sábado, 19 de junho de 2010

SEM SARAMAGO, O MUNDO FICOU MAIS CEGO

“Saramago foi irônico com as suas convicções e questionamentos, mas as pessoas – principalmente aquelas que nunca leram uma linha sequer – ainda, na morte, questionam e repudiam. Cegos, todos cegos!”Por Elenilson Nascimento
Concordo com Mário Quintana: "Morrer, que me importa? (...) O diabo é deixar de viver". E olhando os comentários, só agora menos ácidos da mídia com relação ao Saramago, percebo o quanto isso mostra o despreparo que todos nós temos ao vivenciar ou mesmo falar sobre a morte.
A morte não é tão dolorosa e amedrontadora se se tratada com naturalidade e como mais uma etapa da vida. Seria muito bom se todos tivéssemos a chance de pelo menos uma vez na vida passar por uma experiência com pacientes em fase terminal num hospital público administrado pelo caótico SUS, só assim veríamos o despreparo da equipe médica, dos familiares e dos próprios paciente ao lidarem com a morte.
Fernando Pessoa já dizia que “morrer era apenas não ser visto”. E Saramago, mais do que todos nós juntos, foi visto, odiando, amado, triturado, criticado, ovacionado, vilipendiado. A morte de Saramago já chegou à ampla repercussão na internet e já está entre os tópicos mais discutidos pelo Twitter, entre elogios a seu legado e, lógico, críticas por sua postura com relação a religião. No Brasil, a notícia da morte do Prêmio Nobel de Literatura no ano de 1998 virou até assunto político ao provocar um constrangimento para a candidata do Partido Verde à Presidência da República, Marina Silva. Hoje pela manhã, a Marina (ou a assessora dela) escreveu em seu perfil no Twitter (@silva_marina): "Morre José Saramago. O mundo perde um grande escritor e os países da língua portuguesa, o nosso primeiro prêmio Nobel", e pouco tempo depois, a equipe de comunicação da candidata "retuitou" duas postagens de tuiteiros que criticavam as convicções ateias do escritor português, dando a entender que Marina concordava com essas posições. A candidata do PV é evangélica ligada à alienada Assembleia de Deus. Uma das mensagens questionava como se podia lamentar a morte de uma pessoa que blasfemou contra Deus a vida toda. A segunda, dizia que chamar Saramago de grande escritor é "muito subjetivo". "Alguém que não RESPEITA a fé alheia não é exatamente um GRANDE escritor", escreveu outro usuário. Daí podemos concluir que nem na dor dos outros as pessoas respeitam o seu trabalho. Independente de convicções religiosas muitos ainda minimizam o outro. Saramago foi irônico com as suas convicções e questionamentos, mas as pessoas – principalmente aquelas que nunca leram uma linha sequer – ainda , na morte, questionam e repudiam. Cegos, todos cegos!
Homem presta homenagem ao escritor José Saramago, velado em sua biblioteca. (foto: AP)
Com um olhar consciente e duro atrás dos seus óculos de lentes grossas, Saramago foi um dos primeiros autores a fazer parte do lugar de honra na minha estante. Livros como o “Ensaio Sobre a Cegueira”, “O Evangelho Segundo Jesus Cristo”, “Todos os Nomes”, “A Caverna”, “Intermitências da Morte” e, o mais recente, “Caim” ganharam destaque na minha lista de “livros fundamentais”.
Sempre o vi se apresentando em entrevistas tranquilo e amável, mas sabendo que, além de falar do argumento de seu último livro, tinha que opinar sobre os eventos políticos e sociais. E isso me fascinava! Saramago foi um homem ideologicamente ativo e sua voz percorreu o mundo para gritar contra as injustiças, a globalização e a pobreza.
Hoje, logo após a divulgação da sua morte, personalidades de todos os âmbitos da vida pública do mundo, da política às artes, passando pelo futebol, expressaram seu pesar pela morte do escritor Nobel de Literatura, para o qual o governo português prepara - depois de morto, né? - um último tributo em seu país natal.
Sua morte parece ter feito intelectuais e políticos de diferentes ideologias esquecerem as polêmicas em torno de muitas de suas obras, ao contrário dos seguidores da Marina Silva no Twitter, especialmente as mais críticas à Igreja Católica e à Bíblia, e se somarem às demonstrações de pêsames.
