terça-feira, 30 de junho de 2009

ENTREVISTA COM O POETA PORTUGUÊS GASPAR SILVA

“De perfil fico aprumado, demasiado alinhado, feito múmia paralítica. Prefiro ser visto de frente, dar a cara galhardamente e enfrentar o que isso implica” (G.S.)
Alfredo de Morais, de Feira de Santana-BA, que além de poeta, psicólogo, sargento da Polícia Militar do Estado da Bahia, ator, escritor, dramaturgo e artista plástico, hoje atua nas áreas de projetos e melhoramento da Policia Militar e na área de educação no projeto do PEAS (*Programa de Educação Afetivo Sexual) da Arcellor Mital, capacitando professores da rede pública, sendo também professor de vários cursos em faculdades e universidades da cidade de Feira de Santana, entrevista o poeta, pintor, músico e compositor português Gaspar Silva. Gaspar nasceu na cidade do Porto – Portugal, tem vários prêmios em festivais da canção, colaboração em várias peças de teatro na qualidade de autor musical e também é empresário ligado à indústria hoteleira. Tanto Morais quanto Silva fazem parte da antologia “Poemas de Mil Compassos” (no prelo) da Coleção Literatura Clandestina/2009.
Alfredo de Morais – Gaspar é um prazer fazer uma entrevista com um artista tão completo como você. Considero o artista uma antena para o mundo, como se este fosse a parabólica dos sentidos, aquele que capta as respostas das perguntas não feitas. A partir do princípio que cada um tem sua dor e sente o mundo de uma forma própria, como você considera sua arte e qual sua fonte dentro deste universo artístico?
Gaspar Silva – O prazer é todo meu, caro Alfredo de Morais. Desde criança que me inte
resso muito pelas artes. Sou um autodidata nato e com exceção da música que sempre levei muito a sério, todas as outras vertentes ocorrem por impulsos, isto é, umas vezes pinto durante algum tempo, outras escrevo, depois componho, mas o que faço com uma certa regularidade é música. Ultimamente tenho escrito algumas peças para guitarra (vocês chamam de violão), e esta forma saltitante de produzir talvez tenha a ver com o fato de eu ser um tanto ao quanto inconstante e viver em busca de novos desafios, inspirado sempre no quotidiano e nas coisas que vão acontecendo à minha volta.
Alfredo de Morais – A Europa é o berço de diversas formas de arte, mas, sem dúvida, muitos artistas atuais vem beber nas fontes doces do Brasil. Você já foi ou é influenciado por algum músico brasileiro? Qual o estilo de música que você gosta de trabalhar?
Gaspar Silva – As minhas influências vão desde a música anglo-saxônica, passando pelo jazz, blues, bossa nova, etc, mas tenho uma admiração muito especial por Chico Buarque, Tom Jobim e Ivan Lins.
No caso do Chico, acho que é mesmo adoração, esse aí é para mim, no que diz respeito à música popular, o maior compositor vivo do mundo. O ano passado assisti emocionado a um show dele aqui no Porto, foi simplesmente inesquecível, o homem é um gênio. Quanto ao estilo de música que mais gosto de trabalhar, aí torna-se complicado, porque estou habituado a fazer de tudo um pouco, nestes últimos tempos estou muito virado para os instrumentais.
“Peguei em alguns poemas, letras de músicas minhas e alguns textos que tenho feito ao longo dos tempos e resolvi imprimi-los e fazer um livro completamente artesanal. Deu-me um gozo incrível passar as sucessivas etapas da encadernação. Estou muito contente por ter conseguido. Aí está a foto de um exemplar único.”
Alfredo de Morais – Em 23 e 24 de junho se comemora o São João do Porto onde, não por acaso, coincide com a festa junina daqui. Neste evento podemos destacar as sardinhadas, os manjericos com as respectivas quadras sanjoaninas, o alho-porro, as marteladas e os bailaricos de freguesia Na nossa festa se destacam as canjicas, os quentões, as quadrilhas de São João e o forró. Como você definiria essa ligação cultural entre Brasil e Portugal? E qual o impacto em suas obras desta proximidade?
