sexta-feira, 31 de julho de 2009

I LOVE YOU, LEE!

“Da flauta doce dos anos 60 ao Theremim de hoje, a sempre mutante Lee tornou-se um mito – um mito num país de bundas. Que contradição!”Por Elenilson Nascimento
Eu sempre fui um chato com relação às minhas coisas. Sejam os meus amores (*na sua maioria problemáticos), sejam os meus livros, meus discos, mas não sou do tipo que faria o mesmo que a Elis: “Eu quero uma casa no campo, onde eu possa compor muitos rocks rurais. E tenha somente a certeza, dos amigos do peito e nada mais. Eu quero uma casa no campo, onde eu possa ficar no tamanho da paz (...) Eu quero uma casa no campo, do tamanho ideal, pau-a-pique e sapé, onde eu possa plantar meus amigos, meus discos e livros e nada mais!”. Primeiro, eu detesto mato. Não consigo conceber nem ao menos uma chancezinha de fazer um acampamento, nem no tempo em que eu era escoteiro. Quanto aos amigos: a minha lista está cada vez menor, contrariando o que a vã filosofia julgaria como necessário. Quanto aos meus livros e discos: não empresto, não dou e nem troco!
Mas queria compartilhar uma coisa com vocês: eu amo a Rita Lee! Pena que eu não nasci nos anos 60, pois seria mais um “caso” dessa menina. Mulheres como a Rita já estão em extinção. Da flauta doce dos anos 60 ao Theremim de hoje, a sempre mutante Lee tornou-se um mito – um mito num país de bundas. Que contradição! É claro que ela fez por onde quando chutou o pau na barraca da mesmice, criou asas e detonou seu próprio Big Bang na história do Brasil e, principalmente, na minha. Íntima do tal de “roque enrow” (tá errado né?) amplificou o dom da sua dimensão cósmica e descobriu-se uma fantástica criadora de amor, tatuando na alma de todas as “galeras” a marca ruiva e bem-humorada de suas instigantes canções...
Recentemente, a “menina”, apoiada nos mínimos detalhes pela guitarra falante do maridão Roberto de Carvalho (*um abuso de sensibilidade e bom gosto) e pelo filho Beto Lee (*que além de tocar bem... e muito mais, apresenta o making off no DVD) , a “ovelha iluminada” fez o que quis nesse “Multishow Ao Vivo Rita Lee”. Contando ainda com o auxílio elegante de uma excelente e poderosa gangue de músicos e lindas vocalistas que respiram junto com ela... coisas para Paul McCartney nenhum achar defeitos. Compre, baixe, “pida” a alguém, roube nas Americanas, sei lá, mas tenha esse disco. Eu não achei o linck para colocar aqui na LC. Porém, deixo outra parte da Rita pra vocês. Dessa vez ao lado da Fernanda Young (foto ao lado) – outra que eu tenho muita admiração, não pela nova versão apresentadora, mas pela Young escritora – superiormente melhor do que a menina da TV. Outro dia, um “caso antigo” me disse, com desdém, que não conseguia entender o porquê um cara como eu (*que pensa) gosta da Fernanda. No dia que eu começar a ter essas respostas, prefiro cravar uma bala na cabeça, igual ao Hemingway. Confira abaixo uma entrevista bem bacana que a Fernanda fez com a Rita:

fotos: divulgação

quinta-feira, 30 de julho de 2009

JACKO NO CORDEL

E falando mais do MJ, ontem, 29/07, fuçando na Net, descobri num blog de variedades com dois exemplares de Literatura de Cordel, atualíssimos. O primeiro, “A chegada de Michael Jackson no Portão Celestial” (Tupynanquim Editora, 2009), escrito por João Gomes de Sá e com capa assinada por Klévisson Viana (*que também é co-autor dos versos). Mais uma prova que o cordel contínua vivo no Ceará, e acredito que também em Pernambuco, os dois principais pólos produtores dessa literatura. Separei alguns trechos que, entre os deboches próprios da mídia, dizem muito da percepção popular sobre o popstar. Ah, o outro livrinho se chama “O Homem que foi preso porque peidou na igreja” e é de Sávio Pinheiro. Agora, confira MJ abaixo:



Eu sonhei que o rei do pop,
Logo após bater as botas,
Foi direto para o céu,
Fazendo muitas marmotas,
Cantando muito agitado
Feliz, tinha se livrado
De dívida, banco e agiotas.
(...)
Michael Jackson lá no céu
Chegou bastante apressado,
Dizendo para São Pedro:
- Estou demais atrasado
Eu quero até me esconder
Porque não pude fazer
O que tinha programado!
(...)
Eu queria dançar mais
Sabe o senhor, não empaco,
Gostava de requebrar,
Pois eu sou bom nesse taco
Dançando eu faço munganga,
Às vezes visto uma tanga
Para prender o meu saco!

São Pedro disse:
-Rapaz, não é como você pensa!
Primeiro você procura
O assessor de imprensa
E faça um requerimento,
Protocole no convento,
Com o avô do Alceu Valença.
(...)
Disse Jackson:
-Eu sou um astro
Famoso no mundo inteiro!
Não tem um ato secreto
Para me atender primeiro?
Pedro disse:
-Eu não tropeço,
O céu não é o congresso
Lá do povo brasileiro!
(...)
O sucesso foi crescendo,
Sobretudo a vaidade,
Tudo aquilo que sonhava
Virava realidade.
O meu corpo mutilei,
Mesmo assim nunca encontrei
Minha própria identidade.
(...)
Jackson que ao longo da vida
Foi branco por opção,
Nasceu negro, mas fez de tudo
Pra perder coloração...
Sentiu-se fútil e pequeno,
Ao mirar um Deus moreno
Como o Autor da Criação.

Quando relembrei o sonho,
Achei um pouco sem nexo,
Mas pensei: agora Michael
Vai se livrar do complexo.
Pode brincar à vontade
Com os anjos, sem maldade,
Pois anjinhos não tem sexo.

fonte: Blog Esforçado/Dafne Souza Sampaio

quarta-feira, 29 de julho de 2009

BOMBA: JORNAL “DESCOBRE” MAIS UM REBENTO (NÃO-AUTORIZADO) DE MICHAEL JACKSON

A semelhança entre Omer e MJ é incrível. Eles têm o mesmo cabelo preto, as mesmas sobrancelhas e o mesmo formato de rosto.
Por Elenilson Nascimento
Nem morto esse maluco não deixa de chamar a atenção. Depois do velório-show transmitido ao vivo para todo o mundo, depois dos camelôs do Brasil inteiro lucrarem com o DVD “inédito” no enterro, depois (*quer dizer, até hoje) das Lojas Americanas colocarem “tudo” sobre o astro morto nas suas prateleiras (*tinha até cueca e bandeja com a cara do MJ, eu vi!), depois que fãs de todas as parte fizeram as suas homenagens bizarras, depois que “todas” as revistas do planeta estamparam a cara do MJ como rei (*depois de terem escrachado com a imagem do cara), depois de novamente “todas” as historinhas sobre pedofilia envolvendo o astro terem vindo “de novo” à tona, depois que a Brooke Shields e a Paris Michael (*essa menina é uma atriz muito boa) terem chorado no enterro, depois que até o médico foi acusado de ter matado o cantor, depois que a irmã traíra La Toya Jackson ter gravado (acreditem) uma música em homenagem a seu irmão morto, agora, chegou a vez do jornal britânico “The Sun” afirmar que existe mais um filho de Michael Jackson.
O dançarino, que diz ser um filho que Michael se manteve escondido todos esses anos, mas estava na primeira fileira do funeral, segundo o jornal (foto ao lado). O inconsolável Omer Bhatti, de 25 anos, ficou de cabeça baixa ao lado dos irmãos de Jackson, no velório ocorrido há três semanas, e logo levantou suspeitas de que seria o quarto filho do cantor. Fotos de Omer na infância mostram uma incrível semelhança dele, tanto com Michael quanto com Prince Michael II, conhecido como Blanket, o mais novo dos filhos “oficiais” de Jackson.
Michael, que morreu no mês passado, aos 50 anos, teria contado a amigos que Omer nasceu em 2004 e foi gerado em um encontro de uma noite só, com uma mulher nascida na Noruega. Olha, viu só, Michael era bem danadinho! Agora o rapaz quer fazer um exame de DNA para descobrir a verdade, claro, entrar na guerra pela herança. A família de Omer, que vive em Oslo, capital da Noruega, se recusou a confirmar se Jacko é o pai dele. A mãe do jovem, Pia, disse, logo após a morte de Jackson: “Ele era o Rei do Pop, mas para nós era algo mais”. Pois é.
Mas parece que essa história não é tão maluca assim, pois Omer também foi colocado em um lugar especial entre a família Jackson, no funeral do Staples Center, em 7 de julho. Grandes celebridades sentaram na fileira detrás. Omer viveu em Neverland por muitos anos e sempre esteve integrado à família Jackson. Depois do nascimento dele, MJ enviou duas empregadas a Oslo para ajudar a mãe a criar a criança. Por que? Porque ele era bomzinho demais? Hum... me poupe! Aguardem, novos acontecimentos dessa novela.
fotos: divulgação

