Ouvindo falar do drama da atriz Cissa Guimarães que, no auge da dor, disse que se tivesse poder parava as investigações porque o acidente foi uma brincadeira entre meninos. Olho, encantada com a generosidade desta mulher, desta mãe, desta brasileira emblemática que compreende, na dor, o amor de uma mãe transcendendo aos limites terrenos, baixos, sórdidos da incompreensão e da falta de ética neste país.
Por outro lado, o pai do atropelador, do outro garoto, sem generosidade alguma, aliás, que o crime de um outro garoto, em outra casa, no fundo do quintal de um país que, neste semana viu a Justiça ser atacada em sua lógica perversa (o caso Bruno e o seu advogado, um lunático de plantão), pensando que esse alguém, seu filho, seu rebento que deve ter nascido no país certo, deve ter criado no limiar da sua ética privada, deve ter crescido do outro lado, no limbo de um sistema canalha e de ocasião, e foi tentar apagar as provas do crime, do assassinato, consertando o carro do “moleque” que, impunemente, deve ter nascido num lar em que lei, ética, amor, feudo, se confundem com um pedido de desculpas, como uma pedra lançada na janela da vizinha, como um projeto de marginal criado no recesso de um lar em que o amor, o egoísmo, a falta de caráter, grana no banco, podem ser blindados quando o caso seja um assassinato de um outro menino, aliás, no Brasil, os mortos são culpados.
Por isso a família brasileira acostumada a ver novelas, ou a violência vista de uma zona de conforto em suas salas assépticas diante de uma TV plácida, a discutir ou professar ética em diálogos acalorados diante de um copo de cerva, se vê atacada em sua moral maquiada, cômoda e ecóica, quando a marginalia sai da sua linha tênue “favelizada” e abre as portas das casas de classe média, estudam em escolas de classe média, frequentam cultos, missas, têm caras de heróis, são bonitos, brancos, ou seja, não têm cara de bandido, se é que, desde Brasília, bandido tenha cara.
A outra família devassada, ética, honesta, em lágrimas, neste from às avessas, neste país que até em sala de aula, o aluno “meio canastrão”, que cola, que tira nota baixa é o símbolo de ostentação da falta de valores e que se acha grande, enquanto o outro que é ético, estuda, tira nota boa, é o “bobo” CDF da vez.
Em suma, parem o país porque o bom senso vai saltar e esculpir esta democracia de arremedo em que marginal sai embutindo um riso dissimulado no rosto, advogado vai convocar vítima morta para depor, a morta aparece em foto de costas, que ser Macarrão, Bola, Coxinha é fichinha num país que ser mal é prova de Ordem e Progresso.
*Anna Carvalho é professora de literatura em Salvador e co-autora de Elenilson Nascimento em “Clandestinos” (2010) e “Diálogos Inesperados Sobre Dificuldades Domadas” (2005). Contato: carvalhoanna141@gmail.com
fotos: divulgação





17 comentários:
O fato de ter um filho da mesma idade torna o fato muito mais difícil de ser assimilado. A racionalidade fica suprimida pela emoção diante de tamanha irresponsabilidade e estupidez. Força e paz para as famílias envolvidas nessa tragédia. Perder um filho é triste... Ter um filho assassino, pior ainda.
A dor da perda de um filho é irreparável! Mas a dor maior para nós é a sensação de impunidade! O sujeito simplesmente mata um jovem, foge do local sem prestar socorro, apresenta-se a DP e sai pela porta da frente, como se tivesse matado uma formiga! Esse é meu Brasil!!!
Acho oportuno essa mobilização, mas não nos esqueçamos que esse rapaz não é foi único a morrer. Todos os dias, várias pessoas perdem suas vidas por aí sem ninguém ao menos ficar sabendo. A vida de todos tem valor igual e merece mobilização igual a essa e a senhora Anna Carvalho só fez um texto desse pq o morto é filho de famoso.
Júlio, vc tem toda razão. Porém, como agora se trata de pessoa famosa, talvez haja uma pressão para que a legislação mude e, de fato, puna os culpados. Infelizmente, o filho da Cissa entrou para as triste estatísticas do trânsito brasileiro, porém, pode deixar de ser um número e passar ser vítima.
No noticiário da noite, no canal TV Brasil, ouço sobre propina que foi parar na mão dos policiais que, liberaram o assassino de Bruno. É favela da maré, a esperança não vem do céu vem das antenas de tv!
Era uma vez Rafael Mascarenhas. Um rapaz de 18 anos que tocava guitarra, queria ser músico como o pai, estudava engenharia e vivia com a mãe, a atriz Cissa Guimarães, no Rio de Janeiro. Bonito, alegre, talentoso e popular. Um atropelamento brutal, num túnel fechado ao trânsito para manutenção, tirou sua vida, quando praticava skate com dois amigos. Seu corpo foi jogado a quase 60 metros de distância. O atropelador é outro Rafael, de sobrenome Bussamra, estudante e lutador de jiu-jítsu, de 25 anos.
