Por Elenilson Nascimento
Os livros do carioca Alexandre de Castro Gomes são marcados por aventura, mistério, fantasia, e tudo temperado com muito humor. Nascido no ano de 1969, ex-aluno de escolas americanas e formado em Direito pela Cândido Mendes de Ipanema - RJ, Alexandre usa a criatividade como ferramenta de trabalho, seja na arte ou na literatura. O nascimento de seus dois filhos o reaproximou do universo infantil e o inspirou a escrever histórias e a criar sites ligados ao tema, entre eles o eraumavez.com.br. E para o menino que vivia cercado de livros e autores, ter se tornado escritor não foi propriamente uma surpresa. Em 2008 publicou seu primeiro livro, “O Julgamento do Chocolate”, pela RHJ. Impulsionado pelo sucesso de seu primogênito literário e pela aura gostosa que envolve o mundo infanto-juvenil, em 2009, lançou, também pela RHJ, a “Viagem Espacial Interativa”, este sendo o primeiro de uma série. Ainda no ano de 2009, o autor participou do I Concurso Nacional de Fábulas, promovido pela Litteris, para obras de até 30 linhas de texto. Sua história “O Travesseiro do Macaco” se classificou e acabou premiada, conquistando o terceiro lugar do concurso entre 681 participantes. Como prêmio, terá destaque no livro “Novas Fábulas Infantis”, que será lançado em agosto/setembro de 2010. “Antes de mais nada gostaria de agradecer ao espaço que Elenilson dá a quem está começando nessa arte complicada que é escrever para crianças. Na verdade, para quem gosta, escrever é até simples. Difícil é fazer seu livro chegar aos leitores. Depois do texto escrito vem a angustiante, e muitas vezes frustrante, busca pela editora, a negociação do contrato e a longa espera até o lançamento. E não acaba ai. Em seguida tem feiras e bienais, apresentações em escolas e todo o trabalho recorrente disso. Para começar a dar retorno leva tempo. O trabalho todo é um investimento. Quem tem muitos livros lançados pode até pensar em viver disso, mas aqueles que começaram há pouco, precisam de outra atividade remunerada. Acabam criando seus textos no tempo livre mas sonhando em poder fazê-lo em tempo integral. Para alguns é um hobby de luxo, para outros é um sonho. Estou muito feliz de poder estar realizando o meu”. Em março de 2010, Alexandre lançou o “Condomínio dos Monstros” (RHJ) e já fechou outro livro, “Histórias a Quatro Patas”, dessa vez com a editora FTD. Vida longa e com muitos livros para esse escritor que transita competentemente entre várias formas de linguagem, onde a literatura tem a função de ensinar os seus leitores a sonhar. Confira a seguir as ideias do Alexandre de Castro Gomes a respeito da literatura infanto-juvenil. P.S. O cara é uma simpatia!
Elenilson – Como tem se dado o seu caminho na literatura até o presente momento?Alexandre de Castro Gomes – No final da década de 90, eu e a Cris Alhadeff, minha sócia conjugal, assistimos a um programa de TV que falava sobre um casal que ilustrava e escrevia livros infantis. A história deles era muito bacana e resolvemos tentar fazer igual. Sempre gostamos de contar histórias e colocá-las em um papel parecia ser a coisa lógica a se fazer. A Cris me apresentou um amigo que já havia lançado um livro, posteriormente transformado em peça infantil. Tomei gosto pela coisa. Criei historinhas divertidas, embora um tanto inocentes, que guardei para tentar lançar no futuro. Nessa época fui apresentado por outro amigo a um editor, também iniciante. O cara tinha lançado um livro de receitas por conta própria e estava querendo investir em literatura infantil. Tivemos reuniões, conversamos com um pessoal que faz projeto gráfico e diagramação, a Cris ilustrou três livros e... o editor deu para trás. Desistiu e foi montar outro negócio. Ficamos frustrados. Guardei tudo em uma caixa e fui trabalhar em escritórios jurídicos de seguradoras. Nossos filhos nasceram em 2002 e 2004. Resgatei as velhas histórias do baú. Mandei-as para três ou quatro editoras. Foram todas negadas. Descobri que algumas nem leram os originais, pois esses voltaram com as páginas ainda grudadas pela tinta. Percebi depois que uma das histórias violava direito de imagem. Outra tinha um tema mais do que batido. Aprendi na marra. Reescrevi alguma coisa e escrevi outras que só fui mandar para editoras no final de 