No momento estou aqui numa lan house lotada, com direito a café e chocolate, de frente para a
Esplanada dos Ministérios e, de alguma forma, mais nostálgico do que nunca, apesar desse período natalino nunca ter me afetado. Acho o Natal a época do ano mais deprimente que existe. Detesto essas datas previsíveis onde você é obrigado a ficar feliz como família de propaganda de margarina e/ou como paisagem no programa da
Xuxa com data e hora marcada. Mas esse período do ano é onde o comércio fatura mais do que o
Baú da Felicidade ou mais ainda que os dízimos de igrejas evangélicas – e as ruas ficam enfeitadas com tantas luzes quanto uma usina hidrelétrica for capaz de iluminar (*e viva ao apagão).
Detesto essas trocas forçadas de presentes entre familiares e colegas de trabalho nos irritantes “inimigos” secretos, mas que no resto do ano se comportam como você não existisse. E as escolas e igrejas que tentam em vão ensinar às crianças que o verdadeiro sentido da porra do Natal é o nascimento de
Cristo, porém eles ainda não perceberam – cegos na sua arrogância acadêmica – que as crianças de hoje não querem mais saber dessas coisas, mesmo porque isso tudo se acha na internet e o máximo de pensamento natalinos que elas conseguem produzir é uma carta com letras ilegíveis para o
pedófilo Noel pedindo um
Playstation 3 que trás Facebook, Orkut e Twitter – tudo junto num mesmo brinquedinho – para falar mal e inventar coisas de “amigos” e acabar com reputações em um dia.
NATAL PAGÃO – Mas essa história toda de Natal é verdadeira? Eu não acredito nisso! Até mesmo entre os cristãos há muita divergência quanto à celebração dessa data. O nascimento do maior garoto propaganda das igrejas, por exemplo, só passou a ser atrelado a essa data comercial quando, por uma questão política, o imperador romano
Constantino procurou resgatar a unidade religiosa do povo que governava. Constantino aproveitou a difusão do cristianismo para controlar o império. Foi ele que estabeleceu os costumes e rituais da
Igreja Católica Romana, criada no
Concílio de Nicéia em 325 d.C., passando o dia de celebração do sábado para o domingo e “criando” o Natal cristão. Além disso, a Igreja Romana assimilou muitos costumes de outros povos que o império dominava, como conta o autor
Henry Bettenson em seu excelente livro
“Documentos da Igreja Cristã” –
CLIQUE AQUI. Portanto, essa porra de Natal não passa de mais uma invenção para você gastar dinheiro e ficar feliz a conta gotas.

Fora tudo isso, se realmente os evangélicos lessem a Bíblia como deveria, ao invés de fazerem dela um “absorvente de sovaco”, saberiam que nunca Jesus poderia ter nascido nesta data, pois em Israel é inverno e dificilmente pessoas peregrinam nesta época – como é estrategicamente descrito na Bíblia. Tudo indica que os pais de Jesus estavam a caminho de Belém, próximo a Jerusalém, como todo mundo aprendeu nas aulas de catecismo (*até eu), mas isso só ocorria em duas ocasiões — no aniversário da segunda cidade e na
Festa dos Tabernáculos, ou Sucot, a festa das colheitas do povo judaico. Os indícios mais prováveis apontam que o nascimento do “cara” teria acontecido na segunda ocasião. O outro autor chamado
Russel Shedd constatou em seus estudos para a tese de doutorado que o nascimento se deu em outubro, durante a festividade, considerando os turnos de sacerdócio de
Zacarias, pai de
João Batista, primo de Jesus. Mas como pode Russel Shedd competir com anos de alienação e distorções dos fatos? Por isso que na véspera do Natal, a
Geisy Arruda (foto ao lado), aquela menina que virou o centro das atenções da mídia depois de ter sido vitima de intolerância em uma das muitas universidades de esquina pelo Brasil, se transformou em
Mamãe Noel e símbolo do que é o Natal para muitos: apenas PUTARIA!