Hoje a tarde, um cortejo fúnebre levou os restos mortais do escritor até o Salão de Honra da Prefeitura de Lisboa, onde permanecerão até o domingo, quando serão incinerados no Cemitério do Alto de São João, na capital. Fontes da família do escritor anunciaram que suas cinzas serão levadas depois para sua cidade natal, Azinhaga, na região central do país, e para sua casa na ilha espanhola de Lanzarote, onde serão enterradas junto a uma oliveira.
Contudo, depois da morte, o que fica de verdade é a "liberdade criativa, que não tinha nada a ver com as afiliações políticas nem com Governos" e que "deu tanta riqueza a sua literatura". Até o Fernando Meirelles, diretor do filme "Ensaio Sobre a Cegueira", disse que o mundo perde lucidez com a morte do autor. "Definitivamente, hoje o mundo se tornou ainda mais burro e cego", ressaltou Meirelles em comunicado. E eu concordo plenamente! A lucidez da cegueira dos cegos de Saramago é um privilégio de poucos.
O escritor português José Saramago posa para foto ao lado da esposa, Pilar del Río, em sua casa na Espanha. (foto: Martínez de Cripán/Efe)
"José e Pilar" é o título de um filme produzido por Meirelles e dirigido pelo português Miguel Mendes, que retrata os últimos anos da relação do Prêmio Nobel de Literatura de 1998 com sua mulher, a jornalista espanhola Pilar del Río. O filme é extremamente comovente. Vemos um homem brilhante que sabe que seu tempo está acabando e que sente muita pena de morrer. Um filme lindo sobre a crítica e o compromisso social que Saramago colocava em suas obras.
A editora Companhia das Letras destacou, no Twitter, a importância do escritor para a literatura: “A @cialetras lamenta profundamente a morte de José Saramago, um dos maiores nomes da literatura mundial e grande amigo da casa”. No site da ABL, consta uma matéria a respeito do seu falecimento. Até o presidente Lula, que deve ter passado a léguas de distância de algum livro, destacou hoje a origem humilde e o caráter autodidata de Saramago, como se só isso fosse suficiente para mostrar a grandiosidade de Saramago. Para o presidente, Saramago, foi um intelectual "respeitado no mundo todo", que nunca "esqueceu suas origens" e foi um defensor "das causas sociais e da liberdade por toda a vida".
Saramago convidou, durante toda a sua vida, leitores do mundo todo a desvendar e viajar pela complexidade humana. Forçou-nos a entrarmos em contato com o universo mais sombrio do ser e reconhecer a capacidade de atos impronunciados. Por mais ficção que Saramago intuía em seus escritos, sua obra nunca deixou de conversar com a verdade.
Saramago sempre foi um autor que combatia as religiões com fúria, dizia que embaçavam nossa visão. Saramago era o lógico que dizia que "a morte apenas é a diferença entre estar aqui e já não estar", no meio da imensa massa dos iletrados. Sua morte deixa um enorme vazio e uma grande tristeza no mundo todo. E o mundo se tornou mais cegueta e pobre!
Do apresentador Luciano Huck, a candidata à Presidência Marina Silva e até cantora Sandy Leah (destaque acima) escreveram sobre o falecimento de Saramago pelo Twitter.
Foto rara: O jovem “boa-pinta” Saramago. Deve ter pego todas! (foto: Catraca Livre)
Foto rara 2: Saramago se encontra com zapatistas no México. (foto: Eduardo Verdugo/AP)
A última foto: corpo do escritor é velado na biblioteca da fundação que leva seu nome, em Tías, na Espanha. (foto: Martínez de Cripán/Efe)

+ Baixe aqui “As Intermitências da Morte”, de José Saramago. A Biblioteca Nacional de Portugal disponibiliza obras do escritor. No portal, há manuscritos que detalham métodos de escrita do artista. Destaque para “O Ano da Morte de Ricardo Reis”. Acesse ao manuscrito.
+ Assista a trechos do documentário “José e Pilar - Um Retrato de Uma Relação”, que poderá se chamar “União Ibérica”, dirigida por Fernando Meireles.

