Por Elenilson Nascimento
Muito antes de publicar o meu primeiro livro “Palavras Faladas Fadadas Palavras” (editado de forma independente em 2002) eu já tinha ouvido vários outros autores dizerem que o romance e o conto estavam mortos, pois ninguém mais parece querer dar importância à literatura. Parece que a primeira morte teria sido anunciada ainda em 1880, não obstante, como todos sabem, Emily Dickinson, Proust, Joyce, Kafka, Henry James, o nosso Machado, Eça, Fernando Pessoa (um pouco mais tarde) – todos eles comentaram a mesma coisa.
Porém, o fato é que a televisão e as revistas de variedades engoliram a literatura como um novo “boom” orquestrado por muitos escritores e alguns editores. Mas o humor é uma tradição da inteligência (por isso a maioria de escritores no Brasil é tão séria). Uso a ironia e até o cinismo como forma de enfrentar a estupidez. Acho que a vida passou a ser puro treinamento. Os mamíferos mastigam lixo quase 24 horas por dia em frente à televisão e depois falam de liberdade, sensibilidade, justiça, amor e tantos outros conceitos que não compreendem.
Por isso mesmo, com orgulho, o meu novo livro “Memórias de um Herege Compulsivo” (*na gaveta desde 2006 e ignorado pela maioria das editoras), enfim, acaba de sair do forno, pois em meio a um elenco de desonestos, camuflados de honradez, de educadores falsificados, postulando o conhecimento dos incautos, precisamos mais do que nunca divulgar CULTURA. Mas precisamos de muita consciência política. Se não for assim, diremos que cada país tem os 509 anos que merece. “E a vida se encaminha para a sala dos martírios em que ninguém se revolta, se há um caos em sair deste script maldito e previsto por um diretor onipotente e onisciente que sabe que deixou para a humanidade a sua dor e a sua ira, já que o seu projeto de “amor” foi concebido e que acabou, por meio de nós, numa cruz, então todos pagamos porque pecamos em torno deste homem que sequer conhecemos – intuímos a sua presença porque o que nos resta, sem ela? O mal, mas o que é depois de tudo isso, o mal?”
“Memórias de um Herege Compulsivo” é um livro inquieto e demasiadamente desesperado. São 30 contos em 303 páginas. É o tipo de livro atípico. Alguns dos contos também já foram publicados em algumas antologias. Como é o caso de “Virgem por conveniência” (in Antologia de Contos de Autores Contemporâneos e também Contos Eróticos), “O homem que se espremia no traje da cor do mundo” (in Contos Fantásticos), “O dia em que a terra parou, no dia em que ele surtou”; “A perfeição é só uma ilusão de óptica” e também “O segredo” (todos os três, in Contos Perversos).
Outros, porém, são tão vivos que chegam a pulsar e pular das páginas, como é o caso de “Todo mundo amplia a paranóia que cria”, “Os ombros dos nossos escombros”, “Caos estreitos”, “Para onde olham os olhos de Terri Schiavo?” e “O menino que queria ser Waly Salomão” incluso na antologia Blog de Papel. Já o conto “O vendedor de picolé que amava Capitu” ganhou um prêmio de revelação em 2007 e já havia sido publicado através de um projeto cultural pela Petrobrás.
O conto “O aliciador de Melissas” (já publicado na antologia Contos de Bordel) já me causou problemas em colégios em que dei aulas, como também gerou a ira e um certo desconforto em alguns seres membros da irmandade do politicamente correto. “Coração à deriva (Incidente de percurso)”, anteriormente publicado em um jornal do Rio de Janeiro e na antologia Amor Sem Fronteiras, é uma troca de carícias com o que eu acredito ser literatura, assim como “A insustentável frieza de ser constipador da vida alheia no jardim das folhas secas”, publicado na antologia O Livro Negro dos Vampiros.Outros contos são usados para que eu possa me comunicar com o maior número possível de leitores, como é o caso de “Até não mais se ouvir falar de flores”, “Manifesto defensivo e contraditório”, “O inferno de todos nós”, “Uma história hiperbólica” e “O amor está no ar: terno, terrível e urgente” que foi anteriormente publicado na antologia O Tempo Não Apaga.
O conto “Oxente” é uma prestação de serviço aos leitores. Nem a mim, nem à posteridade ou aos críticos, mas tão somente aos leitores, em especial, aos leitores baianos: “Malditas letras que me pariram e que, ainda assim, não deixaram que as entrelinhas de uma propaganda da Coca-Cola barreassem e condicionassem o seu líquido preto a fundamentalidade da água tônica sem gás na Costa do Sauípe, como numa bagaceira de quinta. De toda forma, vou seguindo em frente e rezando no adro da Igreja da Conceição com aquelas frases escalafobéticas das missas dos domingos, só pra depois ter que arriar um barro num banheiro químico qualquer e limpar o traseiro com uma nota desvalorizada de real.”

Já em “Um escritor de sangue coagulado” manifesto a minha vergonha, como crítico contumaz, da política e da cultura brasileira. “As pessoas têm dificuldade de me situar politicamente. Minha matriz é de esquerda. Sempre fui um social-democrata. Mas a estupidez endêmica da esquerda desse país de “merda” me irrita. Os esquerdistas vão muito atrás do politicamente correto, que é conservador e vai contra a liberdade individual”.
Em “A teus pés” é uma linda história de amor entre uma garota normal e um marginal. Clichê talvez, mas ficou linda. Em “28 de dezembro” é um conto que usa elementos reais, tendo como pano de fundo a morte de Cássia Eller. Os “Cego num cubículo de pavões”, “O Zé do burro só queria a Bettie Page de presente de Natal” e “Liberal literário libertino libertário” finalizam o livro, mas não acaba a história desse que aqui escreve, pois talvez, agora, seja realmente o começo.
E exatamente como escrevi na apresentação do livro: “O motivo pelo qual Deus me escolheu para escrever é porque sou um louco que, por vezes, eu mesmo acho que não existo. Pertenço apenas ao meu mundo. Vivo muito do meu tempo em estudos de rostos cotidianos ou de atitudes mecanizadas da vida, sem, no entanto, jogá-los no universo das palavras ou conselhos alheatoriamente. Guardo para mim mesmo o que julgo ser o correto. Refugio-me no esconderijo da plena consciência, no castelo da memória em que as paredes avançam incansáveis, mas onde só eu habito. Neste sumiço de vislumbres, aspirações e desventuras que é a morte anunciada da literatura, à vista da história, da vida, sob olhar neutro dos coveiros, eis aqui um homem que ainda desconhece o que é a vida. E foi exatamente por isso que Ele me escolheu e disse: “FAÇA-SE A ESCRITA DE VERVE MALDITA”. E eu fiquei aqui com aquilo piscando.” Portanto, compre o livro e divirtam-se! (“MEMÓRIAS DE UM HEREGE COMPULSIVO”, de Elenilson Nascimento, 303 págs, Rio de Janeiro, 2009 – Clube dos Autores)
Vídeo-promo produzido por Daniel Matos para o meu novo livro "Memórias de um Herege Compulsivo".
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fotos: divulgação





2 comentários:
Elenilson, quanto tempo! Lembra de mim?
Finalmente estou ressucitando o Estante Mágica... fui visitar velhos amigos e descobri esse novo blog, que já adicionei à lista. Vi tuas novas realizações e te desejo muito sucesso, tanto nas empreitadas solo como nas antologias. Você merece, guerreiro!
Beijão!
Elenilson, parábens. Livro absolutamente insano.
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