amava o Serra que amava FHC que amava o PMDB que amava o Quércia que não amava ninguém –, depois de tudo isso, virou senador. Ciro, Lula, Serra, Garotinho – que amavam FHC que ama os ianques que amam toda a quadrilha – continuam mandando nessa bagaça sem tempo coerente e sem respeito ao tempo (e paciência) dos outros. E tanto tempo depois do movimento pelas “Diretas Já” faltam ideias. Dê-me então tempo para pensar.
Então, ouço o poeta Affonso Romano de Sant'Anna, que é um caso muito raro de artista e intelectual (*num tempo que intelectuais são trocados por cantores de pagodes) que ainda teima em unir a palavra à ação, recitando um poema escrito no ano de 1984 (*igual ao livro “1984” de George Orwell, que talvez seja o livro mais importante do século, porque, a qualquer sinal de tirania, a sociedade lembra dele) sobre essa mentirada toda chamada democracia. O poema abaixo, sobre a “mentira descarada” desses “ordinários camuflados de representantes do povo”, foi publicado durante o episódio do Rio Centro, nos anos 60, de uma produção diversificada e consistente desse poeta crítico e sempre atual que pensa o Brasil e a cultura do seu tempo, e se destaca além de poeta, como teórico, cronista, professor, blogueiro, comentarista de rádio, administrador cultural e como jornalista. Confira e baixe o áudio do poeta recitando-o:
Fragmento 1

Mentiram-me. Mentiram-me ontem
e hoje mentem novamente.Mentem
de corpo e alma, completamente.
E mentem de maneira tão pungente
que acho que mentem sinceramente.

Mentem, sobretudo, impune/mente.
Não mentem tristes. Alegremente
mentem. Mentem tão nacional/mente
que acham que mentindo história afora
vão enganar a morte eterna/mente.

Mentem. Mentem e calam. Mas suas frases
falam. E desfilam de tal modo nuas
que mesmo um cego pode ver
a verdade em trapos pelas ruas.

Sei que a verdade é difícil
e para alguns é cara e escura.
Mas não se chega à verdade
pela mentira, nem à democracia
pela ditadura.

Fragmento 2

Evidente/mente a crer
nos que me mentem
uma flor nasceu em Hiroshima
e em Auschwitz havia um circo
permanente.

Mentem. Mentem caricatural-
mente.
Mentem como a careca
mente ao pente,
mentem como a dentadura
mente ao dente,
mentem como a carroça
à besta em frente,
mentem como a doença
ao doente,
mentem clara/mente
como o espelho transparente.
Mentem deslavadamente,
como nenhuma lavadeira mente
ao ver a nódoa sobre o linho.Mentem
com a cara limpa e nas mãos
o sangue quente. Mentem
ardente/mente como um doente
em seus instantes de febre. Mentem
fabulosa/mente como o caçador que quer passar
gato por lebre. E nessa trilha de mentiras
a caça é que caça o caçador
com a armadilha.

E assim cada qual
mente industrial? mente,
mente partidária? mente,
mente incivil? mente,
mente tropical? mente,
mente incontinente? mente,
mente hereditária? mente,
mente, mente, mente.
E de tanto mentir tão brava/mente
constroem um país
de mentira
-diária/mente.

Fragmento 3

Mentem no passado. E no presente
passam a mentira a limpo. E no futuro
mentem novamente.
Mentem fazendo o sol girar
em torno à terra medieval/mente.
Por isto, desta vez, não é Galileu
quem mente.

Mas o tribunal que o julga
herege/mente.
Mentem como se Colombo partin-
do do Ocidente para o Oriente
pudesse descobrir de mentira
um continente.

Mentem desde Cabral, em calmaria,
viajando pelo avesso, iludindo a corrente
em curso, transformando a história do país
num acidente de percurso.

Fragmento 4

Tanta mentira assim industriada
me faz partir para o deserto
penitente/mente, ou me exilar
com Mozart musical/mente em harpas
e oboés, como um solista vegetal
que absorve a vida indiferente.

Penso nos animais que nunca mentem.
mesmo se têm um caçador à sua frente.
Penso nos pássaros
cuja verdade do canto nos toca
matinalmente.

Penso nas flores
cuja verdade das cores escorre no mel
silvestremente.
Penso no sol que morre diariamente
jorrando luz, embora
tenha a noite pela frente.

Fragmento 5

Página branca onde escrevo. Único espaço
de verdade que me resta. Onde transcrevo
o arroubo, a esperança, e onde tarde
ou cedo deposito meu espanto e medo.
Para tanta mentira só mesmo um poema
explosivo-conotativo
onde o advérbio e o adjetivo não mentem
ao substantivo
e a rima rebenta a frase
numa explosão da verdade.

E a mentira repulsiva
se não explode pra fora
pra dentro explode
implosiva.

(*Poema publicado no "Jornal do Brasil" no ano de 1984, quando do episódio do Rio Centro, e em diversas antologias do autor. Está também em “Poesia Reunida”, Vol. 2, L&PM)

+ Aproveite e baixe e ouça o próprio poeta Affonso Romano Sant'Anna recitando o poema acima e falando um pouco sobre essa política e suas mentiras:
podcast: Portal da Metrópole
fotos: divulgação

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