2007. Nessa época, mais ou menos, montei o site http://www.eraumavez.com.br/ para auxiliar novos escritores e ilustradores de infanto-juvenil. Ali se pode achar editoras, concursos, dicas e contatos. Lá para fevereiro de 2008 recebi um telefonema do editor da RHJ, de Belo Horizonte, dizendo que das três histórias que eles receberam, duas seriam publicadas. Achei que fosse brincadeira de algum amigo, mas não era. Acabou que a RHJ publicou as três histórias: “O Julgamento do Chocolate” em 2008, “Viagem Espacial Interativa” em 2009 e “Condomínio dos Monstros” em 2010. Esses livros me levaram à III Mostra Literária de Contagem - MG, ao 11º Salão da FNLIJ e agora, em 11 de junho às 13hs, ao 12º Salão da FNLIJ no Rio de Janeiro. Escrevi mais. Fiz meu site (http://www.alexandredecastrogomes.com/). Pesquisei editoras. Liguei para várias, sempre perguntando como mandar os originais para análise. Em 2009 enviei mais alguns. Já fechei novos livros com a RHJ (“Viagem Mundial Interativa”) e a FTD (“Histórias a Quatro Patas”). Tenho textos bem encaminhados em outras grandes editoras. Agora é aguardar e arrumar tempo para produzir mais, pois meu estoque de originais está acabando. Em 2011 devo lançar alguns títulos. Aguardem! Em 2009 entrei em uma comunidade no Orkut, chamada “Concursos Literários”. São mais de seis mil membros colaborando com editais de concursos, dicas e apoio. O grupo é formado por escritores de altíssimo nível, muitos vencedores de prêmios literários importantes, entre eles a Henriette Effenberger, vencedora do João de Barro 2009, e Walther Moreira Santos, finalista do Prêmio São Paulo de Literatura em 2008. É uma galera muito bacana que se ajuda, seja em concursos ou em indicação de editoras e ilustradores. Participei de poucos até agora, mas fui premiado com o 1º lugar no I Concurso de Minicontos do Estronho, 3º lugar no I Concurso Nacional de Fábulas (meu texto estará na antologia Novas Fábulas Infantis, que a Litteris lançará em setembro de 2010), e tive ainda duas menções honrosas no II Concurso de Minicontos do Simplicíssimo. Em 2010 entrei na AEILIJ (Associação de Escritores e Ilustradores de Literatura Infantil e Juvenil). Lá conheci uma outra turma, também muito legal e talentosa. Espero poder contribuir para fortalecer ainda mais a Associação. Vamos ver no que dá.
Elenilson – O que o motivou a escrever livros infanto-juvenis e o que o mobiliza a continuar nessa atividade?
Alexandre de Castro Gomes – Gosto da linguagem figurada e da mágica existente na literatura infanto-juvenil. Um chocolate pode ser julgado por frutas e legumes. Uma criança viaja para planetas distantes. Monstros convivem juntos. Escrever sem os limites impostos ao cotidiano adulto é uma delícia, como é também extrapolar os limites da imaginação e criatividade. A criança lê, por exemplo, a história de Peter Pan e identifica a figura materna na Wendy, a quem o pequeno Peter quer compartilhar seu mundo fantástico onde tudo é permitido, e ao mesmo tempo vê a figura paterna no Capitão Gancho, que quer acabar com aquela bagunça criada pelos meninos perdidos. Monteiro Lobato representou a menina curiosa e "perguntadeira" em uma boneca de pano. Fez de uma espiga de milho, um sábio. Contou histórias e apresentou o folclore brasileiro nos limites de uma propriedade rural. Isso é o máximo! Foi graças a ele que eu e muitos de minha geração ficamos conhecendo o Saci, a Cuca, o Curupira, a Iara. Temos que lembrar que criança não lê Câmara Cascudo. Poucos leem. Nosso folclore é melhor divulgado na literatura infanto-juvenil, não tenho a menor dúvida disso. O retorno dos pequenos é um prazer inigualável. São eles que me fazem continuar. Meus filhos participam de minhas histórias, dando pitacos aqui e acolá. Eu os envolvo em todo o processo e isso é estimulante, tanto para mim quanto para eles. Escrevi um livro, que está em análise, chamado Os 12 Trabalhos de Severino. O livro é uma adaptação aos 12 trabalhos de Hércules, porém baseado no folclore brasileiro. Ao invés do leão de Neméia, temos a Onça-boi. No lugar das éguas antropofágicas, as mulas sem cabeça. Meus filhos liam cada capítulo comigo enquanto eu escrevia. Em um dado momento o Guigo (o mais velho) me pediu que não matasse fulano na história. Foi o que fiz. Meu público é eles.