terça-feira, 28 de julho de 2009

120, 130, 150 POR HORA

Marília foi o grande destaque do especial “Elas Cantam Roberto”, exibido pela Globo: com uma interpretação marcada pela verve dramática da atriz.
Eu não fiz nenhuma questão de assistir ao programa “Elas Cantam Roberto”, em comemoração aos 50 anos de carreira do “rei”, que recebeu uma homenagem no dia 26/05, no Teatro Municipal, em São Paulo, pois já sabia que iria ser editado (*ou pior, todo mal cortado) pela Globo. As 20 cantoras convidadas dividiram com o cantor o palco do histórico marco da capital paulista. Resultado: tinha que rolar um barroco básico – CLIQUE AQUI. Porém, ontem, 27/07, um colega me trouxe um CD que ele fez com esse tributo. E fiquei impressionadíssimo com a apresentação da Marília Pêra cantando “120, 130, 150 Por Hora”. Essa música é linda e desde criança eu já gosto dela: “As coisas estão passando mais depressa. O ponteiro marca 120. O tempo diminui. As árvores passam como vultos. A vida passa. O tempo passa. Estou a 130. As imagens se confundem. Estou fugindo de mim mesmo. Fugindo do passado. Do meu mundo assombrado. De tristeza. De incerteza. Estou a 140. Fugindo de você”. E o mais engraçado é que eu sempre achei essa música uma loucura sem tamanho, mas uma loucura deliciosa. E pelo visto a única apresentação que salvou esse show, apesar de gostar muito da Zizi Posse também. Mas a senhora dos palcos, a “cantriz” deu dramaticidade exata que o registro original não contém. Técnica vocal apurada! Porém, Marília abriu a guarda e soltou a emoção, caminhou no palco, saiu de cena cantando. Marcou presença, ficou na memória. Quem vem do teatro não decepciona. Salve, Marília! Santa Marília, cantai por nós! Confira abaixo a Marília cantando:

foto: divulgação

MACUNAÍMA (O Filme)

“Nasceu negro e virou branco, muito antes do Michael Jackson. O cara já era bem moderno e pop.”
Por Elenilson Nascimento
Com uma adaptação da obra de Mário de Andrade, “Macunaíma” (1969) inova na estética do movimento “cinemanovista” ao incorporar elementos da chanchada (*eu nunca gostei, mas adorei esse filme), através da atuação/talento do “pequeno grande homem”, o ator Grande Otelo e também em transfigurar fatos da vida política que invadiu por todas as cenas o relato épico das andanças de seu protagonista entre as figuras da mitologia popular brasileira.
Macunaíma é um herói preguiçoso, safado e sem nenhum caráter (*ele parece muito comigo, mesmo porque outro dia me chamaram de perigoso, mesmo que até agora eu não tenha entendido o motivo). Mas o Macunaíma, de pura preguiça, só começou a falar aos seis anos de idade. Nasceu negro e virou branco (Paulo José), muito antes do Michael Jackson. O cara já era bem moderno e pop. Depois de adulto, deixa o sertão em companhia dos irmãos, vive várias aventuras na cidade, conhecendo e amando guerrilheiras e prostitutas, enfrentando vilões milionários, policiais e figuraças/personagens de todos os tipos.
Depois dessa longa e tumultuada aventura urbana, ele volta à selva, onde desaparecerá como viveu – antropofagicamente (*como queriam os modernistas). Um compêndio de mitos, lendas e da alma do brasileiro, a partir do clássico romance de Mário de Andrade. Um filme emblemático do final da maluca década de 1960, mas Macunaíma atualiza o legado do movimento Modernista e estabelece a tão buscada relação do Cinema Novo com o grande público.
No Festival de Brasília (1969), a comédia "Macunaíma" venceu nas categorias de melhor ator (Grande Otelo), melhor cenografia e figurinos (Anísio Medeiros), melhor roteiro (Joaquim Pedro de Andrade) e melhor ator coadjuvante (Jardel Filho). No Festival Internacional de Mar del Plata da Argentina (1970), venceu na categoria de melhor filme. Agora, ele está aqui na LITERATURA CLANDESTINA, só para você!
fonte do filme: Filme e Download

segunda-feira, 27 de julho de 2009

DE DEGRAU EM DEGRAU, VAMOS DESCER ATÉ O GRUNHIDO

Saramago e a sua esposa, Pilar del Rio (*novinha viu!)
O maravilhoso Saramago (*tô lendo – de novo – o seu “Ensaio Sobre a Cegueira” e tentando baixar o filme – alguém aí me ajuda?) defende que o Twitter não é mais do que uma tendência para o monossílabo como forma de comunicação. “De degrau em degrau, vamos descendo até o grunhido”, disse o português. O prêmio Nobel português falou ao blog Prosa, do jornal brasileiro O Globo, numa altura em que o seu novo livro “O Caderno” é lançado do outro lado do Atlântico. O escritor revelou que ainda este ano poderá ser lançado o segundo volume das suas crônicas na internet do seu blog Caderno de Saramago e que o filme sobre ele e a mulher Pilar del Rio poderá ter comercialização também em 2009.
foto: divulgação

sábado, 25 de julho de 2009

ENTREVISTA COM O MÚSICO CORISCO (Bando Virado no Móhi de Coentro)

