Por Elenilson Nascimen
O trabalho para quem faz literatura sempre é árduo e difícil, como em qualquer outra atividade ligada às artes – principalmente num país que não valoriza e não respeita nada, onde até o presidente foi capaz de dizer que não faz parte de sua rotina ler jornais ou revistas, nem acompanhar o noticiário de sites e blogs na internet. Veja bem, em entrevista à excelente revista “Piauí”, o presidente justificou sua infeliz aversão à prática: “Porque tenho problema de azia e a imprensa brasileira tem um comportamento histórico em relação a mim”, disse. Porém, ele afirmou que sua chegada ao Palácio do Planalto é “produto direto da liberdade de imprensa”. Hum, é esse tipo de coisa que também me dá azia, aliás, dor de barriga!
Mas falar de literatura no país do pagode é um exercício de resistência permanente. Conseguimos alguns avanços, é claro, com alguns mínimos projetos autônomos, como a própria “9ª Bienal do Livro da Bahia” e lançamentos de livros em bares, restaurantes e espaços culturais. Atualmente, nós escritores autônomos, não temos nenhum apoio governamental, pelo contrário, somos sempre esquecidos, pois a inteligência incomoda os plantonistas do “phoder”, que não querem um povo que pense e questione. Eles querem uma sociedade de robôs, lacaios e escravos, que votem sempre sem questionar, nunca digam não e que de preferência não LEIAM NADA e que só tenham como diversão as novelas, os desenhos, filmes de guerra, de costumes e que mantenham o estabelecido e o Status Quo... Mas como disse Gilberto Gil, numa composição de 1982: “Uma lata existe para conter algo, mas quando o poeta diz: "Lata" pode estar querendo dizer o incontível. Uma meta existe para ser um alvo, mas quando o poeta diz: "Meta" pode estar querendo dizer o inatingível. Por isso, não se meta a exigir do poeta que determine o conteúdo em sua lata. Na lata do poeta tudo nada cabe, pois ao poeta cabe fazer com que na lata venha caber: O incabível!” P... que lindo!
Mas quase ninguém quer saber de escritores, poetas, livros e bibliotecas... Acham melhor fomentar os comandos dos Schwazernegers e Rambos da vida... Vide Bósnia, Kosovo, Afeganistão, Iraque, Rio de Janeiro e Salvador... Ler, pensar é muito perigoso... Enquanto isso os cadernos culturais dos jornais estão abarrotados de colunas sociais, palavras cruzadas, horóscopos, e$oterismos, fofocas, comentários de novelas e outras besteiras do tipo... Como alguns dizem: poesia não dá dinheiro... Não tem gancho para a notícia... a não ser que o sujeito tenha um empresário-editor por trás, dólares a rodo para publicidade... Ou seja, sem dinheiro nada feito... Entretanto, nós resistiremos e sobreviveremos... pois os poetas são as antenas da raça... subsisto... insisto... persisto...
Talvez por isso mesmo que ontem, 25/04, a realidade e a ficção foi o assunto central do debate no “Café Literário” da “9ª Bienal do Livro da Bahia”. Um baiano e uma carioca. Ambos escritores e jornalistas. Ruy Espinheira Filho e Heloisa Seixas (foto 3, ao lado) se encontraram no “Café Literário” para tentar responder ao público o que assombra mais: realidade ou ficção?
Heloisa é romancista, contista e cronista, tem nove livros de ficção publicados por diversas editoras (*três de seus livros – “Pente de Vênus” (contos), “A Porta” (romance) e “Pérolas Absolutas” (romance) – já foram finalistas do Prêmio Jabuti). Para Seixas, tanto a ficção quanto a realidade têm o poder de assombrar, mas a maior assombração está na mistura de uma com a outra. "Pois aí você não sabe mais onde está o limite", explica.
Já o Ruy Espinheira (foto 4, ao lado), que nasceu em Salvador e é professor de Literatura Brasileira, diz que o texto não pertence mais ao escritor depois que é publicado. Pertence ao leitor, que vai decidir pelas emoções mais fortes que ele é capaz de causar. "Quando recomendo a leitura de "Grande Sertão Veredas" aos meus alunos, por exemplo, muitos se queixam que não conseguem avançar. Aí eu digo: não se deixe vencer pela primeira palavra desconhecida; continue lendo que daqui a pouco a história te pega", ensina.
Sobre o processo de criação, ambos concordam que ele nunca é o mesmo, mas que é sempre misterioso. Heloísa dá o exemplo do que ocorreu com um dos seus títulos
Mas, ontem, um jovem escritor roubou todas as atenções do público e imprensa local. Com uma bonita história de superação e conquista, o bate papo com Gilvã Mendes (foto 1, no alto desse post) foi realizado na “Arena Jovem Oi” e coordenado pelo excelente jornalista/escritor Gilberto Dimenstein ( foto 5, ao lado - *sou fã do Dimenstein e até já fui suspenso de um colégio onde dei aulas por ter trabalhado com um livro dele).

Contudo, voltando ao Gilvã, ele é a síntese de todas as marginalidades possíveis: negro, pobre e nordestino, é vítima de paralisia cerebral e anda em uma cadeira de rodas. Mas o jovem não teve sua inteligência "Eu já tinha colocado um ponto final no livro, quando acordei no dia seguinte e escrevi mais um capítulo. Era como se as duas personagens tivessem algo mais a dizer"comprometida. O menino, que encontrou na literatura seu "parque de diversões e trabalho", aprendeu a ler e a escrever e agora está lançando o seu primeiro livro "Queria brincar de mudar meu destino".
A obra narra a história de amor entre um jovem e a poesia. Dimenstein disse que "o trabalho do Gilvã é grandioso, não por sua deficiência, mas porque o texto dele tem uma narrativa sensacional, e que a “Bienal da Bahia” está prestando um grande serviço para a sociedade ao oferecer espaço para que as pessoas conheçam esse autor, que tem um futuro brilhante".
Durante o bate papo, amigos e professores deram depoimentos sobre a trajetória do jovem, que cursa faculdade de Letras e afirma que ainda quer conquistar muito mais. "Quero fazer minha cadeira de rodas voar".
Enquanto isso, o Lula anda dizendo que ainda não se preocupa com a forma como é retratado (*um retardado?), por confiar na “inteligência de quem assina uma revista ou um jornal, de quem vê televisão e escuta rádio”. Para o presidente, os cidadãos têm hoje maior capacidade de interpretar os fatos. O motivo, segundo ele, é o avanço tecnológico, que trouxe mais pluralidade de fontes de informação. Ele só não sabe que é muito bom abrir um livro de vez em quando, nem se for – no caso dele – para se abanar. Seria muito bom se ele conhecesse a história do Gilvã. Mas como disse Cazuza: "Enquanto houver burguesia, não vai haver Poesia...”
fotos: Via Press Comunicação





4 comentários:
Elenilson, q texto lindo!
Perfect!
"Enquanto houver burguesia, não vai haver Poesia...”
já disse tudo.
fui a bienal, mas esparava alguns livros mais baratos. Tinham grandes livrarias e não vi espaço com stands para os novos autores divulgarem suas obras( me corija se estivar errada, pq so fui no ultimo dia). mas foi bem interessante. abraços
caro Elenilson,
òtima matéria e ótimo blog.
Parabéns
Gilberto Dimenstein
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