Quinta-feira, 16 de Julho de 2009

PALCO DO SHOW DE MADONNA DESABA E MATA UMA PESSOA NA FRANÇA

O show de Madonna previsto para o dia 19 de julho no estádio Vélodrome de Marselha, no sudeste da França, foi cancelado após o desabamento, nesta quinta-feira, 16/07, de parte do palco. O acidente aconteceu durante a montagem da estrutura para o espetáculo. Uma pessoa morreu e várias ficaram feridas, entre elas duas gravemente, segundo um número ainda provisório fornecido pela polícia e pela prefeitura do local.
Ainda segundo a polícia, não se sabe as circunstâncias que causaram o incidente. "Por sorte, o palco não desabou rápido demais, pois nesse caso teríamos muita mais vítimas", declarou uma fonte oficial. O número de feridos ainda pode ser maior do que o anunciado inicialmente. O show faria parte da última fase da turnê "Stick & Sweet", que passou pelo Brasil em dezembro de 2008. A turnê está prevista para terminar em Israel no dia 02 de setembro.
fontes: IG e Folha On-line

O MEU BLOG SLEEVEFACE BRASIL SENDO COMENTADO!

Por Elenilson Nascimento
“A coisa é simples: você pega a capa de um disco e coloca no lugar de uma das partes do corpo, arruma a angulação e “click”, dá nova vida a alguns de seus artistas preferidos. Parece estranho, mas o Sleeveface já tem mais de 17 mil fãs e chega aos poucos em terras brasileiras. A comunidade do Orkut, “Sleeveface Brasil”, conta com quase 100 pessoas e há um blog brasileiro atualizado diariamente.”
Foi dessa forma que uma matéria assinada por Felipe Rodrigues Araújo, publicada no site Movimento On-LineCLIQUE AQUI, ganhou repercussão, ao fazer referência ao meu blog “Sleeveface Brasil” e à comunidade do mesmo no Orkut.
Outra matéria saiu na Folha On-line, assinada por Kike Martins da Costa: “Fazer fotos misturando capas de LPs e imagens reais viraram mania na web. Algumas dessas montagens ficam perfeitas e hilárias. E particularmente adoro a série da Madonna”.
Já no Twitter, o povo vive comentando. Uns falando bem e outros criticando. Normal! No blog do Marcelo Costa, tem gente fazendo referência a nós na fita! E no blog Todo Ouvido tem mais coisas sobre nós: “Roberto Carlos de cueca samba canção fica mal na foto? Que nada. Pelo menos é o que pode ser percebido no divertido site (...) Impossível não abrir um sorriso vendo a moçoila dando uma de Chispita (alguém lembra?) ou um marmanjo imitando o Johnny Mathis segurando um fofo ursinho de pelúcia na mão ou até mesmo nosso “rei” Roberto, na pele de um criativo fã, numa situação nada nobre. Tudo feito com composições de capas de disco. Um grande barato”.
foto linda: Ever Saturno