Pela violência e estupidez, o drama comoveu o Rio e estilhaçou a vida de quem mais o amava. Sua mãe é descrita como alegre. Para quem a conhece, essa é uma meia verdade. Cissa é esfuziante. Transborda com seu riso o espaço da praia ou de uma festa. Rafael era seu caçula. “Pedaço de mim”, de Chico Buarque, abre a coluna por traduzir de forma dilacerante o sentimento materno de perda.
Percebo, nos comentários de alguns internautas, uma rigidez de julgamento que pode ser injusta - não há como colocar igualmente na balança, com o mesmo peso, erros de incomparável gravidade. Sim, o rapaz não deveria estar naquele túnel andando de skate, e as autoridades também são culpadas de leniência porque nunca reprimem
A impunidade no Brasil é absurda! A culpa não é só do Judiciário, mas do Legislativo, que faz as leis, e do Executivo, que não educa o povo nem cobra resultados! Brasileiro só pensa em benefícios, benesses, bolsa isso, bolsa aquilo, jeitinho, farinha pouca, meu pirão primeiro. Coitada da classe média, mata de um lado, morre do outro, sem freio, sem limite. Vamos votar direito, ô raça! Parabéns à Ruth, para mim, uma das três melhores articulistas da atualidade!
Os dois garotos (coincidência do destino, chamam Rafael) estavam errados, um por estar tarde da noite perambulando num tunel que estava fechado, o outro por estar em alta velocidade, em lugar interditado. Talvez esses garotos não tenham ganhando uma PALMADA no momento oportuno. Agora os pais que vão sofrer.
Que Justiça é essa?
Maior escárnio é a sentença que aguarda Rafael Bussamra. Se for condenado por homicídio culposo (sem intenção de matar), poderá pegar dois a quatro anos de prisão.
Julio,
acho que a sua incapacidade de leitura merece um adendo: eu falei de várias mortes no meu texto ,inclusive do falecimentoi ético de um anônimo,no caso o atropelador; o fato de ser famoso ou não desqualifica o fato de o texto falar da ética brasileira, aliás acho que o tema retratado também poderia ser repensado em pessoas que leem o que querem ler e saem destilando " amenidades" em blogs .
Mas, como disse numa entrevista o país é o que é porque pessoas como você Julio, distorcem aquilo que leem como querem e bem entendem, aliás o Literatura Clandestina não é devotado à mídia,mas as discussões em torno do país e que ,infelizmente não vai dar conta de comentários inconclusivos e "levuianos" como o seu ,acho que você distorce aquilo que você não entende, filho de famoso, ou de qualquer anônimo também está submisso às diversas faces da falta de ética brasileira.
Sem mais e há cursos muito bons de capacidade leitora na Rede.
Antes de comentar textos,produza leitura menos ingênua.
Anna Carvalho
reascender discussão? pelo amor de deus né anna carvalho, a pena de prisão perpétua tem que ser posta no brasil com urgência, esse jovem não foi o primeiro e nem será o último, isso aqui é terra de ninguém, essa é a verdade, enquanto se pegam assinatura para salvar amazônia, o ser humano vai pra vala todo dia
Infelizmente no Brasil, não há punição para esse crime, que você quiser matar um inimigo e não ser preso, dirija um carro em alta velocidade e mate seu desafeto, pagará fiança e sairá ileso da delegacia.
So existe policial corrupto porque existe pai corrupto . Se na nossa sociedade não existissem pessoas como o pai desse rapaz , não existiria carro envenenado , não existiria rapaz de 25 anos que em plena terça feira está as 2 da manha fazendo pega nas ruas da cidade etc etc etc
Rafael Mascarenhas é somente mais um nome que dá cara a um Brasil com policiais e autoridades corruptos, filhos adultos da classe média alta que fazem dos carros armas nos trânsitos e pais que aceitam pagar propinas para cobrir os erros dos seus filhos irresponsáveis!
O que é mais lamentável é ver um pai tentanto acobertar um erro do filho. Tá certo que devemos proteger nossos filhos, mas não quando eles cometem essas barbaridades. Isso mostra que o assassino teve uma péssima criação.Força Cissa!
Revoltante, imperdoável, inaceitável essa sucessão de absurdos, absurdos esses que fazem lugar comum em terras tupiniquins. Aliás, o Brasil é de fato a pátria dos absurdos.
Me solidarizo com os familiares do jovem, apesar de não ter passado por uma dor com tanta magnitude como essa que principalmente a mãe e o pai estão passando, e rogo a Deus para não viver o suficiente para isso, eu entendo o sofrimento de todos.
Revoltante, imperdoável, inaceitável.
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