terça-feira, 30 de junho de 2009

ENTREVISTA COM O POETA PORTUGUÊS GASPAR SILVA

“De perfil fico aprumado, demasiado alinhado, feito múmia paralítica. Prefiro ser visto de frente, dar a cara galhardamente e enfrentar o que isso implica” (G.S.)
Alfredo de Morais, de Feira de Santana-BA, que além de poeta, psicólogo, sargento da Polícia Militar do Estado da Bahia, ator, escritor, dramaturgo e artista plástico, hoje atua nas áreas de projetos e melhoramento da Policia Militar e na área de educação no projeto do PEAS (*Programa de Educação Afetivo Sexual) da Arcellor Mital, capacitando professores da rede pública, sendo também professor de vários cursos em faculdades e universidades da cidade de Feira de Santana, entrevista o poeta, pintor, músico e compositor português Gaspar Silva. Gaspar nasceu na cidade do Porto – Portugal, tem vários prêmios em festivais da canção, colaboração em várias peças de teatro na qualidade de autor musical e também é empresário ligado à indústria hoteleira. Tanto Morais quanto Silva fazem parte da antologia “Poemas de Mil Compassos” (no prelo) da Coleção Literatura Clandestina/2009.
Alfredo de Morais – Gaspar é um prazer fazer uma entrevista com um artista tão completo como você. Considero o artista uma antena para o mundo, como se este fosse a parabólica dos sentidos, aquele que capta as respostas das perguntas não feitas. A partir do princípio que cada um tem sua dor e sente o mundo de uma forma própria, como você considera sua arte e qual sua fonte dentro deste universo artístico?
Gaspar Silva – O prazer é todo meu, caro Alfredo de Morais. Desde criança que me inte
resso muito pelas artes. Sou um autodidata nato e com exceção da música que sempre levei muito a sério, todas as outras vertentes ocorrem por impulsos, isto é, umas vezes pinto durante algum tempo, outras escrevo, depois componho, mas o que faço com uma certa regularidade é música. Ultimamente tenho escrito algumas peças para guitarra (vocês chamam de violão), e esta forma saltitante de produzir talvez tenha a ver com o fato de eu ser um tanto ao quanto inconstante e viver em busca de novos desafios, inspirado sempre no quotidiano e nas coisas que vão acontecendo à minha volta.
Alfredo de Morais – A Europa é o berço de diversas formas de arte, mas, sem dúvida, muitos artistas atuais vem beber nas fontes doces do Brasil. Você já foi ou é influenciado por algum músico brasileiro? Qual o estilo de música que você gosta de trabalhar?
Gaspar Silva – As minhas influências vão desde a música anglo-saxônica, passando pelo jazz, blues, bossa nova, etc, mas tenho uma admiração muito especial por Chico Buarque, Tom Jobim e Ivan Lins.
No caso do Chico, acho que é mesmo adoração, esse aí é para mim, no que diz respeito à música popular, o maior compositor vivo do mundo. O ano passado assisti emocionado a um show dele aqui no Porto, foi simplesmente inesquecível, o homem é um gênio. Quanto ao estilo de música que mais gosto de trabalhar, aí torna-se complicado, porque estou habituado a fazer de tudo um pouco, nestes últimos tempos estou muito virado para os instrumentais.
“Peguei em alguns poemas, letras de músicas minhas e alguns textos que tenho feito ao longo dos tempos e resolvi imprimi-los e fazer um livro completamente artesanal. Deu-me um gozo incrível passar as sucessivas etapas da encadernação. Estou muito contente por ter conseguido. Aí está a foto de um exemplar único.”
Alfredo de Morais – Em 23 e 24 de junho se comemora o São João do Porto onde, não por acaso, coincide com a festa junina daqui. Neste evento podemos destacar as sardinhadas, os manjericos com as respectivas quadras sanjoaninas, o alho-porro, as marteladas e os bailaricos de freguesia Na nossa festa se destacam as canjicas, os quentões, as quadrilhas de São João e o forró. Como você definiria essa ligação cultural entre Brasil e Portugal? E qual o impacto em suas obras desta proximidade?
Gaspar Silva – A noite de São João é a mais tradicional festa da cidade do Porto. Novos e velhos saem para a rua e concentram-se essencialmente nas margens do Rio Douro junto à Ponte D. Luís. A partir das 21 horas começa a engrossar aquele mar de gente que entre as marteladas, sardinhas, bifanas e muita cerveja, vão ganhando posição para o espetáculo da noite, os fogos de artifício, que é um dos melhores do mundo e chega há durar quarenta minutos. Mas não é só aí que se festeja, acontecem bailaricos e petiscadas por tudo quanto é bairro nas redondezas. Tanto quanto sei, foram os portugueses que introduziram no Nordeste do Brasil as festas juninas, embora se festejem também em vários outros países na Europa. A não ser o fato de ter tocado durante muitos anos nas noitadas de São João nunca tive nada a ver, em termos criativos, com esses festejos, tive sim, com a composição de várias marchas para os desfiles que acontecem normalmente uma semana antes, onde cada freguesia do conselho se faz representar por uma rusga, com enfeites, carros alegóricos, bailarinos e uma banda musical. Percorrem várias artérias da cidade, pejadas de gente a assistir e terminam num local onde se apresentam perante um júri que depois de avaliá-las divulga as primeiras três do ano.
Alfredo de Morais – Em 2001 o Porto foi a capital européia da Cultura, de lá pra cá, o que mudou no panorama das artes na sua cidade?
Gaspar Silva – 2001 foi um ano muito rico em termos culturais. Da música e dança. Ao teatro, às artes plásticas, arquitetura e literatura, etc. Tudo aconteceu num ritmo verdadeiramente alucinante e com propostas de altíssima qualidade. Foram criadas imensas estruturas para o evento que, entretanto, criaram raízes e hoje são de uma grande importância para a cultura da cidade. A mais relevante no meu entender foi à concretização da Casa da Música. Ícone importante do Porto e região norte que embora não tenha sido concluída naquele ano conforme o projetado, mas demorou ainda mais quatro anos, mas é sem dúvida de extrema importância para a cultura desta zona.
Alfredo de Morais – Tripas à moda do Porto ou bacalhau à Gomes de Sá?
Gaspar Silva – São dois pratos muito apreciados pelos portugueses, prefiro as tripas à moda do Porto.
Alfredo de Morais – Você é hoteleiro em uma das cidades mais visitadas da Europa, como conciliar essas duas paixões, ou melhor, as suas várias paixões, artes e negócios?
Gaspar Silva – É uma questão de organização. Há um tempo para tudo e como quem corre por gosto não cansa, lá vou conseguindo o tempo necessário para darem largas (*asas) à imaginação.


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Poemas do Gaspar recitados por Zélia Santos
Blogs do Gaspar: http://becodasartes.blogspot.com/
http://opaisdatanga.blogspot.com/
http://gasparsilva.blogspot.com/

fonte do painel a óleo e “Descanso"
(acrílico sobre tela prensada): Gaspar Silva

domingo, 28 de junho de 2009

FRED ASTAIRE DANÇA MICHAEL JACKSON

Um fã fez uma edição bem bacana do filme "A Roda da Fortuna" (1953) com o Fred Astaire e com a trilha de "Smooth Criminal" (1988), de Michael Jackson. “A Roda da Fortuna”, do diretor Vincente Minnelli, serviria muito bem para ilustrar o gênero “musical” dentro da chamada “Era de Ouro” de Hollywood. O filme tem as características do que era o “cinemão” americano daquela época. Por “cinemão”, entende-se filme popular, ordinário e não especialmente bom. Longe de ser uma obra-prima, funciona hoje, mais de cinquenta anos depois, como um musical bonitinho e agradável, curioso por ter alguns nomes que marcaram a história do cinema, sobretudo o de Astaire, aqui não especialmente em grande atuação – mas quando canta e dança (principalmente), ainda vale ouro. Desvencilhando-nos do ar gracioso e triunfante que a "Era de Ouro" ainda nos proporciona, e fazendo uma dupla homenagem a Astaire/Jackson, um amigo meu e fã de carteirinha do MJ fez essa edição da música "Smooth Criminal", uma das melhores músicas do rei do pop e tema do seu filme “Moonwalker”. Imperdível.
foto: divulgação
vídeo: Abeja Mariposa Jr.

sexta-feira, 26 de junho de 2009

NOSSOS ÍDOLOS AINDA SÃO OS MESMOS, MAS AGORA MORTOS!

