quarta-feira, 18 de fevereiro de 2009

FILHA DE BIBLIOTECÁRIA

“Eu gosto de livros. Definitivamente não é uma relação apenas com o conteúdo. Gosto tanto de livros que mal tenho tempo para lê-los.”
Por Juliana Cunha*
Sendo filha de bibliotecária, eu jamais abro um livro em um ângulo superior a 90º. Jamais. Sendo descendente de visigodos, meu chefe dobra os livros inteiramente, até que a brochura ceda como uma civilização em queda. Como uma pobre Grécia diante dos romanos: frágil e superior. O irmão dele chega a dilacerar livros para que fiquem mais fáceis de serem transportados. Dói em minha alma de filha de bibliotecária e trabalho para manter os meus livros longe de suas mãos imundas e os livros deles sob a tutela calorosa de minha estante.
A justificativa comum dos destroçadores de livros é que, mesmo dobrado, amassadinho e com manchinhas de Nescau, o livro continua podendo ser lido. Ok. Digamos que a sua filha depois de arranhada continue servindo para os propósitos básicos. Mas está arranhada. Digamos que a sua 2.55 com o couro manchado continue guardando seus pertences. Mas está manchada.
Eu não transporto livros sem proteção. Deixá-los soltos na mochila amassa as bordas, então, sempre coloco em saquinhos, de preferência de pano, daqueles que embalam sapatos. Na minha casa há vários livros que parecem ter acabado de sair da livraria. São os livros que somente eu li, sem emprestar a ninguém e sem comprar em sebos. Livrarias também merecem restrições. Eu nunca peço um livro ao vendedor. Eu quero que ele aponte onde estão todos os exemplares daquele livro, porque eu evidentemente preciso escolher o que estiver com menos sinais de transporte e de terem sido folheados por ostrogodos. Se o vendedor me der o mínimo de espaço, peço para ir ao estoque.
Eu gosto de livros. Definitivamente não é uma relação apenas com o conteúdo. Gosto tanto de livros que mal tenho tempo para lê-los. Minha mãe também ama livros, mas ela não é fisicamente apegadas a eles. Ela e suas amigas bibliotecárias, incluindo a minha madrinha, acham que sou egoísta por manter meia dúzia de exemplares comigo.
Quando era mais nova conseguiram até me convencer a doar os livros que já tinha lido, o que me fez chegar a essa idade com pouquíssimos livros. Para meu total desgosto, tenho pouco mais de cem volumes. Quando era adolescente, tinha muito pouco dinheiro em meu poder (R$ 50 mensais) e minha mãe não via grande sentido em me dar livros se eu podia pegar emprestado da biblioteca. Era sempre difícil convencê-la de que eu queria um livro específico que não tinha na biblioteca, um lançamento. “Mas você por acaso leu todos os livros da biblioteca? Por que precisa comprar esse? Daqui a um tempo ele também estará na biblioteca e você vai ler”. Realmente não era pão-durismo ou pobreza excessiva (embora também fosse pobreza, afinal, acorda aí, bibliotecárias são pobres), ela simplesmente achava um consumismo e um imediatismo bestas. Além disso, a biblioteca tinha os clássicos e pra que diabos uma adolescente precisaria ler um lançamento antes de ler Macbeth? Desta forma, com uns onze anos, comecei a aplicar um golpe nas livrarias que perdurou até os dezessete anos. Todo mês eu comprava um livro de até R$ 30, lia e trocava por outro livro, depois por outro, depois por outro. Até que acabava o mês e o prazo para troca. Então, chegava outra mesada e eu fazia a mesma coisa. A nota fiscal funcionava como um cartão da biblioteca com validade de um mês. Cartão de uma biblioteca com todos os lançamentos.
Confesso com algum embaraço que guardava a nota fiscal em um porta-documentos, como se de fato fosse um cartão. Paralelamente a isso havia o velho golpe de ler livros inteiros no sofá da livraria, mas esse a humanidade inteira aplica. E tinha também o golpe burro, o golpe em mim mesma, que é quando queria muito desesperadamente um livro e, então, vendia três ou quatro em um sebo para conseguir comprá-lo. Em geral essa burrice era cometida por causa de séries ou porque eu ficava paralisada em um único autor. Foi assim com “As Brumas de Avalon”, “A Bicicleta Azul”, “Senhor dos Anéis” e os demais do Tolkien, com os livros de Milan Kundera, Jostein Gaarder, John Fante e absolutamente foi assim com Harry Potter.
Lançamento de Harry Potter (*foto ao lado, o ator Daniel Radcliffe) envolvia Juliana louca em casa clamando por dinheiro para comprar na pré-venda, clamando por autorização para ir até a livraria quando o shopping ainda não estava aberto e lendo no carro com a lanterna de emergência que depois foi solicitada para seu uso natural (problemas mecânicos) durante uma viagem de São João e que, evidentemente, já não tinha pilhas.
Mas nem tudo é pesar nessa vida de filha/afilhada de bibliotecárias. Quando Rowling lançou "Quadribol através dos séculos", minha madrinha Hozana trabalhava em uma escola na Pituba e fez etiquetas com a mesma ameaça que Irma Pince, bibliotecária de Hogwarts, faz na primeira página do livro: "Se você remover folhas, rasgar, picar, vincar, dobrar, deformar, desfigurar, sujar, manchar, jogar, deixar cair ou de qualquer outra maneira danificar, maltratar ou demonstrar falta de respeito com este livro, sofrerá as piores consequências que eu puder lhe infligir". Hoje Hozana é chefe da biblioteca de São Lázaro, na UFBa, e volta e meia me salva a pele arrumando algum livro.
O livro que mais amo aqui em casa chama-se “Manual prático de bruxaria – Em onze lições”, de Malcolm Bird. Hoje ele é vendido a R$ 15 reais no Sebo do Messias, mas há treze anos atrás, quando eu o encontrei em uma dessas feiras de livros que as escolas organizavam (e onde as editoras davam golpes baixos nos pais), era caríssimo e tive que fazer muito beicinho para arrancá-lo dos meus pais. Hoje o "Manual Prático" fica na prateleira de cima da estante, com os livros caros e os presentes significativos, mas, por mim, bem que podia ficar em uma redoma de vidro blindado.

