sexta-feira, 27 de fevereiro de 2009

MANIFESTO DE LUIZ CALDAS CONTRA MÁRCIO MEIRELLES

“Estou estupefato”. Esta foi a reação do cantor Luiz Caldas, criador da axé music, que se diz “perseguido” pelo secretário de cultura do estado da Bahia, Márcio Meirelles. Luiz acusa o secretário de impossibilitar sua saída no Carnaval, passando por cima até mesmo da vontade do governador Jaques Wagner e da primeira-dama Fátima Mendonça. “Não é do meu feitio fazer essas coisas”, disse Luiz, que divulgou um manifesto contra o secretário na imprensa baiana. “Não tenho nada contra ele como pessoa nem como artista, mas sim como gestor”, salienta.
Bom, eu não gosto muito disso que se tornou a música na Bahia – onde, por total falta de talento, grupos de baixo nível infestam as rádios e as TVs, mas eu conheço e admiro muito o trabalho do Luiz há muitos anos. Vejo, com tristeza, ele ser marginalizado pela suposta "cultura" instalada nos dois últimos anos na Bahia. No último dia 22/02 Luiz divulgou esse manifesto contra o tal secretário da Cultura da Bahia:
“Senhores dirigentes, foliões baianos e de outras localidades.
Estou sendo perseguido pelo senhor Márcio Meirelles, secretário de Cultura do Estado, que de todas as formas tentou impedir a minha participação no Carnaval de Salvador.
Será que o motivo foi o de eu não querer participar de um trio temático dos anos 80, algo que não acrescenta em nada a minha rica trajetória musical? Saiba senhor Márcio Meirelles que eu sou dos anos 80, orgulhosamente, e também sou da modernidade, sou do século XXI e estou lançando 130 canções inéditas de uma só vez. Isso já é notícia em todo o Brasil.
É cultura, como o Carnaval é cultura, como é a Axé Music que inventei. Não posso viver preso ao passado.
O nosso governador Jaques Wagner e a primeira-dama Fátima Mendonça queriam a minha participação na festa, mas o senhor Márcio Meirelles, da anti-cultura, tem uma borracha maior do que a caneta do governador, e, por ser "todo poderoso", apagou o meu projeto que era para tocar três dias no Carnaval de Salvador e para o folião pipoca.
Vejam quem ele contratou, esquecendo propositalmente o projeto de um dos integrantes diretos desta festa.
Não gosto de me envolver em política de Estado, mas peço publicamente ao governador Jaques Wagner para analisar a conduta deste senhor Meirelles. Será que vale a pena deixar um mandatário cultural boicotar artistas que têm poder simbólico e que fazem parte desta festa carnavalesca para os foliões pipoca?
É algo para se avaliar. É isso foliões. Fiquei sem tocar dois dias em Salvador por conta do jogo sujo que está acontecendo na Cultura baiana.É hora de dar um basta nisso e respeitar quem tem história e ainda faz história.
A pasta da Cultura merece alguém melhor, ao menos alguém que respeite os artistas locais.
Luiz Caldas, criador da Axé Music."

foto: divulgaçao
fonte: Correio da Bahia e Blog de Mario Kertész

O PREÇO A PAGAR

"Dá para governar sem ler nada; se a leitura da imprensa lhe provoca azia, imagine-se então em que estado iria ficar lendo um relatório estratégico do ministro Mangabeira Unger."
Por J.R. Guzzo*
Sempre é possível para presidentes da República, sobretudo para os que vivem com altos índices de popularidade como Luiz Inácio Lula da Silva, governar seu país sem os incômodos, as responsabilidades e os riscos de ter posições de verdade sobre questões complicadas.
Dá muito bem para Lula, apenas nos anos de 2007 e 2008, ficar 148 dias no exterior e ausente do local de trabalho, em viagens que não têm nenhum propósito – na última das suas visitas à Venezuela, pelo que se viu, foi levado a uma horta e apresentado a uma caixa de tomates.
Dá para governar sem ler nada; se a leitura da imprensa lhe provoca azia, imagine-se então em que estado iria ficar lendo um relatório estratégico do ministro Mangabeira Unger. Quando surgem problemas aborrecidos, pode largar a solução, e está sempre largando, para algum subordinado; afinal, ele tem 38 ministros diferentes, secretários com "status de ministro", assessores com "status de secretário" e só Deus sabe quanta gente mais.
É perfeitamente possível, em resumo, governar sem trabalhar, quando se dá à palavra "trabalho" o significado que ela tem para as pessoas comuns. Esse é o lado bom do emprego de presidente da República – mas, infelizmente, quase tudo na vida tem dois lados e, pior ainda, acaba tendo alguma consequência concreta. No caso, a consequência de levar um governo nessa toada é que a liderança do chefe simplesmente vai para o espaço – e assim que ela some o ecossistema do palácio presidencial se transforma numa usina de produzir tumultos. É o preço a pagar. CLIQUE AQUI e leia a crônica na íntegra.

* J.R. Guzzo é colunista da revista Veja.
charge: Inconfidencial/Alexandre Martins

quarta-feira, 25 de fevereiro de 2009

ENTREVISTA COM O ESCRITOR VARLEY FARIAS RODRIGUES

“É lamentável que a literatura seja tão maltratada e não lhe seja dado nenhum espaço nas mídias de massa no Brasil. Acredito que ela é uma ponte que poderá propiciar ao indivíduo sair do marasmo, da ociosidade do não pensar, do mar de alienação em que se encontra para um lugar onde existem infinitos horizontes, um lugar onde o pensamento se liberta.” (V.F.R.)
Por Elenilson Nascimento
Cearense, poeta e escritor com um olhar crítico apurado, Varley Farias Rodrigues tem poesias e contos publicados em várias antologias e, entre as principais está os "Poemas Dispersos", da “Coleção Literatura Clandestina” (2006). Nasceu em Crateús, sertão dos Inhamuns (Ceará), foi para Fortaleza com seus pais aos seis anos para se tratar de problemas no coração e diz que desde tenra idade escrever sempre foi como um “comichão” que não o deixava um único instante, como no poema “Pesadelo”: “A cama vazia, outrora vadia, cúmplice, agora calada, dizendo nada, nenhum gemido. Os lençóis agasalhando o teu perfume, misturando os sabores, os sons do silêncio ecoando nos meus ouvidos. Martirizando-me sem compaixão. E eu, orando as paredes, que o dia desperte-me desse pesadelo, mesmo que seja sob a luz de mais uma ilusão”. Há uns vinte anos trabalha com programação de computadores, profissão que gosta muito de exercer, porém, considera a poesia a sua verdadeira paixão.
ELENILSON – A bibliografia adotada nos cursos de Letras e Pedagogia das faculdades brasileiras circunscrita autores da esquerda pedagógica. Eles confundem pensamento crítico com falar mal do governo ou do capitalismo. Não passam de manuais com uma visão simplificada e, por vezes, preconceituosa do mundo. O mesmo tom aparece nos programas desses cursos. Perdi as contas de quantas vezes estive diante da palavra “dialética”, que, não há dúvida, a maioria das pessoas inclui sem saber do que se trata. Em vez de aprenderem a dar aula, os “aspirantes a professor” são expostos a uma coleção de jargões. Tudo precisa ser democrático, participativo, dialógico e, naturalmente, decidido em assembléia. O que você acha dessa falta de conteúdo pedagógico na maioria dos cursos universitários?
Varley F. Rodrigues – É no mínimo lamentável essa situação. Outro dia estive conversando com uma amiga de longas datas e ela me dizia que há oito anos atrás desistira do curso de Pedagogia por achar que os seus professores eram TODOS DESPREPARADOS e COMPLETAMENTE ALIENADOS com relação à profissão que exerciam. O sonho de criança da amiga ia sendo levado pelas águas do descaso profissional, pelas correntes da falta de ética e ela viu-se sendo tragada por um mar de incompetência. Disse-me ainda, que preferiu saltar do barco antes que estivesse completamente naufragada. Hoje com duas formaturas (*Administração e Enfermagem), bem sucedida financeiramente, mas segundo ela, carregando ainda a frustração de não ter realizado seu sonho. E como ela, existem MILHÕES DE PROFISSIONAIS QUE SE DESILUDIRAM COM A PEDAGOGIA, principalmente depois da PROLIFERAÇÃO DESENFREADA DE FACULDADES DE ESQUINA e que, na maioria dos casos, tem meros desejos comerciais esquecendo do seu real papel na sociedade. Mas, o fato é que os velhos jargões continuam formando “professores”. Profissionais que, muitas vezes, sequer conseguem formar um pensamento critico a respeito da Pedagogia e se “formam” sem que ao menos tenham ouvido falar de Antonio Gramsci, Paulo Freire e muitos outros que influenciaram a Pedagogia no Brasil e no mundo.
ELENILSON – Outra coisa, quando esses novos “educadores” chegam às escolas para ensinar, muitos apenas repetem bordões. Eles não sabem nem como começar a executar suas tarefas mais básicas. A situação se agrava com o fato de os professores, de modo geral, não admitirem o óbvio: O ENSINO NO BRASIL É UMA “MERDA”, em parte, porque eles próprios não estão preparados para desempenhar a função. Como você analisa o futuro da educação no Brasil, pois eu já entreguei a Deus?
Varley F. Rodrigues – A educação no Brasil parece ser uma estrela sem brilho algum. Numa ponta vemos faculdades que tem por primeiro objetivo o acumulo de riquezas em detrimento da formação do indivíduo, noutra, o descaso dos governantes em promover uma revolução educacional que tenha por objetivo nortear a formação e a excelência dos profissionais com o intuito de combater esse caos. Noutra ponta ainda, vemos “educadores” desinteressados e incapazes de transmitir algum conteúdo que force os seus alunos a um pensamento critico, justamente porque eles próprios não detêm esse pensamento. E tudo isso, culpa de um sistema educacional inerte e que promove somente a deformação das consciências e a desilusão de possíveis excelentes profissionais. O futuro de fato está entregue a Deus porque se depender somente de boa vontade, daqueles que tem o poder de mudança, cada vez mais veremos essa alienação se generalizando.