“Tenho uma responsabilidade social como artista, sou uma pessoa pública e dentro desse caos social em que vivemos, eu me sinto no dever de contribuir da maneira que posso: educando com minhas músicas e letras...” (C.)
O nome já estabelecido no cenário musical baiano, o “Bando Virado no Móhi de Coentro”, no qual o nosso poeta/forrozeiro Corisco faz um enorme sucesso. Performáticos e muito animados, os meninos do Bando fazem o que se pode, de fato, denominar como o “verdadeiro forró pé-de-serra”, com pífanos e tudo, além de se aventurarem nos mais diversos ritmos essencialmente nordestinos.
O Bando nasceu, em meados de 2001, com a proposta de difundir a cultura musical do Nordeste, mantendo a legitimidade melódica, mas incorporando instrumentos que propõem uma releitura da tradicional música nordestina, dando ênfase aos pífanos e a guitarra. Com apenas três anos, o grupo conquistou espaço com participações em grandes eventos como Festival de Verão Salvador, participação no ensaio do bloco “Mascarados” com Margareth Menezes, no Gueto e no Hangar com Carlinhos Brown, além Rock In Rio Café Salvador, IV Mercado Cultural Latino-americano, entre outros. Corisco é um cara “antenado” com as tendências musicas e, agora, também vai participa dos “Poemas de Mil Compassos” da Coleção Literatura Clandestina/2009.
ELENILSON – Rapaz , estou muito feliz de você ter concordado em participar desse debate aqui. Gosto muito da sua arte, mas vejo muitos jornalistas por aí sempre perguntando as mesmas coisas, tipo: "que momento de sua carreira você gostaria de esquecer?". Então, quero propor o inverso: Capitão Corisco, qual momento que você considera inesquecível, o mais feliz, o mais vibrante?
Corisco – Rapá, o momento mais feliz em minha carreira foi quando descobri que poderia cantar... Que tinha o poder de cantar! Agora, o momento mais feliz de minha vida, não é um momento e sim todos em que fico com meus filhos... É muito bom tê-los junto a mim...
ELENILSON – Com o “estouro” do forró pé-de-serra, o Bando está trabalhando muito, a agenda está lotada! Mas quando fazemos o que gostamos não sentimos o cansaço e sim muita alegria e satisfação. Atualmente, grupos como Falamansa e outros, muito divulgados nas rádios, se dizem a nova sensação do forró pé-de-serra. O que você acha desse tipo de coisa? Será que existe mesmo os “escolhidos” ou esses grupos têm mesmo talento?
Corisco – Veja bem, em minha opinião, o que leva artistas a mídia é o trabalho deles, sua persistência, garra, etc. O que vejo é que os mais talentosos do Nordeste são, na verdade, artistas somente e para se chegar nesse lugar ao qual você se refere, mas é preciso ter muita garra, ser e
mpreendedor. Os caras do Sul, vendo nossa música, nossa cultura e sabendo valorizá-la, começaram a estudá-la e a tocá-la. Aqui no Nordeste, principalmente em Salvador, a garotada não é muito ligada em suas raízes, e isso faz com eles percam um pouco as suas referências e entrem no jogo da grande mídia que é colocar os seus valores invertidos... Isso os influencia de forma negativa, fazendo com que eles se afastem ainda mais de sua cultura. É exatamente aí que a turma do Sul se aproveita, por terem de alguma forma mais acesso à essa cultura. Eles sabem valorizar ainda mais o que temos e não damos o devido valor. Por isso, aparecem grupos como Falamansa. Eu acho que eles sabem aproveitar mais nossa cultura embora não saibam tanto quanto nós.
ELENILSON – Do que falam as suas músicas?
Corisco – Falam das coisas belas do sertão, de como esse povo guerreiro, que passa pela vida em estado de luta brava e que consegue ainda ter tempo de sorrir... Fala
m também da cegueira de nosso povo em se deixar envolver por essa mídia sensacionalista, fala da natureza, das lindas moças brejeiras do sertão... Procuramos falar de nossas realidades.
ELENILSON – Depois de um longo tempo a mídia finalmente passou a dar um peso maior ao forró. Na sua opinião, qual o grande fator que favoreceu essa boa divulgação?
Corisco – Veja bem, se daqui a 1000 anos você tocar uma música
de Luiz Gonzaga, ela será atual... Por quê? Porque ela é uma música de verdade, ela traz uma verdade e a verdade sempre será atual... É isso que faz com que a mídia tenha começado a tocar o forró. De tempos em tempos ele sempre será tocado, é um ciclo... A verdade não morre.
ELENILSON – Qual foi o ponta-pé inicial para a realização desse CD novo?
Corisco – O ponta pé inicial para grav
armos esse novo CD, foi ter encontrado nosso empresário Beto Sodré. Pense num cabra Virado no Móhi de Coentro (risos).
ELENILSON – Qual o segredo para se conquistar um público com o forró?
Corisco – Não há segredos e sim sinceridade... As pessoas sentem quando o artista está diz
endo uma verdade e está sendo sincero. As pessoas precisam de sinceridade ! É isso aí.
ELENILSON – Forró de Raíz tem um toque de romântismo em suas músicas. Fale sobre as composições e se algumas envolvem paixão antiga...

Corisco – O romantismo de nossas músicas vem da tendência natural do povo do sertão de ser românticos... Como procuramos falar deles...
ELENILSON – Vocês acreditam que estão no caminho certo? Quais são as qualid
ades do grupo?
Corisco – Tenho certeza de que estamos no caminho certo, que é o caminho de tentar, tentar e tentar... Tentar, tentar, tentar... Nossa maior qualidade...

ELENILSON – Antigamente o forró era discriminado pelos jovens por se tratar de um ritmo antigo e "brega". De uns tempos pra cá o forró cresceu de maneira muito rápida e foi aceito por esses mesmos jovens com a rotulação de "forró universitário". Qual sua opinião sobre forró nordestino de raiz e esse novo ritmo "universitário"?
Corisco – Só não há mais retaliações com a música nordestina aq
ui no Nordeste porque quem começou a tocar a nossa música foi a galera do Sul. Infelizmente, como a galera daqui consome o que eles nos manda, começaram a aceitar a música que para muitos era música de tabaréu, matuto... E colocaram o nome de universitário, que é uma tentativa louvável de preservar nossa música.
ELENILSON – A música brasileira tem um enorme prestígio internacional, mas por que a Bossa Nova, por exemplo, aconteceu no exterior? Porque era cantada em inglês! Essa era a chamada diferença. Todas as grandes músicas de Bossa Nova tiveram a letra vertida para o inglês. Até os bons letristas americanos o fizeram. Até o próprio Tom Jobim escreveu. Você vê alguma remota possibilidade do Bando cantar em inglês só para agradar aos gringos?
Corisco – Rapá eu nunca pensei nisso, mas não vejo nada co
ntra em cantar em inglês. Só acho que vai ficar bem estranho (risos). Aliás, já comecei a treinar o meu inglês nesse novo CD, "It´s Not Mole Não" (risos).
ELENILSON – Fale um pouco do Capitão Corisco, definindo o Corisco pelo próprio Corisco. Defina-se.

Corisco – Cabra véio, eu falar de mim mesmo é meio complicado, mas vou dizer o que acho... Eu me vejo como um cara que ADORA o No
rdeste brasileiro e toda a sua cultura, sua música, seu povo. Uma pessoa que procura ser justa com outras, um cara meio brabo com quem pensa que sou besta, mas uma cara que tem um coração imenso... Pelo menos assim eu me vejo. Uma coisa que eu prego é lealdade... Adoro pessoas leais. Outra coisa que adoro é a minha família, meus irmãos, meus amigos. Uma pessoa que gosta de conversas inteligentes, com pessoas inteligentes... Sei lá, uma pessoa comum, mais um filho de Deus nesse mundão.
ELENILSON – De quem foi a ideia de fazer "It´s Not Mole Não"?
Corisco – A ideia
desse CD, foi do nosso empresário, Beto Sodré.
ELENILSON –
E o Luiz Gonzaga? Ainda existe terreno para a música desse espetacular forrozeiro?
Corisco – Esse aí nunca vai sumir porque cantava as coisas verdadeiras, da terra... Eterno!
ELENILSON – Ficou muita música de fora do CD "It´s Not Mole Não"? Quais foram os critérios para escolher as que entraram?
Corisco – Nós temos muitas músicas inéditas e achamos melhor deixá-las pros próximos CDs... A seleção foi aleatória.
ELENILSON – O “forró universitário” é música, atit
ude ou fenômeno cultural?
Corisco – Forró universitário? É atitude. Mas, meu amigo, as gravadoras não estão mais com essa força toda e, com isso, os independentes estão tendo mais espaço nos meios de comunicação. Quanto às misturas de ritmos culturais, eu acho válido a partir do momento em que as pessoas estão tentando não deixar morrer nossas raízes. Essa coisa de misturar
é apenas mais uma tentativa de preservação cultural, mas temos que tomar cuidado para não deixar entrar nessa mistura, pitadas da escória musical. O movimento pernambucano do mangue beach só foi novidade para pessoas do Sul do país, pois para que mora pras bandas de Pernambuco, Paraíba e demais estados, não foi novidade alguma. Esse tipo de mistura da música nativa com o rock, também foi outra tentativa de dar continuidade a nossa cultura dentro de uma visão mais atual. É aquele negócio, a música verdadeira irá tocar daqui a bilhões de anos, mas, com certeza, ela trará peculiaridades de sua época.
ELENILSON – Fiquei muito emocionado com a versão
que você deu para a música que já foi cantada por Sonia Braga. De quem foi à ideia?
Corisco – “Estopim da Bomba”, essa música é do compositor Antônio Barros e realmente a Sonia Braga gravou na novela Saramandaia. Eu adoro essa música desde criança e reparei que nunca ninguém tinha regravado, então fiz esse arranjo e me senti feliz com ele.

