domingo, 8 de agosto de 2010

A FLIP VIROU FLOP?

“É bom fazer poesia: ninguém te obriga” (Ferreira Gullar arrebatando a plateia de Paraty)”Por Elenilson Nascimento
Quando eu postei no Twitter que talvez tivesse de “vender meu corpo para ir para Flip”, logo a linda, educadíssima e, segundo ela própria, comunicóloga hiperativa, tuiteira de plantão, admiradora do cinema, da política apartidária e em busca de uma vida-lazer, Ale Pinheiro respondeu: “Qt ao vender o seu corpo, esquece. A Flip deste ano, depois do cancelamento do Lou Reed, virou uma Flop, ñ merece teu sacrifício”. E talvez ela esteja coberta de razão.
Porém, posso até escrever aqui no LC que o sucesso da Flip deve-se a diversos fatores, entre eles, a fértil experiência cultural que oferece. Contudo, é preciso ainda “abrir um parêntese bem grande” para falar do papel de Paraty nesse sucesso: sua beleza rústica, emoldurada por história e muita cultura, além, é claro, da hospitalidade da população sempre de braços abertos.
E devido – ou justamente por causa dele – a esse ambiente informal e aconchegante – para falar o mínimo – durante esses cinco dias da Feira Literária de Paraty 2010 (*com show de abertura de Edu Lobo, Renata Rosa, Marcelo Jeneci e Quarto de Cordas da Osesp que deram as boas-vindas musicais) o visitante pôde usufruir de experiências bacanas, como a de, por exemplo, degustar uma deliciosa “Paraty”, a famosa cachaça da terra, junto a personalidades como Luiz Ruffato, Carola Saavedra, Wendy Guerra, além da escritora mais popular da América Latina que encheu de graça o diálogo “Veias Abertas”, a Isabel Allende, e de gente como Reinaldo Moraes, Beatriz Bracher e Ronaldo Correia de Brito que falaram sobre o seus processos de criação e a relação entre vida e obra. Mas ter colocado o FHC para fazer a conferência da abertura foi demais. Se o cara é tão bom escritor quanto ele foi como presidente, estamos lascados!Teve até o Robert Crumb cantarolando “Aquarela do Brasil” e Gilbert Shelton com “Garota de Ipanema” numa conversa entre os dois quadrinistas que são mitos da contracultura e estiveram reunidos na noite de ontem, 07/08. No painel se viu a exibição de desenhos dos dois convidados e teve uma participação especial de Aline Kominsky, também quadrinista e mulher de Crumb, que subiu ao palco e contou sobre o casamento e os trabalhos produzidos a quatro mãos com o marido.
Falante e bem humorado, Crumb comentou a viagem ao Brasil. Disse que foi à Flip “porque adora viajar de graça” e elogiou um grupo de choro, chamado “Os curandeiros”, cujo CD comprou em Paraty. Para seu país natal, sobraram críticas. O quadrinista, radicado na França desde 1991, afirmou que sente vergonha quando o chamam de cidadão americano. “Os EUA hoje são um centro cruel de fascismo corporativo. Mas não quero que isso saia nos jornais, porque a CIA pode me perseguir”, ironizou.
Mais tímido, Shelton lembrou de quando conheceu Crumb, em 1969, e os tempos de amizade com a cantora Janis Joplin: “Éramos amigos na época da universidade, ouvíamos música folclórica americana. O curioso é que ela dizia que músicos de folk não deviam escutar rock. Depois, mudou de ideia. Não deveria ter mudado porque, neste caso, estaria viva”.
Mas a obsessão de Crumb por sexo foi abordada a partir de uma pergunta do mediador Sérgio D’Ávila. Crumb respondeu que a relação mudou. “Estou ficando velho. Não consigo mais me identificar nessas histórias, que têm mais de 20 anos. No fundo, fico até com um pouco de vergonha”, confessou.
Robert Crumb e Gilbert Shelton cantarolando músicas brasileiras e falando sobre sexo.