ELENILSON – Professores fazem parte de um grupo de trabalhadores totalmente limitados. Eles são corporativistas ao extremo. Podem até estar cientes do baixo nível do ensino no país, mas costumam atribuir o fiasco a fatores externos, como o fato de o governo não lhes prover a formação necessária e de eles ganharem pouco. Os professores se eximem da culpa pelo mau ensino – e, conseqüentemente, da responsabilidade. E nos sindicatos, todo esse corporativismo se exacerba. Comente.
Varley F. Rodrigues – É fácil jogar a culpa no governo, e de fato os governantes tem uma elevada parcela de culpa. Penso que profissionais da educação, da saúde e da segurança, devam ser os mais bem remunerados numa sociedade, mas o que vemos é um Estado inerte que, de um lado remunera muito mal a esses profissionais essenciais, enquanto paga salários altíssimos a políticos, verdadeiros profissionais do engodo. Mas, nenhuma classe deve se espelhar na inércia do Estado, cruzar os braços e esperar dias melhores. Os profissionais da educação, já que tão conscientes do baixo nível de ensino, deveriam usar a força do corporativismo para reivindicarem a elevação desse nível, exigindo do governo cursos e treinamentos. A culpa acaba tendo que ser divida entre governo, professores e a sociedade de modo geral, porque também se mantém calada.
ELENILSON – Uma vez que a grande maioria da população brasileira passa, mesmo que precariamente, pelos bancos escolares, as características antes apontadas articulam-se com as trajetórias escolares "típicas": repetência e evasão como conseqüências do "fracasso escolar". Não é nosso objetivo discutir aqui na LITERATURA CLANDESTINA, especificamente, a questão do fracasso escolar, apenas colocar em evidência que tal dificuldade é, sobretudo, da escola e não do aluno. Comente.
Varley F. Rodrigues – A parcela de culpa do aluno, a meu ver, existe sim. E da família também, como base formadora do individuo, mas recaí sobre a escola o maior peso desse ônus, porque é a escola a base de formação do cidadão e sobre essa responsabilidade, ela tem obrigação de combater o mal da evasão. Sem querer me aprofundar noutros fatores que tem peso no quesito repetência, cito o despreparo dos professores como causa primeira. A falta completa de incentivos proporciona a desilusão com a profissão, ou seja, profissionais mal remunerados, despreparados e uma escola que não tem interesse algum em educar, contribuem para elevação dos índices de evasão e repetência.
ELENILSON – Em qualquer cidade provinciana do Brasil (*país provinciano) existem poucas oportunidades para se falar e fazer literatura. Por isso, uma “conversa” com um cara como você é especialmente importante. Meu interlocutor é um tipo inteligente, mas moderado – o que eu acho uma pena. Outro dia, li uma definição “lamentável” vinda do bostético Diogo Mainardi, que escrevera que a literatura existe para degradar a humanidade, que quando a humanidade se descobre por demais segura de si, ali está à literatura para degradá-la e colocá-la no seu lugar. O outro escritor na história era Saramago, para quem tal idéia era anátema. E o que o Varley acha dessas coisas?
Varley F. Rodrigues – É lamentável que a literatura seja tão maltratada e não lhe seja dado nenhum espaço nas mídias de massa no Brasil. Acredito que ela é uma ponte que poderá propiciar ao indivíduo sair do marasmo, da ociosidade do não pensar, do mar de alienação em que se encontra para um lugar onde existem infinitos horizontes, um lugar onde o pensamento se liberta. O que no meu modo de entender degrada a humanidade são PENSAMENTOS RETRÓGRADOS, são profissionais mal formados, são governantes mal intencionados, é a banalização da violência, é o desinteresse em educar-se, é a parcialidade da mídia e a manipulação de informações. E também é o fato do pensamento ser usado para corromper os indivíduos, é o dizimo corrosivo dos templos que vendem paraísos celestes, são as diversas formas de fanatismo, é o corporativismo alheio aos anseios da sociedade, é a intolerância, é a proliferação de
mentes ociosas facilmente manipuladas, são os vícios que tiram vidas.
ELENILSON – No seu poema “Saga de um nordestino“, você escreveu: “De viver sem alegria, transformei-me nesse chão... Sem nenhuma ilusão“. Você não me parece ser um cara realista, pois muitas vezes você passa a impressão de que ainda tem muitos sonhos nos seus devaneios. Explique.
Varley F. Rodrigues – Acredito que estou muito aquém de ser poeta, porém, tenho devaneios como os poetas, pois talvez os meus sejam mais profundos, ou não, o fato é que às vezes a realidade me faz divagar por devaneios, acho que é uma fuga dessa quase sempre cruel realidade brasileira, onde tudo que parece impossível existe, do mais vil ao mais sublime. Mas também acho que metade de mim é realista, e a outra, é devaneios, sonhos, é quase poeta.
ELENILSON – Eu gosto do Caetano dos anos 80. De lá pra cá ele tem se perdido em seus próprios caminhos e pensamentos. Você acha que isso acontece com todos os poetas?
Varley F. Rodrigues – Eu sinto a mesma coisa com relação a Caetano, pois ele já foi bem melhor. Acho que todos passamos por transformações na vida e o Caetano não é diferente. E são essas transformações que demonstram a nossa evolução (ou involução) como gente, como artistas, como profissionais, como seres sociáveis. Os artistas, poetas, compositores, cantores, escritores entre outros, fazem parte de uma casta onde mais notamos essas transformações porque são nossos ídolos, admirados por nós, e que conseguiram nossa admiração por seguirem uma linha de atuação que nos agradava, e nas suas transformações, achamos que perderam a identidade (muitas vezes até perdem mesmo), mas precisamos entender que também nós nos transformamos, e nossas mudanças interiores também podem nos causar alguma intransigência com relação à obra desse ou daquele. Outro compositor que acho que transformou-se e muito, foi Roberto Carlos. A sua produção artística caiu qualitativa e quantitativamente. Eu preferia o Roberto dos anos 70 e 80.

ELENILSON – Será que a poesia sobrevive nesse mundo medíocre de artistas descartáveis?
Varley F. Rodrigues – Amigo, eu lhe digo sem medo de errar, e quanto a isso eu sou um otimista ilimitado. A poesia sobrevive sim. Ela se transformará, porque como já citei passamos por transformações. A poesia faz parte da alma humana e como tal, sobreviverá.
ELENILSON – Na apresentação dos “Poemas Dispersos“, eu disse que estamos órfãos dos sonetos e saraus literários. O que você acha que também somos órfãos?
Varley F. Rodrigues – Aqui em Fortaleza, graças a uma pequena turma apaixonada por poesias, ainda existe saraus (*poderia haver bem mais), onde os poetas declamam suas poesias. É muito prazeroso e uma terapia excelente. Considero que a poesia e a literatura de modo geral devem ter um espaço maior. De certa maneira estamos presos á feiúra da vida, quando deveríamos nos libertar e buscar coisas belas, coisas que nos fazem bem de verdade.
ELENILSON – Será que estamos todos perdidos?
Varley F. Rodrigues – Muitas vezes amigo, somos colhidos por um estado depressivo ao presenciar as mazelas humanas, tão cotidianamente expostas na mídia, e quando somos vítimas das insanidades do homem, aí é que nos abatemos e nos vem a visão pessimista de tudo. Metade de mim diz que sim. Estamos perdidos! OUTRA METADE, PORÉM, DIZ NA SURDINA QUE AINDA HÁ ESPERANÇA. E nesse segundo momento, com certeza estou longe da TV, sendo esquecido pelo natureza cruel do animal homem e viajando num bom livro, ou ainda curtindo a família e os amigos. Ora considero o apocalipse, ora consigo ouvir o canto de um pássaro, ora enxergo somente a primeira parte da divina comédia, ora somente a última. O fato é que se continuarmos navegando nesse oceano de insanidades, não haverá mais encantos porque prevalecerá o inferno de Dante. Quero crer que há esperança e combato meu pessimismo diariamente.