SINAL DE FUMAÇA – E é sobre fatos que venho aqui agora com o intuito de mandar um sinal de fumaça para todos aqueles que, de uma forma ou de outra, mantém algum tipo de vínculo comigo. Não sou e nunca fui um cara fácil de lidar e nessa época onde todo mundo é obrigado a ficar feliz fica ainda pior. Tenho tantos problemas que às vezes eu mesmo não me aguento. Escolho os meus amigos não pela cor da pele ou outro arquétipo qualquer, mas pela pupila. Tem que ter brilho questionador e tonalidade inquietante. Cérebro na cor dos olhos. Cérebro na ponta da língua. Cérebro nos dedos. Cérebro de cão. E meus poucos amigos são deuses em corpos de cães.
A mim não interessam os bons de espírito nem os maus de hábitos. Escolho meus amigos pela cara lavada e pela alma exposta. Escolho meus amigos PARA SABER QUEM SOU. Agora vocês devem está se perguntando, onde está o EFEITO SINGULAR dessa coisa toda? O Efeito Singular está na verdade das palavras, na amizade sincera, no sorriso, na presença (ou falta dela), no pôr do sol do Farol da Barra, no apontar para o desabrochar de uma flor na Paralela, no abraço apertado e caloroso que evito doar, enfim, está nessas coisas simples da vida, que muitos de nós não damos valor e não enxer

gamos com os olhos.
FODA-SE LULA E SEUS PROJETOS SOCIAIS – Acredito que a alternância do poder através de eleições livres e diretas é o melhor antídoto para os delírios dos homens públicos que querem se perpetuar nos cargos executivos, mas o povo que elege esses sacanas não enxerga isso. Pior ainda são aqueles que se auto-intitulam os únicos com capacidade para gerir o estado, pois são nestes elementos que germinam as sementes do autoritarismo. Sou totalmente contra a reeleição no Brasil, pois tal instrumento só nos trouxe prejuízos. E não me venham dizer que o
Lula, pai dos pobres, foi boa coisa. Mesmo tendo sido eleito o “homem do ano 2009” pelo jornal francês
“Le Monde”. Mas aí, provavelmente, alguém vai dizer de novo que eu estou “copiando” o
Caetano por achar o Lula uma besta (*com
filme no cinema e tudo).
Foda-se Lula e seus projetos sociais e fodam-se também esses outros que não visualizam o prejuízo nesses discursos parasitas e enfadonhos só para acalentar como uma mão boba de alma caridosa o cu cabeludo dos otários nas filas do SUS ou do SIIM. Porque TODOS esses políticos de “merda” assumem suas funções e logo sobem nos palanques das cidades e periferias pensando em se reeleger ao invés de trabalhar com afinco para fazer o melhor possível em quatro anos de mandato. Lula não é mais o velho PT de guerra, embora o PT seja apenas o próprio Lula. E ser Lula não é mais sinônimo de ser do PT e da esquerda, muito pelo contrário. Porque até mesmo os f.d.p. do
FHC, Sarney e
Collor juntos são Lula desde criancinhas. E vice versa.
ARROTOS PELA NET – Enquanto ruminava no limbo eterno a minha não-publicação, comecei a escrever para a internet, com resenhas, crônicas, e comentários, para vários sites de literatura e cultura, em geral sobre livros, cinema, e teatro e, ao mesmo tempo, organizava contatos e encontros com outros escritores, entrevistas, frenquentava saraus e debates literários. Percebi logo que havia um espaço tremendo pela internet que poderia ser usado muito bem para divulgar meu trabalho, retomar minha escrita, conhecer mais pessoas, trocar impressões, organizar e inventar eventos. Enfim, fazer arte a partir do que sei fazer, escrever.
Mas a multiplicação desses sites, blogs, revistas virtuais, e mais recentemente, os sites de relacionamento virtuais imediatos como facebooks e twitters, é a face mais óbvia, escancarada e obscura de que a comunicação e a troca de informações atingiram um nível inimaginável (ou só concebível em ficção científica) até poucos anos atrás. Tudo o que já foi produzido, escrito, e criado em qualquer tipo de arte até hoje está sendo transposto, acumulado, realocado para os meios do ciberespaço. E nesse sentido, falar de mim mesmo pode ser considerado por muitos como um pecado mortal.