Quarta-feira, 15 de Julho de 2009

MARGARETH MENEZES E SEU GRITO DE ALERTA

"O que sinto é uma forma de racismo institucional promovido pelas elites que por sua vez coordenam e comandam esses efêmeros grupos chamados de musicais."
Por Tonho Matéria*
Amado poeta Jorge Portugal, daqui da Europa estou também me reportando contra os falsos moralistas que nada sabem de música e nem tão pouco de cultura negra nesta cidade conhecida como a “Roma Negra” Salvador.
Assim como nossa diva Margareth, eu e tantos outros artistas negros conscientes estamos de fora dos padrões estabelecidos pela “mídia branca” que não nos deixam ser entendidos como devemos ser. É por isso que a nossa cidade está se confrontando a cada dia com seus próprios deslizes causados por esta onda de desinformação sócio-cultural e educacional.
É triste ver uma cidade conhecida como “Salvador” sendo tratada de forma brutal. A violência tomou conta de cada esquina e com isso não temos mais o direito de ir e vir e nem de ter mais opiniões próprias do que sentimos e do que vimos. Há que ponto chegamos!
Lembro que era através da música que as pessoas se rendiam ao amor, ao prazer de ir assistir ao show de Caetano Veloso e depois sair correndo para as lojas de discos para comprar um LP. Ali estavam as informações onde essas pessoas poderiam sentar numa mesa de bar e beber o amor confuso, ou de sentar num banco da praça para contemplar a vida e recuperar o tempo perdido.
Isso mudou. As pessoas vivem aprisionadas dentro de si mesmo e não têm mais coragem de ir à padaria com medo de receber uma bala perdida. Nem a polícia confia na polícia, e o confronto rodeia as comunidades onde os veículos estão executando melodias que por hora avisam aos chefes do trafico como se livrar dos perigos onde os perigosos meninos são os nossos filhos. Meninos que vimos nascer, crescer e se entregar ao sistema da marginalidade cruel. Meninos que quando estão devendo nas chamadas “bocas de fumo” têm as suas vidas interrompidas para desespero das famílias. E, neste fato concreto, só me resta dizer que depois de Jesus Cristo só a capoeira salva.
Essa mesma mídia que negou e continua negando a música do Ilê Aiyê, Mangangá, Cortejo Afro, Filhos de Gandhy, Malê de Balê, Muzenza, Olodum, etc. É a mesma mídia que populariza melodias que fazem desconstruções sociais nas nossas comunidades criando pseudo- artistas que malmente sabem falar o significado dos seus nomes e nem conhecem a história da sua cidade natal. Esta mídia é a mesma que critica os pseudo-artistas quando eles não conseguem ficar na história, virar referência e fazer parte do catálogo das empresas capitalistas emergentes e efêmeras. É essa mesma mídia que promove eventos para multidões se esbofetearem sem ter segurança nenhuma porque esse público formador de opinião é um publico favelado. E como diz a peça cabaré da raça é um publico negro “fudido”.
Percebendo estes efeitos, podemos acreditar que esse público se entrega aos acordes dos cavaquinhos e ao delírio da voz do negro cantor embriagado pela quimera do sucesso que se entrega de vez ao refrão “Favela ê favela, respeite o povo que vem dela”. Mais não há respeito. Continuamos favelados, desacreditados, sem moradia digna e sem empregos e quando se consegue ter um trabalho, parte do salário serve de dízimo para o pagamento da camisa para a nova festa onde serão esbofeteados e depois mostrados na TV como parte do próximo espetáculo pra mais uma vez ressoar a voz do cantor em off dizendo “se assuma, ser negão é massa”. Mais com um tamanho sensacionalismo aplicado como pena, outra voz surge como se estivesse adocicando o ego. “Carrego no peito uma grande bandeira mais por este povo eu Desço a Madeira Desço a Madeira, Desço a Madeira”. E aos olhos dos telespectadores isso é normal, é uma simples matéria que no dia seguinte entrará outra no lugar e assim a vida segue.
Nossa diva Margareth não criticou ninguém, ela só se reportou ao que está acontecendo e isso é real e não adianta quererem tapar o sol com a peneira. Estamos entregues a um novo formato de linguagem coloquial. Chico Buarque de Holanda, Djavan, Belchior, Gilberto Gil, Gonzaguinha, Jorge Ben Jor, Vinícius de Moraes, Luiz Melodia, Milton Nascimento e tantos outros se estivessem nascidos agora nós não teríamos aprendido poesias em versos e prosas cantadas e nem teríamos a compreensão da linguagem de um bom português. As músicas de agora só falam em gírias que viraram código de gangs nessas comunidades “faveladas” negras. O que era tudo de bom virou “de boa” e o povo se alimentando desses encalços para no carnaval gritar bem alto que “pode descer a madeira”. Por isso estamos perdidos no meio de uma juventude transviada e drogada com os efeitos dessa nova ordem descultural. E é por isso que no carnaval não se tem o “mais belo dos belos” e nem o afro mais “lindo de se ver” cedo na TV, porque essas mídias fecham seus olhos e tapam os ouvidos com medo de voltarem à escola para aprenderem tudo de novo.
Acabei de ouvi de uma mulher suíça, casada com um baiano, que quando ela esteve em Salvador, achou que as mulheres desta terra não são respeitadas, porque as letras dos pagodes que ouvia nas rádios difamam-nas e que tinha vergonha de ser mulher. Ela se reportou a duas canções que ouvira "desce com a mão no tabaco” e “ela é problemática”. Ouvir isso de uma estrangeira é muito ruim, queria que o pessoal do debate estivesse ouvindo agora o que estou. Por isso, eles acharam que Margareth é quem estava se queixando. Imagina. Margareth só estava alertando-os para um perigo futuro e dizendo que nós não temos mais heróis e que precisamos urgentemente de uma reparação, porque senão vamos permanecer sempre engaiolados nas nossas prisões mentais e sentimentais ou puxando cordas.
O que sinto é uma forma de racismo institucional promovido pelas elites que por sua vez coordenam e comandam esses efêmeros grupos chamados de musicais. Então amigos, “Vamos levante e lute porque senão a gente acaba perdendo o que já conquistou”. Já está na hora de uma nova insurreição. A música é além de tudo isso que está se propagando, é pura e tem vida própria assim como a diva Margareth que com a sua arte multicultural consegue em DVD registrar para a posteridade o Movimento “Afro Pop Brasileiro”, nos tornando mais vivo e bem concebível. Ela só deu um grito de alerta.
“Sei que a claridade é bela mais aprendi a me ver no escuro, me tocar no ego e buscar a sensatez, da ação futurista ser total suntuoso porque sem o nada não havia razão e nem certeza viva no tudo. Então, diga não a tudo que estar acontecendo e que não passa de uma exação”.
Tonho Matéria e a cantora Alobêned.
Tonho Matéria é cantor, compositor, produtor cultural e mestre de capoeira. Após um período sendo uma das vozes do Olodum, resolveu abandonar tudo e retomar sua carreira-solo, além de também fazer parte dos “Poemas de Mil Compassos” da Coleção Literatura Clandestina/2009.
foto 5: Blog da Alobêned
demais fotos: divulgação

