segunda-feira, 8 de março de 2010

MICHAEL JACKSON COMO CIDADÃO SOTEROPOLITANO E GUERRA POR AUDIÊNCIA LEVA APRESENTADOR AOS TRIBUNAIS

“A Bahia apareceu para o mundo todo quando Michael Jackson gravou o clipe no Pelourinho. Será que não somos humildes o suficiente para reconhecer isto?” (Leo Kret)
A vereadora Leo Kret quer homenagear Michael Jackson com o “Título de Cidadão Soteropolitano”.
Por Elenilson Nascimento
Na Bahia, tem coisas que superam a falta de criatividade das programações do resto do País. Quê BBB que nada! Pior do que as novelas do SBT e das baixarias diárias em Brasília estampadas nos telejornais, a multiplicação recente dos programas nas TVs baianas voltados para a abordagem da violência, do mundo cão, das baixarias, da falta de senso e dos dramas da vida privada dos miseráveis faz muito sucesso nas tardes dos desocupados que assistem e dos outros que os produzem e, segundo a jornalista Malu Fontes, anda gerando uma “atividade nova nas delegacias de polícia e incorporou uma tarefa nova à rotina dos policiais”.
Segundo Malu, para quem não sabe, alguns delegados e policiais, interessados em colaborar como produtores de conteúdo desses programas de abaixarias, e claro, sempre muito mais interessados em ficar muito “bem na fita” com os apresentadorezinhos de baixo nível dessas TVs igualmente ridículas e também para ficarem em evidência sob os holofotes do povão, sobretudo no caso dos delegados baianos em busca de um mandato de deputado estadual nas próximas eleições de outubro desse ano, incorporaram a câmera filmadora a suas rotinas de trabalho. Conclusão: os programas nas tardes baianas são regados há muito sangue e balas, desespero e pobreza.
Mas, com a intenção de “amansar a boca carnívora da imprensa e da opinião pública”, tem um projeto na Câmara dos Vereadores de Salvador, assinado por um tal de Sidelvan Nóbrega (PRB), que tem estreitas ligações com o povo da Igreja Universal do Edir Macedo, para premiar o radialista Adelson Carvalho, da Rádio Sociedade e da TV Itapoan (Record).
E pegando a onda do Oscar, como todo mundo agora vai ser premiado, o presidente da Câmara, Alan Sanches (PMDB), também propôs o “Título de Cidadão de Salvador” ao bizarro apresentador Uziel Bueno, como o seu programa ridículo “Na Mira”, onde são apresentados diariamente corpos mortos, corpos mutilados (*outro dia foi mostrado no programa uma mulher que foi atropelada por um trem na periferia), brigas familiares e tudo ao som dos gritos histéricos do tal Uziel Bueno. A coisa está tão feia o juiz da 4ª Vara Civil de Salvador, Manoel Bahia, determinou ontem, 07/03, que a TV Aratu, retransmissora do SBT na Bahia, tire do ar temporariamente o programa “Na Mira”. A decisão acatou um pedido do Ministério Público do Estado, que ingressou com uma ação por considerar a atração uma “execração pública, com xingamentos de pessoas suspeitas ou condenadas pela prática de algum crime comum”, na qual são mostradas cenas de “extrema violência”.
Segundo o site do Bahia Dia a Dia, caso a determinação seja descumprida, a pena é de multa diária de R$ 10 mil. No entanto, o juiz nega que a “medida seja de censura ou interferência na liberdade de comunicação e expressão”. Mas, segundo fontes, a TV Aratu já entrou com um recurso e garantiu a exibição do programa. A emissora alegou que o programa “Na Mira” investe numa “linha popular que aproxima o programa da realidade vivida nas ruas de Salvador”. Me poupe viu!
Hoje, mais do que nunca, a guerra extrapolou as barreiras dos tribunais, e o apresentador Uziel Bueno entrou no ar mostrando uma pesquisa (*que ninguém sabe de onde!) que aponta o seu programa como líder de audiência na capital. Evitando comentar a decisão da justiça, Uziel disse que estaria sendo perseguido pela concorrência (*um monte de “jornalistas” pela Bahia toda andam fazendo a mesma “meda”!). E não contente, o Uziel ainda acusou nominalmente o jornalista José Eduardo, o Bocão, apresentador de um outro programa do mesmo nível chamado “Se Liga, Bocão”, da TV Record, de ser o mentor da “perseguição engendrada” contra ele, pois o programa do concorrente teria baixos índices de audiência. Ui!
E voltando às premiações de “lugar algum”, o vereador Pedrinho Pepe (PMDB) que entregar uma "Medalha Thomé de Souza" ao apresentador Casemiro Neto que, em tempos bons, já foi um excelente jornalista, mas que hoje se presta também a esse papel ridículo de apresentador patético, também da péssima TV Aratu.
Já a polemista, dançarina, transexual e vereadora Leo Kret (PRB), foto no início desse post, tem um projeto para homenagear ninguém menos do que o Michael Jackson como o “Título de Cidadão Soteropolitano”. Semana passada, a Leo Kret participou do excelente programa “Roda Baiana”, Rádio Metrópole FM, onde eu perguntei se ela não teria outra coisa para fazer de mais útil além de homenagear o Michael Jackson, e a resposta foi uma das mais estapafúrdias. Ela respondeu que a polêmica por causa da homenagem ao Michael somente foi criada porque ela é “oriunda da periferia, dançarina e transexual”. “Nenhum vereador me criticou. Só ouvi reclamações na imprensa. A Bahia apareceu para o mundo todo quando Michael Jackson gravou o clipe no Pelourinho. Será que não somos humildes o suficiente para reconhecer isto?”, me questionou a Leo Kret.
No final do programa ela ainda cantou: “Sou Leocret, a cretina. E vou mexer com seu juízo. Não pense que acabou. Sou filha de Afrodite. A deusa do amor. Sou fruto do pecado. E não tente me tocar. Pois a quentura do meu corpo. Pode te queimar...”. Drummond e/ou Vinícius devem está se revirando no túmulo depois de tanta poesia nessa letra da música “Ela já se descobriu”, da banda baiana de pagode Saiddy Bamba, onde a vereadora faz bico como dançarina. Tem coisas que só acontecem na Bahia!

+ Aproveite e ouça abaixo um comentário da jornalista, doutora em Comunicação e Cultura e professora da Facom-UFBA Malu Fontes:
fontes: Jornal da Metrópole e site Bahia Dia a Dia
podcast: Portal da Metrópole e fotos: divulgação

1 comentários:

VOOS DA ALMA disse...

Há uma espécie de prazer no ser humano pelo mórbido que talvez expliquem o sucesso de programas como esses. Nos quase extintos jornais de papeis , as páginas policiais eram quase sempre as mais lidas. È certo que o papel da imprensa é denunciar o crescimento da violência, mas que isso seja feito com um mínimo de ética e dignidade, em respeito às vítimas e familiares. Mas nem sempre esses preceitos são cumpridos e todas as espécies de barbáries são expostas livremente em uma faixa de horário inadequada, revelando com isso a própria banalização da violência em nossa sociedade.