ELENILSON – Por que livros de autores “não-famosos” e “não-acadêmicos” não entram em listas alguma? Listas (*da Veja, por exemplo) são importantes?
Varley F. Rodrigues – Livros são importantes, listas (*da Veja, por exemplo) não. O indivíduo precisa ler livros e não listas. Aquele que busca ler só livros que estão em listas (*como as da Veja, por exemplo), não passa de uma pessoa sem vontade de conhecer, de se aventurar, é uma “Maria vai com as outras”. A verdade é que esses criadores de listas tem preconceito contra escritores que não são renomados.
ELENILSON – Erasmo escreveu no seu “Elogio da Loucura “ que sempre foi permitido aos homens das letras gracejar sobre a vida humana, ele só esqueceu de mencionar que escritores são uns patifes ordinários, pois gracejam das vidas dos outros e muitas vezes esquece da sua. Comente.
Varley F. Rodrigues – "Já que a raça humana insiste em ser completamente louca - já que todas as pessoas, do Papa ao mais humilde pároco da aldeia - do mais rico dos homens ao mais miserável dos mendigos - da honrada dama em suas sedas e cetins à mulher vulgar em seu vestido de chita - já que todos se decidiram firmemente a não usar o cérebro que Deus lhes deu, mas insistem em se deixar guiar inteiramente pela ambição, vaidade, ignorância, porque, em nome de uma divindade racional, deveriam as poucas pessoas realmente inteligentes perder seu tempo e esforço, tentando mudar o gênero humano, transformando-o em algo que ele jamais desejou ser? Deixêmo-lo viver feliz em suas loucuras. Não o privemos daquilo que, lhe dá maior prazer - seu infinito poder de se tornar ridículo", de Desidério Erasmo. Esses admiráveis “patifes ordinários” e escritores tem de fato vocação em gracejar sobre a vida alheia. É mais fácil criar um personagem do que se expor e o ridículo é sempre o outro. Mas que seria desse mundo sem esses “patifes ordinários” e suas obras que fascinam? Onde estaria a humanidade sem o imensurável prazer da leitura? Se com a literatura estamos vivendo a globalização do caos, imagine sem ela. Enquanto houver um “patife ordinário” produzindo gracejos, haverá esperança de que as sociedades possam melhorar-se.
ELENILSON – A vivência na organização produção dos “Poemas Dispersos“ foi decepcionante. Tanto por parte da editora CBJE que prometeu isso e aquilo e depois me deixou na mão, quanto por parte das pessoas que entraram no livro. Poucos foram aqueles que divulgaram ou mandaram um sinal. Você acha que isso é um fator decorrente da falta de educação dos brasileiros?
Varley F. Rodrigues – Eu senti que houve um momento meio frustrante para você, e confesso que até eu me senti um pouco frustrado pela demora, porém, depois entendi os problemas e percebi que você estava sozinho no barco. Confesso ainda que naquele momento nada fiz para divulgar o livro (apenas falei para uma meia dúzia de amigos, que salvo um ou outro não manifestaram interesse). Considero, portanto, que a minha atitude, que pode lhe ter parecido decepcionante, deveu-se a minha total falta de experiência de como proceder. Era apenas a minha primeira ou segunda participação em seletivas e fiquei mais preocupado em ver o “filho” e tê-lo as mãos, do que espalhar a noticia.
ELENILSON – A literatura já virou comércio, como a educação, ou ainda nos resta alguma esperança?
Varley F. Rodrigues – Virou mercantilismo, e não é de hoje isso não, já vem de algum tempo. Acho tão prazeroso escrever e acredito que ainda exista algum escritor que também ache isso, mas o fato é que grande parte ver nisso apenas um negócio, e só pensa em cifras e ver suas obras em listas.
ELENILSON – E para que serve a ABL?
Varley F. Rodrigues – Você agora me pegou. Quando eu descobrir eu respondo.
ELENILSON – O que falta para movimentar o mercado literário no Brasil?
Varley F. Rodrigues – Boa vontade por parte da mídia de massa, conscientização do individuo de que é necessário ler, reformas verdadeiras e consistentes no modo de ensino, e acredito que o barateamento de livros também seria algo que iria incrementar o mercado.
ELENILSON – Como você encara essas comissões julgadoras de Concursos literários?
Varley F. Rodrigues – Na verdade, as comissões julgadoras de concursos literários que enfrentei, foram de seletivas da CBJE (*entrei em todas que concorri) e no Prêmio Literário Asabeça 2008 (não entrei). Não posso dizer se há ou não algum tipo favorecimento a esse ou aquele, e confesso que gosto de participar, só que eu tenho uma mania horrível de protelar a inscrição e acabo perdendo o prazo.
ELENILSON – Que características os melhores escritores tem em comum?
Varley F. Rodrigues – Acredito que uma visão de mundo mais esmiuçada, mais clara, além do poder de saber ouvir, e perceber a precariedade e a grandeza da alma humana, o saber criar, inventar, mentir e conseguir passar ao leitor tudo que absorve.
ELENILSON – O que você achou desse novo Acordo Ortográfico?
Varley F. Rodrigues – Capenga e inútil.
ELENILSON – Quais os seus projetos futuros?
Varley F. Rodrigues – De imediato ver publicado um livro de poesias e outro de contos (*ambos estão já excessivamente lapidados), e continuar escrevendo porque é o que gosto de fazer.

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Contato: vfarias2005@hotmail.com

foto-montagem: Elenilson/LC
demais fotos: divulgação

domingo, 22 de fevereiro de 2009

PARA VOCÊ QUE ACHA QUE NO CARNAVAL DE SALVADOR TUDO É SÓ ALEGRIA...

Por Elenilson Nascimento
... recomendo o documentário “Cordeiros” de Amaranta César e Ana Rosa Marques, exibido recentemente pela TVE (Salvador-BA). Composto por imagens, sons e entrevistas captados durante três carnavais (2004, 2005 e 2007), « Cordeiros » é um documentário que, de maneira inédita, lança um olhar sobre os cerca de 80 mil homens e mulheres que trabalham como cordeiros no carnaval de Salvador e que, aos olhos do mundo, continuam invisíveis e, normalmente, espancados e humilhados pelos novos “capitães do mato” (foto 2) e pela hipócrita sociedade baiana.
O documentário segue no esforço sobre-humano de tornar visíveis as condições deste trabalho e as fronteiras que os blocos desenham nas ruas. Através das imagens e das vozes dos cordeiros, a corda torna-se um objeto estranho, perturbador, violento; uma metáfora explícita das tensões entre incluídos e excluídos, brancos e negros, ricos e pobres. Nesse processo, o próprio ato de filmar torna-se objeto de reflexões e tensões. E parafraseando a Lya Lyft: “Se fôssemos um país mais educado, menos policiais morreriam por nós, menos cidadãos seriam assaltados e mortos, menos jovens se tornariam malfeitores, menos força teriam os narcotraficantes”.
>>> Para quem tem Banda Larga CLIQUE AQUI: Assista ao vídeo
>>> E para aqueles que têm Conexão Discada CLIQUE AQUI:
Assista ao vídeo
vídeo: TV UFBA
fotos: Lúcio Távora/A Tarde

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2009

CARNAVAL, A BURRICE COLETIVA

“Caro leitor, quando estiver lendo este texto não se esqueça de acrescentar um tom irônico e um sentimento de desgosto com dimensões estratosféricas. Talvez o ajude a digeri-lo mais rápido.”
Por Elenilson Nascimento
Carnaval pra mim nunca teve tanta importância, aliás, nunca teve importância alguma. Significa ficar em casa sem ter nada pra ver ou fazer – significa extraviar-me. E se você não aguenta mais ouvir “tire o pé do chão, galera!” ou está cansado de chegar ao fim do mês com a carteira zerada, então fuja dessa muvuca de babacas.
A maior manifestação popular do planeta virou uma verdadeira mina de ouro. A cada ano, o Carnaval de Salvador, por exemplo, perde suas tradições, tornando-se uma festa para turista ver. Aliás, antes mesmo do Carnaval as festas populares em Salvador já vêm perdendo audiência. O que aconteceu esse ano na Festa de Iemanjá? Meia dúzia de gatos pingados jogando no mar perfumes de alfazema comprados na Cesta do Povo e flores de cemitérios!
Até o Arnaldo Jabor já escreveu que “o Brasil é um “big bang” e que só uma explosão vai salvar o país”. Pois bem. Ligar a televisão nesta época do ano gera um sentimento de total descrença no que se diz à evolução do nosso país. A falência, a derrubada de caducas “verdades” que há 509 anos chegaram por essas bandas de bananas, com Portugal da Contra-Reforma, da Inquisição, do Estado Burocrático e Patrimonialista, se perdura numa manifestação explicita de bundas sujas no Carnaval.
Quanto a mim, que já fiz poesias, e desfiz, que já fiz política, e desfiz, que já fiz peça de teatro, e desfiz, que já lecionei, e desfiz, que já “dei coça na miúda”, que já “estrangulei o pele-vermelha”, que já “pratiquei o vicio solitário”, que já “matei milhões de futuros seres humanos que poderiam nascer e que morreram ali na vala comum do papel higiênico ou no ralo do esgoto do banheiro”, e desfiz, que já fiquei louco, e desfiz, que já virei jornalista, sem carteira, e desfiz, que já publiquei livros, e desfiz, e que acabei virando uma "cabeça falante" na internet. Mas, agora, não sei o que sou mais. E para piorar, quando chega o Carnaval a coisa desengrena.
Nada muda! Mulheres seminuas (*ou totalmente) com corpos que já perderam as proporções femininas, cobertos com óleo, purpurina e lantejoulas de cores variadas. Homens sem pudores com as suas “coisas” praticamente na cara dos outros. E nos seus rostos e nos seus corpos podemos notar os sinais das mudanças que fizeram “pro Carnaval” – porque de janeiro até o dia tão esperado, todos lotam as academias e os “sequelados” que dispõem de uma melhor situação financeira, partem para métodos mais rápidos e caros.
Salvador já perdeu o espírito do Carnaval há muito tempo. E os camarotes contribuíram muito para esse fato, além, é claro, do aumento da violência na capital baiana. Mas muitos vão sair em defesa do que pode ser considerado um “negócio da China” com sotaque baiano. Preços de alguns camarotes: o famoso “Nana” patrocinado pela banda Chiclete com Banana – R$2.340 (fem) e R$ R$2.560 (mas); Skol Fest – R$1.250 (fem) e R$ 1.400 (mas); Ondina – R$1.490 (fem) e R$1.690 (mas) e por aí vai.
Antigamente, em Salvador, tínhamos vários concursos de fantasias, pouquíssimos blocos, não existia as cordas para separar os pagantes dos pipocas, e bastante espaço nas ruas. Nos anos 70, o hoje superlotado (*de ladrões) circuito Barra-Ondina não existia, os foliões usavam mortalhas e mascaras e as famílias colocavam bancos na Avenida Sete para assistir à festa.
A MUSA - Hoje, a cantora de axé mais famosa do Brasil tenta passar a imagem de que é “povão”. Em discurso parecido com o de político em campanha, Ivetinha vive dizendo em alto e bom som que gosta de tudo que é popular: pagode, arrocha, cobrador de ônibus, camêlos que vendem os seus CDs genéricos na Baixa dos Sapateiros e coisas do gênero. O contraditório de tudo isso é que ela esta bem longe de viver como “povão”. Sua “casinha”, por exemplo, não é no subúrbio, suas roupas não são da Avenida Sete, os preços dos ingressos dos seus shows, bloco e festas de Réveillons passam a quilômetros de distancia de serem populares. Ou seja, sua marca é fajuta! Recentemente, Ivetinha participou de uma entrevista coletiva no forte de Santo Antonio Além do Carmo para o Jornal Hoje. A cantora teve 30 minutos para a entrevista feita pelo jornalista Evaristo Costa, antes do próximo compromisso e de mais grana. Ao ser perguntada sobre o que fazer depois de uma entrevista coletiva que durou duas horas, Ivetinha respondeu sem rodeios que faz “xixi”. Se tem algum assunto que domine e só teve oportunidade de falar entre os amigos, ela respondeu que gosta de cinema, mas que não gosta de ler porque não se concentra. Então, Evaristo perguntou como a cantora faz para se informar sobre o que acontece no Brasil e no mundo, e ela respondeu: “Eu sou uma pessoa muito bem informada. As notícias mais breves e mais imediatas vêm muito rapidamente. Eu leio todos os jornais pela Internet, estou antenada com tudo”. Tá bom, senhora Dalila. Por isso que ela agora canta: “Ligeiro... Ligeiro... Ligeiro... Hem hem hem hem ô. Hem hem hem hem ô. Eu vi (vai levando). Esse povo é vip (vai levando). O futuro existe (vai levando)... Ninguém é triste...” Até parece! CLIQUE AQUI e assista a entrevista.
A INVEJOSA - Outra que merece um post desaforado aqui é a bostética da Cláudia Leitte (com dois “T”). A marca da “leiteira” é imitar. Não importa quem ou o quê – é uma necessidade vital. Desde o início da carreira (e até hoje), ela tenta, sem sucesso, imitar a voz de Ivete, o jeito de Ivete, as roupas de Ivete, as baixarias de Ivete, a risada de Ivete e até a bunda de Ivete. Mas, depois de parida, a Leitte não conseguiu controlar a mania de ser clone e dizem que até cirurgia plástica ela já fez (dias depois de ter dado a luz) para ficar gostosa e com as pernas idênticas de quem? De quem? De quem? Dou um doce pra quem adivinhar!
O PALHAÇO – Como o Durval Lellys, do grupo de axé Asa de Águia, não canta nada, o jeito foi encontrar uma maneira de criar uma marca para chamar atenção: usar fantasias bizarras. Elas servem para que os fãs fiquem tão impressionados (ou chocados) com a palhaçada sem graça que esqueçam de prestar atenção na voz de taquara rachada do cantor.
A INDECIDA – Daniela “chatinha” Mercury parece não ter decidido o que quer da vida. Sua marca é inovar, mas a cantora muda tanto que não da para definir um perfil. Ela não sabe de quer o cabelo cacheado ou liso, se canta axé, pop, tributo a Roberto Carlos, música de igreja ou música-de-santo, se gosta de homem ou de mulher, se coloca piano ou berimbau em cima do trio, ou, na mais absoluta falta do que fazer, criticar jornalistas.
O Sérgio Buarque de Hollanda escreveu em “Raízes do Brasil” que somente uma “revolução americana” (*não confundir com “norte-americana”) nos salvaria, com uma desconstituição do Estado patrimonialista ibérico e uma injeção de calvinismo em nossos estamentos (*que eu traduzo aqui como “estacionamentos” mentais) seculares. Quanto a mim, não aguento mais escutar sambas enredo de escolas nas chamadas da Globo. Não pretendo ver a Carla “evangélica” Perez cobrindo o Carnaval da Bahia e cantando em cima do trio para Jesus. Não quero ver a cara do Nelson Rubens dizendo “Ok! Ok!” e anunciando o “Gala Gay 2009” com uma patética Monique Evans a tiracolo ou qualquer outra entrevistando Carolina Dieckmann em algum camarote da vida e perguntando o porque de ela ter deixado de lado a prancha de surfe de Suzana, a personagem que interpreta na péssima novela “Três Irmãs”, para dar um mergulho em sua porção Madonna, pois parece que a visita da popstar ao Brasil inspirou o fotógrafo e maquiador Fernando Torquatto a clicar Carolina em um universo inspirado no show “Sticky & Sweet" (foto ao lado).
Não suporto mais ouvir dizer que a Ângela Bismarchi fez a 398.490.328.498.329ª cirurgia plástica e está virgem pela 54.562ª vez. Nesse Carnaval de “merda”, eu só quero beber a minha vodka com suco de maracujá e o meu vinho tinto que eu comprei por R$ 4,50 no Extra, em paz! Assistir a uns filmes no vídeo, terminar de ler “O Amante de Lady Chatterley” de Lawrence, baixar músicas pela internet, “comer” alguém rapidinho – ou voltar a “estrangular o pele-vermelha”, pois é mais seguro – e dormir bastante. É pedir demais minha gente?
Deixando o drama carnavalesco de lado, o post de hoje tem tudo a ver com esta data tãaao festiva e vai terminar com uma música que eu adoro do português Pedro Abrunhosa – que infelizmente quase ninguém conhece: “Felicidade não tem código de barras, nem os sonhos têm preço, nem desejo tem amarras. Os poetas não se vendem em plástico, nem um mundo sem prazer será fantástico. Os deuses não se fazem de esmola, liberdade não se aprende só na escola. Uma alma sem sexo não existe, como um louco sem loucura não resiste. Futuro não é chá de caridade, só o teu amor, por ser amor, é de verdade. Um muro por mais alto não separa, os que têm fome dos que têm a seara. (...) O crucifixo é da cor do cinescópio, heroína, cocaína, odor de ópio. A vizinha estreou-se na TV, matou o marido sem saber porquê. A dor já se vende em vídeo-cassete, beatas masturbam-se por Internet. Sexo compra-se pelos jornais, videntes criam novos pecados mortais. Quarenta índios morreram hoje ao fim da tarde, só o teu amor, por ser amor, é de verdade.”