“O que poderemos encontrar no futuro próximo, onde o ilusório é o mote para emoções passageiras dos adolescentes? Quais são os exemplos heróicos que nossos "ídolos" deixam ao morrer?”
Por Alfredo de Morais*
Elisabeth Kübler Ross, em seu livro “Sobre a Morte e o Morrer”, mostra o quanto não estamos preparados para o fenômeno que, por mais que temido, é comum a todos nós, mas é algo que temos medo de vivenciar e até mesmo de falar sobre ele. Quando um mito morre, morre junto com esse também as expectativas do improvável. Visualizamos nele a impossibilidade deste toque de morte, pois ele é um ser, para todos os fãs e admiradores, inatingível. Ontem, 25/06, morreram dois desses mitos, uma pantera e um ser mágico.
Farrah Fawcett marcou uma época com sua beleza americana, sendo essa uma das “Charle's Angels”. Fawcett deixou a série após uma temporada, quando começou a trabalhar no cinema. Porém, aos 62 anos, foi morta por um felino ainda maior que sua fama, o câncer. A atriz foi diagnosticada com câncer retal há dois anos e meio. A doença teria se espalhado e atingido o fígado. Nos últimos momentos, a atriz passava os dias "deitada na cama", segundo o ator Ryan O'Neal (*do filme “Love Story”), 68, que foi casado com ela por 17 anos.
Nesta última quarta-feira, Fawcett havia sido encaminhada a uma UTI devido à piora no seu quadro clínico, de acordo com o site do jornal americano Extra. Considerada uma das mulheres mais atraentes de Hollywood nos anos 70, Fawcett concordou recentemente em se casar com O'Neal, seu parceiro desde os anos 80. O ator, de 68 anos, revelou (emocionado) que ela era e sempre foi o amor de sua vida e, por isso, pediu sua mão em casamento. Os dois já foram casados em 1979, mas o casamento terminou nos anos 90.
No entanto, eles se reencontraram em um dos momentos mais difíceis na vida da atriz e, segundo confessou O'Neal, depois de várias tentativas, sua companheira de toda a vida finalmente disse o "sim". Fawcett perdeu o cabelo, estava muito debilitada e só recebia a visita de algumas amigas íntimas, como Jaclyn Smith e Kate Jackson, que foram suas companheiras na popular série de televisão "As Panteras".
Michael Jackson, com sua mágica e suas esquisitices, fez com que muitos viajassem em seus passos da Lua e na sua busca pela eterna juventude. Michael era a personificação do Peter Pan, e junto com ele vivemos em sua Terra do Nunca.
Cazuza
já dizia em uma de suas letras que “nossos heróis morreram de over dose...” Mas os meus heróis realmente morreram de overdose, com essa máxima. Cazuza definiu o flagelo que tem se tornado o mundo das artes pop no mundo. Que referência temos hoje para os nossos jovens. Hoje dia 26 de junho, dia mundial de luta contra as drogas, encontramos no noticiário mundial o fenômeno pop com suspeita de morte por uso indiscriminado de Demerol, um remédio usado para dor, ao qual Michael era viciado. O que poderemos encontrar no futuro próximo, onde o ilusório é o mote para emoções passageiras dos adolescentes? Quais são os exemplos heróicos que nossos "ídolos" deixam ao morrer?
Michael seria o Elvis de nossa época? Mais um rei morto pela vaidade e pelo sonho psicodélico da fama e imortalidade? Não são só perguntas, e sim as constatações de uma realidade de uma geração sem vetores positivos, de jovens sem rumo, sem cultura, sem educação e provavelmente sem futuro.
Vivi a Era Michael, e a Era das Panteras, onde inocentemente tentávamos imaginar o rosto de Charlie ou imitar "Moonwalk", o famoso passo de dança de Michael Jackson em que este desliza para traz dando a impressão de que estava andando para frente. O passo foi batizado com esse nome porque dava a impressão que não tinha gravidade para quem observava, como se estivesse flutuando, por isso “Caminhando na Lua”. E como tentávamos.
Há época em que o “Thriller” nos fazia dançar, encantados como zumbis, numa imitação daquele Peter Pan que todos desejaríamos ser. Um menino que aos cinco anos já era famoso, e que todos os pobres e negros de todo mundo se espelhavam na completude do "sonho americano" e dizíamos: "Ele conseguiu, chegou lá, eu também posso", porém nos satisfazíamos em olhar o menino crescer e virar rei.
Já a pantera também desaparecera, e em última aparição em cadeiras de rodas, demonstrou que um ídolo tem tempo útil como todos os mortais. "Eu pedi para que não me fotografassem na cadeira de rodas. Fiquei chateada...", desabafou a atriz em uma mensagem publicada na Internet. "O estresse é o principal causador do câncer e os paparazzi são os principais causadores do estresse. Essa situação tem que mudar”, acusou Farrah ao ser flagrada como uma humana comum e doente. E o rei do pop, com o tempo passou de ídolo a aberração, porém seus súditos ainda esperavam com esperança a volta daquele astro, do cometa Jackson... E daí veio a morte e com ela a certeza do falível, do inevitável e de mais um que vai deixando exemplos dúbios para uma geração sem verdadeiros heróis.

Alfredo de Morais é poeta e também vai participar da antologia “Poemas de Mil Compassos” da Coleção Literatura Clandestina.

Acabei de achar esse vídeo no blog do Hanka & Haton, que me soa como uma despedida, mas é lindo. Espero que gostem.

>>> CLIQUE AQUI e confira uma retrospectiva da carreira de Michael Jackson.
>>> Ou
AQUI e baixe o disco “Michael Jackson In Bossa”.
>>> E
AQUI e relembre momentos da carreira de Farrah Fawcett.
fotos: divulgação