Elenilson – Produzir literatura deve ter sido um desejo que veio de uma paixão pelo livro, a leitura, imagino…
Alexandre de Castro Gomes – Quando eu era pequeno adorava livros de bangue-bangue. Daqueles baratinhos comprados em bancas de jornal. Tinha uns nove anos e lia "John Smith engatilhou sua arma e apontou para o vaqueiro embriagado. Ouviu-se um estampido seco e o chapéu do homem voou para longe do saloon...". Nossa, como eu gostava disso. E de Mônica e Cebolinha. E de pocket-books da Ediouro. Adorava os do Hélio do Soveral (assinava Luiz de Santiago) com “A Turma do Posto 4”. Aliás o Hélio também escreveu a coleção “Os Seis”, só que assinava como Irani de Castro. Tinha ainda a Stella Car e seus livros com os "irmãos encrenca", o José Mauro de Vasconcellos com “Meu pé de laranja lima”, João Carlos Marinho com “O gênio do crime”, Edmundo Donato (assinava Marcos Rey) com “O mistério do cinco estrelas” e “Um cadáver ouve rádio”, enfim, tem um monte de livros juvenis que devorei e que volta e meia leio de novo. Depois veio a fase adulta com os clássicos: Graciliano Ramos, Machado, Amado, Luiz Edmundo, Euclides da Cunha, os irmãos Azevedo (Artur e Aluisio), Luis Fernando Veríssimo e outros. Isso tudo sem contar os estrangeiros. Li na escola O apanhador no campo de centeio, do Sallinger, e me amarrei no estilo "conto minha história e não estou nem aí para o mundo". Gosto muito de literatura fantástica no estilo de “Day of the Triffids” do John Wyndham. Aliás, pode-se dizer que o Saramago tirou muito dali no seu “Ensaio sobre a cegueira”. Já tive a fase de biografias (Zico, John Lennon, Jim Morrison, William Shatner, etc.). Hoje leio quase tudo que me vem às mãos, mas dou preferência aos infanto-juvenis. Atualmente tenho na mesinha de cabeceira o “Paisagem com Dromedário” da Carola Saavedra e “A Noite dos Peregrinos” de Henrique Bon, ambos amigos meus, sendo que a Carola é irmã de um "quase irmão" e o Henrique é um grande companheiro lá da comunidade de Concursos Literários.
Elenilson – A abordagem social em livros infanto-juvenis tem que ser uma característica principal?
Alexandre de Castro Gomes – Não acho. O principal, para mim, é o entretenimento. É conseguir fazer com que a criança entre na história e sinta o que o autor quer que ela sinta. Seja isso curiosidade, alegria, medo, suspense, o que for. A abordagem social é um complemento, mas não o objetivo. Tem que ver qual o tipo de mensagem que o autor quer passar. As vezes é só "deve-se escovar os dentes" e pronto. Claro que todo livro infanto-juvenil tem que ser moralmente viável. O rico e o bonito não podem ser melhores do que o pobre e o feio, porque ser pobre e feio não é escolha. Em compensação, o gentil se sobrepõe ao mal-educado. As mensagens são muitas vezes sutis. Existem, mas nem sempre estão "na cara". Qual a abordagem social em "O Chapeuzinho Vermelho"?
Elenilson – Esta paixão adquirida pelo livro como objeto é bem interessante para pensar… então, para você, qual é a função principal do escritor?
Alexandre de Castro Gomes – A função principal do escritor é contar e recontar histórias, dessa forma espalhando cultura e auxiliando na formação do leitor. Hans Christian Andersen contava. Os irmãos Grimm recontavam.
Elenilson – O papel do escritor está vinculado a “cara” do livro? O que você diria que um editor, digamos, “completo”, faz?