Hoje, com essas coisas de todo mundo querer ser alguma coisa, pode-se elogiar toda a obra de
Shakespeare, Cecília Meirelles, Guimarães Rosa, sei lá mais quem, todo e qualquer autor, tudo o que já foi realizado em todos os tempos, e transportá-lo para um cenário onde o computador pode oferecer uma gama vasta para o enriquecimento e compreensão da obra. Mas, lembre-se, eu não posso falar bem do meu próprio trabalho. Não posso mandar outros falarem também, pois isso pode virar motivo de chacota, textos venenosos e um monte de comentários depreciativos de gente que nunca leu nada meu ou ao meu respeito, mas se sentem no direito de me chamarem de mentiroso e um produto forjado na net.
A net tem uma coisa maravilhosa: a descoberta de possibilidades de encontrar muitas coisas e pessoas bem bacanas – e nisso eu tenho achado no labirinto de inutilidades na rede. Mas eu dispenso qualquer tipo de contato com aquelas que sentem um prazer quase sexual em destruir a imagem dos outros e de criar intrigas e fofocas. E nisso, o verdadeiro objeto literário em si permanece jogado abaixo do limbo, mas acompanhado agora por uma velocidade e facilidade de resposta, de pesquisa e o acréscimo de outros sentidos. Mesmo que esses sentidos sejam elevados à categoria de maldade.
Mas acho que agora há uma saturação na internet. É tudo muito fácil. É muito fácil depreciar o trabalho do outro e um bando de gente que mal consegue ler uma bula de remédio vai atrás. Nossa, pareço uma velha rabugenta dizendo isso. Tem muita coisa boa acontecendo na net, como também tem muitas estrelas cadentes, infelizmente. E quando leio blogs, é sempre na expectativa de achar algo que me salve o dia. Às vezes acontece, mas o que com mais frequência tenho acesso é gente querendo pisar e ridicularizar os outros. Uma coisa para se pensar: se a gente passa o dia inteiro na internet, lendo e atualizando blogs, Twitter, Facebook, Orkut (*coisa que eu estou repensando se realmente vale a pena ter) e sei lá mais o quê, a gente não está sentado num cantinho com um café e um livro. Leitura exige concentração. Poesia exige concentração. Acho que a internet está nos tirando isso. Quanto a ser multimídia, pra mim o
Arnaldo Antunes é multimídia, a
Malu Fontes, o
Ricardo Noblat, o
Mário Kertész, o
Marcelo Tás. Eu mal sei fazer um podcast. E quanto a ser medíocre e mentiroso para os outros: eu bem sei o quanto já me custou ser medíocre e mentiroso.

DOR EM ESPERANÇA – Mas coisas boas também acontecem pela net, como é o caso da solidariedade que sempre teve a mania de transformar dor em esperança. E isso foi o caso da baiana
Verena Rocha, de 28 anos, que encontrou a tempo, antes do Natal que prometia ser o mais triste da sua vida, a pessoa certa para entregar o brinquedo preferido do filho, morto em junho deste ano, pouco antes de completar três anos.
Verena entrou no
Hospital Ana Neri (Salvador-BA) e o doou uma bicicleta ao pequeno
Márcio, 2 anos e 7 meses, o menino que teve um monte de agulhas introduzidas pelo corpo pelo próprio pai, cujo drama o Brasil passou a acompanhar há uma semana. Verena, ao que parece, saiu de lá com o espírito renovado. E nesta noite de Natal, o pequeno
Raimundo Neto (foto ao lado), seu filho, não ficou pedalando na sala de jantar, pois tinha saltado da mesma bicicleta para consertar a corrente do brinquedo quando uma adolescente de 16 anos arrancou com o carro do pai e o atropelou num condomínio em Barra do Jacuípe. E o pequeno garoto morreu na hora.

