Por Elenilson Nascimento
Carnaval pra mim nunca teve tanta importância, aliás, nunca teve importância alguma. Significa ficar em casa sem ter nada pra ver ou fazer – significa extraviar-me. E se você não aguenta mais ouvir “tire o pé do chão, galera!” ou está cansado de chegar ao fim do mês com a carteira zerada, então fuja dessa muvuca de babacas.
A maior manifestação popular do planeta virou uma verdadeira mina de ouro. A cada ano, o Carnaval de Salvador, por exemplo, perde suas tradições, tornando-se uma festa para turista ver. Aliás, antes mesmo do Carnaval as festas populares em Salvador já vêm perdendo audiência. O que aconteceu esse ano na Festa de Iemanjá? Meia dúzia de gatos pingados jogando no mar perfumes de alfazema comprados na Cesta do Povo e flores de cemitérios!
Até o Arnaldo Jabor já escreveu que “o Brasil é um “big bang” e que só uma explosão vai salvar o país”. Pois bem. Ligar a televisão nesta época do ano gera um sentimento de total descrença no que se diz à evolução do nosso país. A falência, a derrubada de caducas “verdades” que há 509 anos chegaram por essas bandas de bananas, com Portugal da Contra-Reforma, da Inquisição, do Estado Burocrático e Patrimonialista, se perdura numa manifestação explicita de bundas sujas no Carnaval.
Quanto a mim, que já fiz poesias, e desfiz, que já fiz política, e desfiz, que já fiz peça de teatro, e desfiz, que já lecionei, e desfiz, que já “dei coça na miúda”, que já “estrangulei o pele-vermelha”, que já “pratiquei o vicio solitário”, que já “matei milhões de futuros seres humanos que poderiam nascer e que morreram ali na vala comum do papel higiênico ou no ralo do esgoto do banheiro”, e desfiz, que já fiquei louco, e desfiz, que já virei jornalista, sem carteira, e desfiz, que já publiquei livros, e desfiz, e que acabei virando uma "cabeça falante" na internet. Mas, agora, não sei o que sou mais. E para piorar, quando chega o Carnaval a coisa desengrena.
Nada muda! Mulheres seminuas (*ou totalmente) com corpos que já perderam as proporções femininas, cobertos com óleo, purpurina e lantejoulas de cores variadas. Homens sem pudores com as suas “coisas” praticamente na cara dos outros. E nos seus rostos e nos seus corpos podemos notar os sinais das mudanças que fizeram “pro Carnaval” – porque de janeiro até o dia tão esperado, todos lotam as academias e os “sequelados” que dispõem de uma melhor situação financeira, partem para métodos mais rápidos e caros.
Salvador já perdeu o espírito do Carnaval há muito tempo. E os camarotes contribuíram muito para esse fato, além, é claro, do aumento da violência na capital baiana. Mas muitos vão sair em defesa do que pode ser considerado um “negócio da China” com sotaque baiano. Preços de alguns camarotes: o famoso “Nana” patrocinado pela banda Chiclete com Banana – R$2.340 (fem) e R$ R$2.560 (mas); Skol Fest – R$1.250 (fem) e R$ 1.400 (mas); Ondina – R$1.490 (fem) e R$1.690 (mas) e por aí vai.
Antigamente, em Salvador, tínhamos vários concursos de fantasias, pouquíssimos blocos, não existia as cordas para separar os pagantes dos pipocas, e bastante espaço nas ruas. Nos anos 70, o hoje superlotado (*de ladrões) circuito Barra-Ondina não existia, os foliões usavam mortalhas e mascaras e as famílias colocavam bancos na Avenida Sete para assistir à festa.