TRISTES TEMPOS

"Uma tristeza profunda me abalou até as varizes e paira sobre o meu coração velho. O que me consola é uma réstia de esperança, nuvem que de Campinas vai até o Pilarzinho onde moro."
Meus caros amigos, infelizmente não é só em Campos dos Goytacazes (*ou em Salvador) que coisas estranhas veem acontecendo quase que cotidianamente. Há duas semanas o Artur Gomes postou em um dos muitos blogs que escreve – CLIQUE AQUI, notícias de censura de livros didáticos em escolas de São Paulo (*nós também já comentamos isso aqui na LC – CLIQUE AQUI), agora, o Artur recebeu por e-mail da sua amiga Kátia Horn do blog Meu Quintal, de Curitiba, relatando que o escritor Hélio Leites, foi censurado no “II Encontro de Contadores de Histórias”.
Hélio entre tantas outras artes é criador da Igreja da Salvação Pela Graça, Unidos do Botão, Museu do Botão e Assobiódromo. Artur diz conhecer a sua arte desde 1983, quando criou a “Mostra Visual de Poesia Brasileira”. Em 1994, a convite de Hélio, Artur passou o Carnaval em Curitiba para desfilar na Unidos do Botão – a menor Escola de Samba do mundo. Em 2000, o Hélio esteve em Campos na segunda edição do “FestCampos de Poesia Falada”. Segue abaixo sua carta enviada ao presidente do Sesc-SP Danilo dos Santos de Miranda.
Ao Sr. Presidente do Sesc Danilo Santos de Miranda (Sesc-SP)
ref.: "Sesc Campinas censura contador de histórias"ou "a ditadura do Patrocínio" ou "Era uma vez outra vez..."ou "Solidariedade não dói".
Eu, Hélio Leites, contador de histórias de Curitiba-Pr, fui censurado no Sesc Campinas pela segunda vez. A primeira vez ocorreu no ano passado quando fui convidado a participar do I Encontro de Contadores de Histórias - organizado pela Cia Narradores Urbanos e impedido de participar do evento, quando me indispus com o funcionário Sérgio "Conceito", que me proibiu de vender minhas inutilidades artesanais nas dependências do burgo.
A alegação foi que era proibida a comercialização de produtos no interior do Sesc, quando no entanto, era permitido vender coca-cola na lanchonete. Neste ano, sem justificativa ap arente, tive meu nome censurado pela diretoria cultural do Sesc Campinas, no dia da abertura, no hall do teatro, apesar de meu nome constar na programação do evento.
Eu lhe pergunto: até quando vai persistir essa censura? Vim à Campinas este ano porque, quando fui convidado para o evento, alegaram que o funcionário birrento tinha sido transferido para São Paulo. Deve, pensei, deve ter recebido uma promoção pelo seu auto desempenho. Ledo engano, a mágoa ainda lateja, e eu, que acreditava que ela saía na urina.
Nem sei se ele foi, mas deixou aqui sua escola, o ranço de sua intransigência ainda cheira no ar; a intolerância de sua disciplina ainda reverbera nas portas e guardas, bem como a soberba de sua ditadura ainda pulsa nos remanescentes, que me censuraram novamente. Impedir um velho de trabalhar no último ofício que a vida lhe reservou deve ser crime inafiançável moralmente, e passível, espero, de processo judicial. A humilhação, a decepção e a violência moral não tem preço.
Quando se adquire cabelo branco, vem junto no mesmo pacote, imunidade para lamentar.Velho não tem vez, nem voz neste país, tanto que qualquer funcionariozinho com seu cetro de rádio-comunicador sente-se autoridade para praticar a censura. Se um Sesc desses, verdadeiro templo erigido ao Deus Comércio, proíbe um pobre artesão de contar histórias num evento coletivo, está no fundo demonstrando necessidade de reciclagem. Não é só lixo que se recicla, educação também. Revela ainda total incompetência para gerenciar conflitos, revela também sua truculência cultural e sua vaidade arrogante e deixa à mostra a ditadura do patrocínio.
Quem paga pode censurar. A censura acabou no Brasil, menos no Sesc Campinas.Depois de viajar sete horas de Curitiba à Campinas, arrastando bagagens e histórias pelas rodoviárias da vida e ser "barrado no baile" e impedido de comungar histórias com meus pares, lhe c onfesso que isso não me engrandece nenhum pouco, acredite, estou me sentindo um refugo.
Uma tristeza profunda me abalou até as varizes e paira sobre o meu coração velho. O que me consola é uma réstia de esperança, nuvem que de Campinas vai até o Pilarzinho onde moro. E é essa nuvem de solidariedade que não me deixa abandonar essa profissão que amo e que o mundo me reservou. Contar histórias é a profissão mais antiga do mundo e a mais nova. Quando você não conseguir fazer nada na vida e nada em sua vida der certo, vá contar a história de seus fracassos. O povo adora ouvir histórias de fracassos dos outros que é pra não cometer os seus.
Desisti sim, mas foi do Sesc Campinas, não dos outros "Sesquis" do Brasil, os quais espero que sejam mais dóceis, receptivos e amigos do que o Sesc Campinas. Continuo levantando a bandeira de contador de histórias, com o propósito de juntar pessoas, falo de amizade, solidariedade, honestidade, auto -estima, terapias alternativas e vivências de humor, matéria prima tão em falta no mundo corporativista. Espero que este grito seja jogado no ventilador da internet e espalhe essa nuvem de esperança pelo ar. Para que nunca mais na história desse país, um velho precise se humilhar escrevendo um S.O.S. e colocando dentro de uma garrafa e jogando no mar.Só estou procurando dignidade. Alguém viu alguma por aí?
Saudações

Hélio Leites
Solidariedade não dói
http://unidosdobotao.blogspot.com

fonte: Artur Gomes/Nação Goytacá (http://goytacity.blogspot.com)
fotos: divulgação

Terça-feira, 14 de Julho de 2009

IRRITANDO FERNANDA YOUNG

Ao ser entrevistada no programa "Irritando Fernanda Young", a cantora Ivete Sangalo contou como introduziu o hábito de fazer xixi em pé em seu dia-a-dia. "Quando eu tava no trio elétrico eu tinha vontade de fazer xixi e, para mulher, é uma loucura! Surgiu a ideia de fazer um conezinho de papel. Fui tentar. É de uma praticidade! É bom demais! Só não faço xixi em pé na minha casa." O programa vai ao ar neste domingo (19/07), no canal GNT. E depois dessa revelação a minha vida mudou tanto. Que incrível! Gosto tanto da Ivete quanto da Fernanda Young, mas esses programas e essas revelações são de uma utilidade que.. me deixe viu!
foto: Eliana Rodriguez