P.S. Se puderem (e quiserem) baixem tudo do Abrunhosa! Mesmo que seja para guardar e retirar só no Carnaval do ano que vem, junto com aquela sua fantasia tosca que eu sei que você tem aí no maleiro do guarda-roupas ou então vá tentar achar a Amy Winehouse peladinha e drogada (foto ao lado) na praia mais próxima de sua casa.
fotos: divulgação

>>> Leia também: “O PAÍS DO CARNAVAL (... E DOS EXCLUÍDOS)”.

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2009

FILHA DE BIBLIOTECÁRIA

“Eu gosto de livros. Definitivamente não é uma relação apenas com o conteúdo. Gosto tanto de livros que mal tenho tempo para lê-los.”
Por Juliana Cunha*
Sendo filha de bibliotecária, eu jamais abro um livro em um ângulo superior a 90º. Jamais. Sendo descendente de visigodos, meu chefe dobra os livros inteiramente, até que a brochura ceda como uma civilização em queda. Como uma pobre Grécia diante dos romanos: frágil e superior. O irmão dele chega a dilacerar livros para que fiquem mais fáceis de serem transportados. Dói em minha alma de filha de bibliotecária e trabalho para manter os meus livros longe de suas mãos imundas e os livros deles sob a tutela calorosa de minha estante.
A justificativa comum dos destroçadores de livros é que, mesmo dobrado, amassadinho e com manchinhas de Nescau, o livro continua podendo ser lido. Ok. Digamos que a sua filha depois de arranhada continue servindo para os propósitos básicos. Mas está arranhada. Digamos que a sua 2.55 com o couro manchado continue guardando seus pertences. Mas está manchada.
Eu não transporto livros sem proteção. Deixá-los soltos na mochila amassa as bordas, então, sempre coloco em saquinhos, de preferência de pano, daqueles que embalam sapatos. Na minha casa há vários livros que parecem ter acabado de sair da livraria. São os livros que somente eu li, sem emprestar a ninguém e sem comprar em sebos. Livrarias também merecem restrições. Eu nunca peço um livro ao vendedor. Eu quero que ele aponte onde estão todos os exemplares daquele livro, porque eu evidentemente preciso escolher o que estiver com menos sinais de transporte e de terem sido folheados por ostrogodos. Se o vendedor me der o mínimo de espaço, peço para ir ao estoque.
Eu gosto de livros. Definitivamente não é uma relação apenas com o conteúdo. Gosto tanto de livros que mal tenho tempo para lê-los. Minha mãe também ama livros, mas ela não é fisicamente apegadas a eles. Ela e suas amigas bibliotecárias, incluindo a minha madrinha, acham que sou egoísta por manter meia dúzia de exemplares comigo.
Quando era mais nova conseguiram até me convencer a doar os livros que já tinha lido, o que me fez chegar a essa idade com pouquíssimos livros. Para meu total desgosto, tenho pouco mais de cem volumes. Quando era adolescente, tinha muito pouco dinheiro em meu poder (R$ 50 mensais) e minha mãe não via grande sentido em me dar livros se eu podia pegar emprestado da biblioteca. Era sempre difícil convencê-la de que eu queria um livro específico que não tinha na biblioteca, um lançamento. “Mas você por acaso leu todos os livros da biblioteca? Por que precisa comprar esse? Daqui a um tempo ele também estará na biblioteca e você vai ler”. Realmente não era pão-durismo ou pobreza excessiva (embora também fosse pobreza, afinal, acorda aí, bibliotecárias são pobres), ela simplesmente achava um consumismo e um imediatismo bestas. Além disso, a biblioteca tinha os clássicos e pra que diabos uma adolescente precisaria ler um lançamento antes de ler Macbeth? Desta forma, com uns onze anos, comecei a aplicar um golpe nas livrarias que perdurou até os dezessete anos. Todo mês eu comprava um livro de até R$ 30, lia e trocava por outro livro, depois por outro, depois por outro. Até que acabava o mês e o prazo para troca. Então, chegava outra mesada e eu fazia a mesma coisa. A nota fiscal funcionava como um cartão da biblioteca com validade de um mês. Cartão de uma biblioteca com todos os lançamentos.
Confesso com algum embaraço que guardava a nota fiscal em um porta-documentos, como se de fato fosse um cartão. Paralelamente a isso havia o velho golpe de ler livros inteiros no sofá da livraria, mas esse a humanidade inteira aplica. E tinha também o golpe burro, o golpe em mim mesma, que é quando queria muito desesperadamente um livro e, então, vendia três ou quatro em um sebo para conseguir comprá-lo. Em geral essa burrice era cometida por causa de séries ou porque eu ficava paralisada em um único autor. Foi assim com “As Brumas de Avalon”, “A Bicicleta Azul”, “Senhor dos Anéis” e os demais do Tolkien, com os livros de Milan Kundera, Jostein Gaarder, John Fante e absolutamente foi assim com Harry Potter.
Lançamento de Harry Potter (*foto ao lado, o ator Daniel Radcliffe) envolvia Juliana louca em casa clamando por dinheiro para comprar na pré-venda, clamando por autorização para ir até a livraria quando o shopping ainda não estava aberto e lendo no carro com a lanterna de emergência que depois foi solicitada para seu uso natural (problemas mecânicos) durante uma viagem de São João e que, evidentemente, já não tinha pilhas.
Mas nem tudo é pesar nessa vida de filha/afilhada de bibliotecárias. Quando Rowling lançou "Quadribol através dos séculos", minha madrinha Hozana trabalhava em uma escola na Pituba e fez etiquetas com a mesma ameaça que Irma Pince, bibliotecária de Hogwarts, faz na primeira página do livro: "Se você remover folhas, rasgar, picar, vincar, dobrar, deformar, desfigurar, sujar, manchar, jogar, deixar cair ou de qualquer outra maneira danificar, maltratar ou demonstrar falta de respeito com este livro, sofrerá as piores consequências que eu puder lhe infligir". Hoje Hozana é chefe da biblioteca de São Lázaro, na UFBa, e volta e meia me salva a pele arrumando algum livro.
O livro que mais amo aqui em casa chama-se “Manual prático de bruxaria – Em onze lições”, de Malcolm Bird. Hoje ele é vendido a R$ 15 reais no Sebo do Messias, mas há treze anos atrás, quando eu o encontrei em uma dessas feiras de livros que as escolas organizavam (e onde as editoras davam golpes baixos nos pais), era caríssimo e tive que fazer muito beicinho para arrancá-lo dos meus pais. Hoje o "Manual Prático" fica na prateleira de cima da estante, com os livros caros e os presentes significativos, mas, por mim, bem que podia ficar em uma redoma de vidro blindado.