A MUSA - Hoje, a cantora de axé mais famosa do Brasil tenta passar a imagem de que é “povão”. Em discurso parecido com o de político em campanha, Ivetinha vive dizendo em alto e bom som que gosta de tudo que é popular: pagode, arrocha, cobrador de ônibus, camêlos que vendem os seus CDs genéricos na Baixa dos Sapateiros e coisas do gênero. O contraditório de tudo isso é que ela esta bem longe de viver como “povão”. Sua “casinha”, por exemplo, não é no subúrbio, suas roupas não são da Avenida Sete, os preços dos ingressos dos seus shows, bloco e festas de Réveillons passam a quilômetros de distancia de serem populares. Ou seja, sua marca é fajuta! Recentemente, Ivetinha participou de uma entrevista coletiva no forte de Santo Antonio Além do Carmo para o Jornal Hoje. A cantora teve 30 minutos para a entrevista feita pelo jornalista Evaristo Costa, antes do próximo compromisso e de mais grana. Ao ser perguntada sobre o que fazer depois de uma entrevista coletiva que durou duas horas, Ivetinha respondeu sem rodeios que faz “xixi”. Se tem algum assunto que domine e só teve oportunidade de falar entre os amigos, ela respondeu que gosta de cinema, mas que não gosta de ler porque não se concentra. Então, Evaristo perguntou como a cantora faz para se informar sobre o que acontece no Brasil e no mundo, e ela respondeu: “Eu sou uma pessoa muito bem informada. As notícias mais breves e mais imediatas vêm muito rapidamente. Eu leio todos os jornais pela Internet, estou antenada com tudo”. Tá bom, senhora Dalila. Por isso que ela agora canta: “Ligeiro... Ligeiro... Ligeiro... Hem hem hem hem ô. Hem hem hem hem ô. Eu vi (vai levando). Esse povo é vip (vai levando). O futuro existe (vai levando)... Ninguém é triste...” Até parece! CLIQUE AQUI e assista a entrevista.
A INVEJOSA - Outra que merece um post desaforado aqui é a bostética da Cláudia Leitte (com dois “T”). A marca da “leiteira” é imitar. Não importa quem ou o quê – é uma necessidade vital. Desde o início da carreira (e até hoje), ela tenta, sem sucesso, imitar a voz de Ivete, o jeito de Ivete, as roupas de Ivete, as baixarias de Ivete, a risada de Ivete e até a bunda de Ivete. Mas, depois de parida, a Leitte não conseguiu controlar a mania de ser clone e dizem que até cirurgia plástica ela já fez (dias depois de ter dado a luz) para ficar gostosa e com as pernas idênticas de quem? De quem? De quem? Dou um doce pra quem adivinhar!
O PALHAÇO – Como o Durval Lellys, do grupo de axé Asa de Águia, não canta nada, o jeito foi encontrar uma maneira de criar uma marca para chamar atenção: usar fantasias bizarras. Elas servem para que os fãs fiquem tão impressionados (ou chocados) com a palhaçada sem graça que esqueçam de prestar atenção na voz de taquara rachada do cantor.
A INDECIDA – Daniela “chatinha” Mercury parece não ter decidido o que quer da vida. Sua marca é inovar, mas a cantora muda tanto que não da para definir um perfil. Ela não sabe de quer o cabelo cacheado ou liso, se canta axé, pop, tributo a Roberto Carlos, música de igreja ou música-de-santo, se gosta de homem ou de mulher, se coloca piano ou berimbau em cima do trio, ou, na mais absoluta falta do que fazer, criticar jornalistas.
O Sérgio Buarque de Hollanda escreveu em “Raízes do Brasil” que somente uma “revolução americana” (*não confundir com “norte-americana”) nos salvaria, com uma desconstituição do Estado patrimonialista ibérico e uma injeção de calvinismo em nossos estamentos (*que eu traduzo aqui como “estacionamentos” mentais) seculares. Quanto a mim, não aguento mais escutar sambas enredo de escolas nas cha
madas da Globo. Não pretendo ver a Carla “evangélica” Perez cobrindo o Carnaval da Bahia e cantando em cima do trio para Jesus. Não quero ver a cara do Nelson Rubens dizendo “Ok! Ok!” e anunciando o “Gala Gay 2009” com uma patética Monique Evans a tiracolo ou qualquer outra entrevistando Carolina Dieckmann em algum camarote da vida e perguntando o porque de ela ter deixado de lado a prancha de surfe de Suzana, a personagem que interpreta na péssima novela “Três Irmãs”, para dar um mergulho em sua porção Madonna, pois parece que a visita da popstar ao Brasil inspirou o fotógrafo e maquiador Fernando Torquatto a clicar Carolina em um universo inspirado no show “Sticky & Sweet" (foto ao lado).Não suporto mais ouvir dizer que a Ângela Bismarchi fez a 398.490.328.498.329ª cirurgia plástica e está virgem pela 54.562ª vez. Nesse Carnaval de “merda”, eu só quero beber a minha vodka com suco de maracujá e o meu vinho tinto que eu comprei por R$ 4,50 no Extra, em paz! Assistir a uns filmes no vídeo, terminar de ler “O Amante de Lady Chatterley” de Lawrence, baixar músicas pela internet, “comer” alguém rapidinho – ou voltar a “estrangular o pele-vermelha”, pois é mais seguro – e dormir bastante. É pedir demais minha gente?
