segunda-feira, 12 de janeiro de 2009

MAYSA, TUDO O QUE A GLOBO NÃO MOSTOU

“Por favor, não me pergunta nada, porra! Abre aquele armário e traz uma garrafa de gim, já!”
Por Elenilson Nascimento

Grande parte da intelectualidade brasileira continua torcendo o nariz para a televisão e seus produtos e é verdade que o retrato que ela apresenta do país é um tanto limitado, torto e embaçado. No entanto, dificilmente aponta-se outra janela de representação da realidade brasileira que mostre melhor, diariamente, e a tanta gente ao mesmo tempo, a quantas anda o Brasil (*ou como já foi o nosso país em outros tempos). Mesmo quando a televisão omite um fato, ao escancarar outro aparentemente em nada relacionado ao primeiro, dá ao telespectador que ainda não perdeu a vontade de interpretar o país um conjunto de pistas que valem por um tratado.
A vida da cantora Maysa, morta em 1977, por exemplo, chegou à TV na última semana e já caiu no gosto do público. Fora dos palcos, sua vida foi marcada por atitudes controversas, paixões, polêmicas, abuso de álcool, de moderadores de apetite e várias tentativas de suicídio. E esses escândalos, romances, brigas, sucessos e fracassos foram romanceados pelo autor Manoel Carlos e dirigidos por Jayme Monjardim, único filho da cantora. Contada pela primeira vez na TV, a vida de Maysa traz de volta não só a sua vida, mas todo o período musical das décadas de 50, 60 e 70 e seus personagens mais marcantes, como o jornalista e compositor Ronaldo Bôscoli.
A novata Larissa Maciel e André Matarazzo, neto de Maysa, em cena de "Maysa - Quando Fala o Coração" (foto ao lado) tentam resumir o sofrimento e a sensação de abandono em que a cantora sofreu: em uma rara visita ao internato, Maysa se depara com o filho pequeno doente e diz que não irá beijá-lo para não correr o risco de se resfriar e prejudicar sua voz. Monjardim, que diz nunca ter feito análise, contou ao jornal Folha de São Paulo como se manteve "congelado" ao rever – e dirigir – cenas tão dramáticas de seu passado.
Mas, segundo os biógrafos Luiz Carlos Maciel e Ângela Chaves na biografia “Eles e Eu – Memórias de Ronaldo Bôscoli”CLIQUE AQUI e leia a minha resenha – Maysa era uma “avalanche de pessoa”, porém, o biografado em questão diz que embora tenha se divertido muito às custas da cantora, eles passavam boa parte do tempo brigando feito cão e gato. Mesmo assim, Bôscoli admitiu que a tórrida paixão rendeu um excelente fruto: a tal gravação por Maysa de um disco ótimo, “O Barquinho”, com sete músicas dele, inclusive a canção título que era para ser da Nara Leão – que também foi “caso” do Bôscoli.
O mulherengo produtor (*que também foi casado com a Elis) confessa que a quantidade de álcool consumida por Maysa aumentava na mesma proporção em que crescia o seu sucesso. “E o engraçado é que, no início, foi isso que me fascinou. Senti uma grande identificação com o alcoolismo dela, porque minha mãe também bebia muito”. Bôscoli também diz que Maysa foi a única musa que recebeu uma canção com o seu nome – feita após um dos seus términos e voltas. “Com a Maysa, a sensação dolorosa pelo rompimento do meu noivado com a Nara (*Leão) foi literalmente afogada. Em álcool”. E segue: “Foi uma mulher que se entregou com uma voluptuosidade inteiramente encantadora e nova pra mim. E isso não apenas no plano sexual. (...) Maysa era uma cantora mais velha, experiente e muito, muito popular. Tinha o prestígio da Simone e Bethânia juntas”.
Bôscoli diz que o único problema – que, aliás, foi o que “baratinou” e matou Maysa – foi realmente a progressão do álcool. “De muita bebida, ela passou a bebida demais. Eu, que não era nem um pouco abstêmio ficava chocado”. E completa: “Penso que o alcoolismo de Maysa vinha de sérios problemas familiares. Ela pertencia a uma família de peso em Vitória, a família Figueira Monjardim. Foi educada num internato em São Paulo até os 18 anos e saiu de lá pra casar com um homem muito rico, o André Matarazzo, 25 anos mais velho que ela. A família do marido tinha um brasão que dizia “Honra, Fé, Trabalho” e logo Maysa percebeu o peso e a hipocrisia que era entrar para uma família dessas. O casamento cedo se deteriorou. Maysa me contou uma vez, arrasada, que desconfiava de um certo clima entre o marido e a mãe dela. (...) Não sei se isso é verdade. Mas de uma coisa estou certo: Maysa não era boba, não”. Bôscoli vai além e diz que desde muito jovem, o pai de Maysa, um fiscal da Receita, vivia chamando a filha para tomar uns tragos com ele, que era também um alcoólatra famoso em São Paulo (*a Globo mostrou isso?). O pai de Maysa, segundo Bôscoli, era muito admirado porque era capaz de tomar uns três porres por dia.
Mas quando o assunto é sobre o relacionamento Bôscoli/Maysa, o produtor confessa na lata que ela tinha obsessão em traí-lo. “Eu achava aquilo lamentável. Ela cometia umas coisas assim gratuitas, vulgares. Transava com o mundo inteiro, o que me agredia muito”. E numa das partes mais comprometedoras do livro, Bôscoli relata que algumas vezes tentou morar com Maysa, mas nunca dava certo. Numa vez, em São Paulo, ele diz que ainda não tinha noção de que ela fosse alcoólatra, quando a cantora teve uma crise terrível, e ele pensou que ela estivesse morrendo. E com o ar-refrigerado a mil no quarto, acordou totalmente suada, tremendo tanto que a cama sacudia. Mas ela disse: “Por favor, não me pergunta nada, porra! Abre aquele armário e traz uma garrafa de gim, já!”. Bôscoli diz que isso para ele foi uma porrada e que não conseguiu segurar a barra. Então, trouxe o gim, ela botou o gargalo pela boca, caía pelo lado, pelo peito e, como se estivesse gozando, fez um “ah!”, tamanho prazer que a bebida lhe trazia. Mas ainda, após algumas brigas em que Bôscoli pedia para que ela parasse de beber, Maysa usava uns artifícios só para enganar: “Eu vou parar de beber porque eu te amo”, dizia sempre.