>>> E para aqueles que não gostam de ter o trabalho (ou o prazer) de ler, CLIQUE AQUI e ouça essa crônica da Juliana reclamando da falta de cuidado com os livros: 17/02/2009 - Juliana Cunha

* Juliana Cunha é jornalista na Rádio Metrópole (Salvador- BA), escreve no blog “Já Matei Por Menos” e se diz do tipo que “bate a porta de maneira teatral e depois interfona”. Contato: julianasilvacunha@gmail.com

imagem 1: Poetry Reading de Irene Shery; imagem 2: divulgação.
podcasts: Rádio Metrópole/BA

LIKE A VIRGIN – O FILME!!!

Rapaziada, olha só: depois alguns amigos pseudo-intelectualóides vão começar a chiar porque eu vivo escrevendo sobre a Madonna, mas essa também vale o post aqui na LC. O meu amigo Alessandro Sagatto (*do blog famoso "Twenty5 And More") saltou um comentário bem bacana sobre um filme chamado “Like A Virgin”. Isso mesmo, LIKE A VIRGIN – O Filme!!! Segundo Sagatto, trata-se de uma produção coreana lançada em 2006, escrito e dirigido por Lee Hae-Joon e Lee Hae-Yeong.
O ator adolescente Ryu Deok-Hwan interpreta o transexual Oh Dong-ku, que sonha em ser ninguém menos que a Madonna. Pelo menos ele tem bom gosto. Oh tem corpo de homem, mas uma cabeça povoada de pensamentos femininos. Ele tenta fazer de tudo para trocar de sexo e conquistar o coração do seu grande amor: seu professor de japonês. Oh não tem dinheiro para a operação, mas descobre que haverá um torneio de luta livre onde o prêmio é justamente o valor em dinheiro para se fazer a operação. Oh, decide então treinar forte e participar do torneio e é ai que começa toda a confusão. O filme ainda conta com o próprio Oh cantando a música de sua diva na trilha sonora. Confira abaixo:

fonte: Twenty5 And More

terça-feira, 17 de fevereiro de 2009

DESVENDANDO O “BEDTIME STORY”

Por Elenilson Nascimento
“Bedtime Story” é uma canção de Madonna, do disco “Bedtime Stories” (1994), que só esse ano que eu vim perceber que o título do disco está no pural.
A história dessa música está associada ao percurso da cantrora Björk, que em 1993 havia lancado o disco “Debut”, misturando música eletrônica, acústica e experimental, com o qual a Madonna imediatamente tornou-se fã e procurou colaborar com a burra da Björk, que declinou do convite.
Felizmente, o produtor Nellee Hooper, que já tinha trabalhado com a Björk, produziu cinco faixas do “Bedtime Stories” e conhecendo a admiração de Madonna por Björk, entrou em contato com a islandesa baixinha e pediu descaradamente uma música para ser gravada por Madonna. Björk, atendendo ao pedido do amigo, envia-lhe a letra de uma música que iria, tempos depois, tornar “Bedtime Story”. Uma curiosidade: as músicas "Sweet Intuition" e "Sweet Sweet Intuition" da Björk têm versos idênticos aos de "Bedtime Story".
Para a promoção do single foi feito um vídeoclip dirigido por Mark Romanek (*o mesmo diretor do clip “Rain”), sendo considerado como um dos vídeos mais caros da história da música, com o seu custo final nos dois milhões de dólares. O vídeo não apresenta uma estrutura narrativa, sendo uma sucessão de símbolos e imagens surrealistas.
Meu amigo Alessandro Sagatto (*do blog "Twenty 5 More") disponibilizou um linck para o blog “Freak Show Bussiness”, onde o Alexandre Santos fez uma abrangente pesquisa sobre todas as citações na composição artística do clipe, e tenta explicar cena a cena, o porquê daquelas citações, onde Madonna surge num ambiente futurista, caindo no infinito entre as estrelas, dando a luz há pombas brancas e no final chegando ao clímax num orgasmo cósmico – CLIQUE AQUI e confira.
Esse vídeo está em exibição permanente no “Museu de Arte Moderna de Nova Iorque”. “Bedtime Story” é, sem sombra de dúvida, uma das canções mais experimentais de Madonna até àquela data, e se no disco "Erotica" (1992) já existiam elementos de música eletrônica, em “Bedtime Story” Madonna aprofunda esta sonoridade.
A música fala do inconsciente e da impossibilidade de comunicar através de palavras. “Hoje é o último dia que eu estou usando palavras... Eles se foram, perderam seu significado. Não funcionam mais... Vamos, vamos ficar inconscientes querido... Vamos ficar inconscientes querido.” “Palavras são inúteis, especialmente em sentenças... Elas não esperam por nada. Como posso explicar como me sinto... Viajando, viajando, eu estou viajando. Viajando, viajando, deixando lógica e razão. Viajando, viajando, eu estou indo relax... Viajando, viajando, nos braços de inconsciência... E lá no fundo nós todos ainda nos sentimos molhados... Ansiosamente e sofrendo, como posso explicar como me sinto...”
A estréia do clipe aconteceu durante uma festa promovida pela Madonna e pela MTV americana, a "Pajama Party", na qual Madonna e todos os outros convidados usavam pijamas. No final da festa, Madonna até leu uma história infantil com uma lição de moral, após a qual o clipe estreou. O single de “Bedtime Story” teve uma edição especial, com fotos com efeito de holografia (*um luxo na época) e uma versão no formato de um livreto; fora isso existem vários "remixes" que só saíram em versões promocionais dos singles. No último dia 13 de fevereiro fez 14 anos que Madonna subiu ao palco da premiação inglesa do “Brit Awards 1995” para apresentar “Bedtime Story”. Ainda lembro da emoção que eu senti ao assistir “alguns míseros” trechos dessa apresentação (*muito mal editados) pela MTV Brasil. Madonna fez uma apresentação surreal e antológica vestindo um Versace transparente, além de um longo, liso e loiro aplique capilar solto ao vento dos ventiladores. Reveja ou se não conhece apaixone-se:

segunda-feira, 16 de fevereiro de 2009

ENTREVISTA COM A ATRIZ E ESCRITORA JUSSILENE SANTANA

"A venda de livros no Brasil é uma via crucis... É muito difícil, o autor não recebe quase nada, a base é receber apenas 10% do valor do livro... O resto fica entre livraria, editora, comercian
tes, impostos... "(J.S.)