UMA OUTRA FATALIDADE – E o que poderia passar na cabeça de um cara, como muitos de classe média, que sonhava morar no exterior por não acreditar, como eu, no futuro que nunca virá neste país de “merda”? Um cara, cuja a família sempre achou que essa coisa de “leitura” era coisa de “veado”, que essa coisa de “estudar” era coisa de “burguês” e que essa coisa de “se privar dos prazeres da vida” para se “enfornar num canto” era coisa de “maluco”. O que dizer de um cara que tinha uma vida inteira pela frente e quando isso tudo finalmente aconteceu, em 2006, quando largou a vida medíocre como professor do estado e somou-se à massa anônima de desempregados cuja razão para sair de Salvador era a falta de opções, não o desejo de ter novas experiências? Esse cara que estudava a mais de três anos para passar num concurso federal não pensou na possibilidade – mais remota que fosse – de não ser aprovado e ter que começar do zero novamente. A coisa mais normal do mundo. Um cara brilhante que teve que conciliar os livros com a venda de mel em Brasília para se sustentar, pois a sua própria família o ignorou simplesmente. Mas, infelizmente, foi fraco (*não sei se a palavra é essa) frente a não aprovação num concurso público e resolveu dá cabo na sua própria vida.
Não vou ficar nessa de julgar a sua atitude. Não vou cair na besteira de envenenar mais ainda o seu espírito com discursos de quem nunca esteve dentro do seu coração e dos seus medos, mesmo porque, como disse Caetano:
“Cada um sabe a dor e a delícia de ser o que é.” Mas também não me julguem por não ter estado perto dele quando ele precisou. Eu admito aqui a minha culpa sim. Fui incapaz de perceber um mínimo sinal de desespero num telefonema. Fui um f.d.p. egoísta incapaz de observar com mais cuidado o sofrimento do meu amigo, contudo, não me venham agora, familiares, supostos amigos e sei lá mais quem, me cobrarem por qualquer tipo de atitude que vocês mesmos nunca foram capazes de ter. Não tenho e não vou prestar explicações a ninguém. Mesmo porque vocês não têm a moral de me cobrarem nada. Sinto muito pelo o que aconteceu, mas não vou ficar como uma
Poliana no
“Jogo do Contente” buscando lado positivo numa coisa que eu acho ser deplorável.
Ele era meu amigo sim. Amigo de eu saber coisas que provavelmente vocês nunca saberão. Mas ele foi precipitado, imaturo, egoísta e, por mais que eu gostasse muito dele, foi maquiavélico ao escrever tudo aquilo que escreveu para me deixar aqui culpado. Eu faria tudo de novo. Falaria tudo que falei com relação à educação que, infelizmente, não tivemos. Educação que nesse país é apenas um tapa buraco – é uma fantasia, pois as universidades entraram em colapso e só os professores e seus alunos parasitas não conseguem enxergar isso. Acabei de abandonar um mestrado justamente porque comecei a pontuar o que eu deveria priorizar na minha vida e gastar as minhas energias num ambiente infestado de inúteis não é o que eu quero.
Ficar me enviando inúmeros e-mails falando da importância desse meu amigo, da quantidade dele como ser humano e do seu estilo diferenciado de vida, não está errado, claro, mesmo sendo simplista, mas o fato dessas frases serem repetidas em quase todas as mensagens que eu li evidencia um detalhe simples de que esses “amigos” não conhecem do que estão falando, portanto, não podem acrescentar mais nada ao que de fato já aconteceu. E não vai trazê-lo de volta.
Ainda lembro de um desses e-mails de um conhecido quando enfatizou a palavra “brutal” e fez uma pausa final, para que eu captasse toda a “ironia” da situação. Imagino o seu rosto impassível e sério, mas a “mensagem” estava mais do que clara: “com tais fatos e tal atitude afinal, não era quase inevitável que isso acontecesse, mais cedo ou mais tarde?” Esse tipo de insinuação, velada e envergonhada, é a pior, pois vem travestida de desespero no discurso. Mas a única coisa que eu lamento é não ter prestado mais atenção.
Elenilson Nascimento
DF, dezembro/2009>>> Ouça aqui o comentário do excelente jornalista Sebastião Nery sobre os conchavos do poder neste país de “merda”. Depois ainda querem que eu acredite que algum dia isso aqui vai dar certo:
podcast: Rádio Metrópole FM