quinta-feira, 25 de junho de 2009

MOVIMENTO A FAVOR DOS JORNALISTAS SEM DIPLOMA

“O curso de Jornalismo não tem a objetividade de formar argumentadores e não passa de um curso elitizado e medíocre nas muitas faculdades de quitadas espalhadas pelo país.”
Por Elenilson Nascimento
Uma liminar do ministro do STF (Supremo Tribunal Federal) Gilmar Mendes – aquele mesmo do barraco com o Joaquim Barbosa em abril – CLIQUE AQUI – suspendeu a exigência do diploma de curso superior de Jornalismo para exercer a profissão. Na primeira vez que o STF tratou da questão do Jornalismo este ano, na sessão de 1º de abril, quando votou pelo fim da Lei de Imprensa (*que era de 1967), comentei num texto em um jornal de MG e fui muito criticado pelos enfurecidos colegas jornalistas de todo o país. Ao invés de iniciar um debate sadio para formar um painel abrangente sobre a questão, o texto serviu para jogar mais lenha na fogueira das vaidades sobre a questão do diploma. O que poucos jornalistas fervorosos sabem é que a decisão de regulamentar o exercício da profissão de jornalista através da obrigatoriedade do diploma foi tomada na ditadura militar. O Ato Institucional nº 5, como forma de controlar a informação e impedir o acesso de críticos do período da boçalidade militar aos veículos de comunicação, serviu (e ainda continua servindo) para doutrinar e mediocrizar as informações. Uma das grandes preocupações dos ditadores e seus sicários era a presença de escritores, pensadores, lideranças políticas, trabalhadores, enfim, daqueles que não pudessem ser controlados ou regidos pelos patrões, então donos da ditadura.
Patrocinadores da ditadura do caos no Brasil transformou o ato de pensar, em termos jornalísticos, seja no buscar a notícia, no avaliar o fato, no interpretar, em uma questão meramente técnica. Em consequência disso, hoje em dia, muitos jornalistas não se dão nem ao trabalho de averiguar as notícias, não passam de meros copiadores de notas na internet. O curso de Jornalismo não tem a objetividade de formar argumentadores e não passa de um curso elitizado e medíocre nas muitas faculdades de quitadas espalhadas pelo país.
Todos os cursos de comunicação foram sucateados na maioria das universidades públicas e na invasão desenfreada de faculdades privadas. Hoje o jornalista é limitadamente técnico, até na formação. Especialista medíocre. Aquele que tem o dever de saber um pouco de tudo, de indignar-se, de refletir a liberdade, é factótum do dono. Mas isso é o padrão imposto pela mídia – e pelos donos de faculdades com suas propagadas super elaboradas nas tevês – como fator de dominação e alienação. Tem jornalista especializado em analisar bundas, outros em falar dos castelos de Caras, outros em transformar porcaria em produtos largamente consumidos e por aí afora. O sonho de muitos estudantes de Jornalismo é se tornar um comentarista de celebridades, mas na mais remota situação conseguir um emprego de atendente de telemarketing.
Jornalista, só com diploma? CLIQUE AQUI e leia os argumentos limitados de alguns. A tese pode até ter sido sustentada pela apelação, da inconstitucionalidade da exigência de formação superior específica e do registro no Ministério do Trabalho, como evidenciado na decisão do Tribunal Regional Federal de São Paulo e também como gritam os jornalistas mais enfurecidos (*principalmente na Rede Globo), mas contraria em parte o conteúdo manifestado na Constituição de 1988, que afirma que "é livre o exercício de qualquer trabalho, ofício ou profissão, desde que atendidas as qualificações profissionais que a lei estabelecer". Porém, o que vemos na prática com a péssima formação que a maioria recebe é um bando de parasitas digitadores das ideias alheias.
Ora, como atividade especializada cujo exercício pressupõe o domínio de conhecimentos conceituais e técnicos, o Jornalismo constitui-se como profissão regulamentada e está formalmente integrado ao sistema de ensino universitário há mais de 60 anos, porém, exatamente como professores de matemática que estão em salas de aulas ensinando português, jornalistas deveriam ter uma formação muito mais ampla do que as leituras de xérox e apresentações seminários sobre assuntos que não dominam orquestradas por professores doutorados, mas que não se dão nem ao trabalho de produzir uma aula de verdade nas suas próprias matérias.
"Um número elevado de pessoas, que estavam a exercer (e ainda exercem) a atividade jornalística (...) agora se acham tolhidas em seus direitos, impossibilitadas de exercer suas atividades", disse o procurador-geral, referindo-se aos que obtiveram registro na vigência da decisão da 16ª Vara. O ministro Mendes concordou e considerou urgente a concessão da liminar. No outro extremo dessa batalha judicial, favoráveis à exigência do diploma, estão o governo federal, por meio do Ministério do Trabalho, a Federação Nacional dos Jornalistas (claro!) e o Sindicato dos Jornalistas de São Paulo.
O presidente Lula da Silva aproveitou reunião com seu conselho político, ontem, 24/05 (*em pleno São João, que incrível!), para dizer que além de está muito preocupado com a crise do Senado, agravada principalmente depois de o jornal O Estado de S. Paulo revelar, no dia 10, que atos secretos foram usados para beneficiar familiares e protegidos de senadores e de diretores da instituição, também se sente incomodado com essa questão da obrigatoriedade do diploma de jornalistas.
Porém, o problema é que o governo não tem uma fórmula pronta para dar a mão ao decadente Senado. Nesse caso, de acordo com Lula, só resta “torcer” para que a própria Casa resolva o mais rapidamente seus problemas. Como? Ninguém sabe. Uma forma seria, na opinião do presidente, modernizar e enxugar a instituição. Como? Ninguém sabe. Mas isso, reiterou Lula, depende do próprio Senado. Na semana passada, o Lula chegou a defender o presidente da Casa, José Sarney com relação à parentada que ele vive empregando. Falando em Sarney, alguém já leu um único livro do rapaz? O que é aquilo gente?
Mas como se pode comprovar de forma empírica no caso da informação jornalística, em nenhuma sociedade fundada no Estado Democrático de Direito existe a garantia da liberdade do exercício profissional para todos os indivíduos, cabendo a sua produção e disseminação a profissionais especializados, que atuam de acordo com as normas previstas na forma da lei e respondem criminalmente pelos excessos cometidos. Contudo, a grande maioria das pessoas, em qualquer que seja o país democrático, como ocorre com o exercício das demais profissões regulamentadas, está alijada do processo de produção de informações, seja porque não reúne as competências necessárias para atuar na função, seja porque a atuação na área pressupõe dedicação plena e o vínculo como contratado ou colaborador com as instituições do ramo. Mas então, o que seria uma boa formação no curso de Jornalismo? Debates sobre a vida das celebridades? Leituras de xérox nas faculdades? Lavagens e festinhas nos campus? Sinceramente, prefiro nem comentar.
imagens: divulgação

terça-feira, 23 de junho de 2009

HILDA FURACÃO

“Romance mais famoso do escritor Roberto Drummond, "Hilda Furacão" é uma história de mistério e ao mesmo tempo um conto de fadas pelo avesso. A personagem principal é uma espécie de musa erótica cuja vida cruza-se com três rapazes do interior de Minas Gerais.”
Por Elenilson Nascimento
A trajetória de Hilda Furacão, a mais desejada prostituta da zona boêmia de Belo Horizonte nos anos 50, filha de uma tradicional família de classe média e que escandalizou a sociedade mineira ao romper com a família e com as convenções fugindo no dia de seu casamento e indo refugiar-se entre as prostitutas, foi tema de uma minissérie da Globo tempos atrás do romance (de 1991) do jornalista Roberto Drummond, com a Ana Paula Aróiso no papel título e com o então hollywoodiano Rodrigo Santoro.
No livro de Drummond, na pequena cidade de Santana dos Ferros, vivem três amigos inseparáveis, cada um deles com um sonho: Malthus quer ser frade dominicano. Roberto pretende fazer a revolução comunista e Aramel, o Belo, que almeja o sucesso em Hollywood. Mas os planos dos três são afetados pelo surgimento de Hilda, por quem Malthus se apaixona, passando a enfrentar um intenso conflito, dividido entre a castidade e o pecado.
A história é narrada pelas memórias do próprio Drummond, então repórter iniciante do jornal Folha de Minas, encarregado de traçar o perfil de Hilda, uma mulher que desafiou as regras da moral e bons costumes numa época de repressão em que a sociedade, hipócrita, ditava as normas de conduta. O romance é fragmentado, pois possui constantes mudanças de enfoques. Uma primeira que almeja desvendar o mistério da garota do maiô dourado (*a Hilda que desfilava sua beleza pelo Minas Tênis). Uma outra que mistura ficção e realidade histórica brasileira (*ditadura militar e censura); o mais brilhante é que tudo começa e termina no dia 1° de abril que simboliza o dia da mentira, e eis então a grande proposta ficcional do autor.
Roberto começa narrando em 1ª pessoa a sua própria condição jovem de comunista e idealista. E nesse ínterim, o narrador trava correspondência com as tias de Santana dos Ferros - Tia Ciana e Çãozinha, que são as interlocutoras do relato. A grande trama da obra verifica-se no encontro entre o santo Frei Malthus e a bela Hilda no qual aquele, ao tentar expurgar o mal da zona boêmia acaba enredado pela paixão que estabelece-se entre ele e Hilda. Roberto é o jornalista que relatará ao leitor como estão acontecendo os fatos na zona boêmia (*lembre-se que Malthus, Aramel e Roberto são os três mosqueteiros - amigos de infância e desta forma Roberto terá maior possibilidade de levantar dados para o leitor).
Outras estórias entrecortam a narrativa - a cidade de Santana dos Ferros e seus casos hilários demonstram a habilidade deste escritor - o episódio do Adão nu pintado pela artista Yara Tupinambá no painel da igreja que foi fiel aos moldes do modelo escandaliza a cidade entre elas está a Tia Ciana, que passa a entrar na igreja de costas. Ou quando do milagre do choro da santa que Tia Ciana descobriu e que depois configurou um erro, pois era urina do sobrinho do padre.
Aramel, o Belo ("nunca houve homem mais belo que Aramel"), jovem que almeja o estrelato hollywodiano por sua aparência de galã, é a figura mais engraçado no livro. Acaba por tornar-se um cafetão a serviço do poderoso Antônio Luciano. Após um desencontro amoroso humilhante vai para os EUA e torna-se gângster. Frei Malthus o pivô do grande romance, julgado pela comunidade como "o santo", acaba apaixonando-se pela bela Hilda. O mito da Cinderela é passado ao leitor quando do acidente que deixa o sapato de Hilda sob a posse do frei que tentará fugir do pecado martirizando-se e comendo o seu favorito doce de jabuticaba. (“HILDA FURACÃO” de Roberto Drummond, 298 págs, 1991 – Arx Editores)

