Por Elenilson Nascime
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Sérgio Spina é jovem, bonito, inteligente e talentoso; assim é esse ator/diretor que surge dando um excelente exemplo do que é a Arte da Dramaturgia no Brasil. Tudo começa em 2005, com a união com os também atores Luís Antônio e Roberta da Fonseca para a montagem da peça "Cacto", com texto e direção do próprio Spina. A obra realiza com sucesso três meses de temporada na cidade de São Paulo. A partir daí a “Cia. Teatro de Febre” se estabelece com a sua pesquisa autoral por uma dramaturgia e encenação própria.
Em 2007, a peça "Conta Gotas" estreia, com texto e direção de Luís Antônio e do Spina. O projeto eleva ainda mais o sucesso de público e crítica da companhia. O projeto seguinte, "2 Horas da Tarde em Tóquio", de Luís Antônio, também com direção de Spina explode e lota todas as sessões da temporada no Teatro Ópera Buffa, em São Paulo, em 2008. O grupo é apontado pelo ator, diretor e dramaturgo Mário Bortolotto como um dos mais prósperos do cenário teatral paulista. Apaixonado por teatro, Spina por onde passa tem chamado a atenção das pessoas com as suas performances, que vem despontando cada vez mais. Hoje a “Cia. Teatro de Febre” tem novos projetos teatrais em desenvolvimento, além de projetos cinematográficos e literários.
Elenilson – O que leva algumas pessoas a ingressarem na carreira de ator? Talento, fama, dinheiro? Acredito que as duas últimas opções são mais condizentes com a situação atual da cultura brasileira. Comenta.
Sérgio Spina – Acredito que parte das pessoas ingressa na carreira de ator pela fama. E a outra é por ter experimentado o Teatro. Sim, meus caros amigos. Teatro vicia. Mas não entorpece. Transcende e acende. E muitos que experimentam, não voltam. Ninguém ingressa na carreira de ator por dinheiro. Por um breve momento pode-se pensar nele, mas assim que você tem o seu primeiro contato com a carreira você percebe que o dinheiro mora longe dali, em cima da montanha, no mosteiro perto do nirvana. Ele existe. Você o vê e até o toca. Mas ele não é o que lhe faz enxugar as lágrimas e insistir. Além disso, a carreira é instável. E por mais bem sucedido que você seja haverá sempre o desemprego ao final da novela, da peça ou do filme. Então, você ganha dez mil hoje e nada nos próximos seis meses. Por mais solicitado que você seja sempre haverá os recessos e incertezas. Enquanto que os que buscam a fama andam na corda bamba entre o fracasso e ser “descoberto” pela Globo. A maioria cai. Agora é importante dizer que muitos ingressam por esses e outros motivos, nessa carreira todos os dias, mas muitos desistem também. Pois ser ator é sacerdócio. É respirar fundo e meditar. É insistir, insistir e insistir. Numa terra de ninguém onde ser é fazer. Por lá não funciona: “Penso, logo existo”. Ser ator é “Faço, logo existo”. E a recompensa, o que lhe dá forças para enxugar as lágrimas e continuar é o prazer indescritível que o ator sente ao ver a sua obra entrando na cabeça de uma pessoa e bagunçando tudo ali, do cóccix ao pescoço.
Elenilson – Escolas de teatro e interpretação proliferam pelo Brasil, em maior velocidade na cidade de São Paulo do que em qualquer outro lugar. Porém, algumas centenas, ou milhares, de novos profissionais são colocados no mercado a cada ano com o sonho de uma carreira promissora – de preferência em uma das novelas da TV Globo. O que você acha dessa “seleção” que normalmente emissoras como a Globo faz (*beleza + filho de fulano de tal) para contratar um ator para papeis péssimos nas suas igualmente péssimas produções?
Sérgio Spina – Parafraseando o saudoso Paulo Autran: "Teatro é a arte do ator. Cinema é a arte do diretor. E a TV é a arte do anunciante”. É imagem e é para vender. Então, vende o que for mais bonito, o que for mais bacana de se ver. A obra é ruim e tem a sua frente atores ruins? Não interessa. Está vendendo? Sim? Então, pronto. Esses são os critérios. Não tenho nada contra a TV. Ela pode ajudar na sua carreira. Pode te dar um dinheiro legal e até trazer público para as suas peças teatrais. Não vou levantar uma bandeira e começar a gritar que a TV devia ser isso ou aquilo, não vou. Porque ela é regida hoje por grandes empresas que visam lucro. É claro que ela poderia educar muito e oferecer entretenimento de qualidade. Mas não é isso que as emissoras querem. Pelo contrário, as emissoras fogem de tudo que faça o povo pensar. A regra é alienar. E o povo aceita.
Elenilson – Como foi a sua estreia?
Sérgio Spina – Minha estreia aconteceu aos três anos de idade, na garagem da minha avó, em um peça inventada pela minha tia Karina, acredito que era algo sobre a Xuxa. Eu interpretava o praga (?). Ela escrevia, dirigia e atuava. E todo fim de semana tinha algo novo. Ensaiávamos durante a semana e nos apresentávamos aos sábados e domingos para a vizinhança. Lembro que lotava. Mais de cinquenta pessoas se amontoavam lá para assistir. Depois teve a primeira peça em que eu tinha fala, “O Mágico de Oz”. Karina era a Dorothy e eu era o totó. Mas ela adaptou. Não fazia um cachorro como no original. Era o irmão caçula dela. Essa peça foi um sucesso. Nos apresentamos até na creche da minha cidade. Depois disso fiquei dos sete ao quatorze anos sem pisar num teatro. E nem sei o porquê. Talvez a “aborrecência”. Talvez esse período horrível/incrível que é o ensino fundamental. Enfim. Aos quatorze conheci o maestro Coelho de Moraes e entrei no grupo dele. O cara é um gênio e me ensinou muita coisa sobre teatro e sobre a vida. É até hoje o meu grande mestre. Fiz vinte(!) peças ao lado dele, num espaço de seis anos. Esse ano vamos dirigir um longa-metragem juntos. Depois vim para São Paulo para estudar. Minha estreia profissional aconteceu em 2004 atuando na peça que escrevi e dirigi, “Cacto”.