Deixando o drama carnavalesco de lado, o post de hoje tem tudo a ver com esta data tãaao festiva e vai terminar com uma música que eu adoro do português Pedro Abrunhosa – que infelizmente quase ninguém conhece: “Felicidade não tem código de barras, nem os sonhos têm preço, nem desejo tem amarras. Os poetas não se vendem em plástico, nem um mundo sem prazer será fantástico. Os deuses não se fazem de esmola, liberdade não se aprende só na escola. Uma alma sem sexo não existe, como um louco sem loucura não resiste. Futuro não é chá de caridade, só o teu amor, por ser amor, é de verdade. Um muro por mais alto não separa, os que têm fome dos que têm a seara. (...) O crucifixo é da cor do cinescópio, heroína, cocaína, odor de ópio. A viz
inha estreou-se na TV, matou o marido sem saber porquê. A dor já se vende em vídeo-cassete, beatas masturbam-se por Internet. Sexo compra-se pelos jornais, videntes criam novos pecados mortais. Quarenta índios morreram hoje ao fim da tarde, só o teu amor, por ser amor, é de verdade.”P.S. Se puderem (e quiserem) baixem tudo do Abrunhosa! Mesmo que seja para guardar e retirar só no Carnaval do ano que vem, junto com aquela sua fantasia tosca que eu sei que você tem aí no maleiro do guarda-roupas ou então vá tentar achar a Amy Winehouse peladinha e drogada (foto ao lado) na praia mais próxima de sua casa.
fotos: divulgação
>>> Leia também: “O PAÍS DO CARNAVAL (... E DOS EXCLUÍDOS)”.





18 comentários:
Sonho de um Carnaval
Chico Buarque
Carnaval, desengano
Deixei a dor em casa me esperando
E brinquei e gritei e fui vestido de rei
Quarta-feira sempre desce o pano
Carnaval, desengano
Essa morena me deixou sonhando
Mão na mão, pé no chão
E hoje nem lembra não
Quarta-feira sempre desce o pano
Era uma canção, um só cordão
E uma vontade
De tomar a mão
De cada irmão pela cidade
No carnaval, esperança
Que gente longe viva na lembrança
Que gente triste possa entrar na dança
Que gente grande saiba ser criança
Vc gosta de carnaval? Eu detesto!?
Por que os desfiles só acontecem a noite e não durante o dia? Será que esse pessoal não sabe que tem pessoas que querem dormir durante a noite?
odeio tb e o pior q eles passam na frente do meu prédio, aquela multidão, fico apavorada com o barulho, meus gatos se escondem debaixo da cama, nos armários, é apavorante, deveria haver uma lei q proibisse carnaval perto de áreas residenciais, é uma falta de respeito!
É que detesto mesmo!
... mas este ano decidi mascarar-me de rica e vou passá-lo a Londres!
Pronto!
Odeio a frase, “É Carnaval, ninguém leva a mal” porque dá margem de manobra para a prática de maldades e parvoíces. Acaba por ser uma desculpa para fazer coisas que, de outro modo, seriam impossíveis de realizar.
Já não consigo ver aquelas reportagens sobre o Carnaval português, com intermináveis directos cheios de coisa nenhuma.
Algumas cidades portuguesas disputam a classificação do “Cárrrrenaváu máissssssseeee poorrrrrtuguêiissss dji...” ... perdão... o Carnaval mais português de Portugal. Carnaval esse que é festejado ao som do cd “Mamãe, mamãe, mamãe, eu quero...”, tocado 658 mil vezes, no espaço de quatro dias.
E aqueles grunhos, com a barba por fazer, que, ano após anos, se mascaram de “mulheres”, vestidos com meias de redes, com meias brancas (daquelas com as raquetes) por cima, sapatos de salto alto, uma micro-saia, um colete vermelho sem nada por baixo, a maquilhagem tão esborratada que parece que estiveram em cima duma carrinha de caixa aberta, a andar a 140 km/h, no meio da chuvada da década, sentados, de perna aberta em cima dos carros alegóricos, com uma média na mão, a gritarem frases tão profundas, como: SOMOS MUUIITAAAA MAAAAAAAAALUUUUUUUCOOOOOOOOOOOOOOOOS, UHHHHUHHUHHHHHHHHHHH.............................É assim o “Cárrrrenaváu poorrrrrtuguêiissss??? Puxá vidá, rapaissssssss......”
Excelente!
Elenilson, apoio incondicionalmente essa tua opinião! É o "carnavao" que temos. Estive agora no Altereco, e vi com cada uma....
Caro Elenilson, vc nem parece q es brasileiro. Q pobreza de espirito!