ELENILSON – Escuto sempre esse papo de que falta espaço para o artista novo. Mas a literatura e a música não são INPS. Você concorda?
Corisco – Espaço para artistas novos? Eu acho que o que está faltando é uma qualidade nova d
e artista que faça o papel de empresário, produtor e tudo mais... O artista na realidade fica esperando que essas figuras apareçam e, hoje, é difícil arrumar empresários e produtores culturais que sejam realmente culturais... Eles estão mais afim mesmo é de ganhar muita grana e artista que não vende mais do que 100 mil cópias são descartados... Infelizmente é assim. O cara tem que vender um milhão de cópias... Aí tá russo... Na minha opinião, o artista tem que ir a onde o povo está... Chamar a atenção do povo, mostrar que está vivo e que tem um produto que não é descartável... É isso o que eu acho.
ELENILSON – Eu detesto coisas do tipo Babado Novo (insuportável), Daniela “chatinha” Mercury e ainda acho que Ivete está cantando coisas
erradas. O que você tem a dizer sobre isso?
Corisco – Um rei de algum país desses aí, eu acho que foi o rei da Espanha, disse que "podemos medir a cultura de um povo, observando a música que ele escuta". Concordo com ele... Existe lugar para todos, os bons e os ruins, por isso que existe a música ruim, para conotar a boa..
. Entende? É necessário haver todas as músicas, o sol brilha para todos... Só uma pitadinha ! (risos).
ELENILSON – O sol brilha pra todos? Você acredita nisso mesmo? Um conhecido jornalista (e muito famoso) uma vez me deu um conselho: jamais perca um amigo por causa de uma notícia. Principalmente se ele for famoso. O cara pode se tornar uma fonte inesgotável de informação. Acontece isso com você também?
Corisco – Sim, eu não só acredito. Eu tenho certeza que o sol brilha para todos. O que acontece é que poucas são as pessoas que sabem perceber as oportunidades que se apresentam todos os dias. O sol brilha para todos, mas nem todos sabem ver isso... Quanto a sua outra pergunta eu não compreendi direito. Você pode repeti-la ? Valeu cabra véi...

ELENILSON – Oportunidades todos os dias? Puxa, ainda não percebi isso também. Mas, por sua causa, vou tentar observar mais. Como é ser artista num país que não valoriza nada?
Corisco – Sim caro Elenilson,
temos várias oportunidades diárias... Por exemplo, eu conheço todo dia pessoas diferentes e elas são oportunidades de negócio, de melhora pessoal de relacionamento, oportunidades de várias formas... Entende? Ralei e ainda ralo muito para conquistar objetivos e para se conquistar os tais se faz necessário ser um cata oportunidades... Aprender onde se tem uma boa oportunidade. Embora tenhamos várias oportunidades em nossas vidas, apenas algumas são as boas, as maiores, o que não quer dizer que as outras também não sejam aproveitáveis... Entende ? Para se conquistar algo, é preciso ter os olhos bem abertos, para saber ver uma boa oportunidade... É assim que penso e levo minha vida. Esqueci de dizer algo importante em relação às oportunidades diárias... É que existem outros fatores para se ter algumas boas oportunidades... É o tal do merecimento de cada um, de como essas pessoas se relacionam consigo e com os outros, em que terreno se está plantando... Isso faz uma enorme diferença. Algumas pessoas chamam isso de plantar e colher, e eu concordo elas.
ELENILSON – Gostaria e saber porque fazer forró numa cidade como Salvador?
Corisco – Talvez seja por isso que você não goste do que fazemos... Você ainda não conhece, porque se conhecesse saberia que não fazemos forró e sim música universal. Procura escutar com mais cuidado e me fala depois, porque é interessante saber a tua opinião, pois, só assim, podemos melhorar o que fazemos... Valeu, cabra véio. E respondendo tua pergunta, não sei porque se faz "forró" em Salvador. Acho que é porque em todo lugar há pessoas (músicos) de todos os estilos e deve ser também pelo mesmo motivo que se faz jazz no EUA, frevo em Recife e em SP.
Sei lá...
ELENILSON – Bicho, tem uma música do Nando Reis
chamada “A Menina e o Passarinho” no disco “12 de Janeiro” que se você não conhece, deveria conhecer. Essa música é a sua cara e ficaria muito legal com o Bando. Diz aí algumas músicas que você gostaria de regravar...
Corisco – Vou procurar essa música do Nando Reis... Não tenho assim vontade de gravar essa ou aquela música. Quando eu regravo alguma é porque eu a escutei, maturei e vi uma possibilidade de colocar minha linguagem nela... Aconteceu assim com todas que eu regravei até agora.
ELENILSON – Gostaria de saber a sua opinião sobre a rejeição acirrada ao Carlinhos Brown que rola atualmente entre os formadores de opinião, principalmente, em São Paulo. S
ó para lembrar que Caetano já passou por isso.
Corisco – Porra véio, eu adoro o Carlinhos Brown! Acho que a única coisa, realmente nova, que aconteceu no cenário musical nos últimos anos foi a Timbalada. Genial! Nã
o tô sabendo dessa rejeição, mas acho que é um momento do artista e deve ser por poucas pessoas formadoras de opinião, pois acredito que a maioria, o adora como eu. É isso...
ELENILSON – As bandas de rock dos anos 80 voltaram a vender bem soltando discos ao vivo. As bandas de axé e pagode – fora esse povo do sertanejo – não param de lançar coisas do tipo. Até o Lobão aderiu ao formato “acústico”. O que você acha desses trabalhos, soa uma jogada de marketing?
Corisco – Acústico! Acho que esse formato de show é apenas uma forma de mostrar as diversidades do artistas, mais intimista, uma for
ma de mostrar que quem sabe faz de várias formas...
ELENILSON – Quais as suas referências musicais?

Corisco – Meu amigo, minhas referências são todos os artistas e grupos musicais pernambucanos dos anos 70 e 80, tais como Banda de Pau e Corda, Lia de Itamaracá (onde me criei), Quinteto Violado, Quinteto Armorial, Alceu Valença, Os Caboclinhos, Maracatus, Cavalos Marinhos, Je
trho Tull, Led Zeplin, Boca Livre, Chico Buarque, Hermeto Pascoal. Existem muito mais, mas agora não me lembro... Tu coloca tudo isso num liquidificador e daí sai o Bando Virado No Móhi de Coentro.
ELENILSON – Fiquei muito aborrecido com a sua participação no programa “Roda Baiana” (Rádio Metrópole - Salvador). Os caras não deixaram você falar absolutamente nada. Aliás, com todo mundo que aparece lá, eles tumultuam e atrapalham. Já sei que você vai dizer que o tempo do programa é curto e etc. Mas eu queria saber o que você acha dessa imprensa baiana “pedante” e que se acha o centro da informação?
Corisco – Imprensa! (risos) Vou começar rindo porque eu tenho uma relação com a imprensa, simplesmente Linda! Não tenho o que falar da imprensa baiana... Eles me dão todo o espaço que preciso, pelo menos até hoje, nunca me destrataram... Falo de coração, até mesmo porque
, pelo trabalho que faço, sou totalmente independente e não tenho rabo preso com ninguém, tenho total liberdade falar o que penso... O que eu digo aqui é a mais pura verdade... Agora quanto a minha participação no “Roda Baiana”, realmente não foi muito bem aproveitada a nossa entrevista, mas acho que o próprio programa tem uma cara, uma característica, que é essa. Só posso pensar isso... Porque nos chamariam se fosse para não deixar-nos falar, propositalmente ? Eu penso muito antes de dizer ou criticar alguma coisa, procuro ser moderado, porque quando tiver de descer a pau, vou fazer com certeza do que estou fazendo... Você entende?
ELENILSON – O Leo Jaime tem uma música chamada “Solange” que ele fez com o Leoni para a chefe da censura do departamento da PF – num tempo q
ue ainda rolava a ditadura e que todas as músicas tinham que ser enviadas para a censura e se fossem proibidas acabariam na mesa dessa funcionária pública, que decidia o que o povo deveria ou não escutar, ler, assistir. Hoje, indiretamente, ainda acontecem essas coisas nas editoras e livrarias. Aí eu me pergunto: “qual a formação dessas pessoas?” Outra coisa curiosa: na gravação original de “Solange” o Leo teve a presença dos Paralamas – um luxo que só naquela época era possível. Então, eu pergunto: porque os escritores, poetas, esse pessoal de cinema não gostam de trocar figurinhas? Garanto que todo mundo iria lucrar.
Corisco – Cara, a formação dessas pessoas, eu acho é calcada
na ignorância que foi pregada nos anos 60, 70 e até no início dos 80. Isso acontece ainda hoje, mas de uma forma ainda pior que é a formação dos pseudo-culturais que estão espalhando uma mistura do lixo cultural com coisas legais que eles pegaram de rebarba... Um perigo para nossa cultura. Quando a não trocar de figurinhas com artistas em geral, eu acho que é também pela falta de conhecimento, pois quanto mais forte e unidos estivermos mais difícil continuar havendo pessoas como a Solange. Quando precisamos criar um movimento em que o maior interesse seja a educação para preservação cultural e que esse movimento só existirá se houver um respeito maior a nossa pluralidade.
ELENILSON – O que é fazer arte num país de analfabetos?