Elenilson – A família sempre o incentivou?
Sérgio Spina – Minha família sempre me incentivou. Venho de uma família artisticamente sensível. Minha mãe escreve incrivelmente bem. E fez das tripas o coração para conseguir pagar os meus estudos teatrais. Minha tia Ninha já foi atriz de teatro também e me aguentou por três anos na casa dela aqui em São Paulo enquanto estudava. Época divertida. Mas sei que não foi fácil pra ela. E teve o caso da minha tia Tânia que espontaneamente chegou para a minha mãe e a convenceu que eu não deveria cursar a escola técnica, cujo vestibular tinha acabado de fazer, pois o meu negócio era teatro. Sou muito grato pela família que tenho e por eles me incentivarem. Mas sei que eu sou exceção. A maioria das famílias dos meus companheiros de profissão não incentivam. Atrapalham. Por pré-conceito. Ou simplesmente não entendem. É triste.
Elenilson – Como é dirigir e/ou fazer parte de um elenco de uma peça de teatro nos dias de hoje, onde boa parte da população nunca foi assistir a um espetáculo?
Sérgio Spina – Faço teatro por prazer e necessidade. Prazer em criar através do teatro, que é tão poderoso. E necessidade. Necessidade de gritar, de expor as inquietações de forma contundente. Mas é difícil dirigir ou atuar nos dias de hoje. Porque é difícil realizar. São Paulo é uma das melhores cidades do mundo para se fazer teatro. E ainda assim é muito ruim, pois os órgãos governamentais, o comércio e as empresas pouco apóiam. E o público não vai. Poucos sabem reconhecer o valor do teatro. E isso, além de lamentável, torna a coisa bem mais difícil de acontecer. Seria importante que todo mundo revisse os seus critérios. As pessoas precisam voltar o olhar mais para “o pensar” e menos para “o consumir”. Isso seria bom para o teatro. Isso seria bom para a sociedade. Isso seria bom pra todo mundo. Pensar e questionar. E parar de viver engordando com a bunda no sofá assistindo novela enquanto a vida passa.
Elenilson – Qual a ligação da Cia. Teatro de Febre (*gostei do nome) com os problemas atuais do nosso País?
Sérgio Spina – A Cia Teatro de Febre sempre procurar criar obras que permitam a reflexão sobre os preconceitos. Como já disse, as pessoas não pensam muito. Elas, na maioria das vezes reproduzem ideias. E isso é ruim. Porque você não faz por você mesmo. Você sempre faz pelos outros. Você não gosta de negros, porque seu avô fazia piadinhas. Você não gosta de gays porque o padre da sua igreja diz que eles são impuros. E isso é foda. As pessoas têm que gostar de alguém ou de alguma coisa porque aquilo de alguma forma faz sentido pra elas, porra! Senão você não existe como indivíduo. Você só é uma vaquinha insignificante parte de um regime.
Elenilson – Quando começou a trabalhar como ator lhe ocorreu que teatro podia ser uma forma de fazer política? Foi isso que o levou aos palcos?
Sérgio Spina – Bom... Como já contei aqui, quem me levou aos palcos foi minha tia. Não tinha muita escolha naquela época. Mas hoje me mantenho aqui por que acredito que posso fazer muita coisa. Acredito que posso fazer e desfazer a política. E essa foi a minha inquietação para voltar aos palcos quando tinha quatorze anos. Venho de uma cidade de pessoas muito boas, mas também muito atrasadas. Não há cultura lá. Pouco se pensa. Você nasce, trabalha, entra pro Lions e morre. E isso é revoltante, entediante. E depois descobri que a maioria das pequenas cidades do Brasil é assim.
Elenilson – Você já recusou algum papel?
Sérgio Spina – Já, algumas vezes. Mas nunca porque havia algum problema com o papel. Geralmente porque aquele projeto não era a melhor coisa para aquele momento.
Elenilson – Você acha que ter uma outra carreia paralela de alguma forma ajuda na profissão de ator, ou ter profissões completamente diferentes interferem no processo?
Sérgio Spina – Não acho que ajude na profissão de ator. Pode ajudar na sua vida. Dando-lhe um complemento financeiro, por exemplo. É difícil ter uma carreira paralela a profissão de ator. Pois o processo de montagem de uma peça requer muito tempo e energia. Mas é possível.
Elenilson – Em Salvador existe uma coisa muito limitada: se você não faz parte do círculo de amigos de fulano de tal, você não consegue produzir nada. São sempre as “mesmas caras no palco” e os “mesmos diretores por trás”. O que você acha dessa “privatização da cultura” no Brasil?
Sérgio Spina – Acho uma “merda”. E é assim em todo lugar que conheço aqui no Brasil. Não só em Salvador. Mas o negócio também não é só ficar reclamando. Às vezes tem-se que entrar no jogo e jogar, pois tem-se que fazer, realizar. Digo novamente: arte não é discussão. Arte é realização.