Não gosto de carnaval, não. Aquele contingente de pessoas atrás, no lado e em frente ao bloco de Ivete cantando: "Poeira (...)" levantando, literalmente, poeira de doenças. Sem considerar a festa popular que foi elitizada com os blocos e camarotes. Resumindo, carnaval não combina comigo.
Você pecou quando descreveu a forma que Daniela Mercury conduz a sua carreira, a marca de uma das maiores artistas do planeta é a INOVAÇÃO (Madonna).Observe com cuidado a cena da música baiana atualmente e vai perceber que ela consegue nos trazer coisas boas, sonoridades que vão além do batuque frenético do carnaval...
Eis que chegamos ao apogeu da alienação. Época em que nos embriagamos tanto que promovemos os mais trágicos desmandos(como se não bastassem os desmandos dos políticos e seus castelos de poder erguidos diariamente, graças a alienação e ingenuidade do povo mais carnavalesco que existe), promovemos ainda, as mais fatídicas barbáries, quando a mando da alegria alcoólica que nos move, pisamos fundo e matamos o semelhante indefeso, isso sem mencionar o estado alienante que nos domina, e faz com que nos transfiguremos em patéticos seres acéfalos.
Não culpo aqueles que fazem dessa festa alienante chamada carnaval, seu ganha pão, acabam sendo os que se dão bem nesse processo todo, afinal estão ricos graças a alienação alheia, culpados são os alienados que pensam que alegria é sinônimo de bebedeira, de violência.
Alegam alguns, que o carnaval serve como uma fuga da cruel realidade. Grande merda de alegação fajuta, aliás, a mesma dos que fogem para as drogas.
Caro Elenilson, até parece que o amigo não é brasileiro, afinal, segundo alguns, não gostar da festa profana, é perder a nacionalidade, é ser pobre de espírito. Então amigo, por que você não caí na folia, e saí no bloco dos Alienantes Alienados Alienáveis e recupera sua cidadania, e sua riqueza de espírito. Não se esqueça porém, que se for beber e dirigir, favor passar na funerária antes e tirar as medidas do paletó de madeira, e nem precisa se preocupar depois quando você atropelar algum Dr. fulano qualquer, ou uma criança, ou um pai ou mãe de família, é carnaval, e você é um cara rico de espírito e pode pagar pela alma de qualquer infeliz(aqui no Brasil é assim).
Amigo por favor não peque mais, nessa época de festa profana é proibido falar a verdade
Varley, com certeza. Por isso q vou ficar aqui “estrangulando o pele-vermelha”.
P.S. Caro M', me faça uma garapa viu!!!
Senhor Elenilson,por favor, poderia me explciar o que seria "matar milhões de futuros seres humanos que poderiam nascer e que morreram ali na vala comum do papel higiênico ou no ralo do esgoto do banheiro"?
Isso deve ser uma metafora, mas eu nao entendi.
100% apoiado... De festa, tem NADA. De bom, traz NADA. Carnaval significa promiscuidade, mau gosto e miséria intelectual e espiritual, tudo isso materializado em um ritual ridículo e bizarro. Há quem goste, é certo. E (mau) gosto, não se discute. Ignora-se...
P.S.: Por gentileza, entre em contato comigo, pelo email do Clave de Tudo. Poderemos trocar umas figurinhas.
Elenilson,
Você esqueceu de mencionar os blocos que saem no pós-carnaval. São eles: o bloco do CITOTEC, formado por aquelas foliãs fogosas que correm para o mercado negro mais ou menos no mês de abril. Afinal, elas precisam garantir os próximos carnavais sem filhos para ter que cuidar.
O BLoco do SPC/SERASA; estes nem precisamos dizer quem são.
O bloco "EU NÃO RECEBI O DINHEIRO DA CORDA".
O bloco dos degenerados, ébrios, espancados e assaltados que inferniza o HGE e os demais hospitais públicos.
O Bloco da massa de delinquentes que entope as delegacias e presídios já superlotados.
O bloco dos turistas idiotas que voltam para suas terras natais dizendo que o carnaval da bahia é uma maravilha.
E outro bloco não menor que o anterior, de turistas roubados e agredidos que prometem nunca mais voltar.
O bloco dos milionários que enriquecem com os blocos e camarotes, enchendo os bolsos de dinheiro. Vale salientar que em seguida eles vão embora daqui, só voltando no próximo ano para garantir mais uma vez sua fatia do bolo.
Caro senhor Paulo, esse bloco "EU NÃO RECEBI O DINHEIRO DA CORDA" eu conheço muito bem. Gostei DESSE teu comentario.
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