Um outro caso degradante da Maysa, relatado no livro, foi uma vez em que saíram para jantar. Ela lindíssima, mais magra uns 15 litros – pois ela emagrecia em litros, porque não comia nada. E no jantar, beleza total. Só guaraná, Coca-Cola. Fez um discurso enorme, alegre e lindo. E lá pelas tantas, começou a ir sucessivamente ao banheiro. Três e quatro xixis e ela já estava bêbada. Tinha combinado com as camareiras pra botar uma garrafa de vodca no banheiro das mulheres. Esquema organizado. Ela bebia e voltava. Já estava cambaleando. Enrolando a voz, um horror. Bôscoli diz ter invadido o banheiro e a pego no flagra.
Bôscoli contou outros casos – como os que a Maysa gosta de passar trotes para o André Matarazzo e os que ela pegando o catálogo, escolhia uma rua bem no subúrbio de São Paulo e ligava. Ficava conversando horas com a pessoa do outro lado da linha, cantava e, por fim, combinava de se encontrar na porta da casa dela. Dava o endereço certo e tal. As pessoas vinham doidas para encontrar a “grande Maysa”. Aí ela não recebia ninguém, dizia para o porteiro que era tudo mentira daquelas pessoas e botava todo mundo pra correr. A biografia de Ronaldo Bôscoli é um emaranhado de situações onde a musa Maysa é descrita como uma garota-problema, dessas de filmes de Almodóvar. Problemas na Globo e com vários colegas de profissão fizeram com que a Maysa fosse, muitas vezes, boicotada. Mas, segundo Bôscoli, o caminho que ela escolheu foi a morte. Ela procurou, mas antes, quase se autodestruiu. “Mas Maysa, como pessoa, era uma figura maravilhosa. Generosa, bonita, culta, safíssima, inteligente, sensível. Durante o tempo em que mantivemos um caso, às vezes esporádico, porque ela encontrava seus novos namorados, voltava, me procurava depois, ia e vinha, mas acabava sempre me encontrando”, finalizou o Bôscoli. E ainda completa: “Certa vez, quando ela conheceu Elis e soube que nós íamos casar, ela falou com a cara bem sacana: Ronaldo, essa menina é nossa filha!”. Essa era a Maysa. A cantora morreu aos 40, em um acidente de carro na ponte Rio-Niterói.
Outra boa pedida, além de material de arquivo pessoal (cartas, diários, bilhetes etc.), a minissérie “Maysa - Quando Fala o Coração” tem como base de consulta a biografia de Lira Neto, “Maysa - Só Numa Multidão de Amores”. E na esteira da minissérie, outros dois livros sobre a cantora acabam de ser relançados: “Maysa” (edição independente, 202 págs., R$ 35), de José Roberto Santos Neves, e “Meu Mundo Caiu - A Bossa e a Fossa de Maysa”, de Eduardo Logullo (Novo Século Editora, 248 págs., R$ 29,90).