Elenilson – Ao pensar na produção cultural e artística do Brasil, poucos idealizadores parecem preocupar-se com o que, no futuro, representa a própria garantia de manutenção dos produtos culturais que se empenham em divulgar - a formação de um público que se interesse por nossas produções e de outros tantos artistas em construção que se interessem em levar adiante essa reunião imaterial de conhecimentos a que chamamos cultura. Como você encara essa coisa “mentirosa” que é financiamento cultural, ou talvez a palavra melhor seja “falta de financiamento na educação”?
Sérgio Spina – Encaro isso berrando, bebendo, brigando e lamentando. E espero que o pensamento mude, porque senão nada disso vai mudar. O problema não é a forma de se governar ou a forma de se financiar a cultura. O problema é o conteúdo, o pensamento, os critérios, os valores. Ninguém vai investir em cultura se não entender o porquê tem que investir em cultura. Algumas pessoas explicam e algumas pessoas até tentam entender e até têm capacidade para isso. Mas o consumismo e outros valores matérias dessa época anulam qualquer possibilidade de compreensão. Por que vou investir em educação seu eu posso ter um castelo em Minas Gerais? O que dá mais status, um carro novo ou ter lido todas as peças de Brecht?
Elenilson – Tudo bem que você venha dizer que a concorrência é saudável nesse meio para o aprimoramento profissional de um artista, mas o que me intriga é saber que dessas pessoas a maioria não tem consciência do que um ator, um diretor, um músico, um escritor, um professor (*esse último já está “deletado” do circo há muito tempo) pode representar para a sociedade como um todo. É praticamente unânime a afirmativa de que só o talento é fundamental, só os que possuem talento permanecem, porém, não é o que está acontecendo. Comenta.
Sérgio Spina – A resposta anterior já diz bem o que penso sobre isso.
Elenilson – Em diversos países, esse “reavivar cultural” dá-se por meio de financiamentos públicos, invariavelmente mantidos por meio de isenção fiscal a empresas privadas que cooperem por meio de patrocínio a espetáculos e eventos artísticos. No Brasil, também foi esse o caminho encontrado para que o governo se eximisse dos encargos de financiar a cultura diretamente - e diversas leis surgiram com esse propósito, das quais as mais aplicadas são a Lei Rouanet e a Lei de Incentivo à Cultura (LIC). Mas, infelizmente, como tantas outras coisas em nosso País de descontroles, farsas, demagogias, roubalheiras, também as leis de “financiamento cultural” sofrem terríveis distorções. O que você acha desses financiamentos?
Sérgio Spina – As iniciativas são interessantes, mas enquanto o Poder Público tiver aquele “pensamento”, que já citei, grande parte di
sso vai acabar em merda ou pizza.
Elenilson – O motivo da minha pergunta anterior é porque sem definições precisas sobre o tipo de evento cultural ou artístico que interessaria ao governo incentivar (*se bem que o governo nunca esteve interessado em incentivar absolutamente nada, a não ser as bolsas caridades) as verbas da Lei Rouanet, por exemplo, têm sido aplicadas para financiar produções que se pagariam facilmente por conta de seu forte “apelo comercial” ou por seu público cativo (caras famosas, muito comercial na televisão e etc.); mais que isso, as mesmas verbas que são tão difíceis de obter para a sustentação de projetos importantes são dirigidas a eventos e produções cujo caráter cultural é altamente questionável, para eu não dizer: sem nenhum conteúdo satisfatório. Exemplos não faltam: o megaespetáculo do canadense Cirque du Soleil, as últimas turnês da Ana Carolina e da dupla Chitãozinho e Xororó e até mesmo nas produções mais recentes de filmes da filha do Didi e Xuxa. Você, como agitador cultural, não fica traumatizado com essas coisas?
Sérgio Spina – Não. Todo mundo deve ter acesso a essas leis. No caso da Lei Rouanet, o governo não dá dinheiro pra ninguém. Ele só dá isenção fiscal para as empresas. Agora, a única coisa que posso fazer se o Bradesco só quer patrocinar o Cirque Du Soleil é lamentar. Ou tentar chamar a atenção deles para o meu projeto. Mas se você fosse presidente de uma empresa que existe só para ganhar dinheiro, quem você patrocinaria? O Sérgio Spina ou o Cirque Du Soleil? Agora... O que precisa acontecer é o surgimento de outras formas de realização cultural. Os artistas não podem só depender da Lei Rouanet para produzir. O governo, os artistas, a sociedade precisa entender que isso não é o suficiente para se produzir arte.
Elenilson – Mesmo vivendo rodeado de tanta cultura que sai dos poros, existe alguma coisa que tire do sério?
Sérgio Spina – Muitas coisas me tiram do sério. Sou uma pessoa bem inquieta. Saio do sério quando alguém me acorda bruscamente ou quando me apressam no banho. Saio do sério com a Virada Cultural, que é um evento que se fala tanto aqui em São Paulo, mas que é um caldeirão de superficialidades. Saio do sério com gente que fica filosofando sobre o abstrato do teatro. Saio do sério quando vou assistir uma peça e não entendo nada, porque não tinha nada para se entender. Saio do sério quando alguém maltrata o garçom. E outras mil coisas mais.
Elenilson – Guimarães Rosa disse que “viver é muito perigoso”. Tristemente, queria voltar a atiçar você com relação aos desmandos que não param: os esportistas, por exemplo, que já contam com dinheiro oriundo de Bingos (*nem sei se são ilegais!) e de outras fontes de patrocínio, também conseguiram no Congresso Nacional uma fatia da isenção fiscal das leis de incentivo e, pasmemos todos, há um projeto de lei em andamento naquelas casas legislativas que prevê uma lei de incentivo fiscal para empresas que patrocinem… grupos religiosos! Viva a Igreja Universal e Renascer e cia! Comente.