segunda-feira, 22 de junho de 2009

BARRACO SEM POESIA

“A disputa por uma cátedra em Oxford foi abalada por um escândalo de difamação contra um ganhador do Nobel. Sempre houve baixarias assim entre escritores – mas elas já tiveram mais graça.”
CONCORRÊNCIA DESLEAL: Derek Walcott e Ruth Padel: ela jura que não produziu o dossiê contra ele. Só mandou uns e-mails indiscretos.
A cátedra de poesia da Universidade de Oxford, existente há 300 anos, confere um brilho inigualável a um currículo acadêmico e exige relativamente pouco: o titular só tem de proferir três conferências por ano. A escolha desse privilegiado professor é feita por um colégio eleitoral, formado pelo corpo docente de Oxford e por ex-alunos da universidade. Neste ano, o favorito era o caribenho Derek Walcott. Autor do épico "Omeros" e Nobel de Literatura de 1992, ele era o único candidato que poderia acrescentar reputação ao posto – seus dois concorrentes, a inglesa Ruth Padel e o indiano Arvind Mehrotra, nomes de fama limitada, só iriam, ao contrário, auferir o prestígio do cargo.
Menos de uma semana antes da eleição, Walcott retirou-se do páreo, atingido por uma campanha de difamação. Um dossiê com casos de assédio sexual supostamente cometidos pelo poeta quando deu aula em Harvard, três décadas atrás, foi enviado anonimamente para professores de Oxford. Com a desistência de Walcott, Ruth Padel – autora de uma biografia em verso do naturalista Charles Darwin, que é seu antepassado – foi eleita para a cátedra, no dia 18 de maio. E renunciou na semana passada, depois de nove dias no cargo, quando surgiram indícios de que ela havia participado da campanha contra Walcott (ela nega qualquer relação com o dossiê, mas admite ter mandado e-mails para jornalistas detalhando os tais casos de assédio).
Na Inglaterra, o affair Walcott-Padel virou um exemplo deprimente de quão pequena se torna a vida intelectual sitiada por patrulheiros da correção moral, sexual e política. Walcott reunia as devidas credenciais para ensinar poesia – mas, entre as fofocas e especulações da eleição em Oxford, mérito poético foi o único assunto que deixou de ser discutido seriamente. O jornal Daily Telegraph demonstrou que, por critérios morais, cátedras de poesia inglesa dificilmente seriam preenchidas.
Grandes poetas era possível encontrar em várias épocas. Difícil era achar poetas puros: Byron era mulherengo; Coleridge, drogado; o beberrão Dylan Thomas chegou a defecar no chão de um amigo; Philip Larkin era racista e adorava pornografia; e Auden, que ocupou a cátedra em Oxford, não estava nem aí para a higiene pessoal.
Para quem acompanha a querela em Oxford a distância, só resta lamentar que o barraco tenha se dado com tão pouca graça. Poetas de todas as eras exercitaram o virtuosismo verbal na difamação dos rivais. Quevedo e Góngora, na Espanha, lá pela virada do século XVI para o XVII atacavam-se mutuamente em versos impecáveis (veja o quadro). O tal dossiê sobre Walcott trazia apenas cópias de um livro medíocre sobre casos de assédio sexual nas universidades americanas. O detrator (ou detratora) anônimo de Walcott perdeu a chance de produzir um panfleto memorável, que atravessaria os séculos. Robert Greene, rival invejoso de Shakespeare, até hoje é lembrado pelo trocadilho com que atacou a presunção do inimigo: ele se acharia o único "Shake scene" (sacode cena) da Inglaterra. Se é para dar golpe baixo, então que seja com estilo.
fonte: Veja
fotos de Walcott e Padel: Justin Willians/Rex Features/Micheline Pelletier/Latinstock
fotos das mesquinharias letradas: Bettmann/Latinstock; Corbis/Latinstock; Arquivo Estado; Colin Mcpherson/Latinstock

domingo, 21 de junho de 2009

EXPOSIÇÃO ALTERNATIVO, NADA!

Foi um sucesso a inauguração da “Exposição Alternativo, NADA!” do gente finissíma Rafael KentCLIQUE AQUI e leia a entrevista – na Saraiva MegaStore, do Salvador Shopping (Salvador-BA), no último dia 18/06. A amostra do fotógrafo reúne momentos únicos de bandas da cena independente da capital baiana - e vai rolar durante todo esse mês. Kent busca destacar o original, mostrando a força do "alternativo" e das pessoas que caracterizam a cultura local através de imagens. Confira abaixo as fotos:
Porta do espaço... que felicidade!
O artista e o pai do artista. Foto linda da p.
Nem me pessa pra tirar ela daqui!
Kent, entre amigos. Olha o Márcio Mello aí gente!
Com Duda, vocalista do Diamba.
Com as gatas.
A exposição.
O social.Com a galera do mal.
fotos: Rafael Kent

sábado, 20 de junho de 2009

MEMÓRIAS DE UM HEREGE COMPULSIVO (Capas Provisórias)

Por Elenilson Nascimento
Lendo o título de repente pode pensar-se que estou a falar de catálogos de livros ou de uns filmes de terror. Mas não é caso. Falo apenas do meu próximo livro de contos chamado de “Memórias de um Herege Compulsivo” que graças a inutilidade do Acordo Ortográfico teve que voltar para a revisão.
Mas, estive a arrumar os inúmeros catálogos de imagens que me preenchem algumas estantes virtuais. São fundamentalmente de dois tipos: os catálogos de livrarias que eu recebo regularmente, temáticos ou não, e os catálogos de editoras livreiras, que ao longo dos anos fui guardando. Dentro destas integram-se também imagens que são apresentadas na Feira do Livro de Lisboa. Claro que vão pensar que não consigo deixar de pensar em assuntos relacionados com livros e livros e livros. Mas pelos vistos não sou só eu.
A história das capas de livros começou no século 16, quando comerciantes ambulantes passaram a produzir livros impressos em uma página dobrada em 12 ou 16 partes. Chamados de chapbooks, esses títulos custavam pouco e, além do conteúdo, baseado em contos folclóricos, não tinham nenhum atrativo especial para os leitores. Antes disso, os livros eram publicados com uma capa provisória, “na expectativa de que os compradores a substituíssem por uma encadernação permanente de couro, o material mais maleável disponível na época”. Tudo mudou em 1744, quando o britânico John Newbery teve a brilhante ideia de ilustrar um desses livrinhos. A partir daí, a capa ilustrada permaneceu – e é até hoje – associada ao universo da literatura.
Por isso, à medida que ia selecionando as imagens para o meu livro, descobri o prazer nas seguintes capas com a artwork de Ewerton Thiago e pensei que davam um bom post de entrada para o lançamento em breve do meu novo filhote, enquanto também trabalho na seleção de poetas para a antologia de poemas da “Coleção Literatura Clandestina/2009”.
Assim apresento-lhes as duas capas provisórias das “Memórias de um Herege Compulsivo”, a primeira sob o tema «O prazer de devorar livros» em que surge uma dentada num dos cantos do livro e o segundo «Refresque a sua Biblioteca», em que se observam sangue, sofrimento e um certo prazer mórbido conservados nas respectivas capas. Achei muito interessante esta associação. Provavelmente teremos mais capinhas com estas temáticas que o Ewerton está produzindo para que uma apenas seja escolhida, mas depois de prontas dar-lhes-ei, meus caros, notícias. (MEMÓRIAS DE UM HEREGE COMPULSIVO, Coletânea de contos - Editora Clube de Autores, 2009 - no prelo. EM BREVE! Capas provisórias)
artwork: Ewerton Thiago