Segunda-feira, 13 de Julho de 2009

ENTREVISTA COM O ESCRITOR RICARDO VIEIRA

“Poesia é o retrato feito à grafite, daquilo que se pode entender e reproduzir do que se vê (ou pensa estar vendo). Finalidade? Retratar. Reagir ao que se sente.” (R.V.)
O baiano Maurício Zerk é músico e poeta, já participou de vários festivais de música, é graduando em História e atualmente trabalha na produção do seu próximo disco independente (*que já teve o single lançado aqui no blog – CLIQUE AQUI) e no seu livro de poemas e crônicas, entrevista o escritor Ricardo Vieira, de Porto Alegre-RS. Ricardo também é militar (*ninguém é perfeito), músico e ao conquistar uma bolsa de estudos, tornou-se acadêmico em Direito pela PUCRS. Ambos participam da antologia “Poemas de Mil Compassos” da Coleção Literatura Clandestina/2009.
Maurício Zerk – Desde já agradeço pela presença na LC. Agora, nos diga... quando começou a escrever poemas? Houve algum incentivo?
Ricardo Vieira – Primeiramente, gostaria de agradecer ao Elenilson pelo convite a ing
ressar nesse projeto do livro, e também pelas palavras muito estimulantes de reconhecimento ao meu trabalho inicial. É um prazer estar entre pessoas tão talentosas. Não sei se sou interessante o bastante para ser entrevistado, mas vamos lá, vamos tentar! Escrever, escrevo desde muito novo, procurando encontrar alguma forma de dizer as coisas que crianças pensam, mas que não conseguem dizer. Aliás, imagine que desgraça é ser criança, e ter ainda um vocabulário tão menor que as tantas coisas que se sente, não é mesmo? Acho que é por isso que crianças brincam. Não são levadas a sério! Só que escrevia coisas que precisei ficar adulto para compreender. Então, agora, depois de adulto, um pouco mais amadurecido, percebi que precisava voltar a ver as coisas com o mesmo encanto para contá-las a mim mesmo. Então, comecei a escrever poesias. Sobre incentivo... Meu avô me ensinou métrica quando eu tinha uns cinco anos. Lá pelos nove, entendi que aquilo era frustrante. Mas fiquei influenciado, sem dúvida. Passo a vida lutando contra a métrica, e sempre lutando contra algo para escrever poesias. Percebi que criar desafios, como ele (meu avô) criava para mim, é na verdade um estimulo. Acho que cada fase nos traz algo como estímulo. Atualmente, sinto-me influenciado pelo acaso. Poesia acontece como qualquer outro desabafo. Acho que é isso.
Maurício Zerk – Desculpando-me de antemão pelo possível reducionismo, creio que há duas vertentes mais trabalhadas em seus poemas: a memória e a linguagem. Estou certo disso? Para mim, é difícil ver as pontes entre esses dois grandes campos. Quais são elas para você?
Ricardo Vieira – Me pegou... Ah, não vejo como reducionismo, é o cacoete técnico que admiro nos profissionais e escritores tecnicamente corretos. Ocorre que infelizmente (ou felizmente?) sou um cara que “escreve de ouvido”. Sou mais intuiti
vo que qualquer coisa. Como falei, poesia é meu desabafo, é reação fisiológica. Os meus demais textos são baseados em lógicas parecidas. Portanto, o que vou falar sobre linguagem e memória como vertentes é “achismo” meu, não sou habilitado a avaliar isso de modo mais profundo. Realmente, lendo e tentando lembrar do que sinto quando escrevo, vejo que as pontes são feitas de modo não técnico, não planejado. Não planejo nem o sentimento, nem a forma como ele vai imprimindo na ponta da pena. Mas como músicos intuitivos, sentimos que as palavras têm mais do que apenas significados. Cada uma tem um ritmo, cor, som, peso, textura... Os termos, quando os procuro num repertório que me empenho ter sempre bem exercitado e crescente, acho que os escolho pelo contexto todo, não apenas pela rima (eu uso o desusado com orgulho), procurando achar um elo entre a fonética e o significado. Acho que o orador primoroso tende a isso durante a fala. Gosto de escrever coisas que dêem gosto de pronunciar. Que enrolem a língua de modo intricado e saboroso. Algo pode ser melhor que enrolar línguas? Não sei se acertei o viés da questão, mas creio que se há pontes entre minhas vertentes, elas ficam no campo do “desenvolvimento natural” das coisas. Sempre evitei a técnica como ponto de partida, mas apenas procuro não me afastar demais dela pra não perder o rumo. Procuro não partir dela, pois tenho tendência a “travar”.
Maurício Zerk – Seus t
extos e poemas soam bem violentos e com conotação sexual. Tive o prazer de ler algumas coisas suas no site Recanto das Letras e me encantei. Como funciona o "esquema" de criação? Você consegue criar a qualquer hora, a partir de qualquer situação ou é preciso ter uma inspiração mais profunda já que às vezes nós artistas costumamos "travar" de vez em quando?
Ricardo Vieira – Hum... interessante... Talvez tenhas te baseado apenas nos textos mais recentes, e nos eróticos, que são justamente a minoria. Na verdade, são uma minoria bem pequena os que têm conteúdo mais erótico, e "violento"... Nem sabia que tinha! Contudo, de fato, gosto de me utilizar do gume mais afiado das palavras. Mas claro, percepções e percepções! Q
uanto à inspiração, não tenho rituais. Alguns poemas escrevo em pedaços de papel nos momentos mais inusitados. É como falei, é um desabafo, uma reação. Acho que "reação" define bem, como tossir, espirrar. Precisa acontecer. Então não tem lugar. Sobre travar, travei apenas na continuidade de um livro que eu queria escrever on-line, mas foi por choque ideológico. Comecei a pesquisar melhor e me desvinculei de minha premissa inicial, daí travou mesmo. Já travei fazendo músicas também, por demorar demais para concluir, e a situação que a motiva muda, então a música fica inconsistente, perde sua âncora. Mas na poesia, não travo. Acho que pelo fato de não ter com elas um compromisso, senão o de ser o mais realista possível na transmissão do que sinto para os termos. Logo, não acho que seja possível travar. Obviamente há situações, momentos mais intensos de maior sensibilidade, onde as coisas são mais afloradas, então a produção aumenta significativamente. Eu particularmente escrevo mais quando estou em adversidades, talvez por ficar mais reflexivo. Já os poemas eróticos, são apenas verdades. E de qualquer um de nós. Gosto de reviver as coisas boas que vivo e sinto, eternizando as impressões.