Sérgio Spina – É fácil me “atiçar” assim. Não gosto de religião. Religião não é cultura. Muita gente mata e muita gente morre por causa da religião. E falo sobre todas as grandes religiões. Agora se elegeram um pastor homofóbico, o que nós vamos fazer? Ele já está lá. Podemos até espernear e tentar tirá-lo de lá. Mas ele volta, porque a sua tia, a sua mãe e a sua vizinha vão votar nele de novo. E tudo bem se os esportistas se utilizarem da lei. O fato é que assim ou assado outras formas de realização cultural precisam surgir.
Elenilson – Uma pergunta que costumo fazer para meus entrevistados que são atores é sobre esse “leque de opções” que se abriu na televisão. Hoje tem novelas na Record, SBT, Band. É possível que essas emissoras consigam ultrapassar a qualidade das novelas globais?
Sérgio Spina – É possível sim. Já estão bem próximas. Mas a globo, que já faz isso há muito tempo, não está parada no tempo, continua caminhando e “evoluindo”.
Elenilson – Antes de se tornar ator, o que você fazia?
Sérgio Spina – Jogava vídeo-game.
Elenilson – O que você acha dessas técnicas de interpretação por correspondência? Até que ponto são necessárias?
Sérgio Spina – Toda forma de conhecimento é importante. Mas na arte, o maior aprendizado está prática. O verdadeiro ator não é aquele que faz uma peça. É aquele que passa a vida fazendo. E penso assim também sobre os escritores, pintores, músicos...
Elenilson – Porque a interpretação do teatro não é contida como da TV e do cinema?
Sérgio Spina – Porque no teatro não temos a câmera que foca e amplia o seu olhar, o seu movimento.
Elenilson – Alguns diretores de teatro tendem a usar o “nu artístico” (*mesmo necessário?) e/ou palavras de baixíssimo calão nas suas obras. Acho lamentável. Fiz uma vez um curso de interpretação e na prova final queria que eu ficasse nu numa cena que não havia necessidade. O que você acha dessas coisas?
Sérgio Spina – Gosto do nu porque ele choca. Algo tão natural, que devia ser encarado como algo tão natural, choca. Isso é algo que me tira do sério. As pessoas se chocam ao ver alguém nu da mesma forma como se chocam ao ver uma criança em pedaços no jornal da tarde ou ao ver dois homens se beijando. Há um pudor demasiado. Esse pudor leva à culpa, que leva à hipocrisia. Por que ter vergonha do próprio corpo? Agora, o ator tem que entender que, além disso, o corpo é o seu instrumento de trabalho. E ele precisa estar habilitado para usá-lo, com roupa ou sem roupa. Eu não julgo a forma. O cara pode falar palavrão e até se cortar em cena. Acho válido. O que vou julgar é o propósito daquilo.
Elenilson – Quem estudou um mínimo de história dos movimentos de esquerda no mundo, sabe desta violência constante do sindicalismo contra os administradores de fábrica, considerados lacaios do capitalismo. O filme sobre o presidente Lula, por exemplo, é uma coleção de despautérios absurdos. Considerado o filme mais caro da história no Brasil, financiando pelo governo, mas que serve somente para que os apaixonados-alienados do presidente continuem apaixonados e alienados. Você assinaria uma produção eleitoreira com essa só por dinheiro?
Sérgio Spina – Nunca faço as coisas só pelo dinheiro. Deve existir sempre outros fatores que me levem a fazer aquilo. Bom... E como não assisti o filme ainda, não vou comentar.
Elenilson – O que você considera o marco no seu trabalho e o que deixará para a cultura do nosso País?
Sérgio Spina – Sou um novato. Ainda tenho muito para produzir. Mas gosto de lembrar de quando escrevi a peça “Cacto”, em 2004, e resolvi montá-la na cara e na raça. Tudo mudou depois disso. Nesse processo encontrei dois irmãos, dois grandes parceiros profissionais. E o que vou deixar para a cultura do nosso país e todo o fruto do meu trabalho. As peças e os filmes.
Elenilson – Quais as principais dificuldades que um jovem direitor/ator tem enfrentado?
Sérgio Spina – Se estabelecer no mercado profissional é a maior dificuldade.
Elenilson – Como você avalia a produção teatral atual? E no cinema?
Sérgio Spina – Aqui em São Paulo tem se produzido cada vez mais teatro. Mas a qualidade tem decrescido. E no cinema tudo vai muito bem obrigado. Muitos filmes sendo produzidos. E muito cinema autoral. Isso é bom. Muito bom.
Elenilson – O que mudou? O que deveria mudar?
Sérgio Spina – Precisamos de novos dramaturgos e mais cinema autoral.
Elenilson – Cite alguns livros da sua biblioteca. E porque ainda não comprou o meu?
Sérgio Spina – “A Idade da Razão”, “Coração Selvagem”, “Disciplina do Amor”, “Harry Potter”... E porque ainda não comprei o seu? Não sabia que você era escritor.
Elenilson – Alguns dizem que os movimentos culturais estão na UTI. Por que a insatisfação da sua classe não pode ser modificada para reivindicação?
Sérgio Spina – Bom... Sempre é mais fácil reclamar do que fazer alguma coisa. E reivindicar significa pensar e pedir algo. Muita gente tem preguiça de pensar, já que é tão mais fácil reclamar. Não gosto de ficar falando e reclamando e discutindo demasiadamente. Minha reivindicação e a minha insatisfação estão no meu trabalho.
Elenilson – Deixa uma mensagem para aqueles que querem fazer arte.
Sérgio Spina – Façam, façam, façam...