>>> Trecho 1 <<<
>>>
Trecho 2 <<<
fonte do documentário: Catraca Livre

11 comentários:

joana disse...

Algumas pessoas deveriam nunca morrer e saramago é uma delas

felipe disse...

saramago era genial

Alexandre disse...

Do Saramago li "As intermitências da morte" e "Todos os nomes", obras maravilhosas, dignas de um dos maiores escritores de todos os tempos. Tivemos (e temos) a honra de ele ser português, fazendo com que a nossa língua seja privilegiada e levada a todo o mundo.

Uma grande perda para a Literatura.
Perda maior para a humanidade.

Nuton disse...

"Como escreveu um amigo a Pilar: 'Não há palavras. Saramago levou-as todas'"

paulo disse...

Acabei de saber. Por sorte tive tempo de conhecer as obras dele enquanto ele ainda estava por aqui e mais sorte ainda teve o F. Meirelles de ter trabalhado junto com o próprio Saramago. Não estou exatamente triste, até porque, o peso das obras dele, são muito fortes para que ele não seja esquecido. Só é triste saber que não teremos tantas novidades sobre ele quanto antes, ou melhor, isso é o que pensamos ou especulamos... Um homem como ele não esteve entre nós atoa.

Ivan disse...

Deixe sua mensagem em homenagem a José Saramago
Pessoal, sou jornalista, redator de midias sociais, e peço licença para deixar para vocês uma página especial criada pelo Terra para que os internautas possam prestar sua homenagem ao inesquecível escritor José Saramago, falecido hoje, 18 de junho.
http://diversao.terra.com.br/gente/noticias/0,,OI4504319-EI13419,00-Deixe+sua+mensagem+em+homenagem+a+Jose+Saramago.html
Acesse o link acima e deixe sua mensagem também.
Obrigado pela atenção.
Abraços.

gustavo disse...

Morreu o Eça de queiroz do nosso tempo, uma perda muito grande e o pior que morrendo os últimos medalhões, não restará mais quase nada.

monica disse...

adeus
José escritor:
...

quantas Blimundas recolham suas vontades
e as alcem ao infinito
na passarola da sua/nossa imaginação...
...

José Saramago: 16/11/1922, Azinhaga (Portugal) - 18/06/2010, Lanzarote (Espanha)

Anônimo disse...

A MORTE BEM QUE PODERIA TER TIRADO FÉRIAS NESSES TEMPOS!!!!

thomaz disse...

Olha só que ironia, ouvi a "chamada" do Jornal Hoje e fui ver a reportagem, no final citaram o que o Fernando falou "não consigo fugir do clichê, hoje o mundo com certeza ficou mais burro e mais cego" e logo em seguida "Voltamos a falar de Copa do Mundo", hahaha, interessante coincidência!

Lindy disse...

Acrescentando ao "clichê" de Fernando Meirelles: o mundo não ficou mais um pouco só cego e burro, mas também MUDO, pq Saramago tinha uma voz que poucos tem. Lamentei profundamente a perda dele, mesmo sendo religiosa, acreditando no que ele não acreditava, pois Deus nos deu livre-arbítrio e a premissa de "amar ao próximo como a ti mesmo", assim respeitando o outro com suas ideologias, afinal, todos nós temos percepções diferentes de enxergar o mundo. E, Saramago não morreu, suas palavras ainda pulsam em nossos ouvidos!