Maurício Zerk – Conte-nos quais são seu escritores prediletos e se tem algu
ém dessa nova safra da literatura brasileira que você admira!
Ricardo Vieira – Não sei bem o que chamas de nova safra da Literatura Brasileira, mas confesso com uma vergonha enorme que leio muito menos do que devia... embora não aprecie best sellers, acabo caindo um pouco no clássico internacional. Sou um emergente no plano cultural, especialmente no literário. Sou um leitor tardio, ainda tenho uma carga de leitura muito reduzida, e, portanto, uma crítica ainda muito restrita. Acabei me interessando (erradamente, esto
u ciente)muito mais em escrever do que em ler. Espero conseguir em breve responder uma pergunta como esta sem pecar na falta de substância. Mas posso dizer o que gosto em literatura brazuca. Tenho apreciado algo de Caio Fernando de Abreu, sinto-me roubado por ele frequentemente. No campo dos traduzidos clássicos, especialmente por não dominar bem idiomas estrangeiros, sou parado em George Orwell, inclinado por Richard Bach, e bastante filosofia.
Maurício Zerk – Quais são seus projetos futuros relacionados ao seu trabalho literário? Pretende lançar alguma coisa ainda este ano?
Ricardo Vieira – Na verdade... sou um novato absoluto em se tratando de "meio literário". Sou sim um blogueiro, não me envergonho, e passo mais por uma fase de "testes" dos efeitos do que escrevo sobre as pessoas que leem. Pretendo participar de coletânea a que fui convidado, de repente inscrever-me em algum concurso, experimentar o meio. Realmente não sei vou lançar algo. Mas vou escrever algo, isso sim, é certo. Estou com vontade de produzir uma seleção de contos, mas não sei bem como farei para publicá-los, então cuidarei, por hora, de escrevê-los, criticá-los e corrigi-los. Já tenho sido orientado a não sair por aí "postando em blogs", talvez cuide melhor do q
ue escrevo, quem sabe, tento a publicação. Vamos ver no que dá.
Maurício Zerk – Ricardo, de qu
e modo você lhe dá com a biografia, em sua obra, já que não se pode escapar dela?
Ricardo Vieira – Talvez uma das coisas da qual me orgulhe em falar, sempre, é de minhas origens, e de tudo que me constrói dia pós dia como um analítico e crítico da realidade no entorno, mas sem perder a sensibilidade, como a que tende o crítico. Talvez pela pluralidade de atividades que tenho, tantos ramos e escolhas que faço simultaneamente (opção criticada neste mundo tecnicista e 'especialicista'), tenho a graça de poder ver o mundo por muito
s pontos diferentes de vista. Inclusive a mim mesmo. Portanto, falar de mim não é uma tarefa que acho difícil, embora ache que uma "biografia" é apenas um apanhado daquilo que cada um acha menos desagradável de si mesmo, né? Mas francamente... Não me interesse muito por biografias, normalmente pulo elas nos livros. E volto a elas quando a obra me faz querer saber mais sobre o autor. Confesso que isso acontece pouco. Mas é provável que vá mudando, com a maturidade, como tudo muda com o tempo.
Maurício Zerk – Qual a finalidade da poesia? É possível defini-la em uma única palavra?
Ricardo Vieira – Hum... para mim, uma palavra define bem...: "reação". Agora... finalidade... acho que tudo tem finalidade, e ao mesmo tempo que não. É sim, é controverso. Só que o interessante da poesia, como de qualquer forma de arte, é a "finalidade" é no mínimo bidimensional. A finalidade será definida por quem a cria, e totalmente descumprida por quem a aprecia. A arte sofre a desconstrução pelo receptor, e uma reconstrução que pode ou não convergir com a "finalidade" do criador-transmissor. Em outros sentidos, mais práticos, pode ser usada com qualquer finalidade. Educa. Deseduca. Critica, apóia. Enaltece, ofende. É boa, é ruim (sim, pra mim existe má poesia). É veículo. Acho que a boa poesia é a que consegue carregar um teor forte, concentrado, de sensação, idéia, sentimento. É afiada, tira fatias da percepção. Assim, cumpre sua finalidade maior (para mim), que é a de terceirizar o íntimo sobre algo, ou alguma coisa vivida num determinado momento. Poesia é o retrato feito à grafite, daquilo que se pode entender e reproduzir do que se vê (ou pensa estar vendo). Finalidade? Retratar. Reagir ao que se sente. Mas acho que como tudo na vida poesia pode ter a finalidade que cada um dá. Só que com um diferencial: Depois de cometida não pode ser desmentida.
Maurício Zerk – E a música, como entrou na sua vida? Você já fez algo profissional?
Ricardo Vieira – Música é uma coisa, né... De vez em quando a gente tropeça nela novamente, e ela vai acontecendo. Só consigo definir a música em minha vida como uma coisa perpetuamente casual. Onde quer que eu vá, ela vai atrás. Profissionalmente, de certo modo. Sou Músico Militar, saxofonista da Banda de Minha PM aqui no RS. Por assim dizer, toco profissionalmente. Por outro lado, sempre escrevi letras e compus no violão algumas coisas bacanas, que a gente vai acumulando debaixo da cama. Acho que música e poesia são coisas que flertam muito. E como não remeter-me a "Fernando Anitelli", não é mesmo? Caras como ele me fazem temer não ser tão bom quanto gostaria. Mas me fazem querer colocar nos ouvidos dos outros coisas de qualidade no mínimo comparável. Gosto de brincar escrevendo partituras de MIDI e arranjar as músicas que aprecio, criar arranjos instrumentais (comecei para fazer toques polifônicos no celular antes dessas tranqueiras tocarem MP3, acredites). Enfim, com música, tenho um namoro antigo, aprecio poder fazer dela parte do sustento de minhas vaidades.
Maurício Zerk – Resumindo todo seu trabalho poético e musical seria possível definir o Ricardo Vieira em uma única palavra?
Ricardo Vieira – Hum... não, acho que não consigo... Não me conheço bem o suficiente. Afinal, estou em constante mudanças. Portanto, se há uma que sirva... que seja: circunstancial.