Sérgio Spina é jovem, bonito, inteligente e talentoso; assim é esse ator/diretor que surge dando um excelente exemplo do que é a Arte da Dramaturgia no Brasil. Tudo começa em 2005, com a união com os também atores Luís Antônio e Roberta da Fonseca para a montagem da peça "Cacto", com texto e direção do próprio Spina. A obra realiza com sucesso três meses de temporada na cidade de São Paulo. A partir daí a “Cia. Teatro de Febre” se estabelece com a sua pesquisa autoral por uma dramaturgia e encenação própria.
Em 2007, a peça "Conta Gotas" estreia, com texto e direção de Luís Antônio e do Spina. O projeto eleva ainda mais o sucesso de público e crítica da companhia. O projeto seguinte, "2 Horas da Tarde em Tóquio", de Luís Antônio, também com direção de Spina explode e lota todas as sessões da temporada no Teatro Ópera Buffa, em São Paulo, em 2008. O grupo é apontado pelo ator, diretor e dramaturgo Mário Bortolotto como um dos mais prósperos do cenário teatral paulista. Apaixonado por teatro, Spina por onde passa tem chamado a atenção das pessoas com as suas performances, que vem despontando cada vez mais. Hoje a “Cia. Teatro de Febre” tem novos projetos teatrais em desenvolvimento, além de projetos cinematográficos e literários.
Elenilson – O que leva algumas pessoas a ingressarem na carreira de ator? Talento, fama, dinheiro? Acredito que as duas últimas opções são mais condizentes com a situação atual da cultura brasileira. Comenta.
Sérgio Spina – Acredito que parte das pessoas ingressa na carreira de ator pela fama. E a outra é por ter experimentado o Teatro. Sim, meus caros amigos. Teatro vicia. Mas não entorpece. Transcende e acende. E muitos que experimentam, não voltam. Ninguém ingressa na carreira de ator por dinheiro. Por um breve momento pode-se pensar nele, mas assim que você tem o seu primeiro contato com a carreira você percebe que o dinheiro mora longe dali, em cima da montanha, no mosteiro perto do nirvana. Ele existe. Você o vê e até o toca. Mas ele não é o que lhe faz enxugar as lágrimas e insistir. Além disso, a carreira é instável. E por mais bem sucedido que você seja haverá sempre o desemprego ao final da novela, da peça ou do filme. Então, você ganha dez mil hoje e nada nos próximos seis meses. Por mais solicitado que você seja sempre haverá os recessos e incertezas. Enquanto que os que buscam a fama andam na corda bamba entre o fracasso e ser “descoberto” pela Globo. A maioria cai. Agora é importante dizer que muitos ingressam por esses e outros motivos, nessa carreira todos os dias, mas muitos desistem também. Pois ser ator é sacerdócio. É respirar fundo e meditar. É insistir, insistir e insistir. Numa terra de ninguém onde ser é fazer. Por lá não funciona: “Penso, logo existo”. Ser ator é “Faço, logo existo”. E a recompensa, o que lhe dá forças para enxugar as lágrimas e continuar é o prazer indescritível que o ator sente ao ver a sua obra entrando na cabeça de uma pessoa e bagunçando tudo ali, do cóccix ao pescoço.
Elenilson – Escolas de teatro e interpretação proliferam pelo Brasil, em maior velocidade na cidade de São Paulo do que em qualquer outro lugar. Porém, algumas centenas, ou milhares, de novos profissionais são colocados no mercado a cada ano com o sonho de uma carreira promissora – de preferência em uma das novelas da TV Globo. O que você acha dessa “seleção” que normalmente emissoras como a Globo faz (*beleza + filho de fulano de tal) para contratar um ator para papeis péssimos nas suas igualmente péssimas produções?
Sérgio Spina – Parafraseando o saudoso Paulo Autran: "Teatro é a arte do ator. Cinema é a arte do diretor. E a TV é a arte do anunciante”. É imagem e é para vender. Então, vende o que for mais bonito, o que for mais bacana de se ver. A obra é ruim e tem a sua frente atores ruins? Não interessa. Está vendendo? Sim? Então, pronto. Esses são os critérios. Não tenho nada contra a TV. Ela pode ajudar na sua carreira. Pode te dar um dinheiro legal e até trazer público para as suas peças teatrais. Não vou levantar uma bandeira e começar a gritar que a TV devia ser isso ou aquilo, não vou. Porque ela é regida hoje por grandes empresas que visam lucro. É claro que ela poderia educar muito e oferecer entretenimento de qualidade. Mas não é isso que as emissoras querem. Pelo contrário, as emissoras fogem de tudo que faça o povo pensar. A regra é alienar. E o povo aceita.
Elenilson – Como foi a sua estreia?
Sérgio Spina – Minha estreia aconteceu aos três anos de idade, na garagem da minha avó, em um peça inventada pela minha tia Karina, acredito que era algo sobre a Xuxa. Eu interpretava o praga (?). Ela escrevia, dirigia e atuava. E todo fim de semana tinha algo novo. Ensaiávamos durante a semana e nos apresentávamos aos sábados e domingos para a vizinhança. Lembro que lotava. Mais de cinquenta pessoas se amontoavam lá para assistir. Depois teve a primeira peça em que eu tinha fala, “O Mágico de Oz”. Karina era a Dorothy e eu era o totó. Mas ela adaptou. Não fazia um cachorro como no original. Era o irmão caçula dela. Essa peça foi um sucesso. Nos apresentamos até na creche da minha cidade. Depois disso fiquei dos sete ao quatorze anos sem pisar num teatro. E nem sei o porquê. Talvez a “aborrecência”. Talvez esse período horrível/incrível que é o ensino fundamental. Enfim. Aos quatorze conheci o maestro Coelho de Moraes e entrei no grupo dele. O cara é um gênio e me ensinou muita coisa sobre teatro e sobre a vida. É até hoje o meu grande mestre. Fiz vinte(!) peças ao lado dele, num espaço de seis anos. Esse ano vamos dirigir um longa-metragem juntos. Depois vim para São Paulo para estudar. Minha estreia profissional aconteceu em 2004 atuando na peça que escrevi e dirigi, “Cacto”.