Enfim, Maysa teve uma (suposta) infância pobre, empresários gananciosos, maridos violentos, separações, escândalos, bebidas e muitas drogas. Todos esses ingredientes, de uma maneira ou de outra, parecem estar sempre associados às vidas de grandes estrelas, nacionais ou internacionais - basta ver as histórias de Billie Holyday, Ella Fitzgerald, Edith Piaf, Maria Callas, Tina Tuner, entre outras.
Mas, entre as brasileiras, a vida de qual delas renderia uma minissérie? Inspirada em uma entrevista de Manoel Carlos que revelou ter a vontade de levar para a TV as vidas de Ângela Maria e Dalva de Oliveira, a revista Época selecionou as trajetórias de nove importantes cantoras. Você concorda com essa lista? Quem mais mereceria virar ficção? CLIQUE AQUI e confira.

imagens: divulgação.

17 comentários:

edith disse...

parabens pela otma ideia revivendo MAYSA da qual ainda continuo admiradora pela mulher coragen mulher forte e sobretudo sabia ok queria gosto de pessoas determinadas.
gostaria de receber sim fotos e comentarios que se referi ao grande suscesso da mine serie
agaradecida por merecer suas consideraçoes.
grande abraço.

Renato disse...

Aqueles diálogos que são bem a cara das novelas dele de que tudo é lindo, tudo é fofo, Leblon, Rio de Janeiro, o Amor, aquela coisa toda que todo mundo tá cansado de saber.
Achei muito estranho já que se trata da Amy Winehouse do século 20, Maysa era a ***** louca daquela época...

Os atores que são ótimos, porém o cara que fez o marido dela, era sempre o mesmo ator, quer dizer quando ele tinha(na historia) mais ou menos 20 anos era o mesmo ator(com cara de 50). Gostei da atriz que faz a Maysa(Larissa Maciel).
O que acharam?

Ana Marques disse...

Obrigada pelo excelente texto Elenilson. Eu sei apenas um pouquinho da historia, por isso vou acompanhar a serie. Mas pelo pouco que sei era que usava muitas drogas, bebia muito e não estava nem aí pra ninguem.

José disse...

apesar de achar que a maysa vai pirar da batatinha nos proximos capitulos, tambem acho que vão romantizar tudo(manoel carlos vive em Alice no País das Maravilhas), tipo, não vão colocar muitos podres dela. E ainda mais, como você disse, a familia dela está envolvida na minisserie....
Mas tomara que nao fique mais uma Helena(mesmo que um pouco diferente).