RENATO RUSSO: O FILHO DA REVOLUÇÃO

“Um ensaio biográfico sobre Renato Russo mostra o planejamento cuidadoso com que ele conduziu sua carreira artística – e fala das saborosas excentricidades que fizeram sua fama.”
Por Sérgio Martins*
Em 1975, Renato Manfredini Jr., então com 15 anos, foi diagnosticado com uma condição que o imobilizaria na cama pelos dois anos seguintes. Sofria de epifisiólise – um desgaste dos ossos e cartilagens que faz a cabeça do fêmur se descolar da bacia. Nesse período de sofrimento e tédio, dedicou-se a criar uma banda de rock imaginária, a 42nd Street Band, na qual assumiria a persona do baixista e vocalista Eric Russell. Encheu cadernos e cadernos – em inglês – com a história da banda. Aos 19, já recuperado, o jovem dava os primeiros passos para realizar os projetos que esmiuçara nos seus rascunhos, como cantor e baixista do grupo punk Aborto Elétrico. Já adotara então o nome artístico com o qual ficaria conhecido: Renato Russo.
Em 1985, ao lado do baterista Marcelo Bonfá, do guitarrista Dado Villa-Lobos e do baixista Renato Rocha, ele lançou o primeiro disco do Legião Urbana. Foi como letrista e vocalista dessa banda que Renato Russo se tornou o maior nome da história do rock brasileiro. Os treze discos do grupo e os quatro álbuns-solo do cantor somam 14 milhões de cópias vendidas – 300 000 unidades só no ano passado. Essa história de obstinação é narrada no saborosoRenato Russo: o Filho da Revolução” , do jornalista Carlos Marcelo, 39 anos, editor executivo do jornal Correio Braziliense.
O livro não pretende ser uma biografia completa e abrangente. É antes um ensaio biográfico, centrado na tormentosa relação de Renato Russo com Brasília, cidade com a qual o Legião Urbana sempre seria identificado. O tumultuado show da banda no estádio Mané Garrincha, em 1988 – em que Renato Russo brigou com o público e interrompeu a apresentação com menos de uma hora de performance –, ganha um lugar central na narrativa de Marcelo. As relações amorosas de Renato Russo – com meninas e meninos, como dizia uma de suas letras –, as drogas e a morte em consequência da aids, em 1996, são tratadas de modo mais sucinto. Mesmo com essas lacunas deliberadas, “O Filho da Revolução” é um retrato mais profundo do músico do que “O Trovador Solitário”, biografia reverencial do jornalista Arthur Dapieve. Também é mais rico em documentos inéditos – fotos e fac-símiles de letras e notas do compositor, que farão a delícia do fã mais fetichista.
O novo livro mapeia as relações familiares dos roqueiros de Brasília com o governo, ao tempo da ditadura militar. O jovem Renato Russo – filho de um funcionário graduado do Banco do Brasil – quis muito conhecer o garoto que tinha uma guitarra Gibson, item raríssimo na década de 70, quando as barreiras alfandegárias eram rigorosas. O proprietário da guitarra tinha um canal seguro para importar instrumentos: seu pai, que viajava ao exterior como piloto do presidente Ernesto Geisel. O nome do garoto: Herbert Vianna, futuro líder dos Paralamas do Sucesso. No círculo dos jovens roqueiros, apareciam também futuros políticos. Renato Russo foi colega de aula do atual ministro da Integração Nacional, Geddel Vieira Lima (foto ao lado). Gordinho, Vieira Lima foi maldosamente apelidado de "Suíno" pela turma do músico, que não tinha simpatia por ele. "Geddel é in-su-por-tá-vel", o roqueiro dizia aos amigos. O próprio Renato Russo sabia ser bem insuportável. Era o chato do gênero "cabeça". Metido a cinéfilo, certa vez se irritou com o enredo convencional de “Brubaker”, filme estrelado por Robert Redford – e se levantou no meio do cinema para insultar, aos gritos, a plateia "burra" que apreciava aquele lixo de Hollywood.
A excentricidade contribuiu para consolidar a aura de santo pop que cercaria Renato Russo em seus últimos anos. Mas nunca o impediu de conduzir a carreira de modo inteligente e calculado. Sua escolha dos integrantes do Legião Urbana é um bom exemplo. Cada um deles corporificava um "conceito" fundamental para a imagem da banda: Bonfá era o garoto bonito, Villa-Lobos tinha ares de menino-prodígio e Rocha, que era negro (e deixaria o Legião em 1988), conferia diversidade étnica ao conjunto. É claro que todo esse calculismo não teria adiantado nada se Renato Russo não fosse, além de obstinado, talentoso. Era habilidoso nas letras longas e complicadas que mesmo assim se prestavam à memorização fácil dos fãs – como “Tempo Perdido” e “Faroeste Caboclo”. De certo modo, o roqueiro de Brasília conseguiu encarnar o espírito de sua época. A juventude que se viu meio perdida entre o fim da ditadura militar e os primeiros anos de redemocratização deu voz à sua revolta sem objeto em canções como “Geração Coca-Cola” e “Que País É Este”. Renato Russo e o Legião Urbana acabaram sendo bem maiores do que Eric Russell e a 42nd Street Band. (“RENATO RUSSO: O FILHO DA REVOLUÇÃO” de Carlos Marcelo, Ed. Agir; 416 pág. – 2009)
>>> Aproveite CLIQUE AQUI e baixe o documentário produzido pela Globo, “Por Toda a Minha Vida”, sobre o Renato.
fonte: Veja; fotos de Renato: divulgação
charge de Geddel: Blog do Samuel Celestino

sexta-feira, 19 de junho de 2009

BAHIA ANTIGA (2)

Por Elenilson Nascimento
Choveram pedidos na minha caixa postal para que eu postasse mais fotos antigas de Salvador. Uma Salvador que não existe mais – infelizmente. E com a ajuda de amigos, vamos postar aos poucos mais algumas imagens raras. E para começar, mostramos aqui imagens da Praça da Sé, que fica situada a meio caminho entre duas atrações turísticas – de um lado a Praça Municipal com o Elevador Lacerda, e do outro lado o Terreiro de Jesus e a área do famoso (mas decadente) Pelourinho. Hoje, podemos até conferir no piso da praça restos das fundações da antiga Sé, que abraça as esquinas da fundação da igreja demolida em 1933. A intervenção na Praça da Sé, projeto do arquiteto baiano Assis Reis com seu novo desenho, apagou quase que completamente sua história, restou apenas um trilho de bonde coberto pelo novo piso em frente à Igreja da Misericórdia –, a estátua do Primeiro Bispo do Brasil foi deslocada do seu lugar original para criar um eixo longitudinal com uma nova estátua do fundador da cidade. Confira abaixo as fotos antigas e as mais recentes.
Fonte Luminosa Sonora (*mas ela não está mais assim não, agora é frequentada por pedintes, moradores de rua e pelo mosquito da dengue, graças exclusivamente aos Poderes Públicos, na figura maior do prefeito João Henrique).
Belvedere da Sé - Cruz Caída. Eu acho esse monumento tenebroso!
>>> CLIQUE AQUI e confira mais fotos antigas da Bahia.
foto 7: ImagenShack
fotos 8 e 9: Skyscraper Life
demais fotos: Pedro Müller