Elenilson – A família sempre o incentivou?
Sérgio Spina – Minha família sempre me incentivou. Venho de uma família artisticamente sensível. Minha mãe escreve incrivelmente bem. E fez das tripas o coração para conseguir pagar os meus estudos teatrais. Minha tia Ninha já foi atriz de teatro também e me aguentou por três anos na casa dela aqui em São Paulo enquanto estudava. Época divertida. Mas sei que não foi fácil pra ela. E teve o caso da minha tia Tânia que espontaneamente chegou para a minha mãe e a convenceu que eu não deveria cursar a escola técnica, cujo vestibular tinha acabado de fazer, pois o meu negócio era teatro. Sou muito grato pela família que tenho e por eles me incentivarem. Mas sei que eu sou exceção. A maioria das famílias dos meus companheiros de profissão não incentivam. Atrapalham. Por pré-conceito. Ou simplesmente não entendem. É triste.
Elenilson – Como é dirigir e/ou fazer parte de um elenco de uma peça de teatro nos dias de hoje, onde boa parte da população nunca foi assistir a um espetáculo?
Sérgio Spina – Faço teatro por prazer e necessidade. Prazer em criar através do teatro, que é tão poderoso. E necessidade. Necessidade de gritar, de expor as inquietações de forma contundente. Mas é difícil dirigir ou atuar nos dias de hoje. Porque é difícil realizar. São Paulo é uma das melhores cidades do mundo para se fazer teatro. E ainda assim é muito ruim, pois os órgãos governamentais, o comércio e as empresas pouco apóiam. E o público não vai. Poucos sabem reconhecer o valor do teatro. E isso, além de lamentável, torna a coisa bem mais difícil de acontecer. Seria importante que todo mundo revisse os seus critérios. As pessoas precisam voltar o olhar mais para “o pensar” e menos para “o consumir”. Isso seria bom para o teatro. Isso seria bom para a sociedade. Isso seria bom pra todo mundo. Pensar e questionar. E parar de viver engordando com a bunda no sofá assistindo novela enquanto a vida passa.
Elenilson – Qual a ligação da Cia. Teatro de Febre (*gostei do nome) com os problemas atuais do nosso País?
Sérgio Spina – A Cia Teatro de Febre sempre procurar criar obras que permitam a reflexão sobre os preconceitos. Como já disse, as pessoas não pensam muito. Elas, na maioria das vezes reproduzem ideias. E isso é ruim. Porque você não faz por você mesmo. Você sempre faz pelos outros. Você não gosta de negros, porque seu avô fazia piadinhas. Você não gosta de gays porque o padre da sua igreja diz que eles são impuros. E isso é foda. As pessoas têm que gostar de alguém ou de alguma coisa porque aquilo de alguma forma faz sentido pra elas, porra! Senão você não existe como indivíduo. Você só é uma vaquinha insignificante parte de um regime.
Elenilson – Quando começou a trabalhar como ator lhe ocorreu que teatro podia ser uma forma de fazer política? Foi isso que o levou aos palcos?
Sérgio Spina – Bom... Como já contei aqui, quem me levou aos palcos foi minha tia. Não tinha muita escolha naquela época. Mas hoje me mantenho aqui por que acredito que posso fazer muita coisa. Acredito que posso fazer e desfazer a política. E essa foi a minha inquietação para voltar aos palcos quando tinha quatorze anos. Venho de uma cidade de pessoas muito boas, mas também muito atrasadas. Não há cultura lá. Pouco se pensa. Você nasce, trabalha, entra pro Lions e morre. E isso é revoltante, entediante. E depois descobri que a maioria das pequenas cidades do Brasil é assim.
Sérgio Spina – Já, algumas vezes. Mas nunca porque havia algum problema com o papel. Geralmente porque aquele projeto não era a melhor coisa para aquele momento.
Elenilson – Você acha que ter uma outra carreia paralela de alguma forma ajuda na profissão de ator, ou ter profissões completamente diferentes interferem no processo?
Sérgio Spina – Não acho que ajude na profissão de ator. Pode ajudar na sua vida. Dando-lhe um complemento financeiro, por exemplo. É difícil ter uma carreira paralela a profissão de ator. Pois o processo de montagem de uma peça requer muito tempo e energia. Mas é possível.
Elenilson – Em Salvador existe uma coisa muito limitada: se você não faz parte do círculo de amigos de fulano de tal, você não consegue produzir nada. São sempre as “mesmas caras no palco” e os “mesmos diretores por trás”. O que você acha dessa “privatização da cultura” no Brasil?
Sérgio Spina – Acho uma “merda”. E é assim em todo lugar que conheço aqui no Brasil. Não só em Salvador. Mas o negócio também não é só ficar reclamando. Às vezes tem-se que entrar no jogo e jogar, pois tem-se que fazer, realizar. Digo novamente: arte não é discussão. Arte é realização.
Elenilson – Ao pensar na produção cultural e artística do Brasil, poucos idealizadores parecem preocupar-se com o que, no futuro, representa a própria garantia de manutenção dos produtos culturais que se empenham em divulgar - a formação de um público que se interesse por nossas produções e de outros tantos artistas em construção que se interessem em levar adiante essa reunião imaterial de conhecimentos a que chamamos cultura. Como você encara essa coisa “mentirosa” que é financiamento cultural, ou talvez a palavra melhor seja “falta de financiamento na educação”?