Alexandre de Castro Gomes – O escritor estará sempre vinculado ao livro que escreveu. Afinal é ele quem assina. É graças a ele que aqueles personagens ganharam vida. Por isso mesmo ele deveria participar de todas etapas da produção, desde a escolha do ilustrador até o tipo de papel escolhido. Entretanto, não é assim que acontece. O editor é quase sempre o principal responsável pela aparência final do livro. "A capa laminada com verniz sai mais cara". "Esse ilustrador é mais badalado". "Essas dimensões se encaixam mais com nossa linha". "Prefiro a apresentação desse jeito". Isso quando ele dá alguma satisfação durante o processo. Muitas vezes só mostra o livro pronto. Levando em consideração que o dinheiro sai do bolso do editor, é direito dele defender a publicação conforme preferir, mas na minha opinião, não custa nada sugerir as mudanças ao autor e tentar chegar em um denominador comum. Se assim o fizer, aí sim será um editor "completo".
Alexandre de Castro Gomes – Êta perguntinha difícil. O exemplo vem de casa, embora existam outros agentes incentivadores, como a escola e o governo. Em um país utópico, que não é o caso do Brasil, haveria professores muito bem remunerados que incentivariam as crianças, lendo em aula, montando peças de teatro, criando concursos internos de contos, discutindo autores e personagens, etc. Mas isso deveria ser feito de forma divertida. "Vamos visitar o Sítio do Pica-pau Amarelo?". "Semana que vem o autor Fulano de Tal vem dar uma palestra aqui na escola!". "O autor do melhor conto sobre o folclore ganhará um livro e meio ponto na prova.". Nessa mesma realidade, o governo municipal bancaria e fiscalizaria feiras literárias dentro de comunidades carentes. Showmício com Ruth Rocha e Ziraldo, ao invés de funkeiros e sertanejos. A nossa realidade é diferente. Aqui os professores mal remunerados não têm acesso à grande variedade de títulos. As bibliotecas escolares são incrivelmente mal equipadas e desestruturadas. Qual o incentivo que esse profissional encontra para ensinar?
Elenilson – Quais são os maiores entraves em relação ao hábito de ler?
Alexandre de Castro Gomes – Pais ausentes, professores mal remunerados, bibliotecas distantes e caindo aos pedaços, oferta abundante de divertimento rápido e superficial, tais como televisão, internet e videogames. De acordo com uma notícia veiculada no site do Ministério da Cultura em janeiro de 2008, o brasileiro lê 1,8 livros por ano. Muito diferente dos hábitos americanos (5 livros/ano) e europeus (5-8 livros por ano). Por quê? Os pais se afastaram dos filhos. Saem cedo para trabalhar e voltam tarde. Não leem mais na cama. Deixaram a responsabilidade para a escola. A escola, por sua vez, perdeu a "moral". Hoje os alunos xingam seus professores e são defendidos pelos mesmos pais que se ausentam. O livro custa caro. Não são todos que podem dispor de 20 ou 30 reais por um livro infantil que será lido em minutos. Quem vai à livraria tem dinheiro. Quem não tem vai à biblioteca. Onde ficam as bibliotecas públicas? Poucos sabem. Pode ter certeza que bem longe das comunidades carentes.
Elenilson – Qual o papel da família no incentivo ao hábito de leitura?
Alexandre de Castro Gomes – A família é fundamental. Desde a leitura ao pé da cama e passeios à livraria, até o ato de presentear filhos e amigos dos filhos com livros. O filho que não vê os pais lendo, também não quererá saber de leitura. Horários e regras são importantes. Se os pais deixarem as crianças passarem horas na internet ou no videogame, elas não lerão nada. Outra coisa bacana é compartilhar a leitura com os filhos. Leia a história antes ou depois da criança e comente um trecho ou outro. Conheça seus filhos. Sugira livros com temas que eles gostem. Não adianta dar "A princesa sabida" para o menino que gosta de esportes. Dê "Meu primeiro gol" ou algo assim.
Elenilson – Como mudar esse quadro, quando a educação apodrece no nosso país?