Por Elenilson Nascimento
Nome de destaque na cena teatral de Salvador (*Prêmio Braskem de Melhor Atriz de 2004, na Bahia, pelo desempenho no espetáculo Budro), a simpaticíssima atriz/autora Jussilene Santana lançou recentemente o livro ”Impressões Modernas – Teatro e Jornalismo na Bahia”. Um dos pólos de suas investigações (*se debruçou nos jornais A Tarde e Diário de Notícias para as suas pesquisas) é a relação e a dinâmica entre a cena teatral na Bahia e a sua cobertura na imprensa, a configuração do espaço cênico no jornalismo baiano, as repercussões do modernismo teatral no estado e no país, as inovações editoriais ocorridas à época, a percepção de questões do teatro em moldes modernos e o surgimento de vozes/fontes que as representem na imprensa. Batemos um papo com a escritora. Confira abaixo:
ELENILSON – Sabe-se que a maior dificuldade do jornalismo on-line é despertar o interesse do leitor e fazê-lo ler um texto integralmente. O que chama muito a atenção é a falta de criatividade e de profissionais de talento para inventar novos atrativos. Prova disso é a propaganda enganosa vinculada pelo jornal Correio da Bahia de que eles estariam inovando, mas o que se viu foi à mesmice de sempre e o pior, em poucas páginas e em poucos textos. Como a senhora encara o jornalismo descartável no Brasil?
Jussilene Santana – Para início de argumentação, não concordo com a premissa da pergunta de que "a maior dificuldade do jornalismo on-line é despertar o interesse do leitor". O jornalismo realizado no suporte digital, on-line, na última década, é o único que vem crescendo em número de leitores, despertando o interesse deste público, sobretudo em relação ao jornalismo impresso que vem perdendo índices, inclusive entre pessoas de maior faixa etária, público habitualmente afeito à leitura de impresso... Infelizmente encontramos profissionais sem criatividade, talento e competência em todos os formatos e suportes. A formação (não apenas a acadêmica...) está cada vez mais deficiente, inclusive no que diz respeito à forma e abordagem para a realização de entrevistas on-line. O que acontece no ambiente digital, sobretudo nos conteúdos disponibilizados pela internet, é o excesso de "tentativas". Há coisa interessante perdida numa proporção infinitamente maior de textos insignificantes.
ELENILSON – As emissoras de TVs no Brasil acabam sempre recorrendo a modelos que já inspiram sucesso em outros canais, sejam eles nacionais ou estrangeiros. O público merece uma atençãozinha maior e trabalhos televisivos de qualidade e inovadores. Quem sai ganhando, além da emissora com um programa novo, são os telespectadores que passam boa parte de suas vidas à frente dos aparelhos de tevês - na maior parte do tempo, com um desejo incontrolável de mudar de canal? E o que seria o melhor para TV brasileira? Por onde anda a criatividade brasileira tão difundida na sociedade?
Jussilene Santana – Apesar da pergunta ser extremamente genérica ("o que é melhor para a TV brasileira"...), você gostaria de debater sobre o que seria melhor para a TV brasileira em todas as faixas etárias? Em todas as regiões do país, inclusive no sul/sudeste? Em que programas você se baseia exatamente? Nos da TV aberta? E os canais fechados, foram analisados? Arrisco opinar que a TV brasileira sofre mais quando centraliza mais. Arriscar e/ou ser criativo talvez passe por ouvir novos públicos... O problema é que o público está cada vez mais sedimentado. Daí, por exemplo, o sucesso comercial e de conteúdo da TV fechada.
ELENILSON – Todos os dias os telejornais vêm nos dando a medida exata de como os governantes tratam a população brasileira pobre. Com muita freqüência, temos visto o presidente da República bradando o quanto seu governo FEZ e FARÁ pelos pobres e desvalidos. No entanto, no mesmo telejornal, no bloco seguinte, vê-se um povo que, de tão humilhado, desrespeitado e abandonado, parece não ser o mesmo que vive no país governado pelo presidente Lula. Como à senhora avalia o governo Lula e o seu propagandeado PAC?
Jussilene Santana – O jornalismo (independente do suporte: digital, impresso, audiovisual) não é, ou não deveria ser, a única fonte de informação de um cidadão que se pretende consciente. Os jornais/telejornais, como produtos de linguagem, não "dão medida exata" de nada... Eles devem ser analisados sempre em perspectiva com outras fontes... E aí caímos num outro problema grave, já que a grande maioria de nosso público não lê livros (ou lê muito pouco), portanto, não analisa a informação que recebe de forma crítica.
ELENILSON – Há algum tempo li um artigo que me impressionou muito sobre a nossa capacidade de incorporar novos gostos. Foi na "New Yorker" - só peço desculpas porque, por assumida incompetência mnemônica, não posso dar aqui o link, já que eu mesmo não tenho certeza de quem escreveu nem quando exatamente ele foi publicado (*no mínimo há uns dez anos, mas pode ser bem mais…). Mas a ideia do texto ficou comigo até hoje - não é assim que acontece quando você encontra algo bem escrito e bem exposto? – e, constantemente eu o cito em conversas, sem nunca, porém, dar o crédito… Essa ideia é: existe uma idade onde "cristalizamos" o nosso gosto - e isso acontece mais ou menos quando estamos na faixa dos vinte e poucos anos. A senhora, no esplendor da sua inteligência, concorda com essa tese? Eu mesmo tenho as minhas duvidas.
Jussilene Santana – Talvez o meu comentário ao seu elogio vá exatamente na direção contrária ao que preconiza a "tese" em questão... Não me considero no "esplendor (ou seja na magnificência, na grandiosidade) da minha inteligência. Acredito agora, como sempre acreditei, que estamos constantemente em formação. Do gosto, incluso.
ELENILSON – Cada país, cada povo, tem os representantes que merece. Uma das coisas mais comuns de ouvirmos do senso comum em relação ao universo político brasileiro é a máxima de que em Brasília só há corruptos. A frase é ilustrativa do quanto o brasileiro exime-se quando se trata de assumir as responsabilidades pelas mazelas nacionais. Falamos como se Brasília, o Distrito Federal, fosse uma terra maligna fértil de onde brotam espontaneamente políticos nada dignos e sempre dispostos a corromperem e serem corrompidos. Eu acho que o Lula foi um momento lindo que já passou! Como a senhora encara a falta de interesse dos jovens (*e velhos também) pela política? A senhora acha mesmo que ainda temos esperanças de alguma mudança concreta?
Jussilene Santana – Os comentários sobre o “Forum Social Mundial”, tanto na imprensa, quanto a partir de palestras de especialistas, registram exatamente a participação crescente dos jovens neste instigante evento político internacional...Tenho alunos que participam da política, seja através de Ongs, ou mesmo mais diretamente em partidos. Sou confiante na competência e na energia dos mais jovens. Talvez, enquanto sociedade, o problema é que tenhamos preferido dar atenção exatamente aos "jovens que nada querem com a hora do Brasil" , só para fazer referência a um outro ditado tirado do senso comum...
ELENILSON – A jornalista (e atriz competentíssima) acredita mesmo em alguma possibilidade da criação de uma obra de arte totalmente abstrata, que se constitua como uma linguagem fora da história? As suas falas na entrevista (Radio Metrópole) tentam alcançar, em sua base e em suas buscas, esse abandono à referência histórica?
Jussilene Santana – Não entendi a pergunta exatamente. Como fazer teatro abstrato? O fora da história a que você se refere diz respeito ao tecnicismo? Eu acredito que o teatro é um poderoso caminho para, metaforicamente, se explicitar as questões deste mundo. E um poderoso jogo de espelhos, que nos ajuda a compreender o mundo "real".
ELENILSON – A globalização da economia aumentou o que, embora impropriamente, se tem denominado com o aumento da exclusão social. Porque alguns jornalistas aqui na Bahia não gostam de tecer comentários sobre desníveis sociais? Será que seria muito feio escrever sobre pobreza na capital do axé?
Jussilene Santana – Mais uma vez tenho necessidade de saber a que programas e/ou jornalistas você se refere exatamente, para além das generalizações... O jornalismo popular baiano nos últimos dois anos viu crescer enormemente o filão "jornalismo" com programas que falam SOBRETUDO de pobreza, da situação dos pobres da capital, com o agravante de explorar emocionalmente o depoimento dos mesmos indivíduos.
ELENILSON – Todo mundo já sabe que dinheiro não está exatamente sobrando nos Estados Unidos. Obama vai assumir um país com uma dívida de mais de 10 trilhões de dólares e um déficit orçamentário de 1 trilhão de dólares projetado para 2009, incluindo na conta o fundo de salvamento dos bancos. Sua campanha eleitoral durou quase dois anos, e um ponto que nunca deixou de ser mencionado nos discursos do democrata foi a reforma do sistema público de saúde. Obama prometeu cobertura universal aos mais de 300 milhões de americanos. Já presidente eleito, anunciou um programa de investimentos em obras de infra-estrutura para reanimar a economia. O capital político está garantido pelo menos nos dois primeiros anos do governo, pois os democratas têm o controle das duas casas do Congresso. A senhora acha que história, entretanto, será bem diferente quando chegar à hora de desembolsar os recursos para esses dois projetos grandiosos?
Jussilene Santana – Não tenho competência em economia para argumentar sobre este assunto... E "dar pitaco" sobre tudo não acho que seja muito produtivo para nossa área.
ELENILSON – Já aqui no Brasil, ora, o que há de bom e de ruim na capital federal é nada menos que o produto da exportação de todos os estados do país, de todos os eleitores brasileiros. O que a senhora acha que Brasília tem de nós, como cidadãos e eleitores? Será que "eles" são realmente o reflexo do que somos?
Jussilene Santana – Você já foi à Brasília? Eu tive duas vezes, muito rapidamente, e também não acho que seja para mim claro sua pergunta... A probabilidade de sermos genéricos é grande... O que você está chamando de eles? Os políticos? Todos? Enfim, vivemos num sistema que elege diretamente nossos representantes... O cidadão brasileiro não costuma acompanhar o seu voto, seu eleito...
ELENILSON – Outro dia fiquei muito surpreso com as colocações na rádio da jornalista Malu Fontes em defesa da educação e dos professores (*coisa que ela não costuma muito fazer) – até andei achando que a Malu tivesse uma postura elitista com relação ao assunto. De qualquer modo, minhas experiências em sala de aula mostraram que o silêncio do professor facilita novas ocorrências desse tipo de atitude, reforçando inadvertidamente a legitimidade de procedimentos preconceituosos e discriminatórios no espaço escolar e, a partir deste, para outros âmbitos sociais. O que você poderia ponderar com relação a falta de respeito ao professor neste país? (*Eu já desisti da sala de aula (tanto como aluno quanto como professor).
Jussilene Santana – Quando? Bom, quanto a mim, não desisti da sala de aula. Nem como professora, muito menos como aluna. Continuo estudando muito no doutorado e graças a Deus tenho inteligentes e guerreiros mestres.
ELENILSON – Parece ser da natureza da televisão cobrir mal tudo aquilo que está fora dos grandes centros. Como a senhora analisa não só os telejornais, mas a programação das redes de TVs no Brasil?
Jussilene Santana – Acredito que esta pergunta tenha sido já respondida quando afirmo que a sedimentação do público é uma tendência crescente.
ELENILSON – Jussilene, tem um comentarista político que eu gosto muito chamado Dick Morris – ele foi o marqueteiro que ajudou a levar o Bill Clinton de um Estado desimportante para a Presidência dos Estados Unidos, foi também reconhecido como excelente estrategista e considerado o "homem mais influente do País" pelas Newsweek e Time, mas foi forçado a abandonar a Casa Branca depois que se tornou público que permitia a uma prostituta escutar suas conversas como Bill. Tem uma frase do Morris que eu acho muito intrigante: "As ideologias estão mortas". Tenho medo dessa frase. O que você acha disso, pois muitas coisas que você escreve são muito parecidas com as dele?
Jussilene Santana – Que coisas exatamente eu escrevi que se aproxima do que ele diz?
ELENILSON – No Brasil, os livros se transformaram em moeda de rápida circulação. As editoras criam novidades a cada mês para alimentar sua própria sobrevivência. Raramente relançam seus livros essenciais, que parecem não vender. Estaria neste fato a origem do surgimento de escritores como Chico Buarque? Chico teria se tornado moeda rápida e segura?
Jussilene Santana – O que você quer dizer quando afirma que os " livros se transformam em moeda de rápida circulação"? A venda de livros no Brasil é uma via crucis... É muito difícil, o autor não recebe quase nada, a base é receber apenas 10% do valor do livro... O resto fica entre livraria, editora, comerciantes, impostos... De um livro que custa R$ 30, apenas 10% para o autor (cerca de R$ 3,00) é muito pouco. Considerando que foi ele que fez a pesquisa e de fato organizou a argumentação. Não sei se entendi o que você quer dizer, mas a publicidade de livros também é muito cara e rara, daí investir em nomes consagrados seja uma saída... nem por isso deve ser desestimulante para quem tem o que dizer.
ELENILSON – A senhora já ganhou vários prêmios (*entre eles o Prêmio Braskem de Melhor Atriz de 2004, na Bahia, pelo desempenho no espetáculo "Budro"). Mesmo assim, porque ainda é difícil fazer cultura nesse Estado? Pois parece que só o Carlinhos Brow consegue patrocínio.
Jussilene Santana – Bom, meu livro foi patrocinado pelo Fundo de Cultura do Estado da Bahia... Se não fosse este aporte, não conseguiria pagar todos os custos e teria que vende-lo por R$ 70 ou R$ 100,00 para pagar minhas dividas com impressão... O valor de 70,00 foi diagnosticado no projeto da Secretaria de Cultura e com certeza se tornaria impraticável sem o apoio do Estado.
ELENILSON – O que seria exatamente o "Teatro na Imprensa Baiana do Século XX", já que esse foi o tema do seu livro (*com selo da editora Vento Leste)?
Jussilene Santana – Eu analiso o surgimento do teatro como temática nos jornais A Tarde e Diário de Noticias.
ELENILSON – A senhora disse, em entrevista, que "muito se fala da influência do cinema e da música baianos para o Brasil, mas o que o teatro baiano legou nesse período também é de altíssima qualidade e foi até agora miseravelmente estudado", coisa que eu concordo plenamente. Mas, num país analfabeto, como valorizar o teatro já que a população não tem acesso nem a educação?
Jussilene Santana – O teatro, enquanto linguagem, tem autonomia poética suficiente para instaurar comunicação com qualquer tipo de
público. O que acontece é que a barreira surge não só para o teatro, quanto para o cinema, a musica, a TV, que se pretende mais substantiva – que exige um pouco mais de nossa atenção.
ELENILSON – O que seria "a superficialidade do Brasil profundo", além dos projetos mais "ambiciosos" do jornalismo da Rede Globo: a Caravana do Jornal Nacional, BBB e aquela coisa que eles chamaram de série Desejos do Brasil, que tão bem você criticou em suas crônicas? E o que temos para o futuro? Novelas?
Jussilene Santana – Em que crônicas? Você não está me confundindo com outra jornalista?
ELENILSON – Então, vamos mudar de assunto! No divertidíssimo livro "Nova York é Aqui" o Nelson Motta escreveu um comentário sobre o livro "The Kiss" da romancista Kathryn Harrison que narrou sua trágica e dolorosa relação amorosa e sexual com o seu próprio pai, dos 20 aos 24 anos. Esse livro de Harrison provocou escândalo e polêmica e teve críticas arrasadoras e elogiosas. Segundo Motta, não foi só a polêmica sobre o conteúdo do livro que impulsionou as vendas, mas a sua autora que, hoje com 50 anos, mesmo com uma respeitável carreira acadêmica e literária é ainda uma belíssima mulher, loura, naturalmente. O texto de Motta diz que foi por causa disso (dela ser linda) que acabou desfrutando de espaço privilegiado nos jornais, revistas e nos talk-shows das TVs. Que para se promover um livro o autor tem que ser "midiagênico", isto é, que fotografe bem, fale bem, que entenda sobre tudo, que iluda – como Hollywood. Motta termina o texto como uma pergunta: "se essa autora fosse uma mocréia afro-americana de óculos fundo-de-garrafa toda essa promoção teria acontecido?" Então, eu queria que você analisasse isso, pois parece que ele está absolutamente certo. Prova disso é o sucesso editorial da Bruna Sufistinha.
Jussilene Santana – O próprio Nelson Motta nega a "tese", não? Afinal, por que ele ganha tanta projeção na mídia com seus livros se ele "não é uma belíssima mulher, loura, midiagenico" (para não dizer que ele é feio, o que seria uma grosseria de poucos). Ele ganha projeção na mídia pelo conteúdo também, não?
ELENILSON – Outro dia li que segundo o Ferreira Gullar, o João Cabral de Melo Neto é "um poeta que se refugiou na linguagem, mas reinicia a cada momento a tarefa de reaver o mundo perdido; já os concretistas se refugiaram na palavra, mas a tomaram como a 'verdadeira realidade', como fetiche." (In: "Indagações de Hoje". p. 180). A senhora concorda com essa observação que o Gullar faz do Concretismo? O jornalismo é em parte concretista também?
Jussilene Santana – O trecho que você destaca de Ferreira Gullar não nos ajuda muito a compreender o jornalismo... Por que fazer a aproximação? Em que sentido?
ELENILSON – Cruéis são as tardes nas TVs brasileiras. Pior que novela, pior que "programas femininos", pior que qualquer "Aqui e Agora" – que seria absolutamente "light" na selva de baixarias que é a TV atualmente. Outro dia fiquei chocado (e o pior que ainda me choco com essas coisas) quando assistindo a um desses lixos onde, num auditório nervoso, três genros que comeram as sogras e depois voltaram para as esposas que os perdoaram, e, naturalmente, as sogras comidas ou comedoras, todos sentadinhos lado a lado, respondendo perguntas bobas do apresentador e do auditório. E claro, o pau comendo. O que a Jussilene acha desses programas?
Jussilene Santana – Seja como jornalista, como artista, ou como espectadora, prefiro os formatos/produtos que respeitem a minha inteligência.
ELENILSON – Já larguei o meu curso por não ter paciência de aturar aquelas aulas chatas, cheias de professores estrelas, com colegas adolescentes sem cérebros e deslumbrados e, principalmente, porque o curso não estava me acrescentando nada. A senhora acha mesmo que os cursos de jornalismo na Bahia preparam direito o estudante para atuar como um bom jornalista?
Jussilene Santana – Há cursos e cursos, há alunos e alunos... Existem 11 cursos de jornalismo no estado, entre capital e interior, e não conheço, não trabalhei em todos... Sei que o mercado vem se concentrando apenas em Salvador, quando os outros 416 municípios da Bahia carecem de profissionais capacitados.
ELENILSON – Como a senhora analisa a cena cultural na Bahia?
Jussilene Santana – Há muito talento, mas carece de estrutura. O mercado não é coeso.
ELENILSON – Seu livro está muito caro!
Jussilene Santana – Elenilson, infelizmente, os custos do livro que me foram cobrados também foram caros.... Doarei o máximo que puder para bibliotecas publicas da capital, interior e de todas as capitais do Brasil que eu visitar durante a divulgação... É o máximo que posso fazer para ser coerente com a minha necessidade de colocar o trabalho no centro da discussão.