quinta-feira, 18 de junho de 2009

ENTREVISTA COM O ESCRITOR JOSÉ MILBS

“Fascinado pelo PT, PT, PT, Trabalhadores no Poder, o tempo me fez ver a grande mentira e o engodo com a eleição de Lula. (...) Perguntava-me, já desfeito do fascinamento do PT e do trotskismo, se tudo aquilo não seria igual à religiosidade, aos valores aceitos pelo afeto de pessoas fraternas e que havia algo escondido. (...)Tenho dó de Lula que vai passar para a história sem ter mudado o curso...” (J.M.)
Dando início a uma série de entrevistas para a LITERATURA CLANDESTINA com os participantes do volume de poesias da "Coleção LC/2009", querendo incentivar a troca de informações e experiências entre os autores. Dessa forma, a poetisa, economista e pós-graduada em Metodologia do Ensino e Docência Superior, Andréia de Oliveira, de Salvador-BA, entrevista o poeta, jornalista, escritor, memorialista, historiador, ecologista, nascido em Macaé e editor do Jornal O Rebate, José Milbs.
Andréia de Oliveira – Em primeiro lugar gostaria de elogiar o trabalho do “O Rebate”. É importante usar a internet para disseminar informação crítica e consciente. Primeiramente gostaria que você falasse um pouco da sua atuação como jornalista. Você iniciou na profissão em 67, no período da ditadura militar, um ano antes AI-5, devia ser difícil fazer jornalismo naquela. Hoje, mesmo com a liberdade de imprensa, parece-me que ainda resta uma certa censura, oriunda do poderio econômico. Você concorda? Era mais difícil fazer jornalismo em 67 ou agora?
José Milbs – O Rebate sofria forte censura nos anos 60. Quando assumimos o jornal ele era de um forte grupo econômico da região de petróleo do RJ (Macaé). Um pouco disso está no editorial. Em Macaé tinha e tem um Forte do EB que se encarregava de fazer a censura. Um Capitão ficava na redação e lia os textos que iam para a oficina que funcionava num velho local no centro da cidade. Fui enquadrado no AI-5 e respondi IMPM no Exército e na Marinha, onde fui absolvido pelo então auditor Jacob Goldemberg, um senhor simpático, gordo e de olhar feliz. Ao confirmar os textos que deram origem as denuncias contra O Rebate ele achou que quem deveria estar ali eram os denunciadores. Achei interessante isto vir de um auditor. Chamou um outro de nome Oswaldo Rodrigues e meu processo foi arquivado. Mesmo assim, hoje tenho noção real do que aconteceu, vi minha Faculdade de Direito ser interrompida sem motivo e fui aposentado do INAMPS com um diagnóstico "incompatibilidade com as funções". Claro que hoje sei que esta era uma maneira de me afastar. Vivo com um salário de R$ 600 reais (menos 40% do que deveria ter). Não quis e não quero reparação... Tem mais um pouco dessa história no O Rebate. Um dia eu determinei aos companheiros da oficina que não mais substituíssem os textos que o capitão tinha censurado. Como o jornal era composto de letra por letra era um terror ter que fazer os meninos da gráfica substituir tudo. Falei que se os textos voltarem censurados que saiam tudo em cor negra e coloquem na 1ª página o seguinte: O REBATE CIRCULA COM ALGUNS TEXTOS BORRADOS DE PRETO NÃO POR CULPA DE IMPRESSAO DE NOSSO IMPRESSOR E SIM POR TER TIDO TEXTOS SENSURADOS PELO COMANDO DO GaCOSM (Comando do EB da Região). Mandei o jornal para as bancas. Eis algo a respeito AQUI. Quanto a outra pergunta, você mesma já disse é um fato...
Andréia de Oliveira – Trazendo um pouco o foco para a literatura, como você observa o cenário literário do país? A era das informações rápidas e superficiais potencializada pela democratização da internet e a falta de interesse histórico do brasileiro pela leitura estariam decretando o fim da literatura? Existem ainda alguns poucos sobreviventes da literatura!
José Milbs – Escrevo e faço O Rebate porque ainda creio que alguma coisa pode mu
dar. Quando fiz parte da contra cultura e do movimentos hippie dos anos 70 – CLIQUE AQUI – pensei que tudo seria mesmo resolvido no “paz e no amor”. Veio o fim do movimento, ele sendo absorvido pelo sistema que fez novelas, roupas em formato vendadas, etc. Houve uma forte tristeza de meu interior. Lágrimas? Não sei. Sei que "foram levantados os "panos das exposições em calçadas". Muitos morreram, muitos enlouqueceram ou vagam por ai. Seria eu um sobrevivente? Estaria numa "missão" com alguma ordem superior que venha em mim sem que eu saiba de onde? Lembro que num dia qualquer de uma tarde nebulosa e com ar de outuno, estava eu no Rio de Janeiro. Havia um jornal de nome MAM (do Museo de Artes Moderna). Um poeta, se não me falha de nome, Cacaso, estava entrevistando pessoas sobre o movimento. Falou com Caetano, Gil e outros "que achavam serem os karas"... Me achando, na simplicidade de um boteco qualquer, Cacaso me veio com a pergunta: "Milbs que você está fazendo agora?” Respondi: “ESCULPINDO EM SORVETE...” O poeta entendeu e tacou no jornal do MAM.Fulano está fazendo isso ou aquilo (para não citar os nomes dos que se acocoraram ao poder) e o Milbs está "esculpindo em sorvete...” Hoje divido o meu salário de R$ 600 reais do INAMPS com minha web designer para por no ar o jornal... Conto com a paciência dela e de todos os colaboradores como o próprio Elenilson que, voluntariamente, divulgam o site. Embora ter uma vivencia política eleitoral desde a juventude como líder estudantil do estado do Rio (1960-61), membro do PTB de Jango em 1958 quando concorri a vereador, ter sido fundador do PT em 78 e outras militâncias, hoje não acredito mais no parlamento como transformação da sociedade. Foi muito difícil entender isso.
Andréia de Oliveira – E sua pessoal experiência como escritor. Você acredita que é um caminho natural de todo jornalista? Em meio à tamanha desvalorização em todos os níveis da literatura no país, qual seria enfim a motivação em escrever?
José Milbs – Faço meus livros on-line. É uma maneira de sair da dependência comercial. Escrevo o que me vem na cabeça sem revisão nem copideskiar, pois tenho paciência para fazer. Saudosismo me faz bem. Como todo homem que chega aos 70 anos com cabeça de 18. E uma vez por outra me refrigerar a alma e ter algum e-mail de alguém que fala que leu isso ou aquilo que escrevi e, indo ao busca do Google, me viu lá. Deve ser ainda os restos de um tempo do "não" do movimento hippie que amei e sou ainda fiel... Muitos que, como eu, conheceram as verdades vendem seus textos. Os meus são gratuitos como os recebi gratuitamente. A internet foi onde achei melhor maneira de trazer a liberdade de expressão...
Andréia de Oliveira – Como você classificaria o tom de suas obras: saudosistas, informativas, autobiográficas ou simplesme
nte universais?
José Milbs – Sim todo jornalista qu
e tem suas experiências no dia a dia desde mundo deve caminhar para alguma coisa. Seria escritor ou palestrante, mas preferi escrever o que chamam de livros. No O Rebate tenho vários, como “Luar de Imbetiba”, “Dos ferroviários aos petroleiros”, “O cotonete azul e a nova democracia”, “Rua do Meio”, “Saga de Nhasinha”, “Ecila” e “Os Tavares, os Silvas, os Almeidas, os Pratas e os Mathias Nettos”. Você verá muito de minhas andanças pelas paredes das memórias...
Andréia de Oliveira – Importante esse seu relato sobre a Revolução de 1964. Quem nasceu dos oitenta em diante não tem uma muita noção muito clara do foi a censura. Nesse tempo era unânime um projeto ideal de sociedade: o comunismo ou governo