Alexandre de Castro Gomes – Votando direito e cobrando dos governantes. É triste, mas é isso. A democracia pode parecer ter falhado, mas ainda é muito melhor do que a alternativa. Falar sobre isso abertamente em jornais, revistas e blogs também ajuda. Você me perguntar isso, da forma como perguntou, já é uma forma de colaborar. Temos que colocar esse tema em discussão. Pentelhar quem está em Brasília. Os filhos do governo federal são o ministro da educação, o ministro da saúde, o ministro das telecomunicações, os militares e por aí vai. É eles quem recebem a mesada. Vamos encher o saco dos ministros. Exigir que o ministro da cultura peça um aumento de mesada e que faça bom uso dela. Vamos botar pressão! Temos que lembrar que todos querem esse aumento, mas que o MEC tem que saber gritar mais alto. Novos escritores trazem novos leitores e vice-versa. Deve-se incentivar a literatura. Segue uma nota interessante que pesquei na internet: "Tramita no Congresso Nacional um projeto de lei que institui concursos regionais em todo país para a descoberta de novos escritores. Esses concursos passariam a ser uma das atribuições do Poder Executivo para a difusão do livro dentro da Política Nacional do Livro. O projeto do deputado Marcelo Almeida (PMDB-PR) recebeu parecer favorável do deputado Pedro Wilson (PT-GO), na Comissão de Educação e Cultura, e segue para análise da Comissão de Constituição, Justiça e Cidadania, com trâmite conclusivo nas comissões da Câmara dos Deputados." (fonte: Flip) Acho uma boa iniciativa. Resta saber o que estará nas entrelinhas. Quem será da comissão julgadora? Tem rabo preso? Tem projeto com o governo? Ganha quem for compadre? Seja como for, devemos fiscalizar, dar crédito e bater palmas. Poucas vezes vi alguém fazer alguma coisa pelos escritores. No ano passado a Funarte distribuiu bolsas de criação literária, sendo que foram 2 bolsas de 30 mil para cada região do Brasil. Esse ano aumentaram a oferta e destinaram 30 bolsas para a região sudeste. Já é uma vitória, mas ainda está longe do ideal.
Elenilson – Professores não têm tempo de ler livros, como eles poderiam incentivar os alunos a lerem?
Alexandre de Castro Gomes – Quem não tem tempo deve tentar achar tempo. Eu leio antes de dormir, quando viajo, no metrô, no banheiro... No caso dos professores, a leitura é parte do trabalho. A falta de tempo deve-se a necessidade de acumular funções e serviços, muitas vezes em mais de uma escola. Se o professor fosse melhor remunerado, esse não seria um problema. Voltamos aqui à velha história. E agora? Agora é fazer ginástica mental e tentar fazer mágica enquanto a política salarial não muda. Ler com os alunos em sala. Criar grupos de discussão literária dentro de aula. Usar os clássicos lidos anteriormente. Trabalhar a questão junto aos pais e à direção da escola. O fato é que se o professor não leu, fica praticamente impossível recomendar a leitura aos alunos. O livro pode ser ruim e o professor poderá perder a credibilidade do pupilo. O problema é grave. Merece uma discussão mais ampla.
Elenilson – Que influências literárias e culturais você teve para transpô-las aos livros, através da palavra?
Alexandre de Castro Gomes – Além dos livros que li e mencionei alguns no começo da entrevista, tive a oportunidade de estudar em duas escolas estrangeiras aqui no Rio de Janeiro, a Escola Americana e a Our Lady of Mercy School. Fiz muitos amigos "gringos" e convivi com suas diferenças culturais e religiosas. Estive com um sérvio e um croata em um barzinho de Ipanema enquanto a guerra entre os dois países estourava lá fora. Fui a festas com judeus e muçulmanos que brindavam juntos. Joguei bola com argentinos e ingleses. Éramos uma grande família e mantemos esses laços até hoje. Cada personagem que crio tem um pouco de um, as vezes um tanto de outro. Gosto muito de tramas com humor. Misturo o texto descritivo do Hélio do Soveral, com a graça da Stella Car e a informalidade do Veríssimo e voilá! Gosto do aconchego do Lobato e da inocência do Maurício de Souza. O mistério de Marcos Rey com a "viagem" de Lewis Carroll. É uma salada danada. E cheia de molho!
No lançamento do "Condomínio dos Monstros”,na Livraria da Travessa – RJ.