A atriz/escritora autografou seu livro no último dia 5 de fevereiro, na Livraria LDM, na Piedade. No livro, que tem o selo da editora Vento Leste, ela analisa o teatro como temática na imprensa baiana e as mudanças que ocorreram tanto no exercício do teatro, quanto na cobertura jornalística entre os anos de 1956 a 1961.
foto 4: Bahia Vitrine; foto do livro: Lucymar Soares;
e demais fotos: divulgação

AULA DE PORTUGUÊS DO LULA (republicando)

Infelizmente vivemos num Brasil onde o presidente prefere ficar de cama, enquanto pessoas morrem em acidentes aéreos ou bebem leite com água oxigenada. E o presidente de repouso, de olhos fechados, de barriga pra cima, depois de sofrer mais uma cirurgia cosmética, diz nada saber. Sobre os mortos do acidente, ele se calou. Ele se escondeu. Assim como se calou e se escondeu quando foi vaiado nos Jogos do Pan ou quando a polícia invade os morros e periferias para matar, ou quando o tráfico adota nossos jovens. Então, pode-se argumentar que o nosso presidente é melhor calado do que falando. Porém, como presidente ele daria um excelente professor de português de cursinho. Aproveite e confira agora uma das suas “impressionantes” aulas-show.

charge: Jornal da Paraíba/Li Por Ai

sábado, 14 de fevereiro de 2009

THE BEST OF LITERATURA CLANDESTINA

“Um homem decide depois de setenta anos que ele vai para lá para destrancar a porta, enquanto aqueles ao redor dele criticam e dormem. E através de um fractal em um muro quebrado, eu te vejo, meu amigo, e toco seu rosto de novo. Milagres acontecerão ao tropeçarmos...“ Bom, esse trecho é uma tradução da musica “Crazy“ gravada originalmente pelo Seal, mas que recentemente ganhou uma versão mais modernosa da Alanis. E, tudo isso, porque enfim, chegamos às 20.000 visitas na LITERATURA CLANDESTINA. 20.000 acessos. 20.000 leituras. 20.000 leitores entre o período de julho de 2008 até a presente data. Gostaria de dividir essa minha alegria com vocês e pedir para voltarem sempre! Segue abaixo o ranking dos melhores textos...

>>> Textos mais polêmicos:
1º Lugar - SER ESTUDANTE EM SALVADOR É...
2º Lugar -
OLIMPÍADAS 2008 – A HIPOCRISIA DAS IMAGENS.
3º Lugar - OLIMPÍADAS 2008 – IMAGENS QUE VALEM MAIS DO QUE 1000 PALAVRAS.
4º Lugar -
VOU GOVERNAR COM A CABEÇA E NÃO COM O CU!
5º Lugar -
A AGONIA DE UM F.D.P.
6º Lugar -
DIA DA CONSCIÊNCIA NEGRA: A ABOLIÇÃO QUE AINDA NÃO VEIO.
7º Lugar -
A CÚPULA (DO PERFEITO IDIOTA) DA AMÉRICA LATINA.
8º Lugar -
ALEXANDRE GARCIA FALA SOBRE O DESASTRE DE SANTA CATARINA.
9º Lugar -
OS 40 ANOS DO AI-5.
10º Lugar -
ATÉ QUE PONTO VAI A CAPACIDADE HUMANA DE TIRAR PROVEITO DA MISÉRIA ALHEIA?

>>> Textos mais comentados:
1º Lugar - O ADEUS AO BUDA NAGÔ.
2º Lugar -
OLIMPÍADAS 2008 - E SE O HITLER FOSSE CHEFE DA SELEÇÃO BRASILEIRA NO LUGAR DE DUNGA?
3º Lugar - SALVE OBAMA BLACK!
4º Lugar -
DESDENTADOS E SUPERDENTADOS
5º Lugar -
MADONNA, 50 ANOS (Happy Birthday).
6º Lugar -
7 DE SETEMBRO NA REPÚBLICA DOS GRAMPOS.
7º Lugar -
JUSTIÇA BRASILEIRA: CEGA, SURDA, MUDA E PATÉTICA!
8º Lugar -
ELENILSON É CITADO NO JORNAL A TARDE.
9º Lugar -
EU CHOREI COM SARAMAGO.
10º Lugar -
A (IN)SANIDADE DO NATAL.