Ferreira Gullar, que vai completar 80 anos em setembro próximo, é ainda uma obra em progresso. Quando ainda era José Ribamar Ferreira, em São Luis, Maranhão, e compôs seu primeiro livro, o título já indicava que posição pretendia ocupar na poesia brasileira: “Um Pouco Acima do Chão”, editado com recursos próprios, foi publicado em 1949. Tinha 19 anos. Havia sido, até então, um poeta parnasiano. Foi a leitura de “A Poesia até Agora”, de Drummond, lançada em 1948, que provocou a ruptura. “Comecei a ler aquelas coisas – como ‘lua diurética’ – e me dei conta de quanto estava atrasado”, contou Gullar.
Mas, para quem prestou atenção nas aulas de literatura na escola, quando essas ainda ensinavam, a dinâmica que marcaria sua obra começa a se mover com a mudança para o Rio de Janeiro, onde lança em 1954 o livro “Luta Corporal”, que desperta a atenção de jovens vanguardistas, entre eles alguns paulistas como os irmãos Augusto e Humberto de Campos e Décio Pignatari. “Eles acharam que esse livro era o sinal para uma renovação e nasceu a poesia concreta”, relata.
Na conversa com o mediador e a plateia, Gullar contou casos divertidos e reconstituiu sua trajetória, a partir desse primeiro contato direto com o que era a vanguarda pós movimento modernista. E confessou que, na verdade, o poeta queria era ser artista plástico. Mas a poesia se impôs. E ele deixou que acontecesse naturalmente. Seu processo de criação, revela, é o espanto. E a única vez em que o espanto durou foi quando ele compôs o “Poema Sujo”, que foi produzido em 1975, durante o exílio em Buenos Aires, circulou quase clandestinamente em áudio entre intelectuais e jornalistas do Rio e foi publicado no ano seguinte. A obra mereceu até de Clarisse Lispector a classificação de “escandalosamente belíssimo”.
Gullar seguiria conversando pelo resto da noite. Ele encerrou com essa: “O poema é a alquimia que transforma dor em alegria estética. A arte existe porque a vida não basta. Cada um nasce com as qualidades que lhe permitam se inventar como ser humano. A poesia é necessária porque existe. Um dos melhores estados de estar vivendo é escrever poesia”, alinhou, sob os mais duradouros aplausos até aquele ponto da festa.
Ferreira Gullar e o espanto criador.
Classificado pelo jornal Sunday Times como “marxista, religioso, velho e punk”, o crítico cultural Terry Eagleton mostrou que o jornal inglês poderia ter acrescentado mais um adjetivo à lista: mordaz. Estrela da mesa “Andar com fé”, mediada pelo jornalista Silio Boccanera, não poupou farpas na direção de seus mais notórios contendores. O principal deles, Richard Dawkins (*eu goto muito dele!), que esteve na Flip 2009. Mas segundo Eagleton: “Dawkins é antiquado, parece um racionalista do século 19 em sua crença de que Deus é um mal da evolução. Repete que não acredita em Deus, mas não tem a menor ideia de o que Deus significa”, afirmou.
O crítico centrou ainda fogo no que chamou de “islãfobia”, salientando que não se pode confundir uma minoria adepta do Islamismo radical – “que mata pessoas em nome de Alá” - com milhares de muçulmanos. E propôs que o Ocidente faça um ‘mea culpa’: “Há uma variedade texana do Islamismo, e várias formas de Islamismo evangélico, no mundo e aqui mesmo, no Brasil. Mas os liberais sempre acham que os bárbaros são os outros, como se a tradição ocidental fosse isenta de barbarismos”. E apesar de marxista, Eagleton fez a ressalva de que não subscreve tudo o que o filósofo escreveu.
Além de um dos mais influentes críticos literários em atividade, o britânico Terry Eagleton é autor de um livro recente que polemiza com Richard Dawkins, convidado da Flip de 2009. Eagleton argumenta que o ateísmo pregado por cientistas como Dawkins se baseia numa concepção simplista e equivocada de religião. A obra gerou grande polêmica, e é sobre ela que Eagleton fala em Paraty.
