terça-feira, 28 de setembro de 2010

29ª BIENAL E ALEXANDRE LEÃO BRILHAM EM SÃO PAULO

“Pregados na jaula, vários papéis onde se lia dentro tantos: ‘Compositor... animal em extinção’.”
Por Eliane Silvestre*
Meus olhos inquietos e curiosos aportaram antes na abertura da “29ª Bienal de São Paulo”, no Pavilhão Ciccillo Matarazzo, do Parque do Ibirapuera. Acabei indo de taxi para não atrasar e quando este parou no limite do que era permitido, meus olhos já haviam chegado. Traziam com eles um estado de espírito com sintonia própria para ingerir arte. Talvez por isto, não consegui digerir o apito estridente do guarda que, orientando o trânsito dos ávidos por arte, acordou-me, trazendo-me de volta à vida urbana. Senti mesmo como uma agressão. Mas não faz mal. É necessário estar preparada. Nem todas as obras de arte terão para mim perfume de flores. Cada artista com sua expressão. Sabe lá o que expressarão!
Entrei na gostosa fila, feliz pela gentileza da amiga que me cedeu um convite. No pavilhão, iniciamos a caminhada. Meu olhar percorre tudo, mas parece se deter mais no humano. Lembrei-me de quantas vezes parei de ver o filme na tela para observar as expressões faciais tão díspares e até surpreendentes das pessoas que assistem. Lembro que constatei intrigada, dentre outras coisas, pessoas que riam enquanto tantas choravam com uma cena comovente. Ali, na “29ª Bienal de SP”, estavam tantas tribos. Gente. Gente. Gente. Gente. Também obras de arte, quer seja quando carregam em si a estética própria do dono do corpo e do espírito quer se pensemos serem obras de um Deus criador que as colocou aqui.
O vão livre, todo fechado com rede, abriga os “dois urubus” de Nuno Ramos. As pessoas passam e olham a obra intrigante e instigante. Quantas sensações poderão advir dela? A sensação que tive não foi boa e talvez fosse exatamente esta a intenção do artista. Mas não consegui não ter pena dos urubus que com certeza não devem estar gostando nada de estar ali. Seguimos olhando tudo, mas a cada mudança de piso, não há como não vê-los e não nos sentirmos incomodados.
Eliane ao lado da enorme “xereca” da Bienal,
onde as
pessoas poderiam adentrar.
Não consegui ver todas as obras. Nem tão pouco anotei nomes ou artistas. Das que vi, ficou na lembrança a vulva, que suscitou muitos risos e também pela sensação até infantil de estar viajando por dentro dela. Tirando o erotismo da coisa, talvez nos remeta ao parto e, assim pensando, a criança que caminha dentro da obra compensa a sensação de adulto um pouco claustrofóbica. A obra chama-se “A Origem do Terceiro Mundo” de Henrique Oliveira.
A figura minúscula sem roupa e o seu criador,
o artista plástico Ef
rain Almeida.
As obras de Efrain Almeida, que se coloca em suas esculturas sempre como uma figura minúscula e sem roupa, me passaram o sentimento de solidão. Da pequeneza que nos chega quando percebemos o quanto somos mínimos diante da imensidão do universo. O artista estava lá e eu, buscando o sentimento oposto ao que as obras exalam, não deixei a tietagem de lado e pedi para tirar foto com ele.
No momento em que a bateria acabou e só pude fotografar com os olhos, uma obra me chamou bastante atenção, embora eu não saiba o nome do artista e nem tão pouco da obra: uma jaula com um músico dentro, mesa, computador, vários papéis (até tentei pesquisar rapidamente na internet para não cometer esta falta, mas não consegui encontrar... quem souber pode complementar em comentários).
Pregados na jaula, vários papéis onde se lia dentro tantos: “Compositor... animal em extinção”. Ele estava com um microfone e instigava o público (na hora que passei era uma criança que usava o microfone) a falar o que viesse na cabeça que ele tornaria uma música. Ele estava ali expressando a dor daquele que vê seu talento para combinar palavras, ideias, sentimentos, com notas musicais, indo para a lata do lixo.
Sinaliza, penso eu, que não consegue viver de sua arte num país cuja grande parcela do povo não valoriza devidamente uma letra elaborada com poesia, que nos remeta ideias e pensamentos inteligentes e importantes para uma vida melhor. Não valoriza por vários motivos: desconhece, não tem estudo para alcançar, etc. Mas nem sempre é assim. O pensamento pequeno assola os que têm estudo também.
Alexandre Leão arrebentando no palco, em São Paulo.
Aqui aproveito para citar uma situação que coincidentemente está se passando com um compositor baiano, que é também cantor e instrumentista, o excelente Alexandre Leão. Oportuno exemplo do que estamos falando. Alexandre fez um belíssimo show esta semana em São Paulo e, pasmem, foi alvo do pensamento medíocre de alguns de que ele estaria se elitizando.
Todo artista, principalmente que tenciona viver de sua arte, precisa expandir ao máximo sua atuação. A Bahia é linda, sim senhor, deve ser uma delícia morar na terra de praias tão bonitas e gente tão alegre, colorida, multicultural, mas vamos ser menos egoístas.
O que querem estes jornalistas? O que seria de todos estes ícones nacionais e internacionais (parabéns Ivete pelo show em NY!) que os ouvidos brasileiros e estrangeiros só tem a agradecer (Gilberto Gil, Caetano Veloso, Maria Bethânia, Família Caymmi, Pepeu Gomes, Moraes Moreira, etc) se tivessem ficado somente na Bahia?
Olha, nem sei por que comentei isto. Não posso acreditar que seja verdade. Se houve qualquer citação ao talentoso Alexandre Leão nesta linha, só posso acreditar que seja num tom de brincadeira, caso contrário pontua uma total falta de discernimento, um jornalismo que presta desserviço e pobreza de espírito. E a Bahia é tudo de bom. Isto só pode ser conversa fiada mesmo, papo de botequim, entre um acarajé e outro. Do jeito que o povo baiano é festeiro, duvido que tenha baiano que abra mão da alegria de ver Alexandre Leão brilhando no Brasil e no mundo.+ Ouça também o escritor Affonso Romano Sant'Anna comentando sobre essa polêmica na Bienal de Artes de São Paulo.
>>> ouça aqui <<<
A Bienal ficará em cartaz até 12/12/10, em São Paulo. A entrada é gratuita. Os horários de funcionamento são os seguintes: de segunda a quarta, das 9h às 19h; quintas e sextas, das 9h às 22h; sábados e domingos, das 9h às 19h. A entrada só é permitida até uma hora antes do fechamento. O Pavilhão Cicillo Matarazzo fica no Parque Ibirapuera (Avenida Pedro Álvares Cabral, s/nº, Ibirapuera). Site oficial: www.fbsp.org.br
*Eliane Silvestre é poeta, produtora e atriz. Participou dos “Poemas de Mil Compassos” (2009) e, recentemente, acabou de ser selecionada para o elenco da peça teatral "História de Algum Lugar", com texto e direção de Áurea Liz.

podcast: Portal da Metrópole
fotos 1 e 4: AL/divulgação
demais fotos: E. Silvestre

1 comentários:

Pringles! disse...

Preciso de uma ajuda se puder, fui na bienal, mas ja faz um tempo, fui logo no começo, preciso lembrar quais obras q estão la q tem haver com o movimentos dos anos 50.
Se for possivel me ajudar. Obrigada! Renata