>>> Textos que eu gostei muito de ter escrito:
1º Lugar - O HOMEM INFELIZ.
2º Lugar -
ENTREVISTA COM O ESCRITOR ELENILSON NASCIMENTO.
3º Lugar -
FREEDOM 2008.
4º Lugar -
ENTREVISTA COM O CANTOR MÁRCIO MELLO.
5º Lugar -
O ESTERIÓTIPADO (E DIVERTIDO) Ó PAÍ, Ó.
6º Lugar -
OBA... ELA JÁ ESTÁ ENTRE NÓS!!!
7º Lugar -
O PACIENTE STEVE.
8º Lugar -
MINHA VIDA NA TELA DO CINEMA.
9º Lugar -
QUER SE DIVERTIR EM SALVADOR? ENTÃO PAGUE, E MUITO CARO!
10º Lugar -
CONFISSÕES DE UMA GROUPIE.

>>> Textos mais lidos no portal Recanto das Letras:
1º Lugar - ELES E EU – MEMÓRIAS DE RONALDO BÔSCOLI com 2.412 leituras.
2º Lugar -
MAYSA, TUDO O QUE A GLOBO NÃO MOSTOU com 718 leituras.
3º Lugar -
QUEM ESCREVEU A BÍBLIA? com 379 leituras.
4º Lugar -
A VIDA SEXUAL DOS ÍDOLOS DE HOLLYWOOD com 333 leituras.
5º Lugar -
A CIDADE DO SOL com 271 leituras.
6º Lugar -
QUEIMADA VIVA com 266 leituras.
7º Lugar -
O SEGREDO DE BROKEBACK MOUNTAIN com 216 leituras.
8º Lugar -
O CAÇADOR DE PIPAS com 204 leituras.
9º Lugar -
A ARTE DE ESCREVER com 197 leituras.
10º Lugar -
CAPITÃES DA AREIA com 186 leituras.
fonte: Recanto das Letras

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2009

ENTRE CLICHÊS E CANONÊS (Carta a um Jovem Ditador)

“Não consigo enxergar as questões de todos os ângulos, não sou tão minucioso e imparcial, não racionalizo as coisas, simplesmente coloco à luz (ou escuridão) de um desespero ideológico, de uma impaciência e intolerância, pois ainda não aprendi a ser amoroso e compassivo...”
Por Elenilson Nascimento

Eu não tenho nada a dizer a um público de jovens dispostos a ouvir sobre mídia (*leia-se Rede Globo e seus programas de quinta), poder (*leia-se Lula e seus “amiguinhos” na hora do recreio no Congresso), linguagem (*leia-se o novo Acordo Ortográfico), música (*leia-se o novo fenômeno do pagode baiano da última semana) e educação (*ups, isso aí eu não tenho mais o que escrever). Eu não tenho nada que devesse dizer, pois eu passei dez anos da minha vida me prostituindo em escolas e faculdades em Salvador, servindo à perversidade destas instituições chamadas de educacionais e, não bastasse isso, desaprendendo o muito pouco do que um dia eu aprendi.
Não se trata de arrependimento – e antes que alguém (*que normalmente não me conhece) venha pra cá dizer que só vivo reclamando – aceito esse período de “merda” na minha vida como quem foi acometido por uma doença grave que me custou a passar, por uma espécie de cegueira temporária, daquela do “Ensaio Sobre a Cegueira” de Saramago, ou um tipo qualquer de febre marcada por longos momentos de delírio. Uma doença? Sim, doença. Dessas que só me resta, pois, este protesto módico, esta mea-culpa ridícula, pelo destino que se arma contra mim e que fui incapaz e incompetente o suficiente para ver.
Mostrar aqui na LC apenas o meu autoflagelo – o meu castigo imposto -, a mesma sensação de devastação de quando eu ainda era menino e me obrigavam a me afastar das lajes das casas para empinar arraia, e das “pículas” com outras crianças na rua porque eu estava doente, causando-me a pior sensação que eu poderia sentir. A mesma que me acometeu um dia depois de formado, onde eu me perguntava: “E agora?”
Se eu fosse um bom cristão, falaria aos jovens de hoje: “Meu chapa, eu fui um professor, o mesmo que puta e imoral, nada tenho de importante a dizer a pessoas como vocês”. Mas como não sou um cara bomzinho, muito menos cristão, digo então que sou uma pessoa sem sabedoria alguma, que nada tem, portanto, a falar. Mídia não é educação, imprensa não ensina nada a ninguém, a atual música popular não é padrão para nada, a língua portuguesa (*avacalhada por essas novas Normas Ortográficas) não deve inspirar ninguém a nada porque tudo isso é uma grande mentira.
Quem sabe oferecer uma biografia de Freud (*com aquela cara de tarado naquela foto com o charuto) antes de se ler um jornal ou uma revista, antes de se assistir a um telejornal na Globo ou a um anúncio de propaganda de Carnaval em Salvador seria uma solução. Não se deve ler a imprensa sem antes conhecer o que se escreveu sobre ela. Não se deve falar mal de Elenilson antes de conversar com ele. Somente assim pode-se entender a natureza do simulacro, da manipulação e da mentira.
Com o universo de vaidade, futilidade e culto a personalidade que é o da mídia (*leia-se os BBBs da vida – perdemos definitivamente o Pedro Bial), só resta ao espectador-leitor armar-se com ferramentas de conhecimento, com uma postura política, com atitude anticonsumo (*eu já quebrei todos os meus cartões de crédito) que puna a publicidade nociva. Mas como eu sei que todas essas coisas são consideradas clichês por essa juventude cada vez ais imbecil, então eu lavo as minhas mãos...
A ditadura de hoje em dia é bem diferente daquela dos anos de chumbo. A ditadura, tipo cubana, vai mandar você cortar cana até você morrer torrado no sol quente. A ditadura daqui é do tipo do projeto Nazareno: poupança solidária na Caixa se você ganha salário xis, projeto do PAC, casas populares feitas com cuspe, bolsa família com salário mínimo, cesta básica com produtos de péssima qualidade e por aí vai. Enquanto em Cuba, Fidel mandava matar todo mundo, aqui se fabricam universidades a distância para alienar os já alienados, além disso, o Lula há pouco tempo disse que o “hermano” é um símbolo – até anotei essa pérola na minha agenda.
Na Indonésia, por exemplo, um político que rouba uma nota de dinheiro público tem um elefante colocado para estraçalhar com a sua cabeça. Aqui nessa terra de “merda”, o cara rouba descaradamente durante décadas e ainda tem Castelo da Cinderela para jogar bingo. Mas o que eu poderia dizer a esses jovens que vivem me “clicando”? Bom, talvez eu ainda tenha alguma esperançazinha escondida que eu nem ouse confessar – mínima que seja.
Não sei se o Carnaval 2009 será o da crise ou o do Obama. Mas se a “Mudança do Garcia” fizesse eleições, com certeza eu meteria pedras no Lula e votaria no Obama por conta da habilidade que o homem tem com a caneta na mão, rara nestes políticos f.d.p. A confiança que o mundo deposita nos EUA e no Obama hoje não vale mais que um dólar furado. A cadeia destrutiva e sistêmica que ali se armou – baseada num esquema inconseqüente de alavancagens de créditos sem fim – levará anos e mais alguns trilhões de dólares para ser ordenada. Com uma canetada, no 1º dia de trabalho, o cara mandou fechar a prisão de Guantánamo, aberta por Bush, em 2002, para fazer bobagem. Dia seguinte, Obama declarou, caneta em riste, que a carreira da tortura dos EUA estava encerrada, demonstrando que sabe para que serve o Poder. Com “P” maiúsculo. E, a partir daí, não parou mais de mandar ver com a sua caneta. Pois bem. Enquanto o Lula morre de amores pelo ditador Fidel e o espírito pop de Che, prefiro admirar gente como o Obama. Talvez ele seja o verdadeiro exemplo para essa juventude carente de bons exemplos – mesmo que a imprensa esteja catando podres do cara para vender em revistas e jornais.
Mas talvez o Jack Sparrow seja um exemplo melhor. Mas como Darwin matou Deus, talvez o Obama mate a minha relutância em não acreditar em gangues de jovens alienados (*chamados também de universitários) ou num possível Messias viciado em heroína vendido pelas igrejas.

P.S. Esse texto é dedicado ao Paulo Fernando que vive me acusando de “não conseguir enxergar as questões de todos os ângulos, de não ser tão minucioso e imparcial quanto ele, de não racionaliza as coisas, de simplesmente coloca à luz (ou escuridão) de um desespero ideológico, de uma impaciência e intolerância, de ainda não ter aprendido a ser amoroso e compassivo, de não enxergar a realidade de uma forma mais profunda, de ter o mal de se opor às coisas, de agir pelas emoções, de taxa isso ou aquilo de ruim ou bom (*por isso que vive me chamando de "distribuidor de verdades")”. Além de tudo isso, ainda confessa que os “dogmáticos e disciplinadores rígidos lhe despertam um certo erotismo - já que ele se diz exatamente o oposto”. E continua o seu eufemismo dizendo que mesmo eu sendo “totalitário em minhas idéias e fechado em meu constante mal-humor, não perco a sensualidade e muito lhe agrada o intelecto temperado de libido”, onde o Paulo “deleita-se com ideias encharcadas de carne e gozo”. Mas como para ele, “um artista (*de verdade) usa tudo como alimento para suas criações, do mais obscuro ao mais belo, tudo vira arte e beleza”, parece que eu ainda não cheguei nesse patamar, então o Paulo ainda vai ter que esperar muito que eu abstraia e transcenda, pois prefiro as palavras da Helena Petrovna Blavatsky, que ele mesmo colocou no seu perfil do Orkut: "Está acostumado as injúrias e em contato diário com a calúnia; e encara a maledicência com um sorriso de silencioso desdém". Mesmo assim, o acho uma gracinha!