segunda-feira, 30 de março de 2009

CRÔNICA DA MORTE CONSUMADA (trechos)

“A poética da morte é a da igualdade dos mortos. Nenhuma divergência quanto a nacionalidade, sexo, idade ou crença. Os mortos são absolutamente iguais como deveriam ser os vivos se a vida não os envaidecesse tanto, fazendo da distinção o valor maior...”
Por Gey Espinheira*
Dedicamos um dia à morte, não à morte de todos os dias que o profissionalismo das funerárias e dos coveiros enfrenta, dos mortos avulsos e uns tantos anônimos, mas à morte de todos, universal. O lugar da morte é o cemitério. Em um mesmo cemitério persiste a hierarquia dos mortos quando em vida. Os mortos jamais são iguais, ainda que ao pó retornados, são o que foram em vida na expressão de suas representações na arquitetura de seus túmulos. Mas há os cemitérios para os diferentes, ou seja, cemitérios de ricos e cemitérios de pobres; mas para além dessa diferenciação, em um mesmo cemitério, como em uma cidade, há lugares centrais e periféricos.
No tempo em que se morria - e aqui quero dizer a morte trágica - desenganado pelos médicos, ou de modo abrupto por ataque cardíaco, morrer do coração, como se dizia; ou ainda de acidente, a morte tinha um significado especial. Era morte esperada ou surpreendente a desorganizar a família, os amigos, os vizinhos, enfim, a casa inteira, uma rua ou mesmo uma cidade. Morte sentida, inconsolável, “esconsolável consolatrix consoadíssima...”.
Hoje, a morte é clínica. A tecnologia vai às últimas conseqüências, invade pelos orifícios do corpo com sondas, tubos; perfura o corpo e o invade e máquinas, superórgãos, mantêm a vitalidade enquanto se espera que o corpo doente ou agredido se recupere. No caso, a morte é clínica. O organismo não respondeu, não suportou. O corpo, também máquina sujeita a reparações, e eis que a mecânica já não dá conta da vida. Morte sentida, sim, mas morte racional, burocrática, explicada nos mínimos detalhes. Morte sem mistério.
O ataque do coração é agora o enfarto. O enfarto não tem a mesma dramaticidade do ataque, do arrebentar do coração vítima de um ataque, do acometimento de um mal súbito. Súbito, abrupto! Ser atacado! Sofrer um ataque! E eis que, indefeso e desavisado, sobreveio o ataque do coração. Quão diferente de saber que teve um enfarto, um enfarte. Há mais dignidade quando se morre de um ataque do coração do que de um enfarto.
A medicina banalizou a morte e a fez calculável, previsível, de tal modo que quem morre é responsável por sua própria morte e deve ser recriminado por isso. Não se cuidou! Não ia ao médico! Etc. As mortes surpresa, as mortes homeopáticas de doenças incuráveis... A “dama branca”: “Por uma noite de muito frio/A Dama Branca levou meu pai” (2). Como eram heróicas as mortes de antigamente! Morria-se em casa, na própria cama, como em um verso de Lorca. A morte era um ritual da vida e não um exercício médico. “Tudo é milagre/Tudo, menos a morte. /Bendita a morte, que é o fim de todos os milagres”. Mas não é da morte que queremos falar, mas do lugar dos mortos, os cemitérios. (...) Infelizes os mortos sem sepultura, invisíveis e silenciosos. Os que têm pátria, semeados em lugar conhecido e seguro, estão sempre à espera e sempre nos dizem coisas quando estamos com vontade de morrer.
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* No último dia 17/03, faleceu em Salvador (BA) o sempre excelente sociólogo, professor, escritor e uma das poucas “cabeças pensantes” do Brasil, o Gey Espinheira. Natural de Poções, no interior da Bahia, Carlos Geraldo D’Andrea Espinheira, 62 anos, era graduado em Ciências Sociais pela Universidade Federal da Bahia (UFBA), onde também se tornou mestre e doutor em sociologia pela Universidade de São Paulo. Atualmente era pesquisador do Centro de Recursos Humanos e professor adjunto da UFBA.
Exemplo de intelectual (*um dos poucos que tenho como referência), que ia além das pesquisas teóricas e que se preocupava em intervir para melhorar a vida da sociedade, era também muito requisitado pelos movimentos sociais para falar, principalmente da questão do combate à violência.
Nos últimos meses, atuou também como consultor do “Planejamento Estratégico Participativo de Ação do Centro de Formação do Projeto Axé”. Porém, ele estava internado há 10 dias com câncer de esôfago em um quarto no Hospital da Bahia, em Salvador. O câncer apareceu há quatro anos e Gey chegou a passar por uma cirurgia. Mas, em 2007, o câncer apareceu novamente. Gey não acreditava que o câncer fosse curado e em seus últimos momentos de vida foi sedado porque os médicos já consideravam a situação irreversível. Durante todo o período em que conviveu com o câncer, Gey não interrompeu seus trabalhos como pesquisador do Centro de Recursos Humanos da UFBA e professor de sociologia das emoções no curso de pós-graduação da UFBA. No ano passado eu perguntei a ele o porquê da UFBA ter se tornado uma “ilha cercada de mato por todos os lado e cheia de pessoas arrogantes”. E a sua resposta: “Eu ainda não sei!”.
(Elenilson Nascimento)

foto 1: Antônio Queirós/Correio
foto 2: Fernando Amorim/A Tarde

foto 3: Projeto Axé

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