Blog do Ricardo Vieira: http://olharesescusos.blogspot.com/
Blog do Maurício Zerk: http://www.myspace.com/mauriciozerk
fotos:divulgação

O SHOW NÃO PODE PARAR

Por Elenilson Nascimento
A turnê “Sticky & Sweet” de Madonna segue a todo vapor pela Europa. Os fãs estão encantados com a cantora mais uma vez na estrada com a segunda parte do show que passou pelo Brasil no ano passado (foto abaixo).
A turnê segue com algumas mínimas alterações com relação aos shows de 2008. Enquanto isso, nós, pobres do Terceiro Mundo, ficamos aqui aguardando a nova coletânea com músicas velhas, que um dia foi “GHV3” e “Iconography”, mas que parece que tem nome definido de “Celebration”, e virá como álbum duplo.
Outra definição é que haverá apenas duas músicas inéditas: “Celebrate”, que será lançada dia 28/07, e “Revolver”. Já a faixa “Broken”, produzida por Oakenfold, não será lançada oficialmente. E para ficarmos mais atualizados, segue abaixo uma nova versão do polêmico vídeo “Get Stupid”. Maravilhoso!

Sábado, 11 de Julho de 2009

SERGINHO ENTREVISTA ANA MARIA MACHADO

“Hoje em dia, as crianças estão lendo muito mais que os adultos.” (A.M.M.)
Ana Maria Machado é uma das maiores e melhores escritoras do Brasil. Sua vida, desde a perseguição pela ditadura militar de 1964 até a recente consagração na Academia Brasileira de Letras, não parece ter sido exatamente um passeio no parque. Autora de quase 200 obras, publicadas em 17 países, que ganhou o prêmio Hans Christian Andersen, o mais importante da literatura infantil no mundo, em 2000, e que, no ano seguinte, a ABL lhe deu o maior prêmio literário nacional, o Machado de Assis, pelo conjunto da obra. Ana formou-se em Letras e trabalhou como pintora, professora e jornalista antes de dedicar-se inteiramente à literatura infanto-juvenil, a partir de 1980. A escritora havia sido presa pelos militares durante a ditadura, tendo vivido exilada na Europa de 1969 a 1972. Porém, hoje, 11/07, o Sérgio Groisman (*acredite, o cara já tem 60) entrevistou a escritora no programa Ação, da Globo. Confira abaixo:

Sexta-feira, 10 de Julho de 2009

OBAMA, UUUUUUUUÍ!

“A tal bunda que teria "virado a cabeça" de Obama na reunião do G-8.”
Por Elenilson Nascimento
Hoje, 10/07, uma foto dos presidente dos EUA, Barack Obama, supostamente admirando a bunda uma brasileira, juntamente com o presidente francês, Nicolas Sarkozy, tem causado grande repercussão nos Estados Unidos. A cena, capturada pelo fotógrafo Jason Reed, da agência Reuters, circulou os diversos blogs políticos dos EUA, sempre com legendas de duplo sentido. E nós, aqui da LITERATURA CLANDESTINA, não iríamos deixar por menos.
E a tal bunda que teria "virado a cabeça" de Obama na reunião do G8 é de uma brasileira, de Santa Cruz, no Rio de Janeiro, e tem apenas 17 anos. A dona da bunda chama-se Mayara Rodrigues Tavares, representante da Unicef, o “Fundo” (*tudo a ver) das Nações Unidas para a Infância.
A emissora ABC exibiu um vídeo para tentar amenizar a situação, onde mostra que o presidente americano (*coitadinho) estava ajudando uma outra jovem a descer um degrau quando foi clicado olhando para baixo (*ou para a bunda?), na direção de Mayara. Já Sarkozy parece ter sacado o lance.
Já o jornal Drudge Report, que ficou famoso por ser o primeiro a publicar sobre o escândalo de Bill Clinton com Monica Lewinsky, cita a foto como “o segundo pacote de estímulo” do presidente Obama. O Examiner ressalta a idade da garota, apenas 17 anos, e compara a imagem de hoje com a de George W. Bush encarando uma jogadora de vôlei da seleção americana durante a Olimpíada da China. Quanto a mim, adoro essas histórias!
Foto de Obama supostamente “observando” bunda de brasileira gira o mundo.
Mayara Tavares e outros jovens do “Junior 8″ acompanharam a delegação do G8.
Assista ao vídeo abaixo (em inglês), onde a ABC tenta amenizar o lado de Obama e diz até que o Sarkozy é o verdadeiro tarado. Reparem nos repórteres fazendo gozação:

Watch CBS Videos Online
Ou clique abaixo e confira outra emissora gringa também fazendo gozação:

ENTREVISTA COM O ATOR E ESCRITOR DANIEL TERRA

“Interessante essas conexões da vida que nem sempre me parecem gratuitas (...) Já vi muitos atores abandonarem trabalhos por não conseguirem manter uma postura ética, que possibilitasse troca em equipe.” (D.T.)
Sueli Aduan, de São Paulo, é professora e escritora com vários trabalhos publicados e que, atualmente, divide o seu tempo entre aulas, palestras, amigos, família e atividades literárias (*oficinas realizadas através da Secretaria do Estado e da Cultura, chamadas de “Oficina Regional Grande Otelo Sorocaba”), entrevista o professor, ator (*ele não tem a cara de um personagem de Almodovár?) e escritor Daniel Terra, do Rio de Janeiro.
Daniel tem uma forte ligação com o teatro desde os 16 anos, no então Grupo Teatral da FURG (Fundação Universidade Federal do Rio Grande). Aos 20 anos transferiu-se para a cidade de Santa Maria para cursar Artes Cênicas junto a UFSM. Hoje, aos meus 31 anos, após ter trabalhado como ator em diversos espetáculos com vários diretores renomados, descobriu-se apaixonado por diversas áreas do teatro, como a direção, como professor, produtor e dramaturgo. Sua peça "A Hora Marcada – Uma Tragicomédia Pastiche em Tom de Melodrama" teve projeto de encenação aprovado junto a LIC.
Sueli Aduan – Em primeiro lugar quero agradecer ao Elenilson Nascimento, que com essa ideia brilhante, possibilita o conhecimento e a troca de experiências entre os participantes e colaboradores da nova antologia “Poemas de Mil Compassos” da Coleção Literatura Clandestina. Mas, agora, gostaria que o Daniel colocasse suas impressões acerca de seu trabalho, como diretor de teatro, como ator, poeta e tudo mais que esteja ligado à arte, para então partirmos para essa entrevista, ou melhor, esse “bate papo” que com certeza será muito rico para todos nós.
Daniel Terra – São muito simples, acho que não difere para muitas crianças, ou pelo men
os não deveria. Minha primeira impressão vem do ato de brincar, um instinto natural, o exercício da imaginação, da troca e do envolvimento. Por via paralela, pertenço a uma geração que cresceu assistindo TV, junto à família reunida na sala. Novelas com textos de Dias Gomes e outros tesouros dos anos 80... isso influenciava nossas brincadeiras, que até seguiam certo princípio de início, meio, clímax e fim, recheados de improvisações... Ah, quem nunca brincou? (risos) Lá pelos seis anos montava “teatrinhos” de bonecos feitos com meias e apresentava para os amigos e familiares (mais risos). Um dia meu pai levou a família para assistir “Guerra nas Estrelas” no cinema, não sei por que estava passando o filme nessa época. Meu pai teve que convencer o funcionário da portaria a me deixar entrar, pois eu era ainda muito criança... O filme orientou por algumas semanas o rumo das minhas brincadeiras e imaginação...
Foi então que um tio meu apresentou-se como ator no teatro da Furg, na cidade de Rio Grande onde eu morava, - novamente a lábia do meu pai com o cara da portaria... – essa foi a primeira vez que eu vi uma peça de teatro, e aquele evento me fascinou. Durante um bom tempo minhas apresentações em casa consistiam em trechos, do que eu lembrava, da peça que tinha assistido. Algumas partes eram bem ob
scenas (risos rosados), para o deleite dos adultos que gargalhavam e faziam eu me divertir ainda mais, apesar de não ter a mínima ideia do que estava falando, nem dos gestos que estava fazendo, e muito menos porque os adultos achavam tão engraçado... Em casa meu pai fazia coisas engraçadas como aparecer na sala vestido de bufão e aprontava outros micos que me divertiam muito.
Aos sete anos, assisti “O Mágico de Oz” e em seguida ganhei da minha mãe um jogo de Playmobil da TV, com os câmeras, o bonequinho diretor com di
reito a caderinha e megafone, holding, técnico segurando o boom e tudo, um barato. Então, peguei um papel higiênico e espalhei pela casa, na minha cabeça era a estrada de ouro do filme. Sabe como é, no Brasil se faz cinema com bem menos recursos (risos). Não teve dúvida, todos os dias eu recriava a saga da Dorothy coitada e seus amigos mutilados... Depois dirigi com seis anos “A Incrível Fábrica de Chocolates”, “Golliver”, “King Kong”, “A Noviça Rebelde” e outros grandes clássicos (risos de doer a barriga). No início da adolescência aprendi a tocar violão e guitarra e comecei uma banda com amigos. Se chamava “Banda Clã” e tocávamos em várias festinhas dos colégios da cidade. Comecei a me acostumar a estar num palco diante de pessoas que não conhecia. Ensaiávamos na minha casa, que tremia inteira com a possante bateria, para o desespero da minha irmã... (risos) no fundo acho que ela não se importava. Minha mãe me dava muita liberdade nas minhas “pirações” e investidas artísticas, pois sou um responsável capricorniano. Foi também por esses anos que comecei a perceber certa qualidade para liderança. Por três anos consecutivos os colegas votaram em mim para ser o líder de turma (risos). Depois fui presidente do Grêmio Estudantil, troquei de escola novamente, virei líder de turma. Acho que apesar de tímido em determinados assuntos ou momentos, gosto muito de me comunicar, de trocar com as pessoas.De Rio Grande saíram grandes artistas que foram importantes referenciais, como Greice Gianouka (Terça Insana), o genial bonequeiro e teatreiro Mário de Balenti, a figurinista Margarida Rache e outros tantos... feras do palco, dos quais guardo precioso carinho e admiração. Aos 16 anos assisti um espetáculo carioca famoso que se chamava “Confissões de Adolescentes”. E eu era um adolescente na platéia... de repente, no meio da apresentação, as atrizes, dentre elas Carol Machado, me escolheram dentre as pessoas na primeira fila, e desceram do palco para fazer um improviso. Nesta noite eu fui a vítima (risos).
No mesmo ano, uma grande amiga e hoje maravilhosa atriz premiada em diversos festivais, a Lara Bithencourt, estava fazendo um espetáculo com o grupo de teatro da FURG, - aquele mesmo que meu tio apresentara uns 10 anos antes. Faltava um ator no elenco e eles me chamaram. Topei na hora. Daí começou minha história teatral propriamente dita. Realizei outras peças com esse grupo e com outros, então passei no vestibular para Artes Cênicas na UFSM e me mudei para Santa Maria, no ano seguinte, Lara Bithencourt também foi... Assim começou minha saga, como a Dorothy, coitada (risos) em busca de sua verdadeira casa.
Interessante essas conexões da vida que nem sempre me parecem gratuitas. Anos mais tarde fiz uma tournée nacional ao lado de Carol Machado, na peça “Arlequim Servidor de Dois Patrões”, direção de Luis Arthur Nunes, protagonizado por Camila Pitanga e Marcos Breda. Um espetáculo belíssimo, com cenário da carnavalesca Rosa Magalhães e fi
gurinos de Coca Serpa.
Sueli Aduan – Gran
des impressões Daniel, e como disse o velho Borges: "Na maturidade que a gente percebe o quanto é difícil, porém importante, ser simples”. Pela sua trajetória, estudo e experiência, como se dá essa relação com os atores, como interfere na criação da personagem (se interfere)? O que é mais importante em um ator, em um diretor?
Daniel Terra – Bom, teatro é feito em
