quarta-feira, 30 de junho de 2010

DEUS COMANDA A SELEÇÃO

“Deus sempre está bem na foto. Já Dunga, chamado de anão moral porque permaneceu com uma mão do bolso enquanto a outra cumprimentava o presidente Lula, escalou um time evangélico, proibiu sexo na concentração e levou à África do Sul uma equipe sem arte.”
Por Aninha Franco*
Uma única coisa paralisa 190 milhões de brasileiros. Semicerra as casas dos banqueiros. Esfria a campanha política iniciada há mais de ano, que começará em sete de julho. Interrompe sonhos e sagas. Diminui a violência porque assaltantes, ladrões e traficantes param pra ver. Convive com a digital, analógica, grande, pequena, P&B ou colorida. Está nas casas, casebres, mansões e edifícios. E faz do Brasil, quando ganha, o melhor do mundo em alguma coisa, aumentando a autoestima. Hoje, Dunga e Deus, de letras iniciais idênticas, estão na voz do povo. Dunga malfalado, Deus, a serviço da esperança de seus conterrâneos, brasileiros como Ele, nascido na Bahia. Único capaz de fazer o Brasil vencer com esta escalação.
Deus sempre está bem na foto. Já Dunga, chamado de anão moral porque permaneceu com uma mão do bolso enquanto a outra cumprimentava o presidente Lula, escalou um time evangélico, proibiu sexo na concentração e levou à África do Sul uma equipe sem arte. Tudo é perdoável, à exceção de uma equipe sem arte, como a Bahia, a cidade do Salvador, que parou de escalar artistas pela Secult municipal e pela Secult estadual, provocando um bolão de apostas no apuro de qual das duas é a pior.
As duas são péssimas e estão apelidadas de Sepult – secretarias de sepultamento cultural, porque funcionam distantes dos artistas criadores e dos espectadores consumidores. A estadual gastou 35 milhões de reais para exibir cópias de Rodin bichadas e, recentemente, explicou que elas chegaram de Paris assim. E nós com isso? No Rodin, existe uma consultora científica com salário de R$ 22 mil mensais, que tem que saber, ao menos, receber cópias de Rodin(s) limpinhas e sem ferrugem. A municipal adquiriu 16 milhões de livros da Editora Aymará, paranaense, sem licitação. E Salvador que precisa de cultura e que, sem ela, é cidade-dormitório, parou duas vezes: a normal, para assistir à Copa, e a exasperante, promovida pelas Sepults. Se vocês ouvirem algum candidato às próximas eleições declarar que a cultura baiana vai bem, não lhe deem votos. A Bahia merece muito, e eles, como se vê, estão satisfeitos com nada.

* Aninha Franco é escritora, advogada e agente cultural. Afastada temporariamente da função de programadora artística do Teatro XVIII, essa guerreira das artes na Bahia promove programações culturais há cerca de 15 anos em Salvador (BA). Em 2006, ela assinou o prefácio da antologia “Contos Perversos” da Coleção Literatura Clandestina, e eu quase morro de tanta felicidade. Contato: aninha.franco@grupoatarde.com
fonte: Revista Muito

1 comentários:

Marcio disse...

Concordo com tudo que a Aninha Fanco escreveu.