sexta-feira, 24 de abril de 2009

ELISA LUCINDA É MINHA MUSA!

“Mas enquanto as grandes editoras e bienais tem lucros astronômicos com a sua política editorial elitista e meramente comercial, bons autores amargam o anonimato e sofrem as agruras da falta de apoio e incentivo...”
Por Elenilson Nascimento
“O Deus da parecença que nos costura em igualdade, que nos papel-carboniza em sentimento, que nos pluraliza, que nos banaliza por baixo e por dentro... Foi este Deus que deu destino aos meus versos... Foi Ele quem arrancou deles a roupa de indivíduo e deu-lhes outra de indivíduo, ainda maior, embora mais justa...” A falsa idéia de que poesia é algo chato vem principalmente da educação mentirosa ensinada nas escolas - desvinculada de qualquer realidade e do prazer de ler e de estudar. Professores não sabem ensinar as suas próprias matérias – e "conversar" com outros professores com o intuito de trocar informações, nem se fala. Se aquele quadro “Soletrando”, no programa de Luciano Huck, se fosse com professores vocês saberiam do que eu estou tentando dizer.
Metodologias ultrapassadas, aulas descomprometidas com a formação intelectual e raros acessos aos bens culturais, tanto por alunos quanto por professores, são alguns dos fatores que contribuem para o afastamento da poesia das escolas e da vida das pessoas. É certo que há aqueles que gostam mais do gênero e outros não. Contudo, todos deveriam experimentar, pelo menos uma vez na vida antes de morrer, certamente há prazeres a serem descobertos... Eu, por exemplo, que nunca tive estímulos e exemplos dentro da minha própria família, nunca vou me esquecer da imagem de um catador de papel em Salvador sentado no chão da Avenida Sete de Setembro lendo Fernando Pessoa. Ele balançava a cabeça toda vez que discordava de um verso, e depois falava de cor o poema “O Infante”: “Deus quer, o homem sonha, a obra nasce. Deus quis que a terra fosse toda uma, que o mar unisse, já não separasse. Sagrou-te, e foste desvendando a espuma...” E naquele dia recebi muito mais ensinamento em uma simples manhã, do que em toda a minha vida mofando inultilmente nos bancos de faculdades e também em casa.
A poesia que abre esse post é de uma mulher que eu adoro, e posso até dizer que ela é também outra experiência de encontro e renovação. Desde o seu poema “Aviso da lua que menstrua”, que me foi apresentado por Aninha Franco no Theatro XVIII, no Pelourinho (Salvador-BA), passei a admirar o trabalho da poeta, sua linguagem e seu compromisso com a transformação. Seu nome: Elisa Lucinda (foto 1).
Para quem não conhece a poesia de Elisa, entre os seus livros publicados estão (1994), (2003) e “O semelhante”“Eu te amo e suas estréias”“A fúria da beleza” (2006). Além de poeta, Elisa é atriz famosa (*uma das poucas que tem conteúdo na Globo) e há alguns anos esta nos palcos fazendo dezenas de pessoas rirem e se emocionarem com sua performance e jeito de recitar os seus poemas. Os poemas de Elisa são sobre diversos assuntos, onde ela trata de conflitos familiares, problemas sociais entre outros. E, por isso mesmo, me tornei seu fã de carteirinha - desse que grita quando ela aparece na TV ou em qualquer outro lugar. Além da Madonna, Elisa é a única mulher que eu ainda quero pedir autógrafos e levar para minha cama – com todo respeito viu!
Um dos seus poemas que eu mais gosto é o “Só de Sacanagem”, que para quem já leu sabe das verdades que ela diz, mas para quem ainda não conhece é uma boa oportunidade de conhecer o poema e o jeito dela de se expressar. É bem diferente de tudo que você já viu. “Meu coração está aos pulos! Quantas vezes minha esperança será posta à prova? Por quantas provas terá ela que passar? Tudo isso que está aí no ar, malas, cuecas que voam entupidas de dinheiro, do meu dinheiro, que reservo para educar os meninos mais pobres que eu, para cuidar gratuitamente da saúde deles e dos seus pais, esse dinheiro viaja na bagagem da impunidade e eu não posso mais.”
Por isso, numa conversa bem informal entre dois escritores e um público embevecido diante de tanta cumplicidade, o poeta Rubem Alves (foto 2) e a maravilhosa Elisa Lucinda expuseram suas ideias sobre poesia e literatura no auditório do Centro de Convenções, dentro da programação do “Café Literário” da 9ª Bienal do Livro da Bahia. E a poesia como ferramenta de educação foi uma das questões colocadas em pauta. "A forma como a poesia é apresentada ao indivíduo é fundamental: se não for de uma maneira convidativa, pode traumatizá-lo", afirmou Elisa, cujo comentário fez Rubem lembrar da primeira poesia que o marcou: "Cântico negro", de José Régio. O texto foi também o primeiro poema que Elisa aprendeu. E, quem esteve no bate-papo, pôde ouvi-lo na voz da poeta linda.
No decorrer da conversa, Rubem falou sobre a música que existe na poesia e enfatizou: "A experiência poética é um ritual antropofágico. O verbo se transforma em alimento no momento em que devoramos a obra". Em seguida, recitou "Rei do Mar", de Cecília Meireles. Esse e muitos outros poemas foram recitados no decorrer da calorosa noite, sob fortes aplausos da numerosa platéia. E entre um texto e outro, a dupla dinâmica contou histórias presentes no livro "A poesia do encontro", idealizada pelo jornalista e cronista da “Folha de S. Paulo”, Gilberto Dimenstein – autor do excelente livro “Meninas da Noite”.
"A poesia do encontro" foi lançado em primeira mão no mercado baiano durante a Bienal. Mas é preciso uma mudança radical na área editorial no Brasil e urge campanhas de leitura, de valorização do livro, de combate ao analfabetismo e de barateamento do custo do papel para que poesias seja produto básico. Quer ver um exemplo prático? Pergunte a um jovem o que ele faria com R$ 9,90, se compraria um CD nas Americanas de pagode ou um livro no sebo? Nem preciso dizer a resposta.
Mas enquanto as grandes editoras e bienais tem lucros astronômicos com a sua política editorial elitista e meramente comercial, bons autores amargam o anonimato e sofrem as agruras da falta de apoio e incentivo do governo e do mercado editorial. Alguns mais persistentes conseguem de quando em vez edições por meio de concursos literários, muitas vezes, de cartas marcadas e pouca credibilidade. O autor precisa além de muito talento, muita sorte, bom marketing e de algumas pitadas de magia... Abaixo, mais imagens do bate-papo com Elisa e Rubem Alves no “Café Literário” e um vídeo da Ana Carolina recitando “Só de Sacanagem”:


fotos: Via Press Comunicação

2 comentários:

Mel Redi disse...

BRAVOOO!!! Grande abraço, Mel

Bruno disse...

Elisa Lucinda é simplesmente maravilhosa ...