Alexandre de Castro Gomes – Não tenho acompanhado os últimos grandes lançamentos de literatura adulta. Como trabalho mais os infanto-juvenis, é a eles que tenho dado maior atenção. Os livros infantis estão muito bem representados pela turma que aí está. Tanto pela galera da velha guarda (Ziraldo, Ruth Rocha, Ana Maria Machado, Tatiana Belinky, Pedro Bandeira, Angela Lago, Bartholomeu e outros) quanto pela nova geração (Mariana Massarani, Daniel Munduruku, André Neves, Gláucia Lewicki, Anna Claudia Ramos, Caio Riter, etc.). O trabalho é primoroso e qualidade do produto final está cada vez melhor. Pequenas e novas editoras como a Zit, a Franco, a Mirabolante, a Uni Duni e outras estão arrebentando. Isso sem falar nas que tem mais tempo de mercado, como a RHJ, FTD, Melhoramentos, DCL, Ática, Cia. das Letras... São tantas que fica até difícil listar. Tenho um romance juvenil em análise (muito provável que saia no ano que vem, até porque andei recebendo elogios de editoras) e outro concorrendo à Bolsa de Criação Literária da Funarte. Além desses, há os contos infantis, alguns publicados, outros no prelo. Meu primeiro livro, "O Julgamento do Chocolate", vendeu 2100 cópias para a Fundação para o Desenvolvimento da Educação, da Secretaria da Educação do Governo do Estado de São Paulo (FDE), foi selecionado para compor o kit literário 2009 da Prefeitura de Contagem e também escolhido pela Secretaria de Educação do Estado de Rondônia em 2010. O Grupo de teatro "Pica-Pau Amarelo", da Escola Municipal Gov. Heriberto Hulse, de Joinville - SC, realizou em novembro do ano passado três peças teatrais. Foram elas: "O Julgamento do Chocolate" (de Alexandre de Castro Gomes, adaptada ao teatro por Patrícia Luciane da Silva) com alunos do 3º e 4º ano; O Rapto das Cebolinhas (de Maria Clara Machado) com alunos do 5º ano e ex-alunos; e "Os Saltimbancos" (adaptação de Chico Buarque da obra "Os músicos de Bremen" dos Irmãos Grimm) com alunos do curso matutino. Me colocaram junto à Maria Clara Machado e ao Chico Buarque! Foi um orgulho danado. Conversei muito com a responsável pelo projeto e mandei bilhetes para as crianças que participaram. A turminha me enviou fotos da peça. Ficou bárbaro! O segundo livro, "Viagem Espacial Interativa", também foi selecionado para o kit literário da Prefeitura de Contagem, só que agora em 2010. O terceiro livro, Condomínio dos Monstros, foi lançado agora no começo do mês e esgotou na livraria no mesmo dia. Acho que estou indo bem.
Elenilson – O que está achando da programação para crianças e adolescentes nas TVs?
Alexandre de Castro Gomes – Já achei pior. Está melhorando muito apesar de ter bobagens como "Billy e Mandy". Outro dia o Billy lascou um "esse cara é um babaca!", que me deixou em estado de choque. Putz! Em compensação gosto de Bob Esponja, Phineas e Ferb (com o ornitorrinco espião), Flap Jack, Mansão Foster para Amigos Imaginários, Scooby-doo, Pinguins de Madagascar, Ben 10 e outros. Esses desenhos que listei trazem mensagens de amizade, lealdade, respeito às diferenças e valores morais positivos. Com exceção de Billy e Mandy, é claro. Eu gostava muito de um programa que passava no Nickelodeon, e era produzido no Chile, chamado 31 Minutos. Fantoches e bonecos apresentavam um programa de TV e discutiam ecologia, música e um monte de outras coisas legais. Pena que acabou. Quanto à programação para adolescentes, não conheço bem. Meus filhos ainda têm seis e oito anos.
Elenilson – O que você acha que faz as pessoas gostarem do seu livro “Condomínio dos Monstros”?Alexandre de Castro Gomes – Monstros! Todos amam monstros. Perguntei para meu filho qual dos meus livros que ele mais gostava e, apesar de ser protagonista no segundo, ele me apontou o Condomínio. "Porque eu adoro monstros!". As crianças gostam de mágica. Se você der a elas uma história engraçada, com lindas ilustrações e cheia de seres de outro mundo, ela vai adorar. O truque é enfiar uma mensagem por trás daquilo tudo. O trabalho primoroso da editora RHJ e as ilustrações da Cris Alhadeff também contribuem para o sucesso da publicação. Eu olho para os monstros que ela desenhou e não sei qual eu gosto mais. Tem hora que é a Múmia, outra a Bruxa, outra o Bicho-Papão... Aliás, quem quiser comprar o livro online, ele já está a venda nos sites das livrarias Galileu e Travessa. Em breve estará também nas Livrarias Cultura e em outras.
Elenilson – Como é o seu método de trabalho?