do proletariado. Só viemos perceber que esse sonho acabou anos depois da queda do Muro de Berlim. Ainda havia muitas esperanças, pois um governo dito de esquerda nunca havia assumido o poder. Você ainda acredita em utopias coletivas?
José Milbs – A via eleitoral jamais irá resolver o grave problema da diferenciação social. Embora, como já disse e também consta de vários textos no O Rebate, fui criado na via eleitoral, em partidos políticos e tive, paralelo, uma criação de religiosidade. Aos 18 anos: PTB; aos 19: liderança estudantil. Em casa uma avô religiosa, me levando para a igreja, sendo até coroinha com tenra idade e recebendo ensinamentos de que "comunismo" comia criança, era um monstro que matava etc. Hoje, depois de tomar ciência do que ocorria e ocorreu na União Soviética, das traições e conspirações havidas (indico a leitura de a
“Grande Conspiração”), chego a conclusão que não existe nada daquilo que o afeto, o carinho, a gentileza das mães e dos valores criados em infâncias mil, fazem parte de uma verdade... Até conhecer e ler “Minha Vida” de Leon Trotski, fui levado a acreditar no que o livro dizia sobre a União Soviética e o comunismo. Como a história e a vida é o grande senhor das verdades, fui vendo e vivenciando o que aconteceu na Polônia (Lech Valeska) e outros locais onde o trotkismo havia enraizado. Levado por amigo a participar da CS (Convergência Socialista) conheci muitos de seus membros e tive a alegria de tê-los em minha casa, abrigados, em momento de suas procuras pelo sistema repressor. Daí foi um passo para participar da fundação do PT em 78 e militar como candidato em eleições no ano de 82. Fascinado pelo PT, PT, PT, Trabalhadores no Poder, o tempo me fez ver a grande mentira e o engodo com a eleição de Lula. Encucava-me, neófito em organização de esquerda, a proibição de me aproximar de algum comunista que fosse stalinista...
Perguntava-me, já desfeito do fa
scinamento do PT e do trotskismo, se tudo aquilo não seria igual à religiosidade, aos valores aceitos pelo afeto de pessoas fraternas e que havia algo escondido. Sim havia algo escondido e este algo eu fui encontrar no conhecimento do verdadeiro socialismo que estava cristalizado nos que denunciavam o Revisionismo, o oportunismo e a traição aos verdadeiros atos que emanavam da URSS...
Andréia de Oliveira – Haveria alternativas ao individualismo cínico e cético que vivemos? O caminho político não seria mais válido? O ideal do comunismo deve ser sepultado de vez?
José Milbs – Não entendia bem e até achava legal alguns partidos comunistas estarem com apoio ao governo de Lula. Mais uma vez o tempo, senhor de tudo, foi cimentando nesta minha cabeça já embranquecida pelo tempo e pelo sereno das noites, a luz que estava se clareando. Havia, descobri um verdadeiro socialismo e um verdadeiro comunismo. Assim como no cristianismo tinha o verdadeiro, não o que era pregado, falado em minhas andanças infantis... Foi a luz. Foi a clarividência tão usada no Kadercismo... Já no movimento hippie, quando de minhas belas noites, nos anos 70, em torno das lindas fogueiras, ladeados de companheiros e vários estados e países, ouvia, ao longe uma voz que anunciava a existência do presidente Mao. Deveria haver, no grupo de hippies algum que deveria querer me passar algum informe. Devo tê-lo passado em pensamentos... Sim, havia um outro Comunismo sim. Este se cristalizou em minha busca por um mundo melhor onde não haveria tanta desgraça social, tanta diferença de classes e onde poderia até esta a tão pré-falada igualdade, fraternidade, irmanamento, comunidade... De fato alguma coisa abriu-se e hoje, embora aos 70 anos, acho que começo a caminhar na busca destas bele
zas. Creio sim Andréia, que ainda se pude pensar e lutar pelo Comunismo...
Andréia de Oliveira – Falando do cenário político atual do país. Você como fundador do PT participou e acompanhou toda a sua trajetória de Lula até a presidência em 2002. O PT que chegou ao poder foi o mesmo que você ajudou a fundar? Qual a sua avaliação em termos gerais a respeito do governo do presidente Lula? Uma continuação do liberalismo de FHC, com uma ênfase maior no social? E a respeito das eleições de 2010, alguma perspectiva de mudança?
José Milbs – Conheci Lula,
fundei o primeiro núcleo do PT do RJ, passei para meus 4 filhos e amigos que ele seria "não o Kara do USA mais o Kara que iria fazer o avesso do avesso". Lembro-me de um de seus gestos que me marcou muito como cronista e observador. Ele tomava um copo, se não me falha de cerveja. Pegou com as duas mãos a barra de sua camisa branca, e limpou os lábios. Vi ali o verdadeiro homem do POVO e pensei: será o presidente que irá impor a verdadeira transformação social. Em outro encontro, estava eu e ele numa mesa onde fomos padrinhos de um velho militante e eu falei a ele: Lula além de companheiros de PT temos algo em comum. Meus filhos de nome Luís Cláudio e o seu, e ainda por sermos nós dois oriundo do SENAI. Eu, como você, sou também torneiro mecânico... Rimos e eu ainda disse: Quando você chegar lá, crie Escolas do Senai e reative as ferrovias... Hoje vejo que Lula cumpre o papel a que lhe foi imposto pelo sistema que o levou ao poder. A Igreja que levou Lech Valeska ao poder Polônia é a mesma. Não objetiva mudar o sistema e nem de longe arranha o que o FHC deixou... Não tenho mais filiação partidária. Tenho dó de Lula que vai passar para a história sem ter mudado o curso...
Andréia de Oliveira – Você demonstra ter um prazer inenarrável em escrever e em disponibilizar seus textos gratuitamente na internet. Co
mo você definiria a arte de ESCREVER. Você utiliza a literatura como uma espécie de missão sacerdotal? Acredita na possibilidade de regeneração da sociedade por meio da literatura?
José Milbs – Creio sim na literatura como meio de consciência do POVO. Andei pela internet, fiz contatos com todo o tipo de pessoas durante uns cinco anos. Com mirc, ICQ, salas, e-mails e tudo o que você possa pensar que existe neste mundo maravilhoso eu o vivi. Fiz um livro on-line sobre esta minha caminhada virtual – CLIQUE AQUI – e bela em relato este minha vivência. Mulheres, homens, crianças, jovens, tudo que existe em carências, quer social, sexual, etc. Mentiras, verdades que vinham das tentativas de mentiras, mentiras que eram verdades. Tudo eu flui destes momentos que buscava nas centenas de noites que vivi na busca deste mundo... Creio sim na literatura como foco da luz...
Andréia de Oliveira – Fale-me um pouco de sua experiência com a poesia. Existem diferenças entre a prosa e a poesia, ou tudo é uma questão de enfoque?
José Milbs – Tenho grandes amigos poetas. Um dia, não sei qual deles, leu um texto longo que fiz onde começo com esta frase: "Infância vai, infância vem. Mudam-se as pessoas, os gestos, a fala. A Infância é eterna, como o cantar dos passarinhos, como o nascer e o por do Sol. Onde habitará a infância, senão no frescor da mente do velho escritor?” E continuo num relato AQUI, onde volto as minhas ruas empoeiradas e puras de minhas nascença. Hoje a cidade virou a capital brasileira do petróleo e eu me refugio num sítio onde planto e respondo às suas linda indagações... Poesia, poemas são coisas dos deuses...