>>> E para aqueles que não gostam de ter o trabalho (ou o prazer) de ler, CLIQUE AQUI e ouça essa crônica da Juliana reclamando da falta de cuidado com os livros: 17/02/2009 - Juliana Cunha

* Juliana Cunha é jornalista na Rádio Metrópole (Salvador- BA), escreve no blog “Já Matei Por Menos” e se diz do tipo que “bate a porta de maneira teatral e depois interfona”. Contato: julianasilvacunha@gmail.com

imagem 1: Poetry Reading de Irene Shery; imagem 2: divulgação.
podcasts: Rádio Metrópole/BA

6 comentários:

Elenilson Nascimento disse...

Eu adorei esse texto. Alias, adoro a maneira como a Juliana escreve. Adoraria ter escrito algo assim, principalmente quando a madrinha Hozana/Irma Pince ameaça com uma vingança salamaligna: "Se você remover folhas, rasgar, picar, vincar, dobrar, deformar, desfigurar, sujar, manchar, jogar, deixar cair ou de qualquer outra maneira danificar, maltratar ou demonstrar falta de respeito com este livro, sofrerá as piores consequências que eu puder lhe infligir".
O mais engraçado de tudo foi que eu me vi fazendo as mesmas coisas que ela, menos com um livro aberto e lendo no carro com uma lanterna de emergência, pois eu prezo a minha visão. Eu também tenho o “Manual prático de bruxaria” que comprei por 10,00, mas prefiro os livros de Savater.
Obrigado Juliana pelo excelente texto.

Kauan disse...

Gostei muito desse texto aqui na Literatura Clandestina. Uma pena que o povo brasileiro nao de tanto valor aos livros.
Elenilson, eu vi vc no TCA no show de Mariene de Castro, mas fiquei com vergonha de falar com vc. Abraços do seu ex-aluno do Delta

Regina (TV Bahia) disse...

Adorei a foto do Daniel Radcliffe!!!

Eduardo F. Mendonça - DF disse...

Eu nao concordo muito com essa Juliana Cunha. Achei o texto demasiadamente pedante. Isso de dizer q o brasieliro nao ler nada e coisa de burguesia!

Varley disse...

Eu só comecei a emprestar livros pra poder ter com quem conversar, meus amigos não davam muita importância a leitura, daí hoje tenho poucos livros. Mas os que tenho são tratados com muito zelo.

Parabéns Juliana, também gosto da maneira como escreve.

Raquel - Rio Vermelho disse...

Essa tal de Juliana es pedante demais!