Alexandre de Castro Gomes – Sou assistemático. Tem histórias que passo semanas bolando na cabeça e quando sento para escrever elas saem de uma vez só, quase prontas. Em outras, começo a escrever e vou criando a medida que teclo. Paro de escrever, faço pesquisas, corrijo o que estava errado, incluo detalhes e por ai vai. Quando tudo está terminado, deixo "de molho" por algum tempo e releio depois. Acabo mudando pouco ou muito, depende. O que eu procuro sempre fazer é escrever durante a noite, depois que meus filhos vão dormir e o telefone para de tocar. Daí sento na cama com o notebook, ligo a TV e mando bala.
Elenilson – Em seus livros, você costuma trabalhar com os mesmos ilustradores, como, por exemplo, Cris Alhadeff. Há alguma razão especial?
Alexandre de Castro Gomes – Tenho fortes razões para isso. A primeira é que acho o trabalho da Cris fora de série. Sou fã mesmo. E não sou só eu. A Cris lançou seu primeiro trabalho com literatura infantil no começo de maio e em junho já lançará o quinto livro. Entre no site dela (www.crisalhadeff.com) e veja se não tenho razão. A segunda é que somos casados, portanto a grana entra para os dois. A terceira é que assim eu consigo acompanhar todo o processo de criação das ilustrações e me certifico que elas ficarão do jeito que nós queremos. A quarta é que trabalhar juntos com literatura infanto-juvenil é um sonho que temos há mais de 10 anos. A experiência tem sido fantástica e nossos filhos adoram. É claro que a parceria não é exclusiva. Tive trabalhos ilustrados por outros artistas e ela já fez textos de outros autores. Mas quando crio um texto que seja a "nossa cara", não penso duas vezes em indicá-la.
Elenilson – Que projeto você está construindo agora? Dá para visualizar o horizonte?
Alexandre de Castro Gomes – Estou fazendo um monte de coisas ao mesmo tempo. Não consigo mais parar de escrever. É quase um vício. Penso que ter uma história na cabeça e não colocá-la no papel é como ter um brinquedo que você não pode tirar da embalagem. Comecei o segundo romance juvenil, estou com a metade de um almanaque pronto, bolei o roteiro do meu primeiro romance adulto (com dois capítulos já escritos), tenho alguns contos infantis em análise de editoras, terminei uma história que vou mandar para o I Concurso Nacional Cepe de Literatura Infantil e Juvenil, estou bolando textos para o próximo João de Barro e SESC-DF...
Elenilson – Para terminar, qual o livro que você tem mais orgulho de ter mandado para as livrarias?
Alexandre de Castro Gomes – Livros são como filhos. Tenho orgulho de todos!
Família linda.Site: http://www.alexandredecastrogomes.com/
Contato: alex@eraumavez.com.br
fotos 3 e 8: Rodrigo Saavedra
fotos 4 e 9: Denise Ricardo e demais fotos: ACG/divulgação





10 comentários:
Bela entrevista!!! Parabéns a todos!
Adorei a entrevista. Parabéns ao Elenilson! Arrumou mais um seguidor.
Porra, que maneiro, cara! Sempre estive a procura de um blog similar ao seu e hoje te encontrei na rede.
Sou aspirante a escritor, com um romance em andamento, escrevo poesias quase que semanalmente e composições de vez enquando, sou estudante de jornalismo da Facha e blogueiro a 2 anos.
Pode ter certeza que vc jah ganhou mais um leitor. Estarei te lincando lá no meu blog e espero poder ter o prazer da sua visita no Imprimir palavras.
Um abraço,
Márwio Câmara
Parabens ao Alex por muitas conquistas.
Abraços!!!
Muito legal a entrevista do Alexandre e a iniciativa Elenilson de fazer um blog tão dinâmico. Parabéns aos dois!
Excelente entrevista e matéria, todos de parabéns !!! muito sucesso ao Alex que traz felicidade e emoção as crianças e adultos, Parabéns !!!!
Bela entrevista ! Como é importante para um país como o nosso ter escritores interessantes, com contéudo e antenados, escrevendo para esse público. O amor pela grande aventura que é a leitura tem que ser despertado no início, pois esse prazer vai nos acompanhar a vida toda. Parabéns a todos !
Muito legal !! Parabéns Alex !!
Parabéns Alex pelo sucesso e pela entrevista. Muito legal.
Parabéns, Tininha pelas originais ilustrações.
Beijos a todos.
Aluiso e Vivian
Grande Alex!! Parabéns!! A entrevista está 100% !!!
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