“Segundo o Fantástico, o artista tem dívidas acumuladas e carros abandonados em dois estacionamentos.”Por Elenilson Nascimento
Eu acho deprimente a maneira como a mídia tenta minimizar e se meter na vida dos outros. Ontem, 23/08, mais uma vez, a
Rede Globo numa atitude antiética, moralista e sensacionalista, levou ao ar uma matéria no
Fantástico sobre o “desaparecimento” do maravilhoso cantor e compositor
Belchior.
“Tem gente que diz que ele está na Holanda, tem gente que diz que ele está em São Paulo”, contou um tal de
Luiz do Monte.
“Eu procurei alguns empresários que eu sei que trabalhavam com ele. Eles disseram que nunca mais fizeram show com ele, porque não o encontram”, disse o ex-sócio e parceiro
Jorge Mello.
Desde o sucesso nos anos 70, quando foi gravado por gente do quilate de
Elis Regina, Roberto Carlos, Vanusa, Jair Rodrigues, até meados dos anos 2000, o cantor fazia cerca de cem shows por ano, em todo o Brasil. Em 40 anos de carreira, lançou 15 discos. Em 1983 lançou uma gravadora própria, a
Paraíso Discos, e em 1997 criou o selo
Camerati, que lançou discos antológicos de
José Miguel Wisnik e do
Grupo Rumo.
Belchior, cujo nome deve ser pronunciado como
"Agenor",
"Claudionor", e não como
"suor" ou
"Christian Dior", tinha até uma casa de cultura com seu nome, em Fortaleza, e aparecia esporadicamente em programas de TV. Uma carreira sólida, portanto. Uma obra que é até tema até de estudos acadêmicos. E, de repente, segundo o Fantástico, amigos, parceiros e a família perguntam: onde está Belchior? Produtor de Belchior durante 15 anos,
Jackson Martins diz que chegou a conversar com ele sobre uma mudança de vida:
“Ele falou que ia dar uma incerta, que ia mudar a vida dele”. Em um vídeo, Belchior é flagrado cantando em abril deste ano, em Brasília. Ele apareceu de surpresa em um show de
Tom Zé. E o público vibrou. O também compositor
Renato Teixeira não tem notícias de Belchior e estranha a situação. O produtor
George Jean, que quer agendar shows para Belchior, também não tem pistas:
“Não existe notícia. Diariamente, eu ligo atrás dele”, conta.

Pela Internet várias pessoas já se manifestaram. Na garupa de uma moto a caminho de Tianguá, no norte do Ceará, um primo de segundo grau chamado
Robério Belchior deu a sentença:
"Belchior encerrou a carreira. Está bem de saúde, de finanças, mas decidiu não gravar mais ou fazer shows. Há mais de um ano que nem nós, da família, temos contato com ele. Só uma irmã, Ângela, que de vez em quando recebe telefonemas. Ninguém sabe nem onde mora, só que parou com tudo". O desaparecimento de Belchior foi repentino, mas anda deixando muitos desesperados.
Alarmismo ou não, nem os amigos, parentes, fãs, ex-sócio, gravadora, nem o Google sabe o paradeiro deste que integra a lista afetiva dos maiores compositores do Brasil, autor do maior sucesso na voz de
Elis Regina,
"Como Nossos Pais" e de hits dos anos 70, como
"Apenas um Rapaz Latino-Americano", "Velha Roupa Colorida" e
"A Palo Seco".
Aos pedidos de shows que recebe de todo Brasil, o antigo empresário,
Georges Jean, tem mandado o cantor
Guilherme Arantes no lugar.
"Olha, se você achar o Belchior, por favor me passe o contato, porque eu estou atrás dele há dois anos", apela Georges, pelo telefone.
Segundo alguns, se não fosse o Tom Zé ter reconhecido o indefectível bigodão perdido na platéia de um show que fez em Brasília em março deste ano, os milhares de fãs que mantêm sites e comunidades no Orkut em busca do cantor já teriam até pensado que – toc, toc, toc – "Bel", como chamam, bateu as botas.
Vestido com uma saia estampada à "calçadão de Copacabana",
Tom Zé avistou o cabra, parou o show e o chamou ao palco. Meio tímido e bastante cabeludo, Belchior subiu e não fez feio. Entoou, vozeirão em dia, uma versão de "Sweet Mystery Of Life". Tom Zé, em reverência, foi assistir da platéia. O estilo sincero dos versos, as milhares de referências intertextuais, a voz forte (e o bigode, claro) transformaram Belchior em ídolo "cult".

Em 2006, dublou o mágico
Zás-Trás no desenho animado
"Garoto Cósmico", com
Vanessa da Matta, Raul Cortez e
Arnaldo Antunes. Um doce para quem adivinhar qual música o pequeno mágico cantava. No mesmo ano, a canção
"A palo seco" foi gravada pelo
Los Hermanos (o que mais poderia ser mais cult em 2006?). Os também bigodudos, e barbudos, levaram Belk’s a tiracolo para seus shows. Um sucesso absoluto. Agora, o Fantástico diz ter procurado Belchior por telefone, sem sucesso. Pois, segundo eles, os números mudaram. Mas ninguém se pergunta se não seria ele mesmo que tomou essa decisão. Deixem o cara em paz! Ele deve ter tomado férias por conta própria. Eu amo Bel! E qualquer coisa que ele decidir, eu concordo! Confira abaixo o sensacionalismo “calhorda” da Globo:
fotos: divulgação