Gaspar Silva – A noite de São João é a mais tradicional festa da cidade do Porto. Novos e velhos saem para a rua e concentram-se essencialmente nas margens do Rio Douro junto à Ponte D. Luís. A partir das 21 horas começa a engrossar aquele mar de gente que entre as marteladas, sardinhas, bifanas e muita cerveja, vão ganhando posição para o espetáculo da noite, os fogos de artifício, que é um dos melhores do mundo e chega há durar quarenta minutos. Mas não é só aí que se festeja, acontecem bailaricos e petiscadas por tudo quanto é bairro nas redondezas. Tanto quanto sei, foram os portugueses que introduziram no Nordeste do Brasil as festas juninas, embora se festejem também em vários outros países na Europa. A não ser o fato de ter tocado durante muitos anos nas noitadas de São João nunca tive nada a ver, em termos criativos, com esses festejos, tive sim, com a composição de várias marchas para os desfiles que acontecem normalmente uma semana antes, onde cada freguesia do conselho se faz representar por uma rusga, com enfeites, carros alegóricos, bailarinos e uma banda musical. Percorrem várias artérias da cidade, pejadas de gente a assistir e terminam num local onde se apresentam perante um júri que depois de avaliá-las divulga as primeiras três do ano.
Alfredo de Morais – Em 2001 o Porto foi a capital européia da Cultura, de lá pra cá, o que mudou no panorama das artes na sua cidade?
Gaspar Silva – 2001 foi um ano muito rico em termos culturais. Da música e dança. Ao teatro, às artes plásticas, arquitetura e literatura, etc. Tudo aconteceu num ritmo verdadeiramente alucinante e com propostas de altíssima qualidade. Foram criadas imensas estruturas para o evento que, entretanto, criaram raízes e hoje são de uma grande importância para a cultura da cidade. A mais relevante no meu entender foi à concretização da Casa da Música. Ícone importante do Porto e região norte que embora não tenha sido concluída naquele ano conforme o projetado, mas demorou ainda mais quatro anos, mas é sem dúvida de extrema importância para a cultura desta zona.
Alfredo de Morais – Tripas à moda do Porto ou bacalhau à Gomes de Sá?
Gaspar Silva – São dois pratos muito apreciados pelos portugueses, prefiro as tripas à moda do Porto.
Alfredo de Morais – Você é hoteleiro em uma das cidades mais visitadas da Europa, como conciliar essas duas paixões, ou melhor, as suas várias paixões, artes e negócios?
Gaspar Silva – É uma questão de organização. Há um tempo para tudo e como quem corre por gosto não cansa, lá vou conseguindo o tempo necessário para darem largas (*asas) à imaginação.


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Poemas do Gaspar recitados por Zélia Santos
Blogs do Gaspar: http://becodasartes.blogspot.com/
http://opaisdatanga.blogspot.com/
http://gasparsilva.blogspot.com/

fonte do painel a óleo e “Descanso"
(acrílico sobre tela prensada): Gaspar Silva

4 comentários:

RG disse...

Gostei do trabalho artesanal. Estou com um projeto semelhante em vias de acontecer. O poeta está de parabéns por ter produzido um livro como nos velhos tempos com cara de livro dos novos tempos. Foi o que mais me impressionou neste artigo. RG

Nuno disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Nuno disse...

Gaspar Silva é sem duvida um excelente músico e um poeta que me surpreendeu pela agilidade e sentimento que coloca nos seu poemas, tenho o grande previlégio de o conhecer pessoalmente e de o ter como um dos poucos amigos que me vanglorio de possuir, e garanto-vos caros leitores que as melhores qualidades do artista em causa não se conseguem identificar em nenhuma destas vertentes artisticas, mas sim na sua postura perante os outros.

Zélia disse...

Muito Bom ... és um fantástico artista multifacetado!!!
O Livro,feito por ti ... UAU...adorei.
Parabéns!!
Beijinho
Zélia