Corisco – Fazer cultura num país de analfabetos... é tentar educar um povo, sendo otimista.
ELENILSON – É tentar educar um povo, sendo otimista. Meu filho, nem vou responder isso. Já desisti e não sei o que você está fumando quando escreve essas coisas. Mas, pensando bem, acho que você deve está curtindo.
Corisco – Você entendeu o que eu quis dizer? Tenho uma res
ponsabilidade social como artista, sou uma pessoa pública e dentro desse caos social em que vivemos, eu me sinto no dever de contribuir da maneira que posso: educando com minha músicas e letras... Sendo otimista, porque sendo pessimista, eu mandaria todos os responsáveis pelo caos estabelecido para a puta que os pariu! Você entendeu? Não estou curtindo quando respondo daquela forma não, falo muito sério... Nosso país precisa de cuidados emergenciais...
ELENILSON – Como você vê o fenômeno que está acontecendo na parada americana: um artista aparece em primeiro lugar e some logo depois, substituído por outro, que logo cai bastante também. P.S. E os "cuidados emergenciais" só por parte dos artistas? Muitos deles não têm comprometimento algum com arte.
Corisco – Olha, quanto ao fenômeno americano, eu não posso falar porque não estou acompanhando o fato.
ELENILSON – Recentemente, Arnaldo Jabor foi criticado e censurado por ter escrito um texto onde dizia isso: "Teremos o "sim" e o "não", teremos a
depressão da razão de um lado e a psicopatia política de outro, teremos a volta da oposição Mundo x Brasil, nacional x internacional e um voluntarismo que legitima o governo de um Lula 2 e um Garotinho depois. Alguns otimistas dizem: "Não... este maremoto de mentiras nos dará uma fome de Verdades". Você acha que ainda temos liberdade de expressão no nosso país? Ou que tudo isso é um bando de mentiras?
Corisco – Liberdade de expressão! Cabra véio, temos sim a liberdade de expressão, mas há um preço a pagar para por isso... Hoje podemos falar
de qualquer assunto em qualquer meio de comunicação e eu percebo até que essa liberdade junto com a ignorância e a falta de preparo do povo tem que ser mais assistida e discutida para que não se confundam os princípios morais que devem ser preservados com preconceitos e tabus que devem ser quebrados. Creio também que temos que ter cuidado com nossa expressão, pois quando criticamos ou opinamos sobre determinado assunto, temos uma responsabilidade natural pelo o que dizemos e isso custa um preço, que é o preço de sustentar o que dizemos com consciência de causa. Agora, também penso que existe muita manipulação da mídia para levar a atenção para onde interessa ao poder público. Esse tipo de manipulação existe e sempre existirá, enquanto não houver mais educação para o desenvolvimento cultural das pessoas e elas passarem a saber a separar o legítimo do falso. As pessoas têm o direito de falar o que quiserem, mas as pessoas inteligentes saberão se há verdades ou mentiras no que é dito e um povo inteligente é “inderrubável”, indestrutível e difícil de enganar.
ELENILSON – Corisco, como você vê o ambiente hoje para a música independente? Como vender forró pé de serra sem perde suas raízes? Hoje vemos muitas bandas de forró trilhando o caminho do "forró eletrônico", qual a sua opinião?
Corisco – Veja bem, a música independente tem ficado cada vez mais forte com a queda das gravadoras. Os artistas estão se mobilizando, defendendo seus projetos e assi
m entrando no mercado como empresários de seus próprios produtos... Eu vejo isso como uma coisa boa, porque fortalece o crescimento do negócio musical.
ELENILSON – Gostaria de saber também sua opinião sobre a infra-instrutora de Salvador para esse tipo de música, pois costumamos a falar que Salvador é uma cidade de verão, que as coisas só prosperam durante o verão e que no inverno, Salvador volta a ser provinciana. Salvador oferece uma boa infra-estrutura para a música, como vocês fazem para tocar nos espaços?
Corisco – Salvador é para mim a “terra das oportunidades”, é assim que eu vejo essa cidade maravilhosa... Essa estrutura na qual você está falando é realmente preparada para o turismo e por isso, somente no verão, ela fica mais forte. Isso faz com que os artistas tenham que procurar “uma lavagem de roupa” em outro canto quando chega o verão. Eu acho isso também legal porque faz com ele circule por outros estados e até países e mostre o que é que a Bahia tem. Acho também que o governo precisa criar mais espaços alternativos para mostrar outros estilos musicais aqui na Bahia. Lá na Europa, principalmente na Itália, a Bahia é muito conhecida e respeitada pelas suas belezas naturais e culturais. Por isso, eu acho que estamos no caminho certo, mas repito, precisamos de mais espaços alternativos. Resumindo: Salvador oferece poucos espaços alternativos e temos que dar “nossos pulos” para tocar quando chega o inverno, mas está no caminho certo, eu acho...
ELENILSON – Você, como artista, acha que os problemas do Brasil, da violência à corrupção, passando pelos desvios éticos e morais, devem ser (praticamente todos) depositados na conta dos pobres, analfabetos ou semi-alfabetizados?
Corisco – Claro que não, pobreza não é sinônimo de ignorância. Falo isso como pessoa e como artista. As coisas que começam certo tendem a dar certo no futuro... Qua
ndo uma criança recebe educação, cresce num ambiente sadio, mesmo sendo pobre, a probabilidade de vir a ser um cidadão de bem é enorme. Você pode ver que pessoas que nascem em berço de ouro muitas vezes são pessoas sem escrúpulos. Eu conheço inúmeras pessoas que nem ler sabe e pode-se dizer que são mestres em conhecimento de vida.
ELENILSON – Se há parlamentar corrupto, o diagnóstico é: são os pobres e o
s não-esclarecidos que o elegem? Como podemos (como cidadãos) esclarecer essas coisas?
Corisco – Não podemos culpar a pobreza e os pobres pela corrupção, mas sim, a ignorância, a falta de princípios básicos, coisas que o cidadão trás de casa. O que falta é o governo dar mais condição para a família se sustentar de forma digna. A valorização do homem, da dignidade, é que está faltando no mundo, coisas que deveriam ser ensinadas no berço. A inversão de valores que se é ensinado hoje para os jovens,
o consumismo desenfreado que a mídia ínsita, isso tudo confunde a cabeça das pessoas mais ignorantes que, infelizmente, são a maioria e é o que faz com que ela vote nesse parlamentar sem dignidade, mas esse parlamentar, também é fruto disso tudo... É um circulo vicioso. Esses são os verdadeiros culpados da corrupção. A SOLUÇÃO É A EDUCAÇÃO!
ELENILSON – Qual a sua expectativa de fazer uma temporada na Europa, Espan
ha e Itália?
Corisco – Eu sempre gosto de minhas passagens pela Europa. Dessa vez, estaremos indo também à França, Suíça, além da Itália e Espanha. O europeu adora nossa cultura e sempre nos recebe com o coração aberto, esperando ver ainda mais, o que levamos de novo.
ELENILSON – As canções do seu disco não foram compostas por acaso, mas em ocasiões esparsas e com finalidades diversas. No entanto, há um
conceito. Você canta questões do presente, com uma urgência de reportagem.
Corisco – Quando componho uma música, procuro levar o nosso dia-a-dia... nosso cotidia
no. São momento que já vivi ou, às vezes, momento que espero viver. Sempre em minhas letras, procuro colocar sentimentos reais do nosso povo nordestino, pois ele consegue conviver com as adversidades com bastante dignidade e transportar toda a sua alegria para a cultura. Uma seriedade cultural, talvez, única no mundo e que fica um tanto esquecida pela nossa mídia. Acredito na força de nossa cultura, mesmo nesse momento que parece está meio que escondida diante de tanto lixo cultural. Nós trabalhamos para a proliferação e a preservação da inteligência cultural.
ELENILSON – E você votou no Lula? O que você está achando do segundo mandato do marmiteiro, digo, do presidente? E sobre o caso Renan?