equipe... é a arte da negociação... por mais que possamos visualizar um resultado final, quase nunca será exatamente como imaginamos, pois depende de diversos fatores. O jogo me parece ser o cerne central, e é através dele que durante os ensaios vamos construindo o que de fato será exibido ao público. O trabalho do ator perpassa em muitíssimo o que trazemos de mais humano, e é necessário que seja assim, então lidamos com egos, medos, angústias, etc. Já vi muitos atores abandonarem trabalhos por não conseguirem manter uma postura ética, que possibilitasse troca em equipe. É preciso construir uma rede de segurança, de confiança na relação, na qual a competição seja saudável e impulsione o espetáculo. Pensar em primeiro plano no todo do evento teatral e não somente na parte que lhe cabe... Acho que dependendo das pessoas, a relação pode interferir no trabalho. Bom, Acredito que muitas qualidades são necessárias para um ator/diretor. Como técnica corporal, senso de plasticidade, comunicação, ética, muito ensaio... Mas, prezo principalmente pela inteligência, intelectualidade. É preciso ler de tudo um pouco: teatro, literatura, história, sociologia, filosofia, psicologia, revistas, jornais, porta de banheiro... Tudo tem serventia ao artista cênico. Um homem não será pleno de teatro se for simplório, se não for crítico e questionador da realidade que o cerca. Estamos numa era de banalização das coisas, sobretudo da educação. Que tipo de artistas queremos que nosso país possua? Estamos valorizando a mídia ou a arte? Que atores possuem reconhecimento? Nesses tempos de reality show (*e nada contra, eu mesmo sou primo do Max, ex-BBB, que cada coisa se destine ao seu determinado fim.) é preciso muito discernimento. Vejo muitos jovens aspirantes a atores querendo ser apenas famoso, antes mesmo de querer ser um artista criador.
Sueli Aduan – Concordo plenamente com você, é preciso muito estudo, leitura, ensaio e disciplina... Claro que o texto é também fundamental para o teatro, mas minha pergunta é, independentemente de suas leituras, como é o seu envolvimento com a literatura? Tem uma disciplina para isso?
Daniel Terra – Infelizmente não tenho o tempo necessário para dedicar-me. Comecei a escrever quase como numa brincadeira e o trabalho acabou por tomar maior proporção... Mas como administro minha carreira de ator, professor e diretor, fica meio escasso o tempo para escrever, por ordem da vida prática, escrevo menos do que gostaria.
Sueli Aduan – Escrever, como deve saber, é um bom exercício na criação de personagens também. E minha pergunta
vai nessa direção mesmo, na das suas personagens. Como convive, enquanto ator, com as personagens, como busca, onde busca material para elaboração, exercícios, enfim...?
Daniel Terra – Bom, depende. Não existe uma fórmula tipo receita de bolo ou bula de remédio. As conexões acontecem tanto de forma consciente ou como inconsciente. Quando escrevo, acho divertido quando os personagens adquirem vida própria. Muitas vezes me pego rindo no computador, pois o diálogo surge de forma espontânea, de acordo com as características das personagens e a situação na qual se encontram naquele momento. Perguntas e repostas surgem dando a imp
ressão de que não sou eu que estou escrevendo... é muito divertido. Como ator, utilizo a literatura, personagens semelhantes, alguns filmes, sensações que determinadas músicas me trazem,... mas principalmente observo as pessoas. Observo amigos, familiares, transeuntes, pessoas pelas quais passo todos os dias, mas não sei quem são... Lembro que Clarice Lispector inspirou-se numa transeunte nordestina nas ruas do Rio de Janeiro para criar Macabéa... Claro que é a imaginação que molda e acomoda tudo e, geralmente todas as respostas estão no próprio texto (com seu subtexto). Uma espécie de comunhão entre EU (observador), TU (observado) e NÓS (o que a imaginação faz com isso em meu corpo e em minha alma).
Sueli Aduan – Me identifico muito com suas argumentações, como sabe, trabalho com Oficinas Literárias pela Secretaria de Estado e Cultura e, como escritora,não posso deixar de concordar com você que realmente não há receitas, fórmulasprontas, o que há é muito trabalho e principalmente leitura. O que anda lendo ultimamente? Algum autor de preferência?
Daniel Terra – Felizmente meu trabalho me exige que leia muito... Na cabeceira da cama estão (relendo) “O Livro dos Prazeres”, de Clarice Lispector e, “Manual Mínimo do Ator”, de Dário Fo. Estou há uns 3 meses, envolvido com a pesquisa acerca de “O Inspetor Geral”, do dramaturgo russo Nicolai Gogol. Uma divertida e inteligente comédia de crítica à corrupção, em processo de encenação com minha turma
de alunos, na Casa de Cultura Laura Alvim, pela Secretaria de Cultura do Estado do RJ. Então, ando mergulhado nesse universo e lendo tudo sobre. Também, no mesmo processo de encenação, só que como ator, estou envolvido na pré-produção da encenação de “A Hora da Estrela”, de Clarice Lispector, em parceria com a W7 Brasil Produções. Promete ser um grande espetáculo, com grandessíssimo elenco. Então leio e releio estas duas obras muitas vezes por semana, bem como todo material acerca que tenho contato. Fora isto, costumo ler todos os dias sobre mitologia grega e sua relação com as cartas do Tarô, e por sua vez, a arte dos desenhos das cartas aliados à alquimia, catolicismo medieval e festas profanas da antiguidade ocidental. Guio-me por um livro de Jung chamado “O Homem e Seus Símbolos”, e por um livro chamado “O Tarô Mitológico”, de Juliet Sharman-Burke e Liz Greene (*adoro).Também sempre que posso leio um pouco de jornais, pelo menos as partes que me interessam... Acho que valorizam demais as desgraças e catástrofes... uma sanguinária... tenho que me cuidar para não ficar deprimido... (risos) ... Ôhoo sociedade do espetáculo essa... Talvez a falta da catarse se encarregue disso... Parece que de alguma forma o coletivo necessita exercitar o “terror e piedade”.
Estou numa fase na qual leio de tudo um pouco e de tudo um muito. A internet, quando bem utilizada, també
m pode ser um grande veículo de informação e cultura. Mas os livros e autores que mais gosto são: “Cem Anos de Solidão” (Gabriel Garcia Marques), “O Estrangeiro” (Camus), “O Livro dos Prazeres”, “A Hora da Estrela” (Clarice Lispector), “Triângulo das Águas” (Caio F. Abreu), “O Retrato de Dorian Gray” (Oscar Wilde), “Olga” (Fernando Moraes), “Crime e Castigo” (Dostoievski), “Assim Falou Zaratustra” e “O Anticristo” (Nietzsche), “Gilgamesh” (autor desconhecido - herói épico da Babilônia), “Mãe” (Gorki), “O Processo”, “A Metamorfose” e “O Artista da Fome” (Kafka), “O Crime do Padre Amaro”, “O Primo Basílio” (Eça de Queirós) e “O Homem e Seus Símbolos” (Carl Gustav Jung)...Além de Nelson Rodrigues, Heiner Müller, Tennessee Williams, Edward Albee, Jean Genet, Sarah Kane, Samuel Becket, Fernando Pessoa, Lia Luft, Ionesco, Dario Fô, Ariano Suassuna, Jodorowiski, Alcione Araújo, Carlos Carvalho, Machado de Assis (contos). Cara Sueli, foi um prazer conversar com você. Obrigado pela simpatia e generosidade. Agradeço também a Literatura Clandestina, e felicito pela iniciativa brilhante.
fotos: divulgação