Sérgio Spina – Encaro isso berrando, bebendo, brigando e lamentando. E espero que o pensamento mude, porque senão nada disso vai mudar. O problema não é a forma de se governar ou a forma de se financiar a cultura. O problema é o conteúdo, o pensamento, os critérios, os valores. Ninguém vai investir em cultura se não entender o porquê tem que investir em cultura. Algumas pessoas explicam e algumas pessoas até tentam entender e até têm capacidade para isso. Mas o consumismo e outros valores matérias dessa época anulam qualquer possibilidade de compreensão. Por que vou investir em educação seu eu posso ter um castelo em Minas Gerais? O que dá mais status, um carro novo ou ter lido todas as peças de Brecht?
Elenilson – Tudo bem que você venha dizer que a concorrência é saudável nesse meio para o aprimoramento profissional de um artista, mas o que me intriga é saber que dessas pessoas a maioria não tem consciência do que um ator, um diretor, um músico, um escritor, um professor (*esse último já está “deletado” do circo há muito tempo) pode representar para a sociedade como um todo. É praticamente unânime a afirmativa de que só o talento é fundamental, só os que possuem talento permanecem, porém, não é o que está acontecendo. Comenta.
Sérgio Spina – A resposta anterior já diz bem o que penso sobre isso.
Elenilson – Em diversos países, esse “reavivar cultural” dá-se por meio de financiamentos públicos, invariavelmente mantidos por meio de isenção fiscal a empresas privadas que cooperem por meio de patrocínio a espetáculos e eventos artísticos. No Brasil, também foi esse o caminho encontrado para que o governo se eximisse dos encargos de financiar a cultura diretamente - e diversas leis surgiram com esse propósito, das quais as mais aplicadas são a Lei Rouanet e a Lei de Incentivo à Cultura (LIC). Mas, infelizmente, como tantas outras coisas em nosso País de descontroles, farsas, demagogias, roubalheiras, também as leis de “financiamento cultural” sofrem terríveis distorções. O que você acha desses financiamentos?
Sérgio Spina – As iniciativas são interessantes, mas enquanto o Poder Público tiver aquele “pensamento”, que já citei, grande parte di
Elenilson – O motivo da minha pergunta anterior é porque sem definições precisas sobre o tipo de evento cultural ou artístico que interessaria ao governo incentivar (*se bem que o governo nunca esteve interessado em incentivar absolutamente nada, a não ser as bolsas caridades) as verbas da Lei Rouanet, por exemplo, têm sido aplicadas para financiar produções que se pagariam facilmente por conta de seu forte “apelo comercial” ou por seu público cativo (caras famosas, muito comercial na televisão e etc.); mais que isso, as mesmas verbas que são tão difíceis de obter para a sustentação de projetos importantes são dirigidas a eventos e produções cujo caráter cultural é altamente questionável, para eu não dizer: sem nenhum conteúdo satisfatório. Exemplos não faltam: o megaespetáculo do canadense Cirque du Soleil, as últimas turnês da Ana Carolina e da dupla Chitãozinho e Xororó e até mesmo nas produções mais recentes de filmes da filha do Didi e Xuxa. Você, como agitador cultural, não fica traumatizado com essas coisas?
Sérgio Spina – Não. Todo mundo deve ter acesso a essas leis. No caso da Lei Rouanet, o governo não dá dinheiro pra ninguém. Ele só dá isenção fiscal para as empresas. Agora, a única coisa que posso fazer se o Bradesco só quer patrocinar o Cirque Du Soleil é lamentar. Ou tentar chamar a atenção deles para o meu projeto. Mas se você fosse presidente de uma empresa que existe só para ganhar dinheiro, quem você patrocinaria? O Sérgio Spina ou o Cirque Du Soleil? Agora... O que precisa acontecer é o surgimento de outras formas de realização cultural. Os artistas não podem só depender da Lei Rouanet para produzir. O governo, os artistas, a sociedade precisa entender que isso não é o suficiente para se produzir arte.
Elenilson – Mesmo vivendo rodeado de tanta cultura que sai dos poros, existe alguma coisa que tire do sério?
Sérgio Spina – Muitas coisas me tiram do sério. Sou uma pessoa bem inquieta. Saio do sério quando alguém me acorda bruscamente ou quando me apressam no banho. Saio do sério com a Virada Cultural, que é um evento que se fala tanto aqui em São Paulo, mas que é um caldeirão de superficialidades. Saio do sério com gente que fica filosofando sobre o abstrato do teatro. Saio do sério quando vou assistir uma peça e não entendo nada, porque não tinha nada para se entender. Saio do sério quando alguém maltrata o garçom. E outras mil coisas mais.
Elenilson – Guimarães Rosa disse que “viver é muito perigoso”. Tristemente, queria voltar a atiçar você com relação aos desmandos que não param: os esportistas, por exemplo, que já contam com dinheiro oriundo de Bingos (*nem sei se são ilegais!) e de outras fontes de patrocínio, também conseguiram no Congresso Nacional uma fatia da isenção fiscal das leis de incentivo e, pasmemos todos, há um projeto de lei em andamento naquelas casas legislativas que prevê uma lei de incentivo fiscal para empresas que patrocinem… grupos religiosos! Viva a Igreja Universal e Renascer e cia! Comente.