Corisco – O voto é secreto... (risos).

ELENILSON – Você acha que ainda existe censura no Brasil? Eu tenho certeza!
Corisco – Sim, e há bastante hipocrisia também...
ELENILSON – Vi Gil fazendo um discurso e fiquei admirado com a maneira com que ele falava equilibradamente dos problemas, sem o rompante de um comandante. Transparecia na fala dele a pequenês e a fraqueza que o homem sente quando quer defender causas justas em qualquer tipo de governo. Eu sou fã de Gil como músico e como político, mesmo achando que ele viaja na maionese muitas vezes. Convivi com ele entre 1999 e 2000 e vi que era capaz de decisões, de olho clínico, de saber fazer a volta, contornar, para não fazer enfrentamento fora de hora, para não jogar final nas oitavas de final, deixar o jogo mais duro para depois, que é habilidade do homem que estudou administração de em
presas como ele. Porém, sua turma chegou ao poder, como o próprio Gil e Orlando Senna no Ministério da Cultura. Como você analisa a passagem para o lado de lá?
Corisco – Olha, sou admirador de Gil tanto na música quanto na política e acredito em sua seriedade.


Com Hermeto Pascoal, um dos maiores compositores
da m
úsica instrumental brasileira.
Com Caetano. “Me larga, não enche. Você não entende nada
e eu não vou te fazer entender...”

Com o amigo sanfoneiro Targino Godim. “Por isso eu vou na casa dela. Falar do meu amor pra ela vai. Tá me esperando na janela. Não sei se vou me segurar”.
Com Alceu Valença. “Apenas apanhei, na beira mar. Um táxi pra estação lunar. Apenas apanhei, na beira mar. Um táxi pra estação lunar”.
Com a cantora Simone Moreno. “E a terra tremeu. O céu mudou de cor. O bloco do reggae chegou. Muzenza, Jamaica, Carnaxe, Salvador”.
Com Luiz Caldas. “Eu queria ser uma abelha prá pousar na tua flor. Haja Amor! Haja Amor!”
Com João Bosco. “Vanderley e Odilon são muito unidos e vão pro Maracanã todo domingo criticando o casamento. E o papo mostra que o casamento anda uma bosta...”
Com o cantor e compositor Xangai. “Eu que sou peixe de rio. Signo da sensibilidade. Sou afluente de rio. Flutuando pela cidade do Rio”.
Com Guilherme Arantes. “Águas escuras dos rios que levam a fertilidade ao sertão.
Águas que banham aldeias e matam a sede da população...”
Com a atriz Regina Dourado e o ator Jackson Costa.
Com a cantora Mariene de Castro, Seu Jorge, Peu, Luis Caldas e Carlinhos.
Com Zelito Miranda, Val Macambira, D. Fátima (a primeira dama do Estado da Bahia) e Gereba, no camarote do São João da Bahia 2009.
Também com Jackson Costa. Essa foto ficou massa!

Site: www.moidecoentro.com.br
fotos: arquivo particular de Corisco e montagens c/ raios: Ewerton Thiago


sexta-feira, 24 de julho de 2009

VÍDEO DA VIRADA CULTURAL SOLIDÁRIA

Quem agitou o "Dia Internacional do Rock - Uma homenagem Ao Avyador do Rock Luiz Ribeiro", nos dias 12 e 13 julho, até a madrugada, foi o poeta e agitador cultura Artur Gomes. Além de poeta, o cara é ator e artista gráfico, acumula uma bagagem de 23 anos de carreira com prêmios nacionais e internacionais em teatro, música, literatura e artes gráficas. Seu livro "Couro Cru & Carne Viva" já foi premiado no Concurso Internacional de Poesia da Universidade de Laval-Quebec, Canadá, em 1987. Poemas do seu "Suor & Cio" são partes dos objetos de estudo para tese de doutorado em antropologia do historiador Jorge Santiago, em Paris. Alám de tudo isso, Artur também faz parte dos "Poemas de Mil Compassos" da Coleção Literatura Clandestina/2009. Confira abaixo o vídeo da Virada Cultura, em SP.

quinta-feira, 23 de julho de 2009

A CATÁSTROFE DOS CURSOS DE LETRAS

“Só na faculdade é que a maioria deles vai ler, pela primeira vez na vida, um romance inteiro ou um texto teórico. Vêm, quase todos, do ensino público, essa tragédia ecológica brasileira muito pior que as queimadas na Amazônia.”
Por Marcos Bagno*
A formação dos professores de português, hoje, no Brasil, é uma catástrofe. Nós, os responsáveis pelos cursos de Letras, não enxergamos a bomba-relógio que temos nas mãos. As estatísticas não mentem: a retumbante maioria dos estudantes de Letras vêm de camadas sociais pobres ou mesmo miseráveis, filhos de pais analfabetos ou que têm escolarização inferior a quatro anos.
Isso significa muita coisa. Significa que esses estudantes têm um histórico de letramento muito reduzido: no ambiente familiar, não convivem com a cultura letrada, não têm acesso a livros, revistas, enciclopédias etc. Significa que não são falantes das normas urbanas de prestígio (as mesmas que supostamente terão de ensinar a seus futuros alunos) e têm domínio escasso da leitura e da escrita.
Só na faculdade é que a maioria deles vai ler, pela primeira vez na vida, um romance inteiro ou um texto teórico. Vêm, quase todos, do ensino público, essa tragédia ecológica brasileira muito pior que as queimadas na Amazônia. Nós, porém, fingimos que eles são ótimos leitores e redatores, e despejamos sobre eles, logo no primeiro semestre, teorias sofisticadas, que exigem alto poder de abstração e familiaridade com a reflexão filosófica, e textos de literatura clássica, escritos numa língua que para eles é quase estrangeira. E assim vamos nos iludindo e iludindo os estudantes.
O resultado é que os estudantes de Letras saem diplomados sem saber linguística, sem saber teoria e crítica literária e sem saber escrever um texto acadêmico com pé e cabeça. Todos os dias, recebo mensagens de formandos que me pedem orientação para seus trabalhos finais. Alguns até me enviam seus projetos. São textos repletos de erros primários de ortografia, pontuação, sintaxe, vocabulário, com frases truncadas e sem sentido. Assim eles chegam ao final do curso, e suas monografias, mal escritas, sem nenhum rigor teórico ou metodológico, são aprovadas alegre e irresponsavelmente por seus supostos orientadores.
O problema, é claro, não está no fato (que merece comemoração) de acolhermos na universidade alunos vindos das camadas mais desfavorecidas da população. O problema é não oferecermos a eles condições de, primeiro, se familiarizar com o mundo acadêmico, que lhes é totalmente estranho, por meio de cursos intensivos (e exclusivos) de leitura e produção de textos, de muita leitura e muita produção de textos, para só depois desses (no mínimo) dois anos de preparação eles poderem começar a adentrar o terreno das teorias, das reflexões filosóficas, da alta literatura.
Se não fizermos isso urgentemente (anteontem!), as salas de aula do ensino básico estarão ocupadas por professores que, mal sabendo ler e escrever adequadamente, não poderão desempenhar sua principal tarefa: ensinar a ler e a escrever adequadamente! Não sei, aliás, por que escrevi "estarão ocupadas": elas já estão ocupadas, neste momento, por essas pessoas, de quem se cobra tanto e a quem não se oferece uma formação docente que também seja, minimamente, decente.
*Esse artigo do maravilhoso Marcos Bagno foi publicado na revista Caros Amigos, em novembro de 2008.