FaBIO disse...

Era uma chaminé ambulante.

MARCOS disse...

Vi no orkut::

"Gente talvez voces não saibam mas vou contar uma fofoca das CPL da decada de 60! A MAYSA e a ELIS se odiavam! Quando elas se encontravam nas boates à noite elas se xingavam e jogavam coisas uma na outra!!

A MAYSA acusou publicamente a ELIS uma vez de ter botado droga no copo de whisky dela em um festival de música so pra ela apagar, não cantar bem e perder!! Ela chamou a imprensa e disse que a ELIS era uma MAU CARATER!!!

Já a ELIS dizia que a MAYSA tinha raiva dela porque o RONALDO BÔSCOLI (compositor de Bossa Nova) terminou com a MAYSA pra se casar com a ELIS! Mas o pior é que antes de ele começar a namorar a MAYSA ele era noivo da cantora NARA LEÃO, mas a MAYSA roubou ele da NARA!

Alguém sabe de mais algum bafão dessa época? "

lô disse...

Eu adorei a minissérie, muito bem feita, e calma que ainda está no início.embora tenha cometido muitos erros como todos nós seres humanos cometemos ela foi uma excelene cantora, talentosa e muito bonita também, dizia meu avô.

Hamilton Almeida. disse...

Um comentário singelo de alguém que é apaixonado pela boa música brasileira e seus fiéis representantes; "Professor você é foda!!!"

Lupe Borges disse...

a série é tudo que ha
mas fala sério.. Maysa era muito se-achona.. não???

Prosa Mineira disse...

Adorei o texto, Elelison, a história de vida da cantora Maysa, sem dúvida, é muito polêmica, lembro-me do impacto que ela causava quando aparecida em um programa de televisão e dizia o seu habitual "boa noite". Uma excelente cantora e compositora, deixou marcas e saudade. A minissérie da Globo deixa muito a desejar, mesmo assim emociona.
Maria Lúcia

Ayedna disse...

Um dos grandes méritos da minissérie seria o resgate da história de grandes nomes da MPB para a geração atual saiba que bem antes de Ivete, Daniela, etc já havia vida inteligente no cenário musical do país.
Uma estória de vida como a de Maysa, nem sempre pode ser mostrada na íntegra. Há sempre o risco de algum expectador mais moralista ( os evangélicos de plantão!) julgar o seu talento e sua genialidade musical em função de seus comportamentos tidos como escandalosos. Deixemos de lado sua vida pessoal. Não vamos emitir nenhuma espécie de juízo de valor Ela cantava com a alma. Nesse momento se aproximava da perfeição. Isso é o que importa!

Elenilson Nascimento disse...

Ayedna, concordo com vc com relação à maysa cantar cm a alma,mas ela era uma porra louca maravilhosa e a Globo não mostra nada. Quem são os moralistas aqui?

Darci disse...

Muito bom o texto Elenilson!
Pena que a Globo nao nos mostra a verdadeira historia dessa grande cantora!

Mensageiro Obscuro disse...

Li esse seu texto no Recanto das letras e gostei muito, acompanhei a série "Maysa - Quando Fala o Coração" pela Globo. A Globo omitiu detalhes importantes, até entendo que não quisessem apelar pois poderiam destruir a série com tal empreitada

Evelyne Furtado disse...

"Maysa- Quando Fala O Coração" foi umas das boas surpresas na televisão. A minissérie conquistou um público que Maysa jamais imaginou obter em vida. Abraços.

Maria Olimpia Alves de Melo disse...

Muito bom o seu texto. Gostei realmente de ler.

Carla Cristina disse...

Adorei o conteúdo do blog. Achei o texto escrito sobre a verdadeira Maysa muito interessante e esclarecedor. A televisão tem, realmente, a mania de modificar e omitir os fatos.

Ademais, as dicas de livros e obras diversas enriquecem muito o conteúdo presente nesta página.

Parabéns!

Carla Cristina.