Sérgio Spina – É fácil me “atiçar” assim. Não gosto de religião. Religião não é cultura. Muita gente mata e muita gente morre por causa da religião. E falo sobre todas as grandes religiões. Agora se elegeram um pastor homofóbico, o que nós vamos fazer? Ele já está lá. Podemos até espernear e tentar tirá-lo de lá. Mas ele volta, porque a sua tia, a sua mãe e a sua vizinha vão votar nele de novo. E tudo bem se os esportistas se utilizarem da lei. O fato é que assim ou assado outras formas de realização cultural precisam surgir.
Elenilson – Uma pergunta que costumo fazer para meus entrevistados que são atores é sobre esse “leque de opções” que se abriu na televisão. Hoje tem novelas na Record, SBT, Band. É possível que essas emissoras consigam ultrapassar a qualidade das novelas globais?
Sérgio Spina – É possível sim. Já estão bem próximas. Mas a globo, que já faz isso há muito tempo, não está parada no tempo, continua caminhando e “evoluindo”.
Elenilson – Antes de se tornar ator, o que você fazia?
Sérgio Spina – Jogava vídeo-game.
Elenilson – O que você acha dessas técnicas de interpretação por correspondência? Até que ponto são necessárias?
Sérgio Spina – Toda forma de conhecimento é importante. Mas na arte, o maior aprendizado está prática. O verdadeiro ator não é aquele que faz uma peça. É aquele que passa a vida fazendo. E penso assim também sobre os escritores, pintores, músicos...
Elenilson – Porque a interpretação do teatro não é contida como da TV e do cinema?
Sérgio Spina – Porque no teatro não temos a câmera que foca e amplia o seu olhar, o seu movimento.
Elenilson – Alguns diretores de teatro tendem a usar o “nu artístico” (*mesmo necessário?) e/ou palavras de baixíssimo calão nas suas obras. Acho lamentável. Fiz uma vez um curso de interpretação e na prova final queria que eu ficasse nu numa cena que não havia necessidade. O que você acha dessas coisas?
Sérgio Spina – Gosto do nu porque ele choca. Algo tão natural, que devia ser encarado como algo tão natural, choca. Isso é algo que me tira do sério. As pessoas se chocam ao ver alguém nu da mesma forma como se chocam ao ver uma criança em pedaços no jornal da tarde ou ao ver dois homens se beijando. Há um pudor demasiado. Esse pudor leva à culpa, que leva à hipocrisia. Por que ter vergonha do próprio corpo? Agora, o ator tem que entender que, além disso, o corpo é o seu instrumento de trabalho. E ele precisa estar habilitado para usá-lo, com roupa ou sem roupa. Eu não julgo a forma. O cara pode falar palavrão e até se cortar em cena. Acho válido. O que vou julgar é o propósito daquilo.

Elenilson – Quem estudou um mínimo de história dos movimentos de esquerda no mundo, sabe desta violência constante do sindicalismo contra os administradores de fábrica, considerados lacaios do capitalismo. O filme sobre o presidente Lula, por exemplo, é uma coleção de despautérios absurdos. Considerado o filme mais caro da história no Brasil, financiando pelo governo, mas que serve somente para que os apaixonados-alienados do presidente continuem apaixonados e alienados. Você assinaria uma produção eleitoreira com essa só por dinheiro?
Sérgio Spina – Nunca faço as coisas só pelo dinheiro. Deve existir sempre outros fatores que me levem a fazer aquilo. Bom... E como não assisti o filme ainda, não vou comentar.
Elenilson – O que você considera o marco no seu trabalho e o que deixará para a cultura do nosso País?
Sérgio Spina – Sou um novato. Ainda tenho muito para produzir. Mas gosto de lembrar de quando escrevi a peça “Cacto”, em 2004, e resolvi montá-la na cara e na raça. Tudo mudou depois disso. Nesse processo encontrei dois irmãos, dois grandes parceiros profissionais. E o que vou deixar para a cultura do nosso país e todo o fruto do meu trabalho. As peças e os filmes.
Elenilson – Quais as principais dificuldades que um jovem direitor/ator tem enfrentado?
Sérgio Spina – Se estabelecer no mercado profissional é a maior dificuldade.
Elenilson – Como você avalia a produção teatral atual? E no cinema?
Sérgio Spina – Aqui em São Paulo tem se produzido cada vez mais teatro. Mas a qualidade tem decrescido. E no cinema tudo vai muito bem obrigado. Muitos filmes sendo produzidos. E muito cinema autoral. Isso é bom. Muito bom.
Elenilson – O que mudou? O que deveria mudar?
Sérgio Spina – Precisamos de novos dramaturgos e mais cinema autoral.
Elenilson – Cite alguns livros da sua biblioteca. E porque ainda não comprou o meu?
Sérgio Spina – “A Idade da Razão”, “Coração Selvagem”, “Disciplina do Amor”, “Harry Potter”... E porque ainda não comprei o seu? Não sabia que você era escritor.
Elenilson – Alguns dizem que os movimentos culturais estão na UTI. Por que a insatisfação da sua classe não pode ser modificada para reivindicação?
Sérgio Spina – Bom... Sempre é mais fácil reclamar do que fazer alguma coisa. E reivindicar significa pensar e pedir algo. Muita gente tem preguiça de pensar, já que é tão mais fácil reclamar. Não gosto de ficar falando e reclamando e discutindo demasiadamente. Minha reivindicação e a minha insatisfação estão no meu trabalho.
Elenilson – Deixa uma mensagem para aqueles que querem fazer arte.
Sérgio Spina – Façam, façam, façam...
Contato: sergiospina@terra.com.br
fotos: divulgação





1 comentários:
O entrevistado fugiu das perguntas ou foi impresão minha????
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