O escritor britânico de origem indiana Salman Rushdie foi outro que participou da Flip e que até hoje eu não conseguir ler os seus “Versos Satânicos”. Para quem não sabe, em nome do primeiro filho, Zafar, Rushdie escreveu “Haroun e o Mar de Histórias”, publicado em 1990, um ano depois de ter sido lançada contra ele a “fatwa” do aiatolá Khomeini, então líder religioso do Irã, ordenando que os muçulmanos o matassem. Tudo por causa dos “Versos Satânicos”, publicado em 1989, em cujo capítulo 6 o personagem Gibreel Farishta, em meio a alucinações, insinua que Maomé teria sido um devasso.
E mesmo que o livro seja um emaranhado de sonhos dentro de sonhos, alguém no universo do fundamentalismo islâmico do Irã entendeu que se tratava de uma blasfêmia. O fato é que a condenação valeu ao autor tanto a celebridade instantânea como uma década inteira de vida reclusa. Mas Sir Salman Rushdie, condecorado pela rainha da Inglaterra, tem agora uma vida menos reclusa, 21 anos depois da “fatwa”, e circulou com bastante liberdade pela velha cidade. Rushdie contou que sempre desejara colocar um desses objetos míticos num de seus livros, mas descobriu que o colombiano Gabriel Garcia Márquez o havia precedido, no premiado “Cem Anos de Solidão”. Sobre o tempo que passou sob ameaça de assassinato, quando teria sido obrigado a viver praticamente invisível, Rushdie comentou que não lhe produziu mudanças na visão de mundo nem proporcionou mais ou menos inspiração.
O senso de humor com que Rushdie se refere à ameaça dos aiatolás chegou a surpreender e provocou risos na platéia. Vivendo agora em Nova York, Rushdie se diz surpreendido com a religiosidade dos americanos. “Os americanos ficam chocados se você diz que não tem religião”, estranha. O autor ainda se declarou conhecedor de Machado de Assis, de quem prefaciou uma edição em cachemir, e influenciado por outros escritores latino-americanos, como o argentino Jorge Luis Borges e o já citado Garcia Márquez. Rushdie prometeu para daqui a uns anos um livro sobre o período em que foi um condenado à morte. Antes de “Versos Satânicos”, ele já era um escritor premiado. Ganhou o Booker Prize em 1981 pelo romance “Os Filhos da Meia-Noite”. De volta a uma vida quase normal para uma celebridade, ele comemora o fato de ter voltado a ser apenas um escritor.
Salman Rushdie comemora o retorno à literatura.
Muito bacana também foi a cativante simpatia da escritora Azar Nafisi que não a impediu que falasse com contundência ao comentar a atitude do presidente Lula quanto à pena capital por apedrejamento, imposta pelo governo iraniano a uma mulher de 43 anos, por crime de adultério. “Lula afirmou que a mulher condenada estaria perturbando seu amigo Ahmadinejad. No fundo, é o contrário. Esse sujeito é que está perturbando a mulher com a condenação. E não acho certo que democratas sejam amigos de não democratas, de gente que apedreja as pessoas até a morte”.
Quando o mediador Moacyr Scliar se referiu ao caráter político de seus livros, Azar recusou o rótulo. Segundo ela, obras como “Lendo Lolita em Teerã” – que ficou por 117 semanas na lista de best-sellers do New York Times – não são políticas, mas subversivas.
O escritor A.B. Yehoshua se solidarizou com Azar, que foi expulsa na Universidade de Teerã por se recusar a usar o véu e hoje distante do país natal. “Lendo seus livros, notamos que ela traz o luto de não poder estar na sua terra, sentimos o drama de quem perdeu o cheiro da infância”, ressaltou. O escritor defendeu ainda uma “restauração” da questão moral na literatura, bradando contra o relativismo que é marca da chamada pós-modernidade. Para Yehoshua, a literatura não pode “produzir milagres, mas deve recuperar o poder de dar algum sentido aos problemas de ordem moral que afligem as pessoas”.
A vez da política com a simpática escritora Azar Nafisi e com o escritor A.B. Yehoshua.