quarta-feira, 22 de julho de 2009

ENTREVISTA COM O POETA ALFREDO DE MORAIS

“A arte é um dom do ser humano e é o que nos diferencia dos animais. O transformar em arte é próprio do homem e tal ato cala em sua alma.” (A. M.)
Continuando a série de entrevistas para a LITERATURA CLANDESTINA com os participantes da antologia “Poemas de Mil Compassos" da Coleção LC/2009, e querendo incentivar a troca de informações e experiências entre os autores, dessa vez, o poeta IkaRo MaxX, de João Pessoa – PB, que começou escrevendo poemas em guardanapos e em contas de bar, mas que já tem poesias publicadas, entrevista o poeta Alfredo de Morais, de Feira de Santana-BA, que além de poeta, psicólogo, sargento da Polícia Militar do Estado da Bahia, ator, escritor, dramaturgo e artista plástico, hoje atua nas áreas de projetos e melhoramento da Policia Militar e na área de educação no projeto do PEAS (Programa de Educação Afetivo Sexual) da Arcellor Mital, capacitando professores da rede publica, sendo também professor de vários cursos em faculdades e universidades da cidade de Feira de Santana.
IkaRo MaxX – Em primeiro lugar, gostaria de agradecer ao Elenilson Nascimento por essa ideia maravilhosa de intercâmbio e conhecimento entre os poetas e contribuidores literários da nova antologia da Literatura Clandestina. É uma oportunidade autêntica para que os autores possam descobrir quais são as outras palpitações, idiossincrasias, vozes, tonalidades por detrás das letras impressas no livro. Muitas vezes as coisas ou os movimentos não dão certo por falta justamente de um espaço onde a polifonia ou as dissonâncias possam acrescer a música que se propõe a mobilizar, a desviar a vida comum dos seus fulcros, descarrilar o trem dos trilhos... Bem, Alfredo, o que mais me chamou a atenção em relação ao que foi escrito pelo Elenilson na chamada do tópico foi que você é sargento da PM. Como você consegue casar, conciliar ou sobreviver aos diferentes ímpetos da sensibilidade do seu lado poeta com as exigências do seu trabalho enquanto policial?
Alfredo de Morais – Bem Ikaro, existe um estereótipo criado do policial militar, o ser truculento e que, em sua mente, apenas reside a vontade animal de prender, bater e matar. Hoje, a PM da Bahia tem um universo diverso. Para lhe dar um exemplo claro, fui professor do curso de formação de soldados, e dentre os 147 alunos que tive, 90% deles tinham formação superior. É a crise remodelando o SER POLICIAL. No meu caso, fui criado em um universo de artes, meu avô paterno, Ricardo Laranjeiras, um bom pernambucano, foi quem trouxe o repente para a Bahia, meu avôs maternos estavam ligados à música, ele tocava flauta transversal e ela bandolim. Tios e tias sempre ligados a arte, sendo um deles Juarez, um poeta e artista plástico sem igual. A polícia não tirou a minha essência, para mim ela é um meio a poetizar. Tanto é que trabalho em melhoramento e valorização de pessoal. Meu mundo interno não parou, ele pulsa em um ritmo frenético, na busca holística do bom e na visualização de um futuro com infinitas possibilidades. A profissão é um meio, não um fim.
IkaRo MaxX – Adentrando um pouco na pergunta anterior, gostaria que você nos revelasse o quê ou o quanto de sua vida cotidiana na policial frequenta ou penetra o seu lado mais lírico. As suas preocupações corriqueiras divergem ou acompanham a sua estilização poética? Diante disso, você consegue reconhecer nas suas ações algo que lhe leve ao instante poético, à catarse propriamente dita?
Alfredo de Morais – Ikaro, o verdadeiro poeta, acho eu, visualiza poesia e o lírico por onde vive, por onde anda, por onde sonha. Tudo para o artista é objeto de sua arte. A arte é um dom do ser humano e é o que nos diferencia dos animais. O transformar em arte é próprio do homem e tal ato cala em sua alma. Não deixo de ver poesia no caos, na falta, na fome, no sexo, na morte. Se assim fosse, não teríamos obras maravilhosas advindas do caos, do sofrimento ou da loucura. Basta ouvir as palavras de Machado de Assim, Mario Quintana, Augusto dos Anjos, Elenilson Nascimento e Ikaro MaxX. É a palavra sangrando através da escrita.
IkaRo MaxX – O que impulsionou você para a poesia? Isso aconteceu antes ou depois de você ter entrado na polícia? E diante disso, como um bom escritor sempre é antes de tudo um bom leitor, você poderia falar mais sobre suas motivações propriamente literárias, os seus espelhos, ou os livros que fizeram ou incendiaram a sua alma e o conduziram para o fazer poético?
Alfredo de Morais – A poesia nasceu comigo, não existe antes ou depois da polícia, pois não existe antes e depois quando se escreve. É algo mágico, atemporal. Você não sabe bem porque e quando começou, só sabe que começou, e tal fato não importa se há riqueza literária no que você escreveu, apenas a pulsão chegou e a pena não parou calada no papel. É um susto para muitas pessoas pensar em um policial ligado às letras, mas pasme, existem muitos e melhores do que eu. Como diz Elenilson, são os poetas e artistas calados pelas massas economicistas que não se importam com aqueles que ainda não tiveram vez e voz. Quando se enxerga além da farda, além da profissão, se vê apenas o homem e é esse quem existe. Não existe um alguém antes e depois de uma profissão, existem práticas e ações que mudam, seja ele um médico, psicólogo, escritor, policial, etc. Sou apaixonado pelas letras, leio tudo o que vem a minha mão. Leio muito Mario Quintana, sou apaixonado por ele, por Drummond, Milan Kundera, Machado de Assis, Jorge Amado e Elenilson Nascimento. Não posso dizer que tenho um eixo de inspiração, minha inspiração é o nascer, mas admiro a forma contundente de escrita de Mario Quintana, gosto da simplicidade dele. Indo um pouco longe, Florbela Espanca, faz sangrar meu coração todas as vezes que leio suas obras.
IkaRo MaxX – Qual era a base de construção (programa) que você utilizou para o curso de formação de policiais? Deve ser bastante interessante a visão humana que deve estar sendo discutida atualmente nestes cursos...
Alfredo de Morais – Ikaro, utilizei a linha humanista do Carl Rogers como princípio básico da minha abordagem em Relações Interpessoais, que foi a matéria que ministrei no curso de formação. Minha grata surpresa foi ver alunos, que conheciam vários teóricos da aprendizagem como Piaget, Vygotsky, Wallon, Freud, Nietzsche, entre outros. Entrar em uma turma de novos soldados com uma cultura como essa é passear pelos jardins do paraíso. Então, foi um aprendizado mútuo, onde pude acrescer essa experiência ao meu compêndio.
IkaRo MaxX – Dentro disso, quais são os temas que mais te tocaram nesse cotidiano? Quais os temas mais gritantes e recorrentes que sua escrita acaba iluminando de alguma maneira? Você acredita que o fato de estar tratando-as na literatura pode renovar sua relação com esse assombro que é a realidade vivida?
Alfredo de Morais – Sempre discuto com meu dileto amigo Elenilson sobre as infinitas possibilidades da vida. O que cala em meu peito é a dor da animosidade diante dos fatos que a realidade nos impõe. Fiz uma poesia onde uma das estrofes eu questionava para que ela me servia, e do que me servia a dor de ser poeta, este que considero, como outros artistas, uma antena do universo. Porém, sem sombra de dúvidas, o grito das letras é sobremaneira libertador, não só para aquele que escreve, às vezes, muito mais para aquele que lê e se sente sem a clareza do urro onde poderia demonstrar sua indignação. Recorrer às artes, às letras, não é se agarrar a um bote salva-vidas, é construir um destróier, com vários lançadores de migs, e todos os efes das forças aéreas mundiais, na guerra contra a ignorância, intolerância e todas as ânsias intestinais dos seres.
IkaRo MaxX – Que maravilha! Interessante isso. Mas vamos lá. O que você acha que o país pode fazer por nós, escritores ilhados, nessa árdua e diletante paralisia cotidiana? Existe salvação para a literatura no Brasil? Ou os escritores (e artistas em geral) ainda terão que viver como cães para depois de mortos serem saqueados pelas universidades, academias, editores sagazes e demais instituições fúnebres?
Alfredo de Morais – Sabe, a minha resposta é mais uma pergunta: o que nós escritores poderemos fazer pelo nosso país? É tudo muito complicado neste país quando se fala de arte e cultura. Os caminhos são traçados por alguns intelectuais, ou ditos intelectuais da mídia, e são esses que dão o norte para os artistas de subúrbio. É como se já existisse uma definição dos eleitos, o restante são ilustres desconhecidos que serão prováveis interlocutores de livros espíritas. Acho que nos resta lutar para que essa ciranda possa abrigar os muitos talentos que existem em nosso Brasil.
IkaRo MaxX – Que alternativas serão possíveis para aqueles que mesmo não sabendo transpor as maravilhas e êxtases das suas visões e que são incapazes de sujar as suas próprias mãos como mantenedores de uma hipocrisia social em larga escala? Digo, conheço pessoas de todos os tipos... incluindo os que poderíamos chamar de bizarros (eu incluso) que gostariam de honestamente sobreviver e, no entanto, sua (nossa) linguagem ultrapassa os limites do suportável...
Alfredo de Morais – Sabe amigo, temos um papel social importante, somos os sobreviventes desta hipocrisia diária. Acho que os que sonham, os que vivem na ludicidade da esperança, são os mantenedores do equilíbrio filosófico deste status que a vida impõe. Acho que o respeito à diversidade é o princípio para o bom andamento de uma sociedade que diz ser democrática e evoluída. O importante é ser o que somos, sem que haja um desrespeito pelo o outro. Creio que os princípios que regem esse preceito é que fará que nossos pensamentos fluam e contaminem outros, que como nós, querem um mundo habitável.