Andréia de Oliveira – Por fim, fale-me de suas expectativas em participar desse projeto da “Coleção Literatura Clandestina”: seria mais uma forma de divulgação de seu trabalho ou um ato de resistência ao sistema?
José Milbs – A presença da LITERATURA CLANDESTINA fortalece e fortifica a luta. Quero agradecer a você pela paciência revolucionária de me fazer rever alguns temas belos de minha vida que estavam adormecidos na frieza do PC. Beijos aí no "chato do meu amigo Elenilson que é uma mistura de Bahia com BH”, e um forte abraço em você que, pela beleza do olhar transmite o que de mais sublime existe no ser: a mistura do belo com o saber...
Andréia de Oliveira – Foi um prazer conversar com você, Milbs e compartilhar a riqueza das suas memórias e recordações. O realismo da vida não te roubou a capacidade de sonhar. Despeço-me sem acenos ou adeus. Abraços.

fotos: divulgação.

quarta-feira, 17 de junho de 2009

IVO VIU A ARMA

“Só mesmo a classe média brasileira e a turma que se recusa a crer na hostilidade do mundo para achar que crianças no ambiente doméstico de assaltantes, assassinos, seqüestradores, traficantes e que tais costumam brincar com papai de encenar o Castelo Ratimbum, os Teletubbies ou assistir um daqueles incontáveis volumes da série Xuxa para Baixinhos.”
Por Malu Fontes*
Por mais que a população brasileira, de tanto conviver com a violência, direta e indiretamente, ache que já viu de tudo e considere-se incapaz de se surpreender com o que quer que seja, basta um vídeo caseiro de um ladrão-sequestrador brincando com filho e sobrinha, de 4 e 3 anos, para escancarar que este é um país de telespectadores inocentes que só sabem dizer ‘que horror!’ e ‘ohs!’ diante de cenas prováveis. Há mais de uma semana, todas as emissoras de televisão repetem imagens caseiras filmadas pela mulher do seqüestrador catarinense Rafael de Borba, 28 anos (preso no dia 09/06), brincando de ensinar as crianças da casa a assaltar uma boneca com coronhadas e ameaças de morte. Ora, qual a razão do espanto?
Não é norma pedagógica que a alfabetização e os processos educativos, sejam de crianças ou adultos, serão tão mais bem sucedidos quanto mais se aproximarem da realidade em que estes vivem? Só mesmo a classe média brasileira e a turma que se recusa a crer na hostilidade do mundo para achar que crianças no ambiente doméstico de assaltantes, assassinos, seqüestradores, traficantes e que tais costumam brincar com papai de encenar o Castelo Ratimbum, os Teletubbies ou assistir um daqueles incontáveis volumes da série Xuxa para Baixinhos. E não venham desejar que o conceito de educação seja compartilhado com a mesma acepção entre os pais de classe média, os pais trabalhadores honestos e os pais que vivem da marginalidade.
CAMAREIRA INSUSPEITA - Ironias e realismos à parte, é fato que criança adora brincar da profissão do pai e da mãe. Se filho de médico brinca de hospital, por que raios alguém há de imaginar que um sequestrador que vive de achacar pessoas apontando-lhes uma arma e submetendo-as a atos cruéis, vez ou outra não trará para seu repertório familiar, sob a versão ‘brincadeirinha’, um revólver aqui e uma coronhada acolá contra a bonequinha da filha comprada com o dinheiro arrecadado com seu ‘trabalho’? Diante dos ohs! emitidos do Oiapoque ao Chuí perante as cenas de Borba, uma das informações mais relevantes do episódio sequer foi registrada pela maioria dos telespectadores. O que levou à aparição da fita, a chegada das imagens à Polícia, foi o fato do protagonista delas e seu bando terem seqüestrado uma mãe e uma criança de três anos, em um quarto de hotel no litoral catarinense, mantidas sob violência até o pagamento do resgate.
Os detalhes do sequestro comprovam que “tá tudo dominado” e qualquer comportamento comum pode decretar nossa condição de vítima da violência. Um funcionário de um grande estaleiro, com a mulher e o filho, hospedou-se em um hotel onde a mulher de Borba era camareira. Arrumando o quarto, viu o cartão de visitas do hóspede e deduziu tratava-se de empresário rico, um seqüestrável em potencial. Daí para o marido partir para o ato, foi questão de horas. Portanto, será que tão chocante quanto a cena de um indivíduo que vive do crime brincando de ladrão e vítima com suas crianças, não é a certeza de saber que cada um de nós é uma vítima em potencial de um eventual seqüestro, até em um quarto de hotel de uma cidadezinha do interior do país? Que sob qualquer camareira loiríssima com cara de Scartlet Johanson mal diagramada e tida como insuspeita de trabalhadora prestativa pode estar escondido um plano de violência que nunca se sabe como vai acabar? Ah, e se essa camareira não encarnasse o protótipo da loura nórdica catarinense e fosse uma negra, seu protagonismo no episódio certamente teria rendido muito mais deduções nas mesas de jantar das boas famílias.
PAULO FREIRE - Se Rafael (foto ao lado) fosse esperto e letrado, talvez não fosse seqüestrador nem brincasse de ensinar crianças a arrancar dinheiro de bonecas mediante coronhadas de revólver de brinquedo e onomatopéicas expressões do tipo ‘bum, bum, bum’. Mas poderia argumentar que nada mais está fazendo senão seguir o método Paulo Freire, ou seja, usando a própria realidade dele e dos pimpolhos para ‘educá-los para a vida’. Sim, a vida de quem, seja por que razão for, ingressa na marginalidade, é o exercício cotidiano e real daquele comportamento ensinado às crianças no vídeo sob a forma de brincadeira (de muito mau gosto para quem vive do lado de cá do mundo).
Se o método Paulo Freire derrubou por terra a lengalenga de que criança ou adulto aprende alguma coisa com frases inócuas de cartilha como ‘Ivo viu a uva’, repetidas por gente que nunca conheceu um Ivo e muito menos viu uma uva, Borba escancarou para um Brasil que, ao invés de se crer em duendes improváveis, é melhor reforçar a crença nos jegues reais. Cada um adapta à vida os métodos pedagógicos que pode. É bom registrar na cartilha pedagógica nacional que, enquanto uma série de outras circunstâncias estruturais não mudam, cada vez menos se verá na TV ivos vendo uvas inexistentes. O método Paulo Freire, que prega a incorporação do universo vocabular dos alunos às práticas didáticas, quando, e se, aplicado à violência brasileira, torna ordenatória uma assertiva inquestionável: Ivo viu a arma.
* Malu Fontes é jornalista, doutora em Comunicação e Cultura e professora da Facom-UFBA. Contato: maluzes@gmail.com
fotos: divulgação

terça-feira, 16 de junho de 2009

ATENÇÃO AUTORES, PESQUISA INDICA: BRASILEIRO ESTÁ LENDO MAIS!

Por Elenilson Nascimento
Inacreditável isso! Inacreditável e encantador! O Instituto Pró-Livro divulgou ontem, 15/06, o resultado da pesquisa “Retratos da Leitura”, realizada em todo país. A pesquisa ouviu pessoas a partir dos cinco anos de idade e informa que 55% da população entrevistada afirmou ter lido ao menos um livro nos últimos três meses. O índice passou de 1,7 livro por brasileiro para 3,8.
Boa notícia que oferece algumas indicações. Os mais jovens leem (*sem acento por causa da inutilidade do Acordo Orográfico) mais do que as mais velhas e tanto a escola como a mãe têm papel fundamental para formar leitores.
Então, autores da “Coleção Literatura Clandestina”: vamos aproveitar! Aproveitem e conheçam também a história do livro “Leite Derramado”, de Chico Buarque. A obra é uma das mais comentadas dos últimos tempos e alcançou a marca de 130 mil exemplares. Pois é. O brasileiro está lendo mais. A história chega perto do cotidiano das pessoas.

Confira também o Chico lendo um trecho do seu livro “Leite Derramado”. O cantor, compositor e escritor lê para os leitores da LITERATURA CLANDESTINA um trecho da sua mais recente obra. O livro, editado pela Companhia das Letras, é um dos mais comentados da atualidade.