Mas teve também palestras sobre a evolução das “enciclopédias” ao Kindle, leitor digital da Amazon, passando pelos romances eróticos do século 18, onde os historiadores Peter Burke e Robert Darnton trataram numa erudita e divertida discussão sobre o percurso do livro ao longo dos tempos, mediada por Lilian Schwarcz. “Entramos em uma fase absolutamente nova com a Wikipedia. A variedade de colaboradores é muito maior do que nas enciclopédias impressas. Qualquer pessoa pode escrever um artigo. Além disso, é possível a atualização constante, seja por conta de um novo evento, seja para consertar algum erro”, afirmou Burke.
Portanto, só mesmo a Paraty poderia proporcionar cenas como estas, nos intervalos e nos eventos. Porém, tudo isso só é possível porque, enquanto o clima das ruas históricas sugere um bate-papo descontraído, as pousadas, restaurantes e demais serviços oferecem um excelente padrão de qualidade. Além disso, o entusiasmo e a qualidade de seu fiel público são ingredientes principais da verdadeira “festa” em que a cidade se transforma todos os anos durante o evento.
Mas uma coisa que eu ainda questiono: o porque não se fazer concursos literários na Flip para revelar talentos? Cadê os autores nacionais? Visto que, percebo já faz algum tempo, que já se teria esgotado sua fonte de bons autores a ponto de repetir os poucos nomes brazucas? Estaria privilegiando ensaístas em vez de ficcionistas? O homenageado merece tanto espaço? Considerações que provocaram debates (alguns infrutíferos) nos últimos dias, mas não arranharam o brilho do mais importante evento literário do País, que, como de hábito, teve boa parte de seus ingressos para as palestras esgotados rapidamente.
O simpaticíssimo Flávio Moura (foto ao lado), diretor de programação da Flip – clique aqui e confira o blog do rapaz, pode até ter feito um excelente trabalho de organização, mas cadê os produtos nacionais? O homenageado, o escritor e sociólogo Gilberto Freyre (1900-1987), um dos maiores pensadores brasileiros, foi uma escolha bacana, mas eu esperava mais. A presença do FHC, aliás, chegou a render boatos que o apontavam como o principal motivo pela saída de um dos patrocinadores, a Petrobras, em sinal de desagravo. Outra coisa, um celeuma que me chamou muito a atenção neste ano foi com relação ao excesso de pensadores em detrimento da quantidade de prosadores e poetas. Fora que eu fui substituído em cima da hora, por um pagodeiro. Isso sim que foi humilhação! Mas prefiro chorar numa BMW como escritor desempregado do que sentar sorridente novamente numa mesa como professor. E ainda chego lá!
Gilbert Shelton autografando (foto: Walter Craveiro)
No ano em que completa 80 anos, prestes a lançar livro novo e poucas semanas após receber o "Camões", o mais importante prêmio da língua portuguesa, o poeta Ferreira Gullar é o homenageado desta mesa em Paraty. Ele passa em revista sua trajetória e lê trechos de “Em Alguma Parte Alguma”, seu aguardado livro de poemas. (foto: Walter Craveiro)
Edu Lobo e Renata Rosa com Marcelo Jeneci e Quarteto de Cordas da Academia da Osesp e direção artística de Arthur Nestrovski, no show de abertura da Flip. (foto: Nelson Toledo)

>>> Confira aqui FLIP AO VIVO. Assista aqui à transmissão ao vivo das mesas da Flip.
fotos: Flip/divulgação

4 comentários:

Elaine Castro. disse...

Simplesmente espetacular esse seu post!!!
Amei, parabéns.

Elenilson Nascimento disse...

A. B. Yehoshua e Azar Nafisi: ao escalar um israelense e uma iraniana, uma potencial bomba-relógio, a organização da Flip pretendia explorar contrastes. O que se viu, no entanto, foi uma mesa fraternal, de cumplicidade extrema, inclusive na política e direitos humanos. A bela literatura dos dois também não ficou de fora e complementou com perfeição um encontro extremamente feliz.

Dorival disse...

Achei a Flip desse ano um saco!

Anônimo disse...

E ONDE FICAM OS AUTORES NACIONAIS NESSA FLIP???? ACHO Q NAO MERECEM CRÉDITO!