Alfredo de Morais, em frente ao pavilhão de homenagem aos Muertos de La Revolucion, Cuba.

IkaRo MaxX – Puxando para o lado da (r)evolução técnico-informática atual, sabemos que o Brasil ainda é um país com uma grande porcentagem ainda analfabeta ou mal alfabetizada. Com o desenvolvimento paulatino dessas novas tecnologias e mídias como a Internet, por exemplo, você acha que essa possibilidade – já que se fala de alfabetização digital – é uma via para uma possível tomada de consciência da população ou mais um véu descarado que oculta uma alienação triunfante? Como se pode falar em alfabetização digital imediata se o passo fundamental da leitura básica é ainda bastante precária e ausente?
Alfredo de Morais – Olha amigo, creio que ainda é uma forma de alienação das massas, pois ainda pela égide de tirar o povo do analfabetismo digital, alguns centros de informática para população carente estão, na verdade, se transformando numa lan house gratuíta onde os adolescentes vão para acessar Orkut e MSN, uma pena. Acho que a fomentação de uma rede no tocante ao fortalecimento do ensino fundamental com uma contrapartida governamental para o acompanhamento sério desses estudantes em jornadas pedagógicas é que daria um grande resultado na educação desse país. O pensamento político de jogar os estudantes em programas de aceleração e tantos outros, que emburrece ainda mais os jovens carentes, cria uma legião de teleguiados com um futuro incerto. Me revolta ver que o ensino do país está sucateado. Aqui na Bahia as escolas públicas estão entregues, e olhe que não estou nem falando das universidades, estou falando do básico. Não se constrói uma nação do futuro, uma nação tecnológica sem uma educação na base. Não se ensina a criança a correr no estágio de primeira infância, ensina-se primeiro a engatinhar, andar e depois ter segurança para correr. Tais planos governamentais estão pulando os estágios criativos dessas crianças e deixando a educação completamente capenga. Creio que o governo e alguns partidários da educação no país, precisam rever teóricos como Piaget, Vigotsky e Wallon, talvez voltando à cadeira de universidades sérias esses educadores possam visualizar o drama da educação. Logo não se pode falar em futuro tecnológico com o maniqueísmo desses que não se importam com o que está acontecendo no ensino público do Brasil.
IkaRo MaxX – E nós escritores, o que você acha que a ferramenta da comunicação digital trouxe como benefícios ou atrasos – ou desvios – para o desenvolvimento do trabalho do escritor, do poeta, do filósofo, etc?
Alfredo de Morais – No nosso caso, em particular, o mundo digital nos deu um presente magnífico. Os blogs, Orkuts, Twiters e tantos outros, fizeram com que nossa arte tivesse uma retomada ao grande público. Ficou mais fácil disseminar a arte neste universo. Há que se preparar para essa nova era, essa de infinitas possibilidades, onde estranhos se tornam amigos imediatos, através desta onda que é a Internet, e muitos livros são montados com pessoas distintas, de vários territórios e que este se torna concreto, fora do virtual, apenas através de contatos. Veja nosso exemplo, somos os desbravadores da arte no mundo virtual. Talvez, quem sabe, estamos chegando as "Índias" através do nosso timoneiro Elenilson Nascimento. O que clamo é que este local seja o de cultura, de paz e de progresso da humanidade.

IkaRo “Sin City” MaxX , na versão “A Balada do Pistoleiro”, que o próprio Frank Miller deveria ter contratado.
Blog do IkaRo MaxX: www.dionisioempedacos.blogspot.com
fotos: divulgação

TRIBUTO A SEPTIMUS

“Escritor conta que, depois do livro publicado, percebeu que teria que continuar escrevendo. Mas não achou que conseguiria escrever outro livro tão bom.”
Em Barranquilha, colombianos contam histórias deliciosas sobre o amigo mais famoso: Gabriel García Márquez. As ruas de casas baixas alcançam a orla do Rio Magdalena, que um pouco adiante, deságua no Atlântico. Barranquilha, a capital do Caribe colombiano, uma cidade que existe há quase 500 anos, mas não foi fundada por ninguém. Seus personagens e histórias estão nessas ruas. É andar para ver.
Veja, a seguir, comentários de Márquez sobre o clássico "Cem Anos de Solidão". Os depoimentos, em espanhol, foram dados ao Museu de Barranquilha, no Caribe colombiano. Ele fala sobre a influência de Kafka e conta que, depois do livro publicado, percebeu que teria que continuar escrevendo. Mas não achou que conseguiria escrever outro livro tão bom.

Em março último, a agente literária de Gabriel García Márquez anunciou que o autor deve parar de escrever. O escritor de “Cem Anos de Solidão” e “O Amor nos Tempos do Cólera” sofre de câncer linfático.
fonte: G1

segunda-feira, 20 de julho de 2009

MAURÍCIO ZERK - POESIAS RECITADAS

CD promo de Maurício Zerk - "Poesias Recitadas" (2009).
Donwload aqui:
Bônus Track:
>>> Remate